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16 de Novembro, 2009 Luís Grave Rodrigues

A Tolerância Católica

Conta-nos o «Washington Post» que perante uma proposta de lei que será votada no próximo mês e que determinará a proibição da discriminação dos homossexuais e autorizará o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo no estado de Washington, a Arquidiocese da Igreja Católica daquele estado norte-americano anunciou que se tal proposta for avante terminará imediatamente todos os seus programas sociais como represália.

Nem vale a pena falar aqui do já famoso relativismo moral dos católicos.

Mas sabendo que a intolerância faz parte da doutrina católica, então uma coisa é certa:

– Esta é, de facto, uma atitude rigorosamente coerente.

15 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Tomás da Fonseca

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Ontem, dia 14 de Novembro de 2009, na FNAC, em Lisboa, foram lançados dois livros de Tomás da Fonseca, com a chancela da Editora Antígona:

– Na Cova dos Leões

– O Santo Condestável

A mesa, constituída pelo Editor Luís Oliveira, por João Macdonald e pelo presidente da Associação Ateísta Portuguesa (AAP)  procedeu à apresentação de dois relevantes livros de Tomás da Fonseca, à apreciação da grande figura histórica e anticlerical e à luta do escritor pela liberdade, durante a ditadura que quis transformar os portugueses num bando de beatos, tímidos e idiotas.

Tomás da Fonseca não foi apenas o algoz que ridicularizou os milagres e denunciou os negócios pios, foi um amante da liberdade, republicano impoluto e corajoso defensor da democracia. Foi impoluto na gramática e na ética na vasta obra literária que nos legou.

Luís Oliveira, ao editar-lhe os livros referidos, ganhou o reconhecimento dos que amam a liberdade e defendem o património histórico da luta contra o clericalismo.

Na assistência bisnetos e trinetos não escondiam a alegria pela exaltação do antepassado e a vaidade por verem reconhecido o exemplo cívico do ilustre republicano que honrou a República, a literatura e o livre-pensamento.

Ler Tomás da Fonseca é tomar a vacina contra a gripe do clericalismo que ameaça, de novo, tornar-se uma pandemia.

15 de Novembro, 2009 Fernandes

Terá futuro esta Igreja?

Segundo “Eugen Drewerman, 1999”, cometer-se-ia uma injustiça para com os eclesiásticos, se alguém quisesse dar deles uma imagem de marotos lúbricos, mentirosos e ávidos de poder. É certo que na história da Igreja Católica, não faltam épocas de autêntica hipocrisia e alegre “cinismo de taberna”, mas não é dos divertidos atrevimentos das freiras e padres do “Deccamerone de Boccaccio”, que falaremos, ou daquela farsa onde a madre abadessa, arranjando-se à pressa, no escuro, para ir apanhar em flagrante delito a freira cujos amores haviam sido denunciados, enfia na cabeça as calças do amante pensando ser a sua touca.

Falaremos das pessoas que pecam por fraqueza e não por força, dos eclesiásticos de hoje que embora se vejam obrigados a viver na duplicidade e na falta de sinceridade, torturados pelos seus escrúpulos de consciência, põem todo o seu empenho em sofrer, e em fazer sofrer os outros, quando deveriam antes espalhar a alegria e a felicidade.

Segundo uma noção simplista das coisas, as inibições sexuais vêm directamente de proibições no âmbito sexual, e são o resultado de uma moral repressiva e de uma contínua inversão do prazer dos sentidos, transformando este em pecado. Para um não crente, é difícil compreender como a Teologia Moral Católica se infiltrou nos crentes, de acordo com uma tradição secular, unânime e inalterada, a partir das directivas de um personagem chamado Espírito Santo.

Recentemente a Sagrada Congregação da Fé, declarou sem qualquer equívoco os seguintes conselhos contra o prazer sexual:

“Hoje também, e mais ainda que noutros tempos, os crentes devem recorrer aos meios recomendados pela Igreja para se levar uma vida de castidade: disciplina dos sentidos e do espírito, vigilância e prudência para evitar a ocasião do pecado, preservação do sentimento do pudor, moderação no gozo, distracções sãs, oração assídua, e recepção frequente dos sacramentos da penitência e da eucaristia. A juventude, sobre tudo, deverá venerar a Imaculada Conceição, e seguir o exemplo dos santos e de todos aqueles que se destacaram pela sua pureza. Que todos tenham em altíssima estima a virtude da castidade e o seu brilhante esplendor”.

