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3 de Março, 2013 David Ferreira

TEMPESTADE

De Norte a Sul, de Este a Oeste, o mundo estremece e convulsiona-se, mostrando as garras ao poder desmesurado que o silêncio e a inércia permitiram ascender sem questionar.

Os deuses inventados também se reinventam diariamente e reencarnam em perniciosas figuras bípedes que se insinuam como portadores de uma verdade obscura que concederá a salvação por intermédio do encarceramento do espírito e da maceração do corpo.

Mas há sempre quem resista, quem esteja disposto a lutar contra todos os deuses, sejam eles imateriais ou de carne e osso, pela verdade, pela liberdade, pela justiça, contra tudo e contra todos os que pretendem assassinar cobardemente o direito a sermos o que nascemos: homens livres!

A todos os que lutam, a minha homenagem:

 

   TEMPESTADE

 

Tu e eu seremos juntos a tormenta,

A pele da noite a recitar trovões

Sobre a cidade adormecida

À beira-medo.

 

E aguçaremos os gumes dos nossos raios

Nesses sonhos inquietos e dormentes

Que atormentam as pessoas indolentes.

 

Juntos, tu e eu seremos a mensagem de revolta,

Arautos de tumultos por haver

No despertar tardio das consciências hibernadas.

 

Tu e eu seremos frios como as espadas

Dos heróis mumificados no bolor dos livros ancestrais,

Lentamente a invernar no cemitério das estantes.

 

Juntos, tu e eu seremos a palavra apetecida,

A sede interrompida

A chover torrencialmente sobre os lábios desertificados

Dos que se calaram.

 

Juntos, tu e eu seremos a coragem

Dos que não ousaram!

 

David Ferreira

3 de Março, 2013 David Ferreira

O Velho Novo Testamento e a misoginia

1 Coríntios 14: 34-35

Bíblia Sagrada, Edição Pastoral:

“Que as mulheres fiquem caladas nas assembleias, como se faz em todas as Igrejas dos cristãos, pois não lhes é permitido tomar a palavra. Devem ficar submissas, como diz também a lei. Se desejam instruir-se sobre algum ponto, perguntem aos maridos em casa; não é conveniente que as mulheres falem nas assembleias.”

Comentário teológico: “Parece que as reuniões da comunidade de Corinto eram muito desordenadas. Ninguém pedia a palavra, vários falavam ao mesmo tempo e em tudo isso talvez sobressaíssem as mulheres.”

 

Comentário ateu: Parece que os discernimentos teológicos das comunidades de apologistas cristãos continuam bastante desordenados. Todos pedem a palavra obedientemente, cada um fala na sua vez ordeiramente e em tudo isso sobressai o descaramento indecoroso de quem persiste em cultivar a ablepsia do rebanho como forma de inocentar a misoginia, a morbidez e o terror psicológico que ulceram penitente e transversalmente os irracionais e intolerantes escritos cristãos.

Uma mulher cristã é um paradoxo enigmático que só a incultura, o excesso de paixão e sentimento desregulado, uma irracional aceitação do sofrimento como parte integrante da sua condição, ou a falta de uma simples e exigida leitura crítica e imparcial dos escritos que estão na génese da sua crença pode tornar compreensível.

2 de Março, 2013 Carlos Esperança

A burca, a lei e a liberdade religiosa

O fracasso da civilização árabe exacerba o fundamentalismo islâmico que contamina os países não árabes, como o Irão e a Turquia, atingindo a Europa, EUA e África.

Em nome da liberdade religiosa poder-se-á dizer que falta legitimidade às democracias para proibir os símbolos identitários mas, em nome da liberdade, deverão ser proscritos os símbolos da submissão de género, situação agravada pelo facto de se saber que, por cada mulher que pretende usar a burca, há centenas a quem é imposta.

De menor importância, embora, a lei que impede o uso de máscaras na via pública, por razões de segurança, devia ser suficiente para impedir tais adereços que, para além de discriminarem as mulheres, são um embaraço à identificação pessoal para prevenção e apuramento de autores de crimes.

