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27 de Setembro, 2007 Carlos Esperança

Pelos caminhos-de-ferro e da vida (Crónica)

O trama era o comboio diário que, vindo de Vilar Formoso, chegava à Guarda um pouco depois das nove horas da manhã e regressava às cinco da tarde em sentido inverso. O nome ficara do inglês Tramway e era exclusivo do referido comboio, bem mais ronceiro e acessível que o correio, o rápido ou o sud.

No último dia de Setembro e nos primeiros de Outubro a 3.ª classe regurgitava de gente e de mercadorias que se acondicionavam nos corredores, debaixo dos bancos, nos cacifos junto ao tecto, nas plataformas de acesso às carruagens e entre os passageiros. Adolescentes de ambos os sexos e várias mulheres entre os trinta e os quarenta anos, envelhecidas por numerosos partos, lides do campo e privações, vigiavam as bagagens que ocupavam todos os espaços vagos, servindo os sacos de batatas, entre os bancos, de estribo aos passageiros.

Na estação da Guarda apeavam-se, reuniam os pertences e transportavam-nos até à paragem das camionetas. Detectados os passageiros sem bagagem, aqueles que tinham muita pediam-lhes para dizerem que era sua a deles, a fim de poderem transportar na camioneta tão vasta carga sem pagamento extra. Recebiam a ajuda pedida e a piedosa mentira tinha a compreensão e cumplicidade do cobrador de bilhetes, que fingia ignorar tão simplória tramóia, não fosse ele também um homem do povo igualmente sacrificado por trabalhos e privações.

Os jovens partiam lestos, a pé, calcorreando a distância que separava a Estação da Sociedade de Transportes, a fim de carregarem as bagagens até casa, quando chegassem. Se a camioneta se adiantasse, lá estariam à espera os volumes e quem os guardava e, às vezes, antecipavam-se eles à camioneta que ia pelo Rio Diz, autocarro vetusto e lento que se queixava do peso e da subida e resfolegava nas paragens. Poupavam os peões o bilhete, que custava 2$50 a cada passageiro.

Entre 1 e 7 de Outubro não havia aulas. O primeiro dia servia para apresentar aos alunos Sua Excelência Reverendíssima o Senhor Bispo, o Governador Civil, o Presidente da Câmara, o Reitor, o Comissário da Mocidade Portuguesa, excelentíssimos e doutores todos eles. O cerimonial servia para mostrar aos rústicos alunos o poder e a autoridade, o respeitinho era muito bonito, e ensinar a aplaudir quando qualquer deles tartamudeasse umas trivialidades.

Depois era uma semana de azáfama para celebrar os contratos da luz e da água e colocar os contadores, com os putos e as meninas já instalados e separados em quartos transformados em camaratas. A água era fria e o simples acto de lavar as mãos um sacrifício que se fazia com parcimónia, sendo o banho semanal um hábito de gente fina.

Entretanto os alunos deslocavam-se ao liceu a tomar nota da turma, dos horários, das disciplinas e dos livros que era preciso comprar. E aprendiam que no rés-do-chão ficavam as meninas e no primeiro andar os rapazes.

Depois de se inteirarem dos livros que podiam usar dos irmãos mais velhos e dos que podiam comprar em segunda mão, por metade do preço, no Pinto, junto ao cinema, lá iam às livrarias do Sr. Felisberto ou do Sr. Casimiro comprar os restantes e pedir os horários, impressos onde se anotavam os dias e as horas das aulas de cada disciplina, oferecidos pelos livreiros numa gesto de simpatia e boas-vindas.

A maior parte hospedava-se em casas particulares, autênticas colmeias, onde a mesada era paga em géneros: pão, batata, azeite, toucinho, feijão e outras vitualhas, que variavam consoante a origem dos hóspedes e a colheita agrícola da família, com a propina de 100$00 mensais – a única contribuição fixa e sem discussão.

Alguns ficavam em casas de funcionários públicos que arredondavam os magros salários com hóspedes, mas outros tinham o arrimo de uma mulher que aos seus juntava os filhos alheios e a todos cuidava. Eram camponesas cujo instinto fez governantas para darem aos que velavam o futuro que não tiveram.

Foi assim que muitos alunos se iniciaram no ensino secundário. A abnegação das mulheres rurais, tantas vezes analfabetas, duramente arrancadas à casa, ao marido e ao habitat, contribuiu para a escolarização do país e para dar aos filhos um rumo que os afastou da pobreza, e para criar quadros que, a partir de 1960, começaram a mudar a face de Portugal enquanto o imobilismo da ditadura mantinha o paradigma de nação rural, temente a Deus, pobrezinha mas honrada.

Algumas dessas mulheres, heroínas anónimas, moiras de trabalho e de abnegação, ainda rumaram a Coimbra para apoiarem os filhos próprios e alheios que ousaram a Universidade e viraram doutores com calos nas mãos no início de cada ano lectivo.

