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19 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

A golpada do Opus Dei

A vitória irrefutável do SIM no último referendo reduziu os vencedores à contemplação e desviou os vencidos para batalhas seculares, como se tivessem mudado de campo uns e outros e a sorte se pudesse inverter agora na secretaria, em sede parlamentar.

Não sei donde vem tanto dinheiro aos últimos para, antes de removerem os fetos dos cruzamentos das estradas, já estarem a querer subverter a lei que regulará a IVG até às dez semanas e a prosseguir com a dispendiosa campanha.

A pergunta era clara e não acrescentava: «depois de ouvir os conselhos da comissão de ética, ser esclarecida por um objector de consciência e aguardar a visita do capelão».

Os bispos atestam que os seus valores estão com baixa cotação, mas os manipuladores do NÃO invocam agora o carácter não vinculativo do referendo, como se o anterior o tivesse sido e apelam à «moderação da lei».

Não sei o que seria uma lei extremista, certamente a que tornasse obrigatório o aborto, crime que só tem precedentes na China e na Índia, mas sei o que pensam aqueles que perderam, o que defendem os exaltados extremistas Gentil Martins, Bagão Félix e César das Neves e o que pretende a poderosa seita «Opus Dei».

Talvez os leitores não saibam que as «Comissões de Ética» hospitalares estão nas mãos de activistas católicos e integram inevitavelmente o capelão – anacronismo que persiste ao arrepio da separação da Igreja e do Estado.

Estas comissões de ética têm sido um obstáculo à IVG em situações contempladas na lei (violação, risco de vida da mãe e violação). Casos dramáticos chegaram ao parto graças à insensibilidade e ao exacerbado proselitismo das referidas comissões.

É com gente assim que se pode desvirtuar o direito à IVG, solicitado pela mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimentos de saúde legalmente autorizados.

O julgamento dos tribunais judiciais não pode ser transferido para tribunais morais. O único tribunal é a consciência da mulher que toma a decisão. Foi esse o resultado do referendo.

Ponte Europa/Diário Ateísta

18 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

Espanha – A Virgem andou à solta

Religião – Crescem denúncias de raptos

Há semelhanças entre a vidente de Madrid, Luz Amparo Curvas, e a Irmã Lúcia mas é bom não esquecer as diferenças.

Ambas viram a Virgem, é certo, uma em Fátima, outra no Escorial. Nos dois casos a Igreja católica admite as visões sendo, na matéria, a única autoridade para passar certificados de garantia.

Em Espanha, em Junho de 1994 a igreja reconheceu a Fundação Pía Virgen de los Dolores e a Associação Reparadores de Nuestra Señora Virgen de los Dolores, ambas ligadas ao movimento. Em Portugal, reconheceu a Cova da Iria, certificou a azinheira onde arvorou a Virgem e nomeou o padre Luciano Guerra para dirigir o negócio. Em ambos os casos a Igreja católica não reconheceu o tráfico no princípio mas ajudou à divulgação dos milagres.

Em Espanha um padre católico já disse a missa dos 25 anos da primeira aparição.

Vejamos as diferenças:

Em Portugal a Igreja encarcera freiras mas as famílias não reclamam; apropria-se do património dos peregrinos mas ninguém apresenta queixa; Fátima está no mercado da fé há 90 anos e não há 25; os directores-gerais já visitaram Fátima (Paulo VI e JP2) várias vezes, enquanto em Espanha aguardam que o volume de crentes aumente. A comunicação social está mais atenta e os milagres tornaram-se mais difíceis.

Claro que Luz Amparo Curvas também vai ser canonizada mas não terá o ministro da Defesa na missa de corpo presente nem o primeiro-ministro decretará 1 dia de luto nacional. Pelo menos em Espanha haverá a dignidade do Estado que faltou em Portugal.

Quanto à Virgem, com tantas saídas do Céu, corre o risco de deixar de ser.

18 de Fevereiro, 2007 Helder Sanches

Fluxogramas da Ciência e da Fé

(Via Pharyngula)

Esquematizar processos é um método valioso para a apreciação e validação dos mesmos. Para quem, como eu, tem alguma formação em programação (lembram-se do COBOL?), um fluxograma é sempre uma ferramenta valiosa para descobrir os pontos fracos (ou fortes) de qualquer processo.

Ao analisar os fluxogramas que se seguem não posso deixar de compreender porque é que tanta gente se deixa atrair pela Fé. Reparem na sua simplicidade!

Pena que seja a sua única virtude!