Depois da proibição francesa, belga e holandesa, a discussão continua em vários países europeus e a proibição ordenada por 13 municípios espanhóis, sofreu um revés legal, no Supremo Tribunal, contra o município de Lleida, o primeiro em Espanha a proibir o uso da burca e do niqab. O Supremo argumenta que o princípio que proíbe o véu integral só pode ser feito através de uma lei, como indicado pela Constituição espanhola, uma vez que é uma limitação ao exercício de um direito fundamental (a liberdade religiosa).

Sem debater a argumentação cujo fundamento é discutível, ressalta a necessidade de se legislar, não a nível autárquico, mas a nível nacional. A Europa sabe que a liberdade de que frui foi conseguida com a repressão do proselitismo clerical. A Guerra dos 30 Anos (1618/1648) não pode ser esquecida, nem o sangue aí vertido, até à paz de Vestefália.

Dominado o totalitarismo católico que apenas viria a reconhecer a liberdade religiosa no concílio Vaticano II, não podemos permitir que o fascismo islâmico destrua a mais bela conquista civilizacional – a igualdade de género.

Já basta que nos países reféns do Islão não sejam permitidas outras religiões e a pena de morte seja ainda o castigo para a apostasia, um direito indeclinável de qualquer cidadão.

A má consciência do colonialismo europeu não pode condescender com anacronismos.

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28 de Fevereiro, 2013 Carlos Esperança

As últimas horas de um papa sobrevivente

Algures, em Castel Gandolfo, já sem os sapatinhos vermelhos, sem tiara nem camauro, mantem ainda a vida e o pseudónimo de Bento XVI, Joseph Ratzinger, um celibatário a quem alguém se encarregará de fechar hoje a conta do twitter.

Dentro de uma hora perde a infalibilidade e o alvará para criar santos e cardeais e no dedo nu vai sentir a falta do anel que estendia aos ósculos dos beatos e dos que agora se guerreiam pela sua sucessão.

O papamóvel e a guarda suíça deixaram de pertencer-lhe e quando regressar à boleia ao Vaticano vai para a clausura do convento sem crentes a quem dar a bênção nem poderes para confirmar milagres. É a vida. Preferiu ser papa emérito vivo do que defunto santo.

A esta hora andam os teólogos – cientistas de uma ciência sem método nem objeto –, a tentar justificar como se perde a infalibilidade e o alvará perpétuo de Papa porque, de ciência certa, se sabe que, depois de Avinhão, nunca mais houve papas excomungados nem clonados. Deus não se deixa representar por mais de um figurante.

Entre lágrimas dos que foram habituados a acreditar desde o berço e a estupefação dos incréus, na sombra manobram a Opus Dei, os Legionários de Cristo, a Fraternidade de Comunhão e Libertação e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), esta ainda na clandestinidade. A extrema-direita não dorme. Isso é para Deus que, depois de ter feito o Mundo – como acreditam os devotos –, nunca mais deu sinal de vida.

A Quaresma é longa e Cristo – estrela da Companhia –, pode esquecer-se de ressuscitar.

28 de Fevereiro, 2013 Carlos Esperança

Notas pias

Irlanda – O pedido de perdão do primeiro-ministro, emocionado com o suplício de dez mil mulheres escravizadas em lavandarias da Igreja católica, entre 1922 e 1966, foi a reabilitação possível das vítimas de gravidez indesejada, deficiência, pobreza ou crimes como andar de autocarro sem pagar bilhete.

Itália – A renúncia papal acabou por desinteressar muitos italianos das eleições em curso. O apoio do Vaticano, que tinha sido transferido de Berlusconi para Monti, foi um fracasso. A intriga ficou reservada à luta interna pela sucessão do pontífice.

Vaticano – A renúncia de Bento XVI ao pontificado, com efeitos a partir de hoje, fez dele o primeiro papa, desde há 600 anos, a sair vivo do cargo. Perdeu o direito aos sapatinhos vermelhos, à tiara, ao camauro e o alvará para criar santos e cardeais.

Tunísia – O funeral do líder da oposição ao governo saído da “primavera árabe”, transformou-se numa gigantesca manifestação contra o partido islamita que domina o país, responsável pelo seu assassinato. O Islão e a democracia continuam incompatíveis

28 de Fevereiro, 2013 Carlos Esperança

É a vida … (2)

Há quase 600 anos que nenhum papa via o entusiasmo com que lhe disputam a sucessão.