Imagine-se a leitura deste texto solene numa escola profissional, perante um grupo de futuras técnicas de contabilidade ou futuros informáticos; é evidente até que ponto a Igreja Católica se tornou, hoje em dia, fanaticamente estranha à realidade, e mesmo sectária.

Esta é a forma de pensar e agir daqueles a quem foi proibido tomar conhecimento do amor, e que acabam por descobrir, já tarde, que lhes foram envenenadas as fontes da vida. Querem apaixonadamente não amar, não desejar. Tornam-se cinza fumegante, vítimas de um sistema que gera morte em nome da vida.

Se somos capazes de entender as objecções contra a comercialização da sexualidade, é completamente impossível continuar a levar a sério um conjunto de princípios, cuja finalidade é ensinar que a educação ao amor só pode ser feita evitando esse mesmo amor. Não se pode aceitar que seja possível “santificar” o corpo, a carne, ou o mundo, declarando-os fonte de pecado. Como se a vida fosse melhor por renunciar ao amor. A defesa de pontos de vista que durante séculos arrastaram tantas pessoas à doença e à loucura, só podem, hoje em dia, provocar três reacções da nossa parte: cólera, troça ou indiferença, pois são pontos de vista definitivamente ultrapassados.

Se alguém interrogar os eclesiásticos sobre a sua evolução no campo sexual, a maior parte deles negará que tenha recebido uma educação sexual “repressiva”. Mas observando-se mais de perto, reconhecer-se-á a velha angústia, sob uma forma muda e recalcada.

Quando alguém, sob pressão moral, se vê obrigado a classificar realidades absolutamente naturais como vícios pecaminosos, gera-se uma espiral de angústia, do sentimento de culpa, de impotência e de “queda no pecado”, um sentimento de inferioridade.

É verdadeiramente incrível a obstinada recusa da Igreja em reconhecer a sua enorme responsabilidade na infelicidade causada aos demais. Em vez de tirar as suas consequências, ela insiste no mesmo tipo de comportamento repressor. Chega ao ponto de justificar o sofrimento causado às suas próprias vítimas, como a confirmação da verdade divina dos seus ensinamentos, utilizando o sofrimento alheio para fins de propaganda. É precisamente a exploração de sentimentos homofóbicos, que torna bem claros os objectivos desta Igreja.

15 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

A guerra da iconografia religiosa

Os mais elementares princípios de convivência cívica devem eliminar do espaço público o que possa dividir os cidadãos. O crucifixo, a estrela de David ou o crescente islâmico são símbolos adequados às igrejas, sinagogas e mesquitas, lugares que são – ou deviam ser – de frequência facultativa, mas fomentam a divisão numa escola pública, hospital ou repartição, onde todos podemos ter necessidade de nos encontramos.

Um ateu, um muçulmano ou um judeu que visite uma catedral gótica, seduzido pela beleza arquitectónica, ou por razões culturais, já sabe que vai encontrar cruzes e santos, que deve preparar a pituitária para o cheiro a incenso e o fumo das velas, mas só entra se quer, e deve respeitar a iconografia que exista e a liturgia com que se depare. Quem entra num templo de uma religião cujo clero odeia os sapatos já sabe que deve deixá-los à entrada. O respeito pela liberdade religiosa é um dever civilizacional e um princípio ético.

Na escola, num hospital ou num qualquer departamento público, é abusivo marcar com o símbolo de uma religião particular, quase sempre de forma permanente e definitiva, o espaço interdito ao proselitismo e que não pode prestar-se à competição no mercado da fé.

Afirmar que o crucifixo é um símbolo cultural, e não religioso, é uma afirmação em que reincidem com atrevida hipocrisia os católicos ávidos de ocuparem os espaços públicos com os seus símbolos, impacientes para imporem de forma sonsa o que faziam de forma cruel na evangelização dos índios, nas cruzadas ou nos autos de fé.

