Nunca um santo criou um só cardeal e jamais um só cardeal criou tantos santos.
A entrevista do cardeal Saraiva Martins (JSM), ao Diário de Notícias de hoje, é uma peça de antologia distribuída por quatro páginas da edição impressa.
Não se sabe onde termina o ingénuo pesquisador de milagres, supersticioso e crente, semelhante ao caçador de gambozinos, e onde começa o frio contabilista da empresa que lhe confiou o marketing da santidade.
Engana-se quem vê no ar rústico do velho cardeal um homem tolerante e aberto ao mundo, um homem que já não se lembra em quem votou no último conclave mas tem bem presente que os padres devem aconselhar os fiéis sobre os partidos políticos em que devem votar.
JSM quer esquecer a cumplicidade da sua Igreja com Salazar mas gosta de recordar que o preservativo nunca deve ser usado. Fala dos beatos e santos que promoveu em doses industriais, dos milagres que inventou e do negócio das canonizações sem se dar conta que Portugal mudou. Sabe de cor o nome de todos os bem-aventurados portugueses que ajudou a içar aos altares.
Só com Bento XVI já criou 555 beatos e 14 santos o que significa uma clara aceleração do veículo que conduz à santidade depois das beatificações em série do antecessor – 1887, entre beatos e santos.
São quatro páginas inteiras de uma entrevista que há quarenta anos alvoroçava o Portugal rural e beato de Salazar mas que hoje deixa um sorriso de incredulidade em quem o lê, que diz acreditar na santidade de Alexandrina da Costa, a bem-aventurada que viveu 13 anos sem comer nem beber, em anúria, apenas com uma hóstia consagrada por dia.
Fala de Fátima como se as «aparições» não fossem uma forma de combater a República, mais tarde reciclada para o combate ao comunismo, como se as azinheiras fossem plataformas de aterragem da Virgem e a Cova da Iria um anjódromo feito à medida para o Paraíso organizar viagens ao concelho de Ourém para enviar recados através de três inocentes pastorinhos.
JSM é uma figura medieval no pensamento mas astuto na defesa dos milagres. Quando a ciência não explica, é milagre… e reconhece que o Vaticano se preocupa em distribuir os santos e os milagres de forma equitativa pelos países católicos embora os emolumentos não sejam baratos.
A Espanha ficou a ganhar por causa dos mártires da Guerra Civil mas – embora não o diga – isso foi um privilégio para promover a vitória do PP e apelar à Espanha franquista contra o PSOE, tentativa gorada para desespero do cardeal Rouco Varela.
Homofóbico, reaccionário e fiel às mais ortodoxas posições do Vaticano, admitindo que ele próprio pudesse ter sido papa, não esconde o medo do Islão e o perigo das alterações demográficas na Europa que podem tornar hegemónica a religião concorrente.
Este cardeal nascido numa aldeia do distrito da Guarda, em Portugal, que presidiu no último 13 de Maio a uma peregrinação contra o ateísmo, nunca mudou. Há anos afirmou que «Não há coisa mais bonita do que ver os homens de joelhos ou deitados».
SÓ QUERO ENTENDER
Se me disseres porque morre uma criança queimada na barraca.
Se me disseres porque uma mãe com o filho às costas
perde uma perna numa mina,
e a criança magrinha ali fica a chorar
até secar as lágrimas,
e se deixa adormecer abocanhando a mama
que já nada tem para lhe dar.
Se me disseres porque é que uma mulher,
ali à frente das câmaras e perante o nosso olhar,
já sem nada para dar, arranhar,
esgravetar nem roubar
morre assim, muito antes de morrer.
Se me disseres porque matam e morrem os homens
em nome do Criador de todas as coisas.
Se me disseres porque dá Deus os gozos da vida aos
ricos e poderosos,
e aos pobres só migalhas de afectos,
água, ar e restos de alimentação contaminada.
Se me disseres porque é que a violência faz parte
da vida dos homens
e dela têm de sair sempre vencidos e vencedores.
