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7 de Junho, 2007 Carlos Esperança

Hoje há procissão

A Procissão Eucarística na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo sai à rua em numerosas localidades. Numa padiola viajará um Cristo fúnebre e infeliz, com ar de quem regressa ao quarto, de castigo, para fazer companhia a S. Sebastião furado de setas e à Maria Madalena de cabelos compridos, oferecidos por uma devota que nunca lavava a cabeça.

Antigamente ainda acompanhavam o andor anjinhos de asas derrubadas que chegavam ao fim da procissão, em dias de chuva, com as alvas túnicas mais sujas do que as calças de um pintor da construção civil. As mães vigiavam a compostura das criancinhas e a banda da música enganava-se na partitura.

Hoje é um ritual sem graça que se aguenta por hábito. Os devotos profissionais enchem as ruas para os turistas tirarem fotografias e o bispo arejar a mitra e exibir a custódia sob o pálio que uns mancebos seguram com ar de enfado.

Quando a GNR manda soldados a cavalo aumenta o folclore e a ofensa à laicidade do Estado. Os cavalos defecam nas ruas por onde passam.

Alguns presidentes da Câmara, confundindo as devoções particulares com os deveres oficiais, aproveitam a boleia do pálio e a companhia do clero com o mesmo ar com que os cavalos transportam os soldados com dragonas.

As procissões são restos de um mundo que se transformou, encenações de uma liturgia que deixou de ser levada a sério.

6 de Junho, 2007 Ricardo Alves

Há 100 anos, em Portugal, ia-se para a prisão por escrever sobre religião

No Almanaque Republicano:

  • «1906 [Dia 29 de Maio] – O professor Carlos Cruz, secretário da Associação do Registo Civil sai da cadeia, indultado pelo governo de João Franco. Este cidadão encontrava-se preso por ofensas à religião e tinha sido condenado a vinte meses de cadeia

Conforme já referido pelo mesmo Almanaque Republicano (noutra nota), o livre pensador Carlos Cruz cumpriu setenta e oito dias de prisão por ter criticado publicamente, por escrito, o «Dogma da Imaculada Concepção de Maria» (segundo o qual os avós do JC não cometeram «pecado» – seja lá isso o que for – ao conceberem a mãe do próprio JC, a qual mais tarde teria engravidado sem sexo, etc.).

Os clericais tentam-nos convencer dia-sim/dia-sim de que os republicanos tentaram implantar em Portugal um regime de ateísmo de Estado horrorosamente repressivo. É necessário recordar-lhes continuamente que a liberdade em matéria religiosa não serve apenas para afirmar dogmas; também existe para criticar esses dogmas. E, como se vê, não é necessário recuar até à inquisição para encontrar casos de perseguições a livre pensadores. Pelo contrário, não conheço um único caso de um católico preso durante a «pavorosa» República por afirmar este ou outro qualquer dogma católico em público…

[Esquerda Republicana/Diário Ateísta]

6 de Junho, 2007 Carlos Esperança

Corpus Christi

O corpo de Cristo, carcomido pelo tempo e pelos vermes, foi desprezado até ao Século XIII, altura em que o departamento de marketing resolveu aproveitá-lo para uma festa anual a ter lugar na primeira quinta-feira após o domingo da Santíssima Trindade, seja lá isso o que for.

O Papa Urbano IV foi o inventor da festa que realça a presença real do «Cristo todo» na hóstia. E quem não acreditar que naquela rodela está o corpo e o sangue do fundador da seita, é um herege.

Claro que causa alguma perplexidade que um corpo que subiu ao Céu, desça à hóstia em cada consagração e se meta na língua dos devotos, sem se saber qual a parte anatómica que pode calhar ao mais pudico dos crentes.

A primeira procissão temática teve origem em 1230 de acordo com visões de uma freira que as comunicou ao cónego que viria a ser o Papa Urbano IV.

Essas visões da freira exigiam uma festa da Eucaristia, à semelhança das visões da Irmã Lúcia que, menos de cinco séculos depois, obrigavam ao terço para conversão da Rússia e apaziguamento do «Nosso Senhor» que andava muito zangado e com humor lábil.

Esta festa da ICAR é festa «de preceito», isto é, uma festa que obriga todos os católicos a assistirem à missa. Assim, quem trocar a liturgia pela praia comete um pecado mortal e arrisca as perpétuas penas do Inferno onde o azeite fervente e o cheiro a enxofre eram os castigos certos antes de JP2 ter abolido o Inferno.

Na dúvida, católicos romanos, amanhã não faltem à missa nem à «Procissão Eucarística na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo». Até o nome é uma delícia.

Ateu que vos avisa, vosso amigo é.

