Relativamente à minha opinião sobre o paralelismo entre indulgências da Idade Média e a nova forma de pagar pelos crimes de uma forma ainda mais hipócrita, exposta no artigo Indulgências versão século XXI, verifiquei uma visão semelhante do apresentador Jon Stewart no seu programa cómico Daily Show.
As religiões, quando têm força, dominam a sociedade e sujeitam tudo e todos à cegueira do seu Deus. Os clérigos acendem fogueiras, instigam suicídios, apelam à guerra santa e fanatizam os crentes que ajudam a ensandecer desde tenra idade.
Se a civilização avança, a sociedade se democratiza e os Estados se tornam laicos, as religiões preferem que as combatam a que as desprezem. O clero das três religiões do livro só conhece a violência e, por isso, apenas se revê no papel de algoz ou de vítima.
O Diário Ateísta, no seu indeclinável dever de denunciar o obscurantismo e ridicularizar a fraude dos milagres, aparições e outras pias trapaças, acaba por beneficiar as religiões, em especial a católica, porque lhe cria a aura de mártir e perseguida. Ora, aqui não se persegue ninguém, apenas se defende o direito à liberdade para todas as correntes de pensamento, inclusive para as próprias crenças.
Claro que não deixamos de denunciar os crimes das diversas religiões contra a liberdade e a livre determinação individual, o seu horror à sexualidade, a sua hipocrisia moral e o apego a bens materiais. Mas isso serve à Igreja para se dizer perseguida enquanto mama na teta do erário público e se apropria de largas fatias da saúde, educação e assistência.
As Misericórdias são mealheiros por onde circulam dinheiros públicos com uma contabilidade em que o fiscal é o bispo da diocese. São “instituições ligadas à Igreja mas que funcionam como empresas e com contabilidade privada” – como denuncia o sociólogo das religiões Moisés do Espírito Santo.
Para a Igreja os lucros são para Deus e os prejuízos para os contribuintes. É através da consciência cívica e da pressão sobre o Estado que podemos minar a influência nefasta da religião e o ascendente eclesiástico sobre a sociedade.
Crente «moderado»: Normalmente considero que 2+2=4, mas admito que já tenha sido 5, possa vir a ser 5, e na minha dimensão espiritual e de realidade transcendente parece-me óbvio que 2+2=5.
Ateu «moderado»: Eu sei que 2+2=4, mas não ando por aí a dizê-lo porque pode ofender quem acredita que 2+2=5.
Ateu «militante»: Olhem lá. Tenho um, dois seixos. Junto mais um, dois seixos. Fico com um, dois, três, quatro seixos. Mas qual é o vosso problema?
» («We all seem to be in an arithmetical mood today», no Pharyngula, e traduzido livremente no Que Treta)O núncio apostólico em Espanha, Manuel Monteiro de Castro, acusa os meios de comunicação de serem particularmente cáusticos para com os escândalos sexuais da Igreja católica, nomeadamente a pedofilia.
Até é natural que o embaixador do Vaticano tenha razão, que a comunicação social seja mais agressiva para as agressões sexuais perpetradas por padres do que por padeiros, por exemplo, que um escândalo sexual de um bispo seja mais mediático do que o de um trabalhador da construção civil, que a violação de uma criança seja mais chocante por um monsenhor do que por um cavador alcoolizado.
O núncio não compreende, na sua santa ingenuidade, as várias razões que podem justificar tal comportamento:
– A importância social de que o clero católico goza em Espanha;
– Os inaceitáveis privilégios que reivindica;
– A presunção de que a grande educadora é a ICAR;
– A intolerância demente contra a homossexualidade, o divórcio, a contracepção e a sexualidade em geral;
– O passado de violência da ICAR na evangelização da América Latina (que o Papa disse pacífica);
– A violência cega e furiosa da Inquisição espanhola contra os judeus e todos os inimigos da fé;
– A cumplicidade com a ditadura de Franco e o vergonhoso silêncio perante os seus assassínios;
– A provocação permanente à democracia e as manifestações públicas contra o Governo legal;
– A gula com que pretende parasitar os cofres do Estado;
– A histeria com que pretende tornar universais os preconceitos morais católicos;
– O poder excessivo e obsceno de que goza na sociedade e no aparelho de Estado.
Eis algumas razões que justificam a atenção que lhe presta a comunicação social, atenção que não lhe faltou quando o actual Papa, em viagem política, visitou Espanha e a ICAR se preparava para fazer ajoelhar Zapatero numa missa a que a sua dignidade o impediu de assistir.
A Igreja Católica continua estagnada, as suas convicções são imutáveis, superficialmente se tenta adequar ao Secularismo, agarrada de unhas e dentes aos poderes económicos e políticos, se indulgências pagavam qualquer crime, o mesmo continua como convicção. Para todos os crimes possíveis e muitos imaginários existiam taxas a pagar, valores diferentes consoante os crimes, destaca-se o paralelismo entre a mesma noção de pecado, coisa que com rezinhas e ajoelhamentos é perdoada, pior castigo apenas vidas de penitência, um grande monte de nada, pouco importava, as vitimas inocentes se mortas iriam passear pelo paraíso, pouca preocupação afinal seria de esperar e mais uns cobres calham sempre bem.
Promulgada em 1517, a Taxa Camarae do papa Leão X destinava-se a vender indulgências, tudo era perdoado a troco de uns trocos, vejamos o segundo dos seus 35 artigos: “Se o eclesiástico, além do pecado de fornicação, quiser ser absolvido do pecado contra a natureza ou de bestialidade, deve pagar 219 libras e 15 soldos. Mas se tiver apenas cometido pecado contra a natureza com crianças ou com animais e não com mulheres, pagará unicamente 131 libras e 15 soldos.“. Obviamente que os crimes sexuais não caíram de pára-quedas na Igreja Católica agora, existem desde que a Igreja existe, as suas crenças e fé os possibilitam e em muitos casos os potenciam.
Confrontada com o Secularismo a Igreja Católica defende as mesmas posturas defendidas desde sempre, o dinheiro faz justiça, crimes sexuais são meros pecados que depois de rezinhas são esquecidos, e venha o próximo, 660 milhões de dólares de indemnização a vítimas dos dementes da arquidiocese de Los Angeles, valor pago em nome da justiça, mais será um valor pago para que não se faça justiça. Dos 113 criminosos apenas 4 enfrentam os tribunais. Método usado em 2004, a arquidiocese de Orange pagou 100 milhões de dólares para encerrar 90 processos, em 2005 a diocese de Oakland pagou 56 milhões de dólares para perdoar os seus pecados contra 56 vítimas, em 2006 a diocese de Convington pagou 84 milhões de dólares a 350 vítimas, e a lista continua.
Obviamente que os problemas não sucedem apenas nos E.U.A., da gigante lista podemos encontrar milhares de acusações pelo mundo fora, as justiças inexistem, ou tomam a forma de suspensão. Pelo andar da carruagem a única forma de se acabar com a pedofilia da Igreja Católica é esperar, esperar pela falência, o que certamente demorará imenso tempo.
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