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  • 5 de Maio, 2010
  • Por Carlos Esperança
  • Vaticano

Cumplicidade de Ratzinger

Dois antigos seminaristas mexicanos foram ao Vaticano em 1998 para reportar pessoalmente sobre um caso que envolvia décadas de abuso sexual por um dos mais poderosos líderes da Igreja Católica, o reverendo Marcial Maciel Degollado.

Quando partiram, encontraram o homem que um dia teria o destino de Maciel em suas mãos, o cardeal Joseph Ratzinger, e beijaram-lhe o anel. O encontro não aconteceu por acaso. Ratzinger queria conversar com eles, de acordo com declarações posteriores de testemunha, e o caso que apresentaram não demorou a ser aceito.

Contudo, pouco mais de um ano depois, surgiu a notícia de que Ratzinger – o futuro Papa Bento XVI – havia suspendido a investigação. “Não é prudente”, ele havia dito a um bispo mexicano, de acordo com duas pessoas que conversaram com o bispo posteriormente.

10 thoughts on “Cumplicidade de Ratzinger”
  • Guilhotina

    Sou a viúva de Degollado!!!

  • antoniofernando

    Os casos que se vão amontoando sobre o silenciamento de Joseph Ratzinger parecem apontar no sentido da sua directa responsabilidade no encobrimento dos abusos sexuais de menores por padres católicos. Li com atenção a notícia do New York Times e não deixa também de ser eloquente a omnipresença dessa figura estranha chamada Cardeal Sodano. O mesmo que ousou referir-se a este enorme escândalo da ICAR com o seguinte comentário, durante a habitual missa pascal deste ano: “Está consigo todo o povo de Deus, que não se deixa impressionar pelos mexericos do momento…” Só por autismo ou insensibilidade intoleráveis é que alguém se pode referir a este devastador escândalo como ” mexericos de momento”. Cristo está nos antípodas deste comportamento. Isto nada tem a ver com a Doutrina de um Homem que apregoou o altruísmo e a defesa dos mais pobres e indefesos.E que pagou com a Sua vida esse arrojo. Que qualificou de forma muito contundente aqueles que ofendessem as crianças.Ex- católico, custa-me ver a ICAR assim representada e lamento imenso a morte prematura desse grande papa chamado João Paulo I. Com ele talvez a ICAR tivesse seguido um caminho bem mais aproximado da genuína ética cristã. Bento XVI, enquanto responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé foi bem lesto a sancionar comportamentos contestatários de muitos sacerdotes que deram o melhor de si à causa dos injustiçados, de que o processo censóriol a Leonardo Boff foi um caso chocante e paradigmático. Mas muitos mais como ele foram inquisitorialmente sancionados por Joseph Ratzinger.Não fico feliz pelo rumo da ICAR, apesar do meu distanciamento ideológico, que há muito aconteceu.Considero que a Igreja Católica criou,em muitos pontos, uma ficção abusiva dos princípios teológicos do Cristianismo. E já seria tempo de Bento XVI assumir uma conduta humilde e institucionalmente responsável por tudo quanto de tão grave aconteceu neste escândalo de proporções gigantescas. Responsável também no que à sua própria ” mea culpa” respeita. Infelizmente, permanece surdo a todos os clamores. E avança intrepidamente para o descalabro da ICAR.Quando os católicos sinceros verificarem o logro a que estão a ser conduzidos talvez seja já tarde de mais. Porventura quando acordarem desta letargia ruinosa já a ICAR se terá transformado na seita que Hans Kung antecipou…

  • Baal

    Grande coisa. Não passa de mais um caso típico. Toda a gente sabe isso. O vaticano, a começar pelos papas sempre praticou a mesma política, que era a tradicional da igreja, desde à séculos. Simplesmente agora, finalmente, a igreja parece estar a perder o domínio dos meios de comunicação, da política e dos tribunais. Coisas que toda a gente sabia mas eram caladas, com medo da igreja, agora começam a ser tratadas como se se tratasse de outra instituição qualquer.

    Só tenho pena que o escândalo do apoio da igreja às ditaduras sul-americanas, a meu ver muito pior, se tenha dado noutra época, quando as coisas eram simplesmente abafadas. Infelizmente nunca veremos a igreja ser chamada ás suas responsabilidades nesse caso. Hoje já não se safavam tão facilmente. Sorte do JPII que vai ser canonizado apesar de ser um dos maiores responsáveis quer do apoio às ditaduras quer do escândalo do encobrimento.