Se me disseres porque é que nestes tempos pós-modernos e globais,
como o fora na peste negra,
e já antes desta entre assírios, gregos, romanos
e outros que tais,
só os ricos têm acesso à riqueza
e às coisas puras, saudáveis e naturais.
Se me disseres porque é que, mesmo assim,
na morte somo todos iguais,
ou talvez não,
mas sem que daí venha qualquer consolação.
Se me provares que a justiça veio ao mundo
e por cá ficou.
Se me provares que a fome atinge só quem não faz pela vida,
e que a miséria, seja ela qual for,
é o fruto natural de ervas daninhas
que, se calhar, até deveriam ser mondadas
à nascença.
Se me explicares porque é que todos os projectos políticos
assentam na bondade do povo
e apontam a felicidade dos homens.
Se me explicares como podem os homens entender-se,
aceitar-se e amar-se
se a sua vida é só representação.
Se me explicares como é que nestas condições
valerá de alguma coisa dizer-se
que perante a lei os homens são todos iguais.
Se me provares que as terríveis imagens de seres amortalhados
em pele e ossos e com olhos desmedidamente arrega-lados,
que nos metem em casa às horas mais inconvenientes
mais não pretendem do que alertar-nos
para as flagrantes desigualdades do mundo.
Se me disseres porque é que tão arrepiantes despojos
são ferozmente disputados entre hienas e abutres
nas cadeias de televisão,
que as retocam e recompõem com música de fundo,
se necessário for,
para voltar a servir e a repetir até à saturação.
Se me provares que este jogo não tem qualquer maldade
e não almeja a vulgarização destas
dramáticas situações,
nem induzir ideias de uma inferioridade natural
ou de ainda mais preversas e recorrentes inter- – pretações
da teoria da evolução,
que assim continuará a fazer a selecção.
Se me provares que a ajuda humanitária,
agora estruturada em múltiplas organizações
não é um instrumento da Globalização,
pronta a levar aos indigentes do mundo,
em bons empregos e exóticas excursões,
o vomitado dos ricos, para os quais,
sem pobres, não haveria sossego de consciência
nem para a alma salvação..
Se me provares que a melhor maneira de ajudar
ainda é dar,
e não como o Grande Timoneiro
não se cansava de ensinar.
Se me provares que a caridade é melhor que a solidariedade,
sabendo nós que esta não amesquinha nem degrada,
porque assenta nos princípios da igualdade,
não faz curvar o corpo e baixar a cabeça,
com que se hipoteca a dignidade.
Se me provares que Deus, a Natureza
ou seja lá o que for que trata destas coisas,
a uns deu inteligência, força de vontade e determinação
e a outros não.
Se me disseres que o tráfico de drogas e mulheres
é um sucedâneo natural da livre iniciativa,
da vida em liberdade e da sociedade da abundância.
Se me disseres que Aquele que controla o mais pequenino dos
meus cabelos
nada pode sobre a vontade dos homens
e eu te disser que um Deus assim não me serve
para nada,
e tu ficares calado.
Digas-me tu o que disseres,
e por muito que nos possa custar,
eu te direi que pior que derrubar o
World Trade Center
com tudo e todos os que ali se cruzaram com o azar,
ainda é violar uma criança.
Se me disseres, provares e explicares
isto e o mais que falta para tudo,
Então, ainda menos ficarei a entender do mundo.
a) Diamantino Silva Out2001
A paranóia religiosa e o obscurantismo não têm limites. Nem podem ter, já que estão intimamente ligados.
O “Jornal de Notícias” de hoje (2007/08/10) chama à primeira página, na sua edição impressa, uma reportagem acerca da violência doméstica, com o subtítulo “Deus não quis que eu morresse”. Remete o leitor para o interior do jornal.
