Loading
23 de Maio, 2007 Helder Sanches

A Superioridade Moral

Chateiam-me os crentes que alvitram uma superioridade moral induzida pelos ensinamentos religiosos que professam. Tenho algumas dúvidas que eles de facto acreditem em tal disparate.

A moral é mutável. Não é algo que seja estanque às influências de todos os aspectos que nos rodeiam socialmente. Acontecimentos históricos moldam a moral colectiva, acontecimentos privados moldam a moral individual. Tudo isto, cozinhado com a formação, educação e experiência acumulada, contribui para a aceitação e divulgação de novas regras morais.

A religião é apenas um dos factores que terá, historicamente, contribuído (e mal?) para a moralidade. No entanto, as premissas para a chamada moralidade religiosa são impostas pelo medo dos encargos do pecado e da factura a pagar ao cobrador-mor, o tal ser que espreita os adolescentes quando eles estão no duche. Assim, a moral de origem religiosa não é sincera. É fruto da repressão ideológica hipócrita imposta pela estrutura das organizações religiosas e baseia-se, na maior parte dos casos, em obras de ficção com centenas ou milhares de anos, essas sim, estanques ao evoluir das sociedades.

Sendo a moral o sistema de valores mais relativo que existe, alvitrar tal superioridade é pura demagogia.

(Publicação simultânea: Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)

23 de Maio, 2007 fburnay

Boa pergunta

À excelente pergunta «Como pode um Deus omnipotente e cheio de amor permitir o sofrimento humano?», o pastor Tom Honey responde com uma cuidadosa reflexão. Procurando várias respostas, ele parece esquecer-se de uma delas. O ateísmo. Nem seria necessário um ateísmo a 100% – bastaria recusar apenas esse Deus que, paradoxalmente, alguns afirmam ser omnipotente ao mesmo tempo que tem um grande amor pela raça humana. Eu duvido que esse deus exista.

22 de Maio, 2007 Carlos Esperança

Documentário sobre padres pedófilos

Quando o Papa Rätzinger condenou a publicação das caricaturas de Maomé não foi por respeito ao rude pastor de camelos, foi por genuína aversão à liberdade de expressão.

O Index Librorum Prohibitorum do Vaticano foi abolido em 1966 mas persistem a vocação censória, os tiques autoritários e o horror à liberdade. Foi o desprezo da sociedade que fez a ICAR desistir da censura, não foi a conversão à democracia.

O documentário da BBC, «Crimes sexuais e o Vaticano», com o prestígio e rigor de que goza a estação inglesa, está em vias de ser censurado em Itália.

Mario Landolfi, presidente da comissão parlamentar que supervisiona a RAI, pediu ao diretor-geral da emissora, Cláudio Cappon, que não autorize a transmissão.

A liberdade, a apostasia, a blasfémia e a carne de porco são obsessões das religiões do livro. Merecem-lhe um ódio profundo.

22 de Maio, 2007 jvasco

Ateísmo na Blogosfera

  1. «Objectivamente, acho que o tal ser todo poderoso não existe. Não me parece provável que tenha vindo á Terra morrer e ressuscitar para perdoar os nossos pecados. Tudo isso me parece uma grande treta. Mas tudo isso é circunstancial. Calhou o universo ser assim, ter surgido por si próprio e não conter seres divinos, mortos que ressuscitam, e coisas dessas. Mas pouca diferença fazia se fosse de outra forma.

    O fundamento do meu ateísmo é que eu não tenho deuses. Não há nada que eu venere. Mesmo que esse ser existisse não era por ser todo poderoso ou criador do universo que me ia pôr de joelhos a pedir-lhe favores, perdão, ou a louvar o seu nome. Quem vive a minha vida sou eu. Quem é responsável pelos meus actos sou eu. Quem tem que corrigir as asneiras que eu faço sou eu. .»(«É racional ser agnóstico?», no Que Treta!)

  2. «Mal ouviram falar em tudo isto, principalmente do elevado montante que o fundo de auxílio já tinha atingido, os famosos “psíquicos” ingleses Amanda Hart (de St. Albans) e Ben Murphy (de Watford) apanharam imediatamente um avião para o Algarve.