5 de Junho, 2007 Carlos Esperança

Os homens nascem ateus

Os homens nascem ateus mas há bandos de avençados do divino à espera de lactentes para os iniciarem nos rituais cabalísticos que os tornam pertença da religião professada e não mais os abandonam.

O parto é profano mas não tarda que a criança se transforme em neófito, aspergido pela água benta e submetido a um ritual litúrgico com a conivência dos progenitores. Depois desse ritual outros vêm numa sequência que mantém as vítimas presas aos carcereiros.

O baptismo é o averbamento místico na Conservatória do Registo Religioso do Deus que tem o registo predial do local de nascimento.

Assim, em Portugal o Deus é normalmente o do Papa, seja qual for o Papa e tenha ele o entendimento que tiver do Deus que na altura for mais apelativo à perpetuação da fé.

As crianças nascem ímpias mas não tardam a mudar a fralda com conteúdo cristão.

É este proselitismo que faz dos inocentes, crentes, e, destes, prosélitos ensinados a odiar os que não amam o Deus deles e não se conformam com os seus dogmas.

No negócio da fé há uma geografia cujas fronteiras todos os fanáticos querem alterar como, outrora, nas aldeias se mudavam os marcos às propriedades.

É preciso amansar os ímpetos prosélitos dos que não se contentam em transmitir os seus dogmas aos sócios e usam o terrorismo para os imporem aos crentes de outras religiões e aos descrentes de todas elas.

O remédio encontra-se no aprofundamento da laicidade do Estado.

4 de Junho, 2007 Carlos Esperança

O mundo de Deus

Num mundo à beira da guerra generalizada, por causa da carne de porco ou de um copo de vinho, só faltava que a igualdade entre os sexos fosse interdita pela vontade de um Deus misógino e pela vigilância policial dos clérigos de serviço.

Com pessoas de países ricos incapazes de fazerem dieta no consumo para prolongarem a vida do planeta, com predestinados que se julgam ungidos por um Deus volúvel como donos das riquezas do globo, com egoístas que preferem o desperdício à partilha, não é risonho, nem certamente pacífico, o futuro da humanidade.

Quando escasseia a água, se torna irrespirável o ar e tendem a acabar os combustíveis fósseis, é já dos alimentos que os ricos pensam apropriar-se, para os transformarem em combustíveis ao serviço do transporte individual. A vida dos pobres será cada vez mais curta e sofrida a menos que o princípio dos vasos comunicantes nivele por baixo a longevidade global.

No horizonte perfilam-se perigos que a intolerância e o medo se encarregam de agravar. Há meninos guerreiros em África, genocídio no Darfur, fedelhos escravos em muitos países, mulheres e crianças raptadas como escravas, na mais abjecta tradição medieval, para os mais repugnantes fins.

Eu sei que são pobres, feios e sujos; negros, analfabetos e desempregados: esfomeados, doentes e tribais. Há certamente uma vontade superior que quis o mundo assim dividido e um destino individual a que cada um está condenado. O pior é se as vítimas se agitam com o destino que lhes coube e, ai de nós, acabamos a comer o mesmo pão que o diabo amassou para todos.

4 de Junho, 2007 Carlos Esperança

Bento XVI excomungado

Numa capitulação perante os seguidores do Marcel Lefebvre, arcebispo tão reaccionário que até JP2 achou excessivo e o excomungou, B16 vai autorizar o regresso às missas em latim.

É o júbilo da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, intransigente defensora da tradição e da liturgia tridentinas, o que lhe valeu ao arcebispo dissidente a excomunhão em 30 de Junho de 1988 depois de ter sagrado quatro bispos sem passar cavaco ao Vaticano.

Agora é o regresso ao latim, depois a reabilitação do defunto arcebispo Lefebvre, quiçá com dois milagres às costas para obter a canonização.

Só faltam as fogueiras do Santo Ofício para que B16 se sinta um verdadeiro inquisidor ao serviço do Divino Impostor.

4 de Junho, 2007 Carlos Esperança

Deus é bom

E o Islão é tolerante.