A folhas tantas, uma tal “Margarida” (nome fictício) revela factos que já não deviam existir num país que se pretende civilizado. Agressões diárias e violentas, por parte do marido. Enfim, nada de especial, nada a que não estejamos habituados. Acaba por, até, nem ter as honras de notícia, embora esta se justifique por estarmos na chamada “silly season” ou, em português decente, estação parva,
Mas, a certa altura do deu depoimento, “Margarida” desabafa (julgo que em tom agradecido, mas isso sou eu a julgar):
“Tenho consciência de que se ele não me matou foi mesmo porque Deus não quis, porque o homem às vezes parecia o demónio em pessoa…”,
Vamos ler devagar, porque esta frase tem pano para mangas. “Deus não quis” que o marido a matasse; mas não mexeu um dedo para evitar a dose diária de agressões. Teve poder para evitar a morte, mas não o usou para evitar as agressões. Ou seja, presume-se que “não quis” que a “Margarida” morresse, mas “quis” (por omissão) que o marido a agredisse diariamente. Pelo menos, permitiu. Isto porque Deus tinha conhecimento dos arraiais diários de pancada, a julgar pela expressão” se ele não me matou foi mesmo porque Deus não quis”.
No Alto Douro, mais concretamente na região de Vila Real, corre um ditado que diz Matar, só Deus e os de Abaças – mas com licença dos de Guiães. O que me leva a presumir que o marido não era de Abaças nem tinha pedido licença aos de Guiães. E Deus não quis deixar os créditos por mãos alheias. Tareia diária, vá lá… Matar??? Náááá! Só Ele e os de Abaças (mas com licença dos de Guiães, para que conste). Suponho, aliás, que Deus, na Sua infinita sabedoria, não quis contradizer as sábias palavras de um clérigo nosso conhecido (ver aqui).
Com deuses destes, para que serve o Demónio? Não seria melhor mandá-lo para o desemprego?
José Moreira in «À moda do Porto»
As teocracias são assim. Ditatoriais e limitadas à sua exclusividade.
Embora digam, as monoteístas, que só há um deus, e isso poderia significar a concordância para apurarem os pontos em comum e deixarem de fazer guerras hediondas e com vítimas laicas e outras, do clero ou monges, todas escusadas, que depois são nomeadas sacrificiais, mártires e abençoadas no conceito que habitam a eternidade celestial…
Não podem fugir a isso: obrigar crentes e muitos dos não crentes, às obrigações da aprendizagem dos seus credos, nas escolas, a expensas do estado, o que aumenta em muito o leque da sua influência, detectando onde podem minar consciências e, por outro lado, de algum modo, exercendo a “santa” lavagem cerebral… O clero e apaniguados vêm aumentados os seus réditos, o seu poder económico, mas, de facto, o que mais querem é a influência directa sobre as gentes num garrote permanente!
Deus é um fito emblemático (todo poderoso) mas quem se vai governando são os credos na figura das suas igrejas.
Quem tem o poder, sendo crente apaniguado, como pode defender o laicismo e entender a sua importância social e estruturante duma democracia autêntica?
É necessário lutar por isso sobretudo num estado que se diz democrático!
a) GT
Dissertação sobre a guerra santa…
Se não tivessem sido inventados
tantos deuses
os homens seriam mais justos
ou, como tu ainda continuas a acreditar,
se eles realmente existem
num qualquer desconhecido Olimpo
então, é porque não souberam
resguardar os seus crentes
das espadas e das bombas
quando contrataram profetas e patriarcas
e todos os clérigos encartados
para fazerem a guerra santa em seu nome.
Alexandre de Castro
Lisboa, Agosto de 2008
Após quatro anos de estudos, Ana Maria de Almeida, de 26 anos, tornou-se a primeira sacerdotisa do Brasil. Ela foi ordenada, no último domingo (3), no salão da comunidade carismática da capela de São Lázaro, localizada na região metropolitana de Belo Horizonte. (Leia mais…)
Comentário: A profissão é tão pouco recomendável como a atitude do Vaticano.
A Igreja Ortodoxa quer manter o ensino da religião obrigatório no ensino primário e no secundário.
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