  • sempapasnalingua

    Para o Antoniofernando
    “Cristo está nos antípodas deste comportamento. Isto nada tem a ver com a Doutrina de um Homem que apregoou o altruísmo e a defesa dos mais pobres e indefesos.E que pagou com a Sua vida esse arrojo. Que qualificou de forma muito contundente aqueles que ofendessem as crianças.”

    Apraz-me ler comentários de cristãos sensatos como tu.
    Finalmente como ateu,direi mesmo “cristão-ateu” na acepção de André Compte-Sponville, reconheço-me nesse cristianismo ético, social, pacífico, políticamente laico, isnspirador do que veio a ser a DHDH. Mais ainda, há quem pretenda mesmo que o cristianismo inicial comporta em si a saída da religiosidade das sociedades.(Assunto a abordar o dia que eu tiver tempo de encontrar documentação e as referências que já me passaram sob os olhos)
    Há correntes na comunidade cristã, mais optimista que tu (para alguma coisa a infelicidade é boa) que apelam para a refundação do cristianismo e um retorno ao cristianismo primitivo, aos seus fundamentais, onde a figura de Jesus aparece como um homem sem qualquer atributo de divindade e alheio a fenómenos milagreiros.
    Estou a escrever isto muito rápidamente, não terei tempo para mais, mas espero ter a oportunidade de abordar este assunto futuramente.
    Digo ainda que embora duvidando da realidade temporal de J Cristo, não me incomoda e acho positivo que a sociedade tome como referência este tipo de figuras reais ou ficcionais, pouco importa, e sempre é mais construtivo para uma sociedade humana que se deseja fraterna, pacífica, igualitária e mais justa,a referência a valores genuinamente cristãos do que a referência a valores políticos como um outro icone também muito venerado como é Che Guevara.
    Sinceros cumprimentos da Eurábia com amor.

    ps

    “Ex- católico, custa-me ver a ICAR assim representada e lamento imenso a morte prematura desse grande papa chamado João Paulo I. Com ele talvez a ICAR tivesse seguido um caminho bem mais aproximado da genuína ética cristã.”
    Foi se calhar por isso e outras coisas que o Vaticano o envenenou.

  • antoniofernando

    sempapasnalíngua:

    Historicamente, considero que Jesus Cristo foi pessoa real.Citado,nomeadamente, pelo historiador Flávio Josefo, em Testimonium: “Festus estava morto, e Albinus estava viajando; assim ele reuniu o sinédrio dos juízes, e trouxe diante dele o irmão de Jesus, o que era chamado Cristo, cujo nome era Tiago e alguns outros”.Mas, seja personagem real ou ficcionada,a Sua Doutrina foi sempre a evocação dos princípios éticos do altruísmo e da partilha.É certo que,em nome de Cristo, foram praticados os maiores horrores. Mas isso só significa até que ponto pode ir o desvario e a loucura humana. É certo também que Cristo, tal como na perversão das Cruzadas e da Inquisição, foi também invocado para servir de suporte ideológico à apropriação político-teológica de correntes de extrema-direita e aí ficou durante muitos anos catolicamente acantonado. Por mim, bato-me contra esta afunilamento retrógrado da Doutrina de Cristo, que julgo totalmente incompatível com ideários políticos ditatoriais e egoístas. Por isso também um erro estratégico crasso permitir que o Cristianismo seja confundido com a apropriação da extrema- direita tradicionalista e ultramontana. Por isso ainda, refuto que se confunda a ICAR,enquanto conjunto dos seus aderentes, com as hierarquias que momentâneamente os representam. Entre o devasso,corrupto e assassino Papa Bento IX e João Paulo I todo um universo os separa.Como entre Salazar e Aristides Sousa Mendes. Como entre Cardeal Cerejeira e D. António Ferreira Gomes.Da ICAR também provieram nomes como Maria de Lourdes Pintassilgo ou Manuel Carvalho da Silva. É um mundo ideológico vasto e diversificado que não se confunde com o sector minoritário da extrema-direita activa e militante.
    Quanto ao Papa João Paulo I, o primeiro que recusou a entronização formal e se comportava como um padre simples e afável, recordo com saudade os 33 simbólicos dias do seu curto mas grandioso pontificado. Com ele, estou convicto,a ICAR teria caminhado na direcção da genuína Doutrina de Cristo. Se foi ou não assassinado não sei. Que se apresentou como uma voz incómoda contra o escândalo do Banco Ambrosiano,sim.Deus e o Capital não convivem harmoniosamente. Já Cristo dizia que era mais fácil enfiar uma agulha pelo buraco de um camelo do que um rico entrar no reino dos céus….

