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6 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

Domingo de verão (Crónica)

Veio ameno este primeiro domingo de agosto com os corpos a aliviarem-se da roupa e dos preconceitos, mais recetivos às hormonas do que aos pios ensinamentos da Igreja.

As praias regurgitam de gente que, adorando o sol, procuram a sombra, divinizando a virtude se entregam ao vício, fazendo a apologia dos bons costumes se dão à relaxação, procurando nos corpos apetecidos o êxtase que o tato, a visão e o paladar propiciam.

Não há conselhos pios, homilias devotas, jejuns ou penitências que refreiem a louca sofreguidão do amor, rolando por entre rochas através da areia, corpos fundidos num arrebatamento, línguas sequiosas em busca da transfusão de saliva que, em vez de os aquietar, excita, partindo em busca de outras descobertas e novos fluidos.

Andam os padres um ano inteiro a pregar a castidade, as delícias do Céu e os castigos de Deus e vêm as hormonas, como tsunami fortuito, a ofender a moral e os bons costumes. Ficam as sotainas a apanhar mofo com padres dentro, desertas as sacristias com a água benta a cultivar bactérias e as igrejas abandonadas ou como meros adereços para fotos de casamentos.

As religiões inventaram deuses avessos ao prazer, alérgicos ao sexo e à carne de porco, seres misóginos que desconheciam a psicologia humana e o êxtase dos sentidos. É por isso que cobrem de ridículo os seus padres, a pregarem a moral para maiores de oitenta anos, enquanto nos cafés, esplanadas, jardins, campos e praias, corpos à solta partem em busca de outros, com mãos ágeis, fino olfato, olhos vivos e paladar guloso, percorrendo a geografia do prazer numa louca correria de quem sabe que a vida é breve e irrepetível.

5 de Agosto, 2012 José Moreira

A religião verdadeira

De vez em quando, aparecem por aqui uns comentadores – normalmente católicos – que garantem que a sua religião é a verdadeira, e que todas as outras não passam de seitas. Não sei muito bem em que se baseiam para pronunciar tal afirmação, mas permito-me afirmar que estão enganados. Na minha opinião, todas – eu disse todas – as religiões são verdadeiras. A religião católica é tão verdadeira como a islâmica, a judaica, a umbandista , a hindu, a adventista, a pentecostal, etc, não vale a pena enumerá-las todas. As religiões são tão verdadeiras como os clubes de futebol ou os  partidos políticos, por exemplo. E são verdadeiras, por uma razão simples: porque, tal como os clubes de futebol ou os partidos políticos, as religiões existem, as respectivas existências são facilmente comprováveis.

Quanto aos fundamentos ou origens das religiões… bom, aí a conversa muda de sentido. Mas ficará para outra ocasião, se disso for caso.

Por isso, afirmar que “a minha religião é a única verdadeira” não passa de um exercício de arrogância que, aliás, nem tem bases em que se sustentar.

5 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

Carta de autor desconhecido

Carta a Laura Schlessinger

Isto já se passou há alguns anos, de qualquer forma:

“Laura Schlessinger era conhecida locutora de rádio nos Estados Unidos. E tinha um programa interativo que dava respostas e conselhos aos ouvintes que a chamavam pelo telefone.

Uma vez, interpelada sobre a homossexualidade, a locutora disse que se tratava de uma abominação, pois assim o afirma a Bíblia no livro do Levítico 18:22.

Um ouvinte escreveu-lhe uma carta, cuja tradução vai a seguir:

Querida Dra. Laura:

Muito obrigado por se esforçar tanto para educar as pessoas segundo a lei de Deus.

Eu mesmo tenho aprendido muito no seu programa de rádio e desejo compartilhar os meus conhecimentos com o maior numero de pessoas possível.

Por exemplo, quando alguém se põe a defender o estilo homossexual de vida eu limito-me a lembrar-lhe que o Levítico, no capítulo 18, versículo 22, estabelece claramente que a homossexualidade é uma abominação. E ponto final.