Da odisseia colectiva, do sacrifício silencioso, do desassombro destas mulheres da Beira nunca se fez o inventário das lágrimas, privações e afoiteza que ajudaram a mudar Portugal. Depois de cumprida a missão regressaram às terras e à lavoura, ao mau feitio dos maridos e às lides da casa, às novenas e promessas pias para que os filhos que criaram não perecessem na guerra que consumia jovens e destroçava os pais num conflito obstinado que a ditadura manteve contra a história, o bom-senso e o direito dos povos à autodeterminação.

Já poucas restam dessas mulheres ignoradas. Ficaram por contar histórias de vida, retalhos da memória de um povo que parece envergonhar-se do que mais o nobilita e esquecer as raízes que são pergaminhos da honra no caminho da vida.

Há talvez nesta amnésia colectiva a ingratidão dos filhos e a vergonha de novos-ricos que esqueceram a abnegação das mães e a solidão dos pais que ficavam a mourejar nos campos e se privaram das companheiras numa dádiva cujo sacrifício é fácil imaginar.

Jornal do Fundão, hoje.

27 de Setembro, 2007 Carlos Esperança

A verdadeira face da Igreja católica

The head of the Catholic Church in Mozambique has told the BBC he believes some European-made condoms are infected with HIV deliberately.

Maputo Archbishop Francisco Chimoio claimed some anti-retroviral drugs were also infected «in order to finish quickly the African people».

O Arcebispo de Maputo, Francisco Chimoio, disse que alguns preservativos de origem europeia estariam contaminados com o HIV, assim como certos medicamentos anti-retrovirais, tendo em vista liquidar o mais rapidamente possível os africanos.

27 de Setembro, 2007 Ricardo Silvestre

Lógica racional vs lógica primitiva

Pegando numa coisa que o Bruno Resende apresentou, baseada no texto «Papa diz que a Igreja primitiva é um modelo para a sociedade» «(…) já que deus desejou tanto a salvação do Homem que não se reservou a seu único filho».

Há uma questão metodológica muito interessante neste tema.

Vamos assumir por um minuto que o deus católico existe. Ele avisou Adão que a Eva não podia comer a maçã. No entanto, ela não obedece e come-a à mesma. Daí vem o pecado original. Jesus Cristo, suposto filho de deus, desce à terra, e morre na cruz para expiar os humanos do seu pecado original. Correcto?

Há uma falha lógica evidente! Se a história de Adão e Eva não é algo para ser interpretado literalmente, como defende a Igreja Católica, então, literalmente, deus faz com que o seu filho morra na cruz por uma pecado não literal, vindo de uma história não literal, com personagens não literais. E pessoas inteligentes acreditam nestas coisas?

E não venham com teorias psicanalista Luterianas ou antropológicas de Chardin sobre o que quer dizer «pecado original» e as interpretações que se deve dar à Bíblia. Esta é a irracionalidade que orienta pessoas que querem ter poder sobre a minha vida e sobre a de outros. Convencidas que sabem ler textos da idade de bronze melhor que todos os outros, e que entendem quais as mensagens divinas que neles se encontram. Dizer que a Igreja primitiva é um modelo para o que quer que seja devia ser uma afronta para qualquer católico racional.

Lá porque quem escreveu a Bíblia era um mau argumentista, um mau biólogo e um mau astrónomo, não quer dizer que as pessoas do Sec. 21 não sejam mais sensatas e perspicazes que isso. Ou se calhar, não. Afinal, uma das funções da fé dogmática é a de anular a inteligência humana.

Para saber mais, visite o NOVA

26 de Setembro, 2007 Hacked By ./Localc0de-07

Ratzinger nunca leu a bíblia

É interessante constatar que Ratzinger nunca leu a bíblia, longe da mente esclarecida de pessoas esclarecidas preverem demagogia nas suas palavras, a honestidade é apanágio da infalibilidade da sotaina totalitária, vulgo padrinho para quem mafiosamente se identifica com tais hierarquias.

O ser superior cristão é hermafrodita, “(…) pai terno, médico das almas, mãe e amigo afectuoso. (…)”, diz a Cinderela do sapatinho vermelho, supostamente terá andado a averiguar os genitais divinos. Se muitos cristãos pensam que são todos filhos de deus, muito se enganam, Ratzinger elucida-nos desta “verdade universal”, “(…) já que deus desejou tanto a salvação do Homem que não se reservou a seu único filho.”, seja portanto um pai de todos os cristãos que afinal não são seus filhos.

O mais interessante no seu discurso é mesmo esta declaração: “(…) Meditando sobre o livro do Génesis guiou os fiéis da criação ao Criador, que é o Deus da condescendência e por isso chamado também Deus terno (…)”. Qualquer pessoa minimamente honesta que tenha uma mínima noção do que está escrito na bíblia sabe que este personagem fictício é tudo menos terno, é simplesmente um mentecapto genocída, sádico, infanticida, sexista, delinquente e depravado. Nada melhor que lembrar e relembrar alguns grãos de areia do areal da delinquência bíblica.

Salmos 2:9 “Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro.“. Tão terno e meiguinho que ele é…

Génesis 7:4 “Porque, passados ainda sete dias, farei chover sobre a terra quarenta dias e quarenta noites; e desfarei de sobre a face da terra toda a substância que fiz.“. Afogar toda a gente é bem fofo, estimativa de mais de 30 milhões de mortos no dilúvio, não contando com os animais, especialmente com a quantidade imensurável de peixes que morreram afogados.