    Ali chegados, não cessam de rondar os pais e as pessoas mais chegadas à família da pequena Madeleine, fazendo-lhes crer que graças aos seus poderes psíquicos e às pistas que têm recebido do “além” estão na posse de preciosas e vitais informações sobre o destino e o paradeiro da criança.».» («Os Abutres», no Random Precision)

  3. «Nesses programas, em directo, atendem telefonemas de pessoas, fragilizadas, com problemas, de saúde, económicos, desemprego, etc. e, convencem-nas de que foram alvos de, mau-olhado, invejas, bruxaria e todo o tipo de maldições.
    Assim atemorizadas, essas pessoas, são aconselhadas a dirigirem-se aos – “Centros de Ajuda Espiritual” «locais de culto, que invadem todo o País, e principais cidades de vários Países», onde outros colaboradores da seita, auto-designados “Homens de Deus”, treinados, «conforme se pode observar, nos vídeos seguintes», usam todos os estratagemas para extorquir dinheiro aos crentes.
    »(«IURD – Embuste e Exploração Universal (Capítulo 1)», no O Calhamaço dos Embustes)
22 de Maio, 2007 Helder Sanches

Compreender e a Pura Indiferença

Admito que há alturas em que me sinto mais incomodado com o agnosticismo que com alguns tipos de crenças. Já aqui escrevi sobre agnosticismo e penso que ficou bem patente a minha posição em relação à indiferença cúmplice dos agnósticos. Entendo mais facilmente, por exemplo, um panteísta que um agnóstico. Recordo-me ainda quando no antigo fórum do ateísmo.net (Diário Ateísta) se discutia a criação de uma associação e se questionava a inclusão ou não de agnósticos. Por mim, nunca fui favorável a essas misturas!

Quando me lembrei de promover este debate interblogues a distinção entre agnósticos e ateus pareceu-me um tema óbvio para dar o pontapé de saída. Esta é a minha participação no debate e gostaria de começar com uma fantasia.

Imaginem que, numa pequena cidade, um grupo considerável de pessoas estava crente que o Sol se extinguiria dentro de duas semanas, a uma quarta-feira, pelas 16h43.

Não existia nenhuma evidência para tal crença mas a convicção de alguns neste delírio era tão convincente que arrastava uma percentagem significativa dos habitantes dessa cidade.

Para além dos crentes, existiam outros dois grupos de pessoas: os que achavam que a ideia era um disparate, uma vez que não havia qualquer suporte cientifico para temer tal catástrofe, e os que achavam que quer fosse verdade ou não era irrelevante uma vez que, em qualquer dos casos, não tinham ao seu alcance qualquer forma de alterar o destino da nossa estrela.

Com a aproximação da data prevista para a extinção do Sol, o grupo crente começa a viver em função dessa fatalidade, tentando impor rituais para contrariar o destino anunciado. Outros, mais radicais, cientes de que qualquer ritual seria uma perda de tempo, tentam gozar os últimos dias isentos de quaisquer regras de convívio social, recorrendo a violações, roubos e homicídios.

Os que achavam que esta ideia do Sol se extinguir não passava de um disparate opunham-se e preveniam contra a loucura e insanidade dos crentes. O outro grupo, limitava-se a observar, expectante, o desenrolar dos acontecimentos.

Esta história demonstra bem a atitude diferente de crentes, agnósticos e ateus em relação à realidade. Enquanto que os ateus se manifestam por considerarem que não existem quaisquer evidências que justifique qualquer crença num qualquer deus ou divindade, os agnósticos procuram o refúgio na ignorância – por entenderem ser impossível uma resposta à questão divina – ou no desinteresse – por acharem que qualquer resposta é insignificante para as suas vidas.

Assim, o que aparentemente poderia parecer a atitude mais racional, não passa, isso sim, de uma forma envergonhada de desistir da procura da verdade ou de uma presunção de que essa mesma verdade seria inconsequente no entendimento do Homem e do mundo. Como é possível pensar que não seria determinante para a humanidade provar a existência ou inexistência de um ou mais deuses?