Mas, de qualquer forma, necessito de alguns conselhos adicionais de sua parte a respeito de outras leis bíblicas concretamente e sobre a forma de as cumprir:

1)      Gostaria de vender a minha filha como serva, tal como indica o livro do êxodo 21:7. Nos tempos em que vivemos, na sua opinião, qual seria o preço adequado?

2)      O livro do Levítico 25:44, estabelece que posso possuir escravos, tanto homens como mulheres, desde que sejam adquiridos de países vizinhos. Um amigo meu afirma que isso só se aplica aos mexicanos, mas não aos canadianos. Será que a Sra. poderia esclarecer esse ponto? Porque não possuir escravos canadianos?

3)      Sei que não estou autorizado a ter qualquer contacto com mulher alguma no seu período de impureza menstrual (Lev. 19:19, 20:18, etc.). O problema que se coloca é o seguinte: como posso saber se as mulheres estão menstruadas ou não? Tenho tentado perguntar-lhes, mas muitas mulheres são tímidas e outras sentem-se ofendidas.

4)      Tenho um vizinho que insiste em trabalhar ao sábado. O livro do êxodo 35:2., claramente estabelece que quem trabalha aos sábados deve receber a pena de morte. Isto quer dizer que eu, pessoalmente, sou obrigado a matá-lo? Será que a Senhora poderia, de alguma maneira, aliviar-me dessa obrigação aborrecida?

5)      No livro do Levítico 21:18-21 está estabelecido que uma pessoa não se pode aproximar do altar de Deus se tiver algum defeito na vista. Tenho de confessar que preciso de óculos para ver. A minha acuidade visual tem de ser de 100% para que eu me aproxime do altar de Deus? Será que se pode abrandar um pouco essa exigência?

6)      A maioria dos meus amigos homens têm o cabelo cortado, muito embora isto seja claramente proibido em Levítico 19:27. Como é que eles devem morrer?

7)      Eu sei, graças a Levítico 11:6-8 que quem tocar na pele de um porco morto fica impuro. Acontece que jogo futebol americano, cujas bolas são feitas de pele de porco. Será que me será permitido continuar a jogar futebol americano se usar luvas?

8)      O meu tio tem uma granja. Ele deixa de cumprir o Levítico 19:19, pois planta dois tipos diferentes de sementes no mesmo campo, e também a sua mulher deixa de cumprir pois usa dois tipos de tecidos diferentes, a saber, algodão e poliéster. Além disso, ele passa o dia proferindo blasfémias e maldizendo-se. Será que é necessário levar a cabo o complicado procedimento de reunir todas as pessoas da vila para apedrejá-lo? Não poderíamos adotar um procedimento mais simples, que seria o de queimá-lo numa reunião privada, Como se faz com um homem que dorme com a sua sogra, ou uma mulher que dorme com o seu sogro (Levítico20:14)?

Sei que a Sra. Estudou estes assuntos com grande profundidade de forma que confio plenamente na sua ajuda.

Obrigado novamente por nos recordar que a palavra de Deus é eterna e imutável.”

5 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

ATEUS, RELIGIOSOS E TASCAS (2.ª parte)

Por lapso meu, de que peço desculpa aos leitores, faltou a parte final deste post que agora completo.

Por

ONOFRE VARELA

Provavelmente mal comparado, direi que ser-se hetero ou homossexual, é com cada um, e ninguém deve ser louvado ou punido pela sua escolha. O importante é que se encontre felicidade e razão de viver naquilo que cada um é, e que, em consciência, escolheu ser. A condição filosófica de se ser religioso ou ateu, é igualmente livre, e os dois pontos de vista são, do mesmo modo, defensáveis, desde que tomados em consciência e em idade adulta, sem imposições em idades tenras.

Não é contra estes “religiosos-militantes-de-base”, consumidores fervorosos de missas, que os ateus se manifestam (embora tentem alertá-los para a inexistência real de Deus, para além da ideia que é); mas sim contra as atitudes prepotentes dos bispos, quando querem impor conceitos religiosos a uma sociedade laica. É aí que os ateus têm de se defender, e muitas vezes o ataque é a melhor defesa. O que é estratégia.