  • Carpinteiro

    «”Festus estava morto, e Albinus estava viajando; assim ele reuniu o sinédrio dos juízes, e trouxe diante dele o irmão de Jesus, o que era chamado Cristo, cujo nome era Tiago e alguns outros”.»

    Há muito que essa e outras passagens foram desmascaradas por serem uma fraude.
    Flávio Josefo como exemplo, escreveu a história dos acontecimentos judeus na época em que pretensamente Jesus teria existido. Os falsificadores aproveitaram-se então de seus escritos e acrescentaram: “Naquele tempo nasceu Jesus, homem sábio, se é que se pode chamar homem, realizando coisas admiráveis e ensinando a todos os que quisessem inspirar-se na verdade. Não foi só seguido por muitos hebreus, como por alguns gregos. Era o Cristo. Sendo acusado por nossos chefes do nosso país ante Pilatos, este o fez sacrificar. Seus seguidores não o abandonaram nem mesmo após sua morte. Vivo e ressuscitado, reapareceu ao terceiro dia após sua morte, como o haviam predito os santos profetas, quando realiza outras mil coisas milagrosas. A sociedade cristã, que ainda hoje subsiste, tomou dele o nome que usa”.

    Depois deste trecho, passa a expôr um assunto bem diferente no qual se refere a castigos militares infligidos ao populacho de Jerusalém. Mais adiante, fala de alguém que conseguira seus intentos junto a uma certa dama fazendo-se passar como sendo a humanização do deus Anubis, graças aos ardis dos sacerdotes de Ísis. As palavras a Flávio atribuídas são as de um apaixonado cristão.
    Flávio jamais escreveria tais palavras, porquanto, além de ser um judeu convicto, era um homem culto e dotado de uma inteligência excepcional.

    O próprio Padre Gillet reconheceu nos seus escritos, ter havido falsificações nos textos de Flávio, afirmando ser inacreditável que ele seja o autor das citações que lhe foram imputadas. Além disso, as polémicas de Justino, Tertuliano, Orígenes e Cipriano contra os judeus e os pagãos demonstram que Flávio não escreveu nem uma só palavra a respeito de Jesus.

    Estranhando o seu silêncio, classificaram-no de partidário e faccioso. No entanto, um escritor com o seu mérito escreveria livros inteiros acerca de Jesus, e não apenas um trecho. Bastaria, para isto, que o fato realmente tivesse acontecido. Seu silêncio, no caso, é mais eloqüente do que as próprias palavras.

  • Joe

    JP2 foi quase um Pio XII

  • antoniofernando

    Carpinteiro:

    Fui analisar com mais detalhe a polémica suscitada com a alusão que fiz à passagem de Testimonium e verifiquei que efectivamente existem teses contraditórias relativamente à autenticidade ou não da passagem que citei de Flávio Josefo, como assinalarei na parte final desta minha nova intervenção. Você refere que “há muito que essa e outras passagens foram desmascaradas por serem uma fraude.” Para além da alusão que fez do Padre Gillet, pode referenciar outras fontes concretas que refutem a tese da autenticidade das alusões a Cristo, que se atribuem a Flávio Josefo ?

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Testimonium_Flavianum

  • antoniofernando

    Carpinteiro: na sequência do meu anterior comentário, peço-lhe também que indique quem é ou foi o Padre Gillet,de quem nunca ouvi falar,mas admito que realmente possa existir ou ter existido e não ser uma mera invenção dos contestatários da autenticidade histórica de Jesus de Nazaré …:-)

  • antoniofernando

    Provas históricas da existência de Jesus Cristo ( para além da expressa referência de Flávio Josefo, cuja citação mantenho por não ter sido cabalmente desmentida por nenhum hipotético Padre Gillet):

    a) Evangelho de S. Marcos, cuja autoria e veracidade foi reconhecida por Pápias de Hierápolis ( 70 a 140 D.C. ) e discípulo directo do Apóstolo S. João Evangelista:

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Evangelho_segundo_

    b) Cartas de Paulo de Tarso ( que conheceu pessoalmente S. Pedro e os restantes apóstolos de Cristo):

    http://www.capuchinhos.org/biblia/index.php?tit

    c) Papiro 52 ( reconhecido como o mais antigo fragmento do Evangelho de S. João:

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Papyrus_P52
    http://www.kchanson.com/ANCDOCS/greek/johnpap.html

    P.S. Agora o Padre Gillet que desminta…

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