Ilusoriamente racional, o agnosticismo não passa de um entrave ao conhecimento. Tivesse a humanidade ao longo dos séculos confiado tão pouco na sua capacidade de descobrir e de saber e a roda nunca teria sido inventada. Tivesse a humanidade nos séculos mais recentes achado que determinadas questões não eram importantes e a esperança de vida não teria mais que duplicado nesse período.

Eu entendo que o agnosticismo pode ser muito mais apaziguador, conciliador ou democrático que o ateísmo. Só que a verdade não se define por maiorias! Racionalidade é procurar encontrar a Verdade. Racionalidade é procurar as explicações, justificações e a compreensão do mundo que nos rodeia. Tudo o resto ou é delírio ou pura indiferença.

22 de Maio, 2007 Hacked By ./Localc0de-07

Idiotices Americanas

Idiotice a mais e neurónios em funções a menos entorpecem os U.S.A.. Psicopatas de bata branca querem fazer coexistências impossíveis, crianças a brincar com dinossauros, ovos de dinossauros em arcas devido aos tsunamis de deus, uma fantochada desconexa ridícula fomentada pelas óbvias convicções de fé. O Museu da Criação é a nova esquizofrenolândia, produção intelectual dos mais ignóbeis americanos, apoiados por Bush, um tal de presidente que invade países a pedido de deus.

10 milhões de Euros para o hospital psiquiátrico, invertido, dementes a médicos, saúde firme poderá ser abalada por tanta psicose, quem sabe de lá não sairão as crianças pedindo aos pais um dinossauro de estimação, o cão ou o gato já não os satisfaz, sai um Triceratops para o menino, e já agora um quintal maior e um bom seguro de vida. Ao que parece o Génesis fala de dinossauros, quem sabe das numerações de página se extrai tal fenomenal clarividência, menos de 10 mil anos de existência claro está, e cuidado com as cheias do deus insano e irado, afoga os peixes e todos os que não tiverem bilhete válido para a viagem na jangada de Noé. Também a competência pede a necessidade de acreditar que a Terra foi criada em 6 dias, sábado descanso que trabalho é muito, não esquecer que quem trabalhar ao sábado é punido de morte, assim se lê em Êxodo, tudo constante num livro denominado Bíblia, o qual serve de exemplo moral “obrigatória” aos Americanos, mãozinha em cima dela e jura-se por tudo e mais alguma coisa, honestidade e bom senso não é preciso.

Todos os funcionários da esquizofrenolândia são qualificados, todos são sujeitos às mais difíceis provas científicas, a Terra tem menos de 10 mil anos e um tal de designer artístico com lacunas imaginativas extremas criou tudo o que existe exclusivamente para o homem, animais são seres decorativos, estrelas igual, mulheres já interessam, procriação e loiça limpa que de resto ficam caladas e submissas, o diz Timóteo, Coríntios, Pedro, Colossenses e mais uns quantos, assim vai legislando a obra literária do designer, escritor não o era.

Contas feitas e a estupidez é muita, descriminação aos ateus, Bush é um marco histórico da D.V.C, Diarreia Vascular Cerebral, “não sei se ateus deveriam ser considerados como cidadãos nem como patriotas. Esta é uma nação sob Deus.” disse o pai e segue o filho, doença hereditária ao que se aparenta. 10% da nação sob deus acredita que a esposa de Noé, o fabricante de jangadas em tempos de chuva, a mais conhecida “Noe´s Arc”, será a Joana D´Arc. Assim corre a educação no país mais religioso do mundo desenvolvido, defende-se de unhas e dentes o que não se conhece, ateus são superiores? Nunca. Estes crentes humilham-se. Nem metade sabe qual é o primeiro livro da Bíblia, mas criacionismos e designs às marretadas e sacholadas são verídicos! Quem disse “Que se faça luz!”? Para metade dos Americanos Thomas Edison.