Eu, enquanto ateu, não critico (no sentido agressivo) quem adora Deus, mas estou frontalmente contra quem explora os crentes, servindo-se do
conceito de Deus como arma apontada à consciência dos religiosos continuamente explorados desde há milénios. Entretanto os exploradores
rodeiam-se de mordomias e conquistam importância e estatuto social.

Do mesmo modo também não tenho nada contra quem tem necessidade de vender o seu ouro neste tempo de crise, mas já tenho tudo contra
aqueles que compram ouro ao mais baixo preço, governando-se, como abutres, com a miséria e a necessidade do próximo.

Mas, aqui chegado, também posso fazer um exercício de raciocínio, colocar-me do outro lado, e interrogar-me de um outro modo:
Todos os agentes religiosos devem ser tomados como desonestos só porque acreditam em Deus, o que para mim é uma mentira?
Serão, todos eles, uns refinadíssimos vigaristas vendedores do conceito de Deus (que é burlista) e de espaços paradisíacos no céu?
Ou estarão, muitos deles (se calhar a totalidade), plenamente convencidos do desempenho honestíssimo de missões de elevado valor moral e social nas comunidades onde se estabelecem?

Se estiverem convencidos disso, continuam a ser vigaristas e exploradores? Nos países africanos miseravelmente (des)governados por ditadores, as missões religiosas são a única esperança para os povos despossuídos famintos e doentes. Neste contexto, as acções dos religiosos (católicos e protestantes), sempre executadas em nome de Deus, são desonestas?

Transpondo estas interrogações para a política:
Quem, no Parlamento, tem mais razão? O Governo ou a Oposição? E quando invertidos os papeis? Quem é o detentor da razão? Deixa de a ter quem a tinha e passa a tê-la quem a não tinha?!

Bom… se calhar isto já é assunto para uma tese de doutoramento…

3 de Agosto, 2012 Ludwig Krippahl

A fé, adenda.

A propósito do post anterior, o leitor rage comentou que «o apego às […] crenças, a convicção do seu valor, mesmo quando injustificado» é comum em todos os humanos, não apenas nos fiéis de alguma religião, mencionando também a « necessidade em ciência de realizar testes com grupos de controlo para estabelecimento de baselines, e/ou com ocultação, para prevenir interpretações oblíquas dos resultados» (1). Tem razão, e é um ponto importante, mas a minha intenção não era alegar que só quem tem fé é que está sujeito a este erro.

Alguma subjectividade é inevitável quando formamos uma crença, mesmo acerca de factos, porque temos de escolher onde pomos a fasquia do nosso cepticismo. Se é a uma confiança de 95%, como em muitos ensaios clínicos preliminares, ou a cinco sigma como na física de partículas, é uma decisão maioritariamente subjectiva. Mas há sempre um ponto a partir do qual o peso das evidências é suficientemente forte para reconhecemos que é erro defender uma opinião contrária. É um erro que todos podemos cometer; mesmo perante evidências fortes podemos ser pressionados por factores epistemicamente irrelevantes mas emocionalmente persuasivos. No entanto, é algo que reconhecemos como um erro e, por isso, em ciência temos a preocupação de o combater. Não só com que o rage mencionou, mas também formulando várias hipóteses em vez de considerar uma isolada, com a revisão pelos pares e a descrição cuidadosa dos métodos para confirmação independente, a crítica aberta e pública e assim por diante.

O que sobressai na fé religiosa é considerar que, para certas hipóteses acerca de um deus ou de escrituras sagradas, esse enviesamento que em tudo o resto se reconhece ser erro afinal é virtude. Quem não for criacionista percebe que acreditar numa criação em seis dias há poucos milhares de anos é teimosia fanática. Quem não for católico vê que é absurdo julgar o Papa infalível, seja no que for. Quem não for hindu ou budista reconhece que a crença na reencarnação não tem fundamento. Mas para o seguidor de uma religião manter as respectivas crenças é mais importante do que corrigir esse erro que é óbvio para os outros, e que até é óbvio para o próprio quando contempla as crenças dos outros.

1- A fé.

Em simultâneo no Que Treta!