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1 de Março, 2010 Carlos Esperança

Laicidade – uma exigência ética

Desistir do carácter intransigentemente laico do Estado é comprar a paz a curto prazo e fomentar a guerra no futuro. Confiar aos clérigos a defesa da tranquilidade pública é dar aos transgressores os meios para subverter a lei e comprometer a liberdade. Mudar de paradigma é estimular o desafio às instituições republicanas e enfraquecer a democracia.

A religião não se impõe por tratados nem a propagação da fé se confia aos Estados. A Concordata, não pode ser um tratado de Tordesilhas que submeta à órbita do Vaticano um país a que a Cúria trace o meridiano.

O proselitismo é comum ao cristianismo e ao islamismo. Ambos querem impor o único deus verdadeiro – o seu –, e a vontade divina aclarada pelo clero. Ambos aspiram à globalização, exigindo o exclusivo. Odeiam-se mutuamente e não toleram a indiferença agnóstica ou a animosidade ateia. Há, nos dois, e nas seitas que nascem uma vocação totalitária.

É na herança humanista da Revolução Francesa que assentam o laicismo e a democracia. Por isso tantos se afadigam tanto a denegrir o laicismo como se este não fosse a vacina que permite conter os vários «ismos» religiosos que se digladiam e a via para responder à onda de provocações que os crucifixos e os véus se esforçam por atiçar.

Só a laicidade e a secularização podem conter o proselitismo e garantir a diversidade religiosa. O Estado democrático tem de ser firme na sua defesa.

A Constituição de 1933, do «país tradicionalmente católico», deu lugar à actual, omissa em referências religiosas. A experiência demonstra que há hoje liberdade religiosa, que não havia, incluindo a ICAR que se emancipou da tutela do Governo. No Estado Novo a nomeação dos bispos estava dependente da aprovação do Governo.

28 de Fevereiro, 2010 Carlos Esperança

Considerações sobre o ateísmo (5)

Nenhum acto bom é exclusivo dos religiosos e, para se  ser bom e ter valores, a religião é escusada. Mas, facilmente vemos actos e valores condenáveis associados a práticas religiosas, desde sacrifícios humanos e da Inquisição até aos ataques bombistas e à mutilação genital feminina. Em síntese, afirmou que a fé é inútil para se ser bom e é a causa de muitos actos condenáveis. Referiu boas razões para um ateísmo combativo: a persistência das superstições que impedem mais justiça, as tentativas obstinadas das religiões para interferirem na política das democracias e o islamismo radical que designou como fascismo islâmico.

Diariamente vemos condenações à morte por adultério em países islâmicos, a absoluta ausência de liberdades das teocracias, bem como os inúmeros interditos do catolicismo romano a proibir o planeamento familiar, o divórcio e o uso do preservativo em países dizimados pela Sida.

Não esqueçamos o que leva as pessoas a crerem em Deus: não são os argumentos mas, quase sempre, o hábito de o fazer desde criança. É essa tradição que, a ser quebrada, conduzirá o fenómeno religioso para nichos pouco relevantes. Mas, antes, é preciso erradicar os constrangimentos sociais e as severas punições que as teocracias ainda têm força para levar a cabo.

28 de Fevereiro, 2010 Carlos Esperança

Considerações sobre o ateísmo (4)

O medo do ateísmo e a força da palavra fez nascer, em 1866, a Liga Nacional Contra o Ateísmo. A «Guerra a Deus» foi o grito de revolta de Paul Lafargue em 1865 e, em 12 de Maio de 1870, Gustave Florens escreve num artigo de «La Libre Pensée»: “O inimigo é Deus, essa espantosa mentira que, desde há seis mil anos, irrita, embrutece e humilha a humanidade”. É curiosa a observação de Ferdinand Buisson, referindo «aqueles que, no fundo, têm medo das palavras e que, sem se saber porquê, não pronunciam a palavra ‘ateísmo’ como qualquer uma outra» .
(Isto será particularmente compreendido por aqueles que viveram na ditadura salazarista e sabem como, mesmo em família, se pronunciavam as palavras PIDE, comunismo ou maçonaria).

Convém recordar que, nos finais do século XIX, era preciso guardar os moribundos ateus para evitar que os padres entrassem e lhes aplicassem a unção, para dizerem aos crentes que o ímpio se arrependeu à hora da morte. Não lhes bastava o medo que incutiam, não renunciavam à desonra de quem tinha uma pituitária avessa ao incenso e a pele alérgica à água benta, farejando a morte e pressionando a família. Foi assim que o ateu Émile Littré foi atacado com dois sacramentos à hora da morte, baptismo e extrema-unção, para gáudio do clero que se vangloriou, perante a cólera dos livres-pensadores de que se fez eco «L’Anticlérical» que intitulou um artigo, em 11 de Junho de 1881: «Mais um cadáver roubado. Mais uma infâmia que os padres acabam de cometer».

Christopher Hitchens, numa magnífica conferência realizada na Casa Fernando Pessoa, em 18 de Fevereiro p. p., em sintonia com o seu livro «deus não é grande», sustentou que a religião envenena tudo, quer pelos seus efeitos quer pelos seus princípios.

28 de Fevereiro, 2010 Ricardo Alves

Inteligência e ateísmo

Um estudo estatístico mostrou uma correlação entre o ateísmo e ter um QI mais elevado.

Honestamente, não sei se o estudo tem grande significado (as diferenças são pequenas).