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1 de Outubro, 2009 Carlos Esperança

Notas Soltas

Testamento vital – O direito dos doentes terminais a recusarem tratamento não é um favor do Estado nem uma decisão que o Papa ou o Presidente da República devam impedir, é um sinal de respeito pelos cidadãos que cabe ao Parlamento acolher.

TVI – O saudoso Mário Castrim disse que o canal «nasceu na sacristia e acabou na sarjeta», um diagnóstico certeiro.

Costa Rica
– Está em curso a reforma constitucional que pretende acabar com o último Estado confessional da América Latina, tema que aquece a campanha eleitoral perante o azedume dos bispos católicos face aos ventos da laicidade que sopram.

Irão – A aventura nuclear continua ao ritmo da demência islâmica à espera de que as democracias, assustadas, respondam com violênc,a depois de esgotadas todas as tentativas de negociação.

30 de Setembro, 2009 Carlos Esperança

Memórias achadas (Crónica)

A certeza do encontro não atenuou o pasmo da chegada e a emoção da despedida num dia de Agosto que começou tarde demais e depressa se findou.

Aquele olhar carregava quatro décadas e meia de separação. Quem pensa que a ausência é esquecimento? É a memória fechada no baú do tempo e a separação um laço forte em estado de gravidez sem previsão de termo.

Saiu-lhe da carteira um artigo de jornal com uma foto, dobrada e tão puída, que logo se desfez por entre os dedos como um vestido de seda preso nos espinhos de um silvado.

Quando dobrou de novo o papel, pelos vincos rasgados, ele afastou o olhar para ocultar o efeito atordoador da surpresa, naquela forma natural, com tanta gente a ver, capaz de reacender as brasas da paixão que o tempo não apagou.

Tantos anos livre de quem não a mereceu e, agora, feliz, num reencontro afectuoso, braços abertos ao abraço que já não pode prendê-la, face oferecida aos lábios sequiosos, a depor um beijo terno de quem esqueceu ou já perdoou. Há vinte anos tinha havido um encontro, breve e alegre, de quem esquecera o rosto até recordar a suavidade da voz e o brilho do olhar, sobressalto aquietado pela constante interrupção do diálogo por uma multidão de convivas. Agora era diferente, não esteve na origem uma efeméride ou um desses acasos que surgem nas andanças da vida. Foi um encontro planeado, com desejo mútuo a torná-lo possível e a prolongá-lo com o pretexto de festejos populares. A vida é feita de acertos e desacertos, de enganos e ilusões, da ambição de agarrarmos quem estremecemos e do receio de nos prendermos a quem perdemos.

Na ditadura tudo era negado, éramos só nós tudo o que tínhamos, e nada ousávamos por ser proibido. Desse tempo, dessa saudade, ficou o remorso de não termos arriscado, o desalento de não crermos no futuro, a vergonha de termos sentido medo e a raiva de não o termos vencido. Do mundo que poderíamos ter construído restam a derrota, as feridas e as dúvidas sobre o futuro que seria. Não é possível voltar atrás e reiniciar, como se a vida pudesse repetir-se ou a mesma água do rio banhasse de novo o leito.

A vida não é o que olhámos, é o que vimos, o que lembramos, os silêncios resignados, respostas por achar para a rendição sem glória. Quem um dia desiste de lutar nunca mais sai vitorioso, ficou inacabado o voo de quem fechou as asas. Que importa a renúncia por amor ou o silêncio por devoção? O que não se diz no tempo certo não se repete depois. O Sol não surge com o crepúsculo embora a claridade nos faça sonhar com a madrugada que desperdiçámos.

Somam-se acasos e frases incompletas, sons que chegam sem liberdade, guardados por cumplicidades e disfarçados em pretextos. Sonhar é um direito que resiste ao tempo e à vontade, quimera que se inventa para afagar o coração e disfarçar o remorso.
Um dia, o telefone toca. Chega a voz esperada na véspera e ansiada na manhã seguinte, voz que acompanha a carruagem que se afasta a cento e trinta quilómetros por hora, tão tarde, para impedir o embarque, tão breve, com tanto para dizer, e tão triste, com o som a perturbar os sentidos e a dilacerar a memória. Que raio de sorte a do viajante que não pode inverter a marcha do comboio que o aprisiona, que desolação para quem deixou fugir o bálsamo para a ferida que não sarou.

O amor é um sentimento que resiste ao tempo e ao bom senso, capaz de comprometer o recato e a tranquilidade, roleta russa que compele ao disparo, com jogadores dispostos a morrer por se sentirem a sangrar por dentro e a esvair. O remorso, esse, é o espinho cravado na memória ferida.

Sabemos que amámos quando nos despedimos sem partir ou, partindo, ficamos presos. E quando, caminhando sem rumo, tropeçamos na memória.

29 de Setembro, 2009 Carlos Esperança

Homenagem ao alcoviteiro

A Rádio Vaticano comemora hoje o seu Padroeiro, o Arcanjo Gabriel. Nesta manhã foi celebrada uma Missa na capela da Anunciação da emissora, presidida pelo Substituto para os Assuntos Gerais da Secretaria de Estado, o Arcebispo Fernando Filoni.

Nota: Esse arcanjo foi o que anunciou a Maria que estava grávida (fez o primeiro teste de gravidez do mundo) e, seis século depois, ditou em árabe o Alcorão a Maomé, voando durante 20 anos entre Meca e Medina.

