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1 de Agosto, 2009 Carlos Esperança

Comunicado da AAP – Capelanias

COMUNICADO

(Capelanias)

Qualquer doente, recluso ou militar tem o direito de acesso aos ministros do culto da sua religião, um direito do qual ninguém deve ser privado. No entanto, a prestação de serviços religiosos não é da competência do Estado. Por isso, se por um lado a Associação Ateísta Portuguesa (AAP) reconhece a todos os crentes o direito à assistência espiritual, por outro repudia o recurso ao erário para financiar este serviço. A remuneração dos sacerdotes que visitem doentes, reclusos ou elementos das forças de segurança deve ficar a cargo das organizações religiosas e dos seus fiéis. A liberdade religiosa deve reconhecer a todos tanto o direito à sua religião como o direito de não pagar dos seus impostos a religião dos outros.

O acordo da passada segunda-feira entre o Estado e a Igreja Católica, ao contemplar a contratação de sacerdotes como prestadores de serviços ao Estado, é contrário ao espírito da liberdade religiosa. Não apenas por usar o erário que é de todos, crentes e não crentes, para pagar a alguns representantes de algumas religiões, mas também por obrigar o Estado a contratar cidadãos discriminando-os pela sua religião, discriminação esta que a própria Constituição proíbe.

E é uma medida desnecessária. Para respeitar a liberdade religiosa de reclusos, pacientes internados ou militares basta que o Estado permita visitas regulares por parte de qualquer sacerdote religioso a pedido dos interessados. Desta forma ninguém fica privado de acesso aos ministros do seu culto religioso, sem o constrangimento de ter de recusar serviços que não solicitou, em situação particularmente debilitada, no caso de reclusos e doentes.

Porque a remuneração pública de sacerdotes não é um requisito da liberdade religiosa, e porque é contrário a esta liberdade obrigar cada contribuinte a financiar religiões nas quais não crê e obrigar o Estado a contratar serviços discriminando os candidatos de acordo com a sua religião, a AAP (opõe-se a) repudia qualquer acordo que comprometa o dinheiro dos contribuintes (ao) para financiamento de práticas religiosas.

Separar a cidadania da fé é um dever cívico, tal como separar o Estado da religião é uma obrigação constitucional, esta, na opinião da AAP, grosseiramente violada na decisão do Conselho de Ministros.

Assim, a AAP denuncia mais este atropelo à laicidade e ao pluralismo e a escalada beata que confere à Igreja católica privilégios incompatíveis com um país democrático.

a) Associação Ateísta Portuguesa – Odivelas, 31 de Julho de 2009

1 de Agosto, 2009 Carlos Esperança

Na última ditadura europeia

54104 pessoas de todos os continentes assinaram a petição “por um reconhecimento ilimitado das decisões do Concílio Vaticano II”, na Internet e em listas de assinaturas.

No entanto, a Congregação para a Doutrina da Fé não esteve disponível para receber a petição e as assinaturas, e assim entrar em diálogo com os(as) iniciadores(as) da petição. Até os esforços de mediação do Núncio Apostólico na Alemanha foram em vão.

31 de Julho, 2009 Carlos Esperança

A hipocrisia beata

A afirmação que me aproxima de qualquer crente é a de que todas as outras religiões são falsas. Creio que lhes assiste inteira razão e apenas acreditam em mais uma do que eu.

Já quanto á tolerância, excepção feita a alguns cristãos urbanos e civilizados, estamos em campos opostos. Enquanto eu encaro com bonomia os crentes, e com desprezo as crenças, os crentes odeiam-se reciprocamente e consideram a sua crença indiscutível.

Como são poucos os que se dão ao trabalho de comparar a Tora, a Bíblia e o Corão os americanos julgam que a Bíblia foi ditada em inglês e os muçulmanos que o Corão foi revelado pelo arcanjo Gabriel em árabe, enquanto Bento 16 deixa correr o boato de que a Bíblia foi escrita em latim, língua que se usa nas missas dos padres mais obsoletos.