Fluxograma da Ciência

Fluxograma da Fé

(Também no “Penso, logo, Sou Ateu“)

17 de Fevereiro, 2007 Ricardo Alves

O ateísmo activo e optimista de Onofre Varela

«Não construí a sociedade que herdei, não estou satisfeito com ela, nem me satisfaz a ideia do previsível futuro que vejo a ser esboçado por aqueles que assumiram a responsabilidade de gerir os povos, nem pelo clero que, paralelamente a tal gestão, pretende influenciar destinos pela via mitológica. É da realidade da época e do meio em que vivo, e dos sentimentos que essa realidade em mim despertou, que nasceram a curiosidade, a ira, a calma e a ansiedade que me incendiaram paixões. Foi sobre isso que escrevi, com a convicção de que fui honesto comigo, e de que usei a crítica com o devido respeito à religiosidade de quem crê.»

(Onofre Varela, nas páginas finais de «O Peter Pan não existe – Reflexões de um Ateu»; a apresentação do livro em Lisboa será já na quinta-feira.)

17 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

Bispos evitam abortos – tomam a pílula

Andava a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) dedicada à oração e aos negócios, sem se dar conta de que milhares de mulheres recorriam ao aborto clandestino, com sequelas irreversíveis, risco de vida e perseguições policiais.

Deviam estar a treinar hóquei em campo com os báculos e a jogar ao anel de ametista com as mitras, enquanto a operária com medo do despedimento interrompia a gravidez com uma agulha de renda, uma adolescente filha de pai católico entrava em pânico e se entregava à curiosa que lhe perfurava o útero ou uma mãe desempregada empenhava o cordão que herdara da avó para evitar mais uma criança que não poderia alimentar.

Os bispos, a quem a idade e o múnus tornou castos, têm pela sexualidade um sentimento de culpa e aversão que o medo e o recalcamento refinaram.

Vêm agora, quais virgens que desconhecem o mundo, dar sentenças sobre a forma de evitar o recurso ao aborto. Não desejam mais do que os ateus que essa praga possa ser eliminada, que os filhos desejados possam nascer, que o sexo seguro possa ter lugar.

Se os bispos soubessem o que é amar, se tivessem um corpo para viajar e uma boca húmida para beijar, se soubessem como é bom amar e ser amado, sentir a loucura de um desejo satisfeito, apaziguar a ansiedade na sofreguidão do amor, certamente não seriam os intolerantes misóginos, empregados de um Deus que obriga os crentes a renunciar à felicidade e os prefere de joelhos, ciliciados e embrutecidos com as orações.

16 de Fevereiro, 2007 Helder Sanches

Querido Diário

Inicio aqui a minha colaboração no Diário Ateísta. Devo dizer que encaro com algum nervosismo estes primeiros tempos em que farei parte desta equipa e em que terei de “enfrentar” alguns dos comentadores mais assíduos do Diário.

Sou, claro está, ateu. Para mim ser ateu é, sobretudo, não acreditar no sobrenatural, seja de que espécie for. Ser ateu é duvidar e questionar, promover a discussão, divulgar uma visão naturalista do mundo em que vivemos e acreditar no conhecimento científico, nunca esquecendo a sua capacidade única de auto-validação.

Por outro lado, ser ateu não significa para mim ser anti-crentes. Considero que, enquanto indivíduos, todos nós temos direito à nossa própria interpretação da realidade. O facto de a minha visão ser naturalista e isenta de misticismo não significa que outros não possam ter outras sensibilidades. Não admito é que me tentem impor essas sensibilidades quer a nível particular, quer na sociedade em que me integro. Contudo, aceitar que outros tenham sensibilidades diferentes das minhas não significa que eu as compreenda ou, sequer, as tolere. Faço aqui uma distinção importante entre o respeito pelo direito à crença e a minha (in)tolerância pela mesma. Esta é uma questão que, certamente, abordarei mais vezes.

Gostava de finalizar com uma palavra para os crentes que frequentemente comentam aqui no Diário. Os ateus, genericamente, são muitas vezes acusados de arrogância. Por outro lado, os crentes são muitas vezes acusados de ignorância. Espero que nenhum destes adjectivos venha a fazer sentido mas, se tal acontecer, espero que ambas as partes exerçam bem o seu papel!

16 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

A Senhora de Fátima entrou de baixa

Conhecidos os resultados do último referendo, a Senhora de Fátima entrou de baixa e está internada na enfermaria do Paraíso, misturada com beatas de segunda, catequistas rurais e outras almas alérgicas ao pecado e ao banho.

O seu divino filho arremessou-lhe com a coroa de espinhos e desancou-a com a cruz quando a viu chegar ao Céu em pior estado do que os forcados de Santarém quando fazem uma pega a um touro mais inteligente do que eles, o que não é difícil.