28 de Setembro, 2009 Carlos Esperança

Comunicado sobre a vinda do Papa a Fátima

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) respeita, e defende, a liberdade de crença de todos os religio-sos, não se opondo à visita de qualquer líder religioso enquanto tal. Mas é preocupante que a visita de Bento XVI a Fátima, em Maio de 2010, seja palco de manobras políticas, com a cumplicidade do Estado, violando a laicidade a que este é obrigado e desrespeitando crentes e não crentes.

A visita de um papa católico é assunto da Igreja católica e não matéria do Estado português. Num Estado laico o Papa é apenas um líder religioso. Que o cidadão Cavaco Silva se regozije é um direito; que o chefe de Estado de um País laico exulte com a visita do seu líder espiritual é uma interferência nefasta da política na religião, e vice-versa; e que essa visita tenha sido anunciada fora de tempo, contra a vontade da própria Conferência Episcopal, é uma politização inadmissível daquilo que é apenas matéria de crença pessoal.

Fátima é um dos santuários mais importantes e rentáveis da Igreja católica. Estes aspectos de fé e ges-tão religiosa justificam a visita do Papa, mas é lamentável que esta deslocação seja considerada  – como disse o bispo Carlos Azevedo – «uma visita de profundo significado, também por ser o centenário da implantação da República». Fátima foi um instrumento da propaganda contra a República e contra o socialismo. Os milagres tentados noutros locais do país acabaram adjudicados numa região onde a religiosidade e o analfabetismo os facilitava. E, hoje, a crença nas piruetas do Sol, passeios da Virgem pelas azinheiras e aterragem de anjos na Cova da Iria são uma opção pessoal, motivada pela fé e não por provas objectivas, e sem qualquer relação com a nossa forma actual de governo.

Associar a visita do Papa ao Centenário da República é uma afronta à nossa democracia, que histori-camente foi implantada, e muitas vezes defendida, contra a vontade da Igreja Católica. Viola também a neutralidade a que o Estado é obrigado em matéria de fé, imiscuindo-se um órgão de soberania em algo que é estritamente do foro pessoal de cada cidadão. E, finalmente, atenta contra a liberdade de crença e não crença de cada um, ao envolver os nossos dirigentes, e a própria República, na ligação a uma religião em particular.

A AAP não pode deixar de repudiar a associação do Estado português à visita de um líder religioso e o seu aproveitamento político numa tentativa de manipular a nossa democracia.

Associação Ateísta Portuguesa – Odivelas, 25 de Setembro de 2009

27 de Setembro, 2009 Fernandes

A Fé

Se a Fé nos credos e dogmas religiosos nos fosse proposta depois da adolescência, na idade adulta, não duvido que o profuso reportório de mitos e lendas incluídas nas reelaborações teológicas que substanciam a essência da Fé religiosa, não teriam acolhimento em mentes normalmente formadas, salvo em pessoas com uma peculiar idiossincrasia. A irracionalidade desse reportório e as suas contradições, conduzem à sua recusa, pela maioria das pessoas de bom senso. A Fé adquire-se no seio da família, da tradição, e na infância da vida, quando o sujeito está sob pressão e ao mesmo tempo protecção e cuidado de um Superego manipulador.

A Fé abandona-se por influência de pessoas ou experiências vitais complexas, geralmente intensas e extensas, que exigem um dispêndio de energia psíquica considerável, tanto no plano emotivo como intelectual. As crises de Fé põem à prova o equilíbrio do Ego, como núcleo da personalidade.  A sensibilidade a inteligência e informação, um determinado nível cultural e uma vontade de discernimento, colocados acima dos preconceitos herdados, são o motor capaz de nos libertar das algemas da Fé.

A teologia das religiões reveladas costuma atribuir a Fé a um privilégio pessoal, dom ou graça. Não é por acaso. Os credos contêm tal número de fantasias e infantilidades, que só por dom ou graça, eles ganham assento no intelecto humano. Aqui a teologia fica escrava da psicologia. A tese da revelação, dom ou graça, é a racionalização da falácia conotativa, que reveste o discurso teológico. Deus existe porque o desejo, desejo-o porque o necessito. Logo, tem que existir. A sua graça revela-me essa evidência. Este é o habitual raciocínio em círculo em que assenta o pensamento religioso.

Qualquer criança aceita com complacência uma fé e não arrisca perdê-la. As cerimónias mágicas aprendidas na infância asseguram-lhe uma teofania que não consegue questionar. O adulto que desconhece a tradição, vê essa Fé como um desideratum pueril ou até, como uma brincadeira de mau gosto. As Igrejas sabem-no e por isso obstaculizam por todos os meios o debate intelectual e a informação sobre a origem e as pretensões epistemológicas dos seus credos.

A noção de deus, nas religiões monoteístas – um deus pessoal e criador -, é a mera extrapolação até ao infinito, do conjunto dos atributos finitos e contingentes do ser humano. Esta adjudicação sub specie infinitas atque aeternitatis dos atributos humanos, esbarra inevitavelmente na multitude de antinomias, que arruínam a noção de Deus, e provam a sua impossibilidade.

O inacabável debate sobre a teodiceia e a extenuante polémica de auxilliis, tão dramática como grotesca, bastam para substanciar o facto consumado do colapso do Deus infinito. Pese embora, ousassem exibir esta Divindade com barbas brancas.

 * referências: Gonzalo Ojea, Elogio ao Ateísmo.