O recurso ao argumento da tradição é outro expediente que não resiste à mais elementar reflexão pois a civilização tem sido um longo e difícil processo de luta contra a tradição. O esclavagismo, a pena de morte, a tortura, o canibalismo, os sacrifícios rituais e muitas outras práticas violentas, incluindo a obrigatoriedade religiosa, foram abolidas através da luta da modernidade contra a tradição.

Um templo, num país livre, não é obrigado a ostentar o busto da República, a foto do presidente ou a bandeira nacional, nem as cerimónias litúrgicas têm de terminar ao som do hino nacional. Com maior razão não devem as escolas, os hospitais e outros lugares públicos exibir crucifixos, santinhos ou senhoras de Fátima.

As paróquias, igrejas e conventos não devem ostentar o nome de Afonso Costa, Lutero ou Tomás da Fonseca e, igualmente, as aldeias, vilas e cidades devem evitar o nome de um taumaturgo, de um papa ou de uma pomba sagrada.

Custa aceitar a laicidade às religiões que se julgam maioritárias, às que se habituaram a privilégios e não perdem a vocação totalitária, mas a paz social depende da laicidade e do seu aprofundamento.

14 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Brasil – Padre Cícero a caminho da santidade

Em Juazeiro do Norte, a 520 quilómetros de Fortaleza, no Ceará, anualmente quase três milhões de fiéis chegam em massa para reverenciar um padre banido das hostes da Igreja Católica. Para toda essa gente, mesmo considerado maldito pelo Vaticano e proibido de entrar nos altares oficiais, o padre Cícero Romão Batista, ou simplesmente Padim Cícero, é um santo milagreiro. Santo e político.

Comentário: O Vaticano nunca perde uma boa oportunidade de negócio.

14 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Congresso dos médicos católicos

Por

A H P

Informa o Diário de Coimbra de hoje que está a realizar-se (tendo começado ontem e acabando hoje) um “Congresso Nacional dos Médicos Católicos Portugueses”, no auditório da Fundação Bissaya Barreto.

A ajuizar pela fotografia que ilustrava o texto, que mostrava uma sala com mais lugares vagos do que ocupados, os médicos católicos ou são muito poucos ou não se interessaram por tão importante evento.

Ontem a estrela do dia (ou da noite) foi o inevitável Dr. Daniel Serrão, que entre outras coisas disse que “o Serviço Nacional de Saúde é uma ilusão”, ao que parece porque “mais de dois milhões de pessoas da classe alta e média alta estarem a pagar do seu bolso cuidados de saúde que poderiam obter gratuitamente através do SNS”. Coitados dos ricos, que têm de pagar os cuidados de saúde do seu bolso para não se verem misturados com a ralé!

Outro dos temas discutidos foi “Teremos direito à saùde?”, problema que pelos vistos continua a preocupar os católicos. Os laicos representantes eleitos pelo Povo para redigir a Constituição já tomaram posição sobre ele há mais de 30 anos, proclamando no artigo 64 da nossa Lei Fundamental que “todos têm direito à protecção da saúde”.

13 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Carta de editora

Vamos lançar as duas obras de Tomás da Fonseca, por nós editadas, no próximo dia 14, sábado, às 16h, na Fnac Chiado.

A apresentação está a cargo de João Macdonald, que prefaciou O Santo Condestável.

Seria também interessante que estivesse alguém da V. Associação na mesa. Será possível?

Um cordial abraço,

Luís Oliveira

(editor)

trinta anos de minoria absoluta

trinta anos de insolências

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P. S. A AAP far-se-á representar

12 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Casamentos homossexuais e direitos individuais (Crónica)

Recordo-me bem dos tempos do liceu, quando as hormonas nos impeliram para o bordel da cidade e estreámos a vida sexual pela mão, e o resto, da saudosa e experiente Libânia ou de alguma recém-chegada. O ritual iniciático era feito com medo da polícia. A nossa menoridade podia conduzir a meretriz à prisão e levar-lhe a multa as parcas economias.

Depois era o gozo da transgressão, mais pelo prazer de que os outros soubessem onde já íamos do que pelo deleite fruído onde fôramos.