Quando a Virgem chegou já lá estavam os jornais que davam conta do desastre da Igreja Católica, humilhada nas urnas, expulsa das cidades e desprezada por jovens de um país que lhe foi consagrado várias vezes.

Levou, na bagagem, orações, terços, novenas, missas, romagens e outros pios subornos que lhe foram adjudicados para inverter a vontade popular. Foi tudo para a reciclagem por estar esgotado o prazo de validade e a inutilidade comprovada.

As 2.238.053 almas afastadas do redil foram uma humilhação para quem saltitou, há 90 anos, de azinheira em azinheira, fez truques com o Sol e encheu o parque de diversões místicas de Fátima todos os dias 13.

Sabe-se que as lágrimas de sangue saíram com água oxigenada e foi aconselhada pelo Dr. Gentil Martins a mudar de cosméticos que estragam o verniz e repelem crentes.

Também o Dr. Bagão Félix, que não sabe de Finanças, apertou mais um furo no cilício e aguarda as clínicas espanholas para investir, vestido de cruzado e de crucifixo afiado, contra médicos, enfermeiros e as mulheres que ele queria pôr a lavar escadas e sanitas, em alternativa à prisão, desactivadas que foram as fogueiras do Santo Ofício.

As Senhoras Donas Teté, Matilde, Isilda e outras, receando que a Senhora de Fátima tenha fugido com um pastor de vinte anos, dedicam-se à pastoral da castidade e juram que as hormonas são invenção de ateus, comunistas, mações e judeus, à semelhança da teoria evolucionista.

Finalmente temem que o arcanjo Gabriel tenha contraído a gripe das aves e que, como medida profiláctica, deva ser abatido o bando todo.

15 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

Memórias da Irmã Lúcia no teatro

Baseada nas «Memórias da Irmã Lúcia», está a ser preparada, pelo Santuário de Fátima, e com encenação de Norberto Barroca, uma peça de teatro que procurará retratar algumas cenas da vida familiar dos Pastorinhos Videntes de Fátima, antes, durante e depois das aparições da Virgem, tendo sempre como base os escritos da Irmã Lúcia.

No princípio foi a burla. Três inocentes crianças, fanatizadas pela catequese terrorista da época, viram azinheiras que davam virgens, o Sol às cambalhotas no horizonte e ouviam vozes que pediam para rezar o terço e converter a Rússia.

Lúcia era dotada para ouvir vozes e ter visões. Instrumento de uma burla monumental, pagou com a clausura a viagem que fez ao Inferno, antes de ter sido fechado para obras por JP2, embora convencido de que o Diabo existe, como, na sua superstição, julgava.

Os três infelizes pastorinhos faltavam à escola para rezar, uma virtude cristã segundo a cartilha salazarista e a do patriarca Cerejeira.

Aterrorizaram as populações rurais e as crianças da catequese com os três segredos que a Senhora de Fátima confiou à Lúcia. Era o País beato, supersticioso e analfabeto, que viajava de joelhos para Fátima, estendia a língua à rodela de pão ázimo e rezava terços como os mullahs islamitas debitam o Corão.

Agora, 90 anos após a encenação dos milagres, depois das cartas da Lúcia a Marcelo para proibir a mini-saia e o divórcio, depois de ter sido visitada, em Tuy, por Cristo, ele próprio, vai à cena a peça «Memórias de Lúcia», a farsa promocional do santuário, com uma só virgem, três pastorinhos e muitos supersticiosos.

É o embuste místico no seu máximo delírio.

15 de Fevereiro, 2007 Ricardo Alves

Finalmente um livro sobre ateísmo!

O livro «O Peter Pan não existe – Reflexões de um Ateu», da autoria de Onofre Varela, será lançado no dia 22 de Fevereiro, às 18h30m, na sede da Editorial Caminho (Av. Almirante Gago Coutinho, 121, em Lisboa).

O Onofre Varela participou, com os colaboradores portugueses do Diário Ateísta, nos Encontros Nacionais de Ateus de Dezembro de 2003 (em Coimbra) e de Setembro de 2004 (em Lisboa). O sítio original do «ateismo.net», actualmente suspenso, incluía alguns textos seus. Fez uma carreira de cartunista, o que explica a magnífica capa que se pode apreciar ao lado.

Num momento em que se publicam vários volumes sobre ateísmo no mundo anglo-saxónico e francófono (nenhum dos quais mereceu a atenção das editoras portuguesas, sabe-se lá porquê…), o livro do Onofre Varela vem suprir uma lacuna na nossa paisagem cultural. (Se não me falha a memória, é o primeiro livro português especificamente sobre ateísmo desde a morte de Tomás da Fonseca, em 1968…)

A apresentação do livro em Lisboa estará a cargo de um tal Ricardo Alves. Estais convidados.