4 de Junho, 2007 Ricardo Alves

Notícias (4/6/2007)

  1. Políticos suíços têm defendido abertamente que se proíba a construção de minaretes. Este ataque à liberdade de culto, que dificilmente terá paralelo em algo que se passe em qualquer outro país da União Europeia, é selectivo: nada foi dito sobre a construção de igrejas ou sinagogas. No Irão, os casamentos temporários estão em alta (o islão xíita permite que um casal se case por algumas horas ou alguns dias, o que entusiasma alguns jovens a casarem-se temporariamente para passarem fins-de-semana no mar Cáspio). E na Malásia, uma mulher viu negado num tribunal do Estado o seu direito a abandonar o Islão, apesar de se ter convertido ao cristianismo (na minha ingenuidade, pensava que mudar de religião é um direito fundamental de qualquer ser humano).
  2. A Tailândia decidiu não adoptar o budismo enquanto religião oficial de Estado. A iniciativa poderia ter agravado um conflito entre budistas e muçulmanos, nas províncias do sul, onde já morreram cerca de 2 000 pessoas. No México, a ICAR insiste em intervir politicamente na questão do aborto. E em Malta, a presença do Presidente e do Primeiro Ministro numa canonização é severamente criticada.
  3. A seita judaica ultra-ortodoxa Gerrer Hasidic pretende proibir os computadores, que considera serem «obra de Satã». Um outro rabi avançou com a proposta de uma «internet kosher».
  4. Teodoro de Faria, que foi recentemente substituído na diocese do Funchal da ICAR, atribuiu a condenação judicial do seu secretário, o sacerdote católico Frederico Cunha, a «um acto de vingança» presumivelmente orquestrado por «diversos lugares de diversão nocturna inteiramente repreensíveis» contra os quais se teria pronunciado. Recorde-se que o padre católico Frederico Cunha foi condenado, em 1993, por crimes de abuso sexual de menor e homicídio, tendo cumprido pena de prisão até à primeira saída precária, momento em que fugiu para o Brasil. No julgamento, provou-se também que o sacerdote Frederico usava a casa de paróquia para abusar sexualmente de menores.
4 de Junho, 2007 jvasco

Ateísmo na Blogosfera

  1. «Mas, para lá de permitir semelhantes exercícios desconstrucionistas, o livro de Tipler é fundamentalmente desonesto. Ele afirma que o nascimento de Jesus a partir da Virgem Maria se deu essencialmente por geração espontânea, sendo Jesus portanto homozigótico XX, sendo parte de um dos cromossomas X inactivado para funcionar como Y. A prova está na análise de DNA ao sangue deixada por Jesus no Sudário de Turim – que, infelizmente para Tipler, há muito se sabe ter sido forjado no século XIV. Não contém sangue: contém tintas.

    Andar sobre o mar? Ressuscitar dos mortos? Simples. Bastou esperar 21 séculos para percebermos. Segundo Tipler, as partículas dos átomos do corpo de Jesus decaíram espontaneamente em neutrinos e antineutrinos. Para andar sobre as águas, estes proporcionaram uma espécie de “almofada” de partículas sobre a qual a caminhada teve lugar. Para a Ressurreição, o processo essencialmente inverteu-se: as partículas, ao terceiro dia, “des-decaíram” e voltaram a formar o corpo de Jesus.

    Tão simples quanto isto. Mas quando eu parto um copo, os cacos não se voltam a unir, pois não? É uma chatice, chamada Segunda lei da termodinâmica. Para Jesus é pior: o decaimento do protão conduz a uma diferença de cerca de 100 ordens de grandeza! Impossível, não? Não para Tipler: ele usa uma versão grotesca do princípio antrópico que afirma que, se estamos aqui, é porque aconteceu. Curiosamente, esse princípio é aplicável não apenas ao Deus cristão, mas a qualquer Deus, ou mesmo a qualquer crença.»E ao terceiro livro passou-se: a pseudociência do ano», no De Rerum Natura)

  2. «Pessoalmente, e como já referi, só subscrevo o CRAP (Princípio Antrópico Completamente Ridículo), e concordo com Neil deGrasse Tyson, director do Hayden Planetarium do American Museum of Natural History em New York, quando este diz que livros como os de Tipler são fruto de homens brilhantes que aproveitam o filão «Deus» para encher as respectivas contas bancárias.»O que é o princípio antrópico?», no De Rerum Natura)
  3. «Atualmente como ateu eu acredito na inexistência de Deus assim como acredito na inexistência de muitas outras coisas que poderiam ser imaginadas. O clássico exemplo do “dragão invisível na garagem” do livro “O mundo assombrado pelos demônios” de Carl Sagan aborda muito bem este assunto. Ser agnóstico pode corresponder tanto à incerteza da existência de Deus como da incerteza da existência de algum “dragão invisível na garagem”. O ser humano racional deve procurar por indícios e provas sobre qualquer assunto pelo qual deseja esclarescer, por mais polêmico que seja. Não é incoerente afirmar que algo não existe enquanto não houver evidências que reforçe a crença de sua existência. Por acaso seria incoerente afirmar que duendes não existem? Alguma pessoa teria a “sensatez” de dizer que “a existência de duendes é algo ainda incerto”? Renunciar à certeza da inexistência de Deus pode ser comparado à renúncia de diversas outras certezas.»Ceticismo em debate: agnosticismo x ateísmo», no Narkus)