A irracionalidade é inflamável, a pacificidade não mora pelas terras sob deus, recentemente um pai meteu a filha no microondas a mando do designer, infernos já existem dentro dos electrodomésticos, o Tio Sam contente da vida, guerra aos infiéis, deus manda, Bush também, matem-se uns aos outros em guerras, e assim o fazem, os subservientes claro está, o Iraque não tem campos de golfe sossegados ao que parece, nem armas de destruição maciça. Deus escreve torto por linhas direitas, cowboyadas e explosões dão boas audiências e roubos de viscosidades negras fazem macias notas. Percentagens mínimas da população remam contra a maré, Sam Harris a exemplo, mas a ignorância e ganância é maior.

Os deuses não se entendem, que resolvam as quezílias com uma bilharada à melhor de 5.

Também publicado em LiVerdades e Ateismos.net

21 de Maio, 2007 Carlos Esperança

Momento Zen de segunda

Lê-se a homilia de João César das Neves (JCN) às segundas-feiras no Diário de Notícias e fica a dúvida se é penitência do confessor, pela gravidade dos pecados, ou a deriva prosélita de um talibã apostólico romano.

JCN, na homilia de hoje, afirma que «o Iluminismo foi o único movimento cultural mundial que tentou fundar uma seita ateia e anti-religiosa». Esta afirmação não reflecte apenas miopia, revela ignorância e maldade. No fundo, é a nostalgia da Idade Média, das monarquias absolutas e do poder clerical.

JCN, na sua beata alienação começa por atribuir ao Iluminismo a responsabilidade pela Guilhotina e o Goulag – o que é uma mentira grosseira -, mantendo um silêncio pio sobre as fogueiras do Santo Ofício que foram um facto incontroverso.

Perturbado com a investigação histórica e com os novos avanços da arqueologia, JCN debita algumas inanidades e acaba por execrar os livros adversos fazendo uma boa selecção das publicações recentes: «The God Delusion do cientista britânico Richard Dawkins (Bantam Books, Setembro 2006); God Is Not Great: How Religion Poisons Everything, de Christopher Hitchens (Twelve, Maio de 2007) e a recente tradução portuguesa de The End of Faith: Religion, Terror, and the Future of Reason, de Sam Harris (W.W. Norton, 2004; Tinta da China, 2007).

E acaba, naturalmente, a considerar que «No meio da confusão, um livro marca a época: Jesus de Nazaré (Esfera dos Livros, Maio 2007), do Papa Bento XVI».

Nem outra coisa era de esperar.

Vale a pena ler a homilia completa. Faz pior à fé o fundamentalismo de um crente exaltado do que o livre-pensamento.

21 de Maio, 2007 jvasco

Agnóstico forte e Ateu explícito

Sou agnóstico forte.
Não creio que é possível saber ao certo se Deus existe. Não creio que nunca será possível.
Também não creio que é possível saber ao certo se o Super-Homem existe. Ou os Elfos e Sereias. Também não creio que possa ser possível um dia.
Qualquer conhecimento a respeito do mundo que nos rodeia deve estar sempre sujeito a revisão, caso os indícios e evidências o justifiquem.

Sou ateu explícito.
Acredito na inexistência de Deus, tal como acredito na inexistência de uma lata de refrigerante em órbita de Júpiter. Há boas razões para duvidar de ambas.
Se escolhermos uma definição razoável para a palavra «Deus», creio que uma avaliação racional e reflectida dos indícios a que temos acesso levará à conclusão de que Deus não existe.

O ateísmo implícito (a posição daqueles que se descrevem como agnósticos) parece-me menos sustentável que a do ateísmo explícito.
Todos nós acreditamos em proposições para as quais não existe certeza absoluta.
«Fumar faz mal à saúde» é uma crença generalizada na nossa sociedade.
Será pouco razoável acreditar que fumar faz mal? Não podemos saber ao certo se faz…
Em última análise não podemos saber, mas os indícios apontam nesse sentido. Apontam de tal forma que damos essa afirmação como certa.
Se alguém viesse dizer que «sabe» que o tabaco não faz mal à saúde, seria pouco razoável acreditar sem que esta pessoa nos desse indícios convincentes: e mais convincentes que os fortíssimos indícios que levaram a comunidade científica a alertar para os malefícios do fumo.
Sem tais indícios será razoável acreditar que o tabaco não faz mal à saúde?
Será razoável não acreditar explicitamente que faz?