Números 31:17-18 “Agora, pois, matai todo o homem entre as crianças, e matai toda a mulher que conheceu algum homem, deitando-se com ele. Porém, todas as meninas que não conheceram algum homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós.“. Depois de um massacre nada melhor que proceder ao amor cristão violando virgens.

Deuteronómio 32:39-42 “Vede agora que eu, eu o sou, e mais nenhum deus há além de mim; eu mato, e eu faço viver; eu firo, e eu saro, e ninguém há que escape da minha mão. Porque levantarei a minha mão aos céus, e direi: Eu vivo para sempre. Se eu afiar a minha espada reluzente, e se a minha mão travar o juízo, retribuirei a vingança sobre os meus adversários, e recompensarei aos que me odeiam. Embriagarei as minhas setas de sangue, e a minha espada comerá carne; do sangue dos mortos e dos prisioneiros, desde a cabeça, haverá vinganças do inimigo.“. O católico Hitler era um amador comparado com este ser ficcional.

Crónicas 2 14:9-15 “E Zerá, o etíope, saiu contra eles, com um exército de um milhão e com trezentos carros, e chegou até Maressa. (…) E Asa, e o povo que estava com ele os perseguiram até Gerar, e caíram tantos dos etíopes, que já não havia neles resistência alguma; porque foram destruídos diante do senhor, e diante do seu exército; e levaram dali um grande despojo. E feriram todas as cidades nos arredores de Gerar, porque o terror do senhor veio sobre elas; e saquearam todas as cidades, porque havia nelas muita presa. Também feriram as malhadas do gado; e levaram ovelhas em abundância, e camelos, e voltaram para Jerusalém.“. A ternura do ser superior cristão é magnificente, 1 milhão de mortos, para além do rapto de ovelhas e camelos que talvez tivessem a mesma utilidade que as virgens.

A ternura divina é mesmo estranha…

Notícia: Papa diz que Igreja primitiva é um modelo para sociedade

Também publicado em LiVerdades

26 de Setembro, 2007 Carlos Esperança

O negócio das relíquias

Repete-se a histeria que o ayatollah Ali Khamenei provocou no Islão.

26 de Setembro, 2007 Helder Sanches

A Falta de Pachorra

Estou a atravessar a fase do “que se lixe!”. Não tenho pachorra para argumentar com os obcecados cristãos que por aqui passam que, na sua presunção egocentrista, acham que sou ateu apenas em oposição à religião deles. Puro disparate.

Encontro-me, portanto, numa fase que me parece de transição. Já referi anteriormente que não subscrevo um ateísmo estilo imprensa cor-de-rosa. Agora, sinto-me desmotivado, mais ou menos pelas mesmas razões, em argumentar com os comentadores beatos que apenas sabem refutar as minhas ideias em particular ou o pensamento ateu em geral com textos bíblicos, perfeitamente desenquadrados e cheios de bolor… Será que acham que ao citarem excertos da bíblia passam a ter mais credibilidade?

Assim, gostaria que, de uma vez por todas, os cristãos de passagem se mentalizassem que neste blog a sua crença é tratada por mim como uma entre várias, não tendo qualquer lugar de destaque, uma vez que se trata de apenas mais uma das fantasias que assola o mundo com mentiras, obscurantismo e estagnação.

(Publicação simultânea: Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)

26 de Setembro, 2007 Ricardo Alves

É um padre católico quem o diz

  • «Na devoção a Fátima, “há muita ignorância e ingenuidade”»
    (Luciano Guerra, «Reitor do Santuário de Fátima»).

O senhor Luciano poderia ter dado o passo seguinte e ter assumido que a ignorância e a ingenuidade sempre foram lucrativas para a ICAR.

26 de Setembro, 2007 Ricardo Silvestre

Convenção da Atheist Alliance de 2007

Inicia-se amanhã em Crystal City, Virginia, a Convenção da Atheist Alliance de 2007.

O rol de prelectores é de fazer qualquer ateísta roer-se de inveja por não poder estar presente: Prof. Dawkins, Prof. Dennet, Sam Harris, Christopher Hitchens, Eugenie Scott, Matthew Chapman (entre outros).

O evento reveste-se de uma grande importância. Para alem de proporcionar a troca de experiências e ideias, vai beneficiar de uma exposição mediática aumentada, resultante dos últimos avanços na difusão do ateísmo (e do novo ateísmo, opinião pessoal) por parte de alguns dos «campeões» da causa.

Espera-se que seja mais uma forma de aumentar a progressão da racionalidade na civilização moderna.

Para quem quiser saber mais, visite aqui o link da AAI, e da conferência aqui. Aqui pode ver o programa.

Para quem tiver interessado, estes são dois sites aqui e aqui, onde se pode adquirir as transmissões on-line da Conferência. Tem de se pagar. Claro. Porque o ateísmo paga impostos e não recebe subsídios do Estado.