Lembro o orgulho das prostitutas, com a caderneta que as creditava como profissionais, depois de o Dr. Pereira da Silva, Subdelegado de Saúde, confirmar na revista semanal a ausência de doenças que lhes impedissem o exercício do múnus nas casas da Rua Poço do Gado, a poucos metros do Largo de S. Vicente, na pia cidade da Guarda.

Não me recordo de coimas mas lembro-me de saltos atléticos pela janela das traseiras ao som do assobio do voluntário que ficava de plantão à polícia, normalmente um magala, atento à ronda militar e, por solidariedade com os estudantes, à PSP.

Era um tempo em que o amor era proibido, o puritanismo era indulgente para os rapazes e ferozmente repressivo para raparigas. As aulas de Religião e Moral eram um arremedo de educação sexual onde o padre Cabral e o padre Inácio alertavam para a cegueira e a tuberculose provocadas pela masturbação, para a virtude da castidade e o perigo da leitura dos livros interditos, referidos no «O Index Librorum Prohibitorum», catálogo de livros actualizado pelo Vaticano, e cuja leitura garantia as profundas do Inferno.

De todos os interditos, da moral que nascia na sacristia e desaguava na sarjeta das aulas de Moral, dos preconceitos e superstições, da violência do tempo e das gentes, recordo a sanha feroz contra os homossexuais, então chamados paneleiros, por ódio e por não ser ainda popular a palavra gay.

Na Guarda havia um que era conhecido, um homem amável e tímido, assustado, sempre à espera do perigo iminente, o Sr. Agostinho, de quem as pessoas se afastavam ou que bandos de energúmenos procuravam, para lhe dar uma sova. Às vezes aparecia com o corpo dorido e a face cheia de nódoas enquanto os delinquentes se gabavam da façanha num intervalo de aulas, no liceu. Nunca assisti a um gesto de censura ou a uma única palavra de piedade em defesa da pobre vítima dos fanáticos que lhe esmurravam a cara e o faziam sangrar por dentro.

Algumas vezes assisti à combinação de sovas a um ou outro condiscípulo acusado de tão infamante comportamento sexual e se nunca participei em tão bárbaras expedições punitivas devo-o mais ao medo às sanções domésticas e ao reitor do que aos escrúpulos morais, mas cresci a ruminar uma explicação para tal violência, para tão ignóbil insulto à liberdade individual, apesar de os tempos não serem favoráveis a quaisquer liberdades.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948, era ainda recente e ignorada em Portugal. As diferenças eram aberrações a merecer castigo e anomalias a esconjurar.

Foi longo o caminho andado mas, algures, num recanto de Portugal há ainda resquícios do Antigo Testamento que passaram de geração em geração e levaram à dissimulação da orientação sexual de muitos infelizes aterrados com a fúria dos guardiões da moral. A vontade divina foi sempre a desculpa dos que fazem da intolerância profissão de fé e dos que temem tornar-se naquilo que odeiam.

Quantos criminosos não nasceram do medo e da violência de que foram vítimas? Hoje, nas escolas, os professores estão atentos a um fenómeno que sempre existiu mas deixou marcas indeléveis em muitas vítimas – a violência física ou psicológica, intencional e reiterada, praticada por um ou mais alunos, com o objectivo de assustar ou agredir outros alunos, incapazes de se defenderem. Há até um termo técnico para designar esse fenómeno – bullying – mas enquanto não houver percepção da violência homofóbica, previnem-se agressões físicas e verbais por outras razões e deixa-se à solta o bullying homofóbico que destrói a felicidade e o amor-próprio de todos os jovens que têm uma orientação sexual minoritária.

Por isso é tão importante eliminar a discriminação sexual com uma medida legislativa que devolva aos homossexuais o direito à felicidade sem constrangimentos e o escárnio que os persegue.

À memória do Sr. Agostinho, afável e honrado zelador do museu da Guarda, à guisa de reparação da vergonha e das tareias, das dores do corpo e do espírito, a legalização do casamento de indivíduos do mesmo sexo é a justiça póstuma à vítima com a qual não tive a coragem de me solidarizar.