Da mesma forma, nós sabemos que um corpo maciço não se pode deslocar a uma velocidade superior à velocidade da luz em circusntância alguma (deve notar-se que os indícios neste sentido são muito mais esmagadores e definitivos que aqueles que existem em relação aos malefícios do tabaco).
Grande parte dos crentes acredita que Deus pode fazer com que isto aconteça. E que indícios apresentam? Serão indícios suficientemente fortes?

Não me parece que o ateísmo implícito (ao qual chamam agnosticismo) seja mais racional que o ateísmo explícito. Perante os actuais indícios, bem pelo contrário.

21 de Maio, 2007 jvasco

A palavra «Deus»

A palavra «Deus» é dada a confusões. Não existe nenhuma definição que reúna consenso, e algumas definições são tão abrangentes que o conceito de «natureza» cabe lá – poucos duvidarão da existência da natureza!
Simplesmente creio que tais definições apenas criam confusão e prejudicam a comunicação.

Qualquer definição adequada da palavra «Deus» tem de se aproximar do conceito que as pessoas associam à palavra, ao que se referem quando a usam. Bem sei que uma minoria mais instruída, sem vontade de acreditar em superstições injustificadas, mas também sem vontade de quebrar o tabu da negação de Deus, tentou redefinir a palavra de uma forma que a esvaziaria de significado e utilidade.

Claro que eu poderia dizer que acredito em Deus, mas que Deus é a «força vital do Universo». Se interrogado responderia que a «força vital do Universo» é a «harmonia das leis naturais». Pronto: assim acreditando que existem leis naturais – regularidade na forma como o Universo funciona – e juntando uns temperos de palavras bonitas encadeadas num discurso opaco eu já me posso sentir mais integrado numa sociedade de crentes. E provavelmente nem darei conta da hipocrisia na minha posição.

E existem inúmeras formas de fazer isto. Também posso dizer que Deus é «o mágico, o desconhecido». Assim basta acreditar que o homem nunca conhecerá todas as leis da natureza (uma suposição bastante razoável…) para não me sentir tão distante do meu amigo que acredita que Jesus morreu por nós.

Se eu pegar numa frase do evangelho de S. João também posso manter a minha visão da realidade e acreditar em Deus. Eu acredito no amor – até me parece que é pouco razoável não acreditar nisso – e se «Deus é Amor», cá temos. Não acredito na vida eterna, em Jesus, na palavra de Maomé, de Moisés, no julgamento dos vivos e dos mortos. Não acredito em nada daquilo que caracteriza a crença em Deus, mas posso dizer que «acredito em Deus».

Há mais formas de disfarçar a minha discordância. Eu acredito que a mente existe, e posso chamar-lhe metaforicamente «alma». Depois, aludindo ao facto das consequências das nossas acções poderem ecoar pela eternidade (uma crença mais razoável que as das religiões em geral), abstenho-me de negar a imortalidade da alma.

Posso também recorrer à crença tão razoável de que existem coisas que me transcendem, para poder afirmar «há algo que me transcende». Depois chamo-lhe Deus, e posso sentir-me menos distante de todos aqueles que rezam em Fátima para que a menina seja encontrada.

Entre todas estas formas peculiares de se afirmar «crente» e o ateísmo existem poucas diferenças. A visão do universo, da realidade, do mundo que nos rodeia, é semelhante – mas o ateu prefere a clareza à hipocrisia.
É sofisticada e interessante a maioria das pessoas que profere este tipo de afirmações. Repito que geralmente não se apercebem da hipocrisia da sua posição, pelo que não são necessariamente pessoas hipócritas.

Quanto à palavra Deus, não vale a pena tentar torná-la vazia de sentido. A linguagem serve para comunicarmos e a clareza traz inúmeras vantagens. Dificilmente encontro uma definição verbal que abarque toda a diversidade de visões religiosas sobre «Deus» – e não deve ser fácil, visto que as definições que encontro nos dicionários são tão pobres a esse respeito… – mas sei que não faz sentido usarmos a palavra «Deus» para nos referirmos a um conceito que não tem nada a ver com aquele que está na mente de qualquer crente ou ateu quando pensa na palavra.