Ainda hoje pude observar um grupo de católicos que estão de acordo em que os países árabes devem afastar a religião da política mas quando lhes referi que a escola pública portuguesa devia ser poupada às aulas de moral e religião católicas, já não estavam de acordo.

Descobri mais uma coisa em comum com os crentes: as outras religiões são perigosas. É um facto indesmentível. No dia em que os crentes acrescentarem a sua religião às que ameaçam a humanidade o potencial de paz será largamente aumentado.

30 de Julho, 2009 Carlos Esperança

A laicidade em perigo

Declaração de interesses: sou laico, republicano e cidadão particular.

Mas mesmo um leigo não deixará eventualmente de se chocar com o título de um jornal de ontem: “Estado vai contratar padres a recibos verdes”. Mesmo que não se benza, nem bata com a mão no peito, o cidadão não deixará de se impressionar que a assistência religiosa, para quem a queira, passe ao regime de prestação de serviços. Por este andar, o Estado poderá entender que a confissão dos pecados seja remetida para um ‘call center’, a penitência convertida em multa, os sacramentos ministrados em ‘outsourcing’, a salvação das almas alcançada através do ‘leasing’ e a vida eterna conquistada através do contrato de Aluguer de Longa Duração.

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joaopaulo.guerra@economico.pt

30 de Julho, 2009 Carlos Esperança

Privilégios da Igreja católica

É admirável como a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) se infiltra no aparelho de Estado e consegue privilégios intoleráveis num Estado de Direito e indignos de um país laico. A chantagem que exerce sobre o Governo é da sua natureza, mas a capitulação do Estado é uma indignidade. Os bispos rejubilam com o acordo a que chegaram sobre a assistência religiosa.

Durante a ditadura salazarista havia assistência religiosa nos hospitais e nas forças armadas, agora alargada às forças de segurança. Ficam excluídos os polícias municipais e os bombeiros. Os católicos fardados têm direito a um padre de piquete na sequência do acordo sobre assistência religiosa assinado com o Estado Português.

O País paga à peça. A assistência passa a ser uma espécie de prestação de serviços ao Estado, paga segundo a tabela em vigor, tendo em conta o número de pessoas assistidas. Assim, se um bispo rezar pelas Forças Armadas e de Segurança, teremos de pagar dezenas de milhares de actos pios. Resta saber se um presidiário que se confesse a prestações, 10 vezes por dia, custa 10 vezes mais do que outro que pede a remissão dos pecados a pronto. Tudo isto sem taxa moderadora.

Há uma frase que me deixa perplexo, no telegrama da Lusa, referido no DN: «Um dos aspectos que ressaltou diz respeito ao artigo 16.º. Desta forma, quando um casamento for declarado nulo perante a Igreja, o Estado terá de o reconhecer». Fica a dúvida se esse «O» é pronome pessoal ou demonstrativo. Em caso de anulação do casamento pela Igreja – embora caro e difícil – o Estado tem de «O» reconhecer (a «ele», casamento, ou a «isso», anulação)?

Como me parece uma anomalia a integração do direito canónico no ordenamento jurídico português, penso que é um pronome pessoal, mas tudo é possível de uma Igreja que pôs o PR e o presidente da AR a fazerem parte de uma comissão de honra da canonização de D. Nuno. Quando a ICAR obtém a conivência de Cavaco e de Jaime Gama para o reconhecimento da cura do olho esquerdo da D. Guilhermina de Jesus, queimado com óleo de fritar peixe, por intercessão do espectro de D. Nuno, Portugal deixa de ser um país e torna-se uma sacristia.

É curioso que a escalada beata e os atropelos cometidos contra a laicidade surjam na proximidade das eleições e no período de férias. A partir de agora, as escolas, prisões e quartéis são um campo privilegiado para a competição prosélita e o confronto religioso.