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13 de Abril, 2010 Carlos Esperança

Momento zen de segunda_12-04-10

João César das Neves (JCN) voltou às homilias de segunda, no DN, para fustigar os leitores com «a nona bem-aventurança».

Quiçá envergonhado com as notícia sobre a sua Igreja, em vez de fazer a leitura crítica, deu-se à exegese da sua história e à negação do seu passado mais negro. JCN imagina calúnias onde os historiadores vêem nódoas, descobre mentiras onde existe perversão e adivinha ataques curiosos onde há factos indesmentíveis.

Confundindo o cristianismo com o Vaticano, diz o bem-aventurado que os discípulos de Cristo são perseguidos há 2000 anos, não imaginado que os judeus, os muçulmanos, os índios, os hereges, os livres-pensadores, os albigenses e os próprios protestantes tenham uma visão oposta.

JCN afirma que «A Igreja [deve referir-se à católica] é a única instituição a que se assacam responsabilidades pelo acontecido há 100, 500 ou 1500 anos», esquecendo que os impérios e as religiões politeístas não resistiram aos crimes que praticaram mas os monoteísmos ainda resistem.

JCN não se conforma com a pungência da verdade: «Os cristãos actuais são criticados pela Inquisição do século XVII, missionação ultramarina desde o século XV, cruzadas dos séculos XI-XIII, até pela política do século V (no recente filme Ágora, de Alejandro Amenábar, 2009)». Deviam ser mentiras mas os factos esmagam os desejos pios.

No seu usual delírio místico, insurge-se porque a Igreja Católica, Apostólica, Romana (ICAR) é atacada (na sua opinião, paradoxalmente) por ser «contra o sexo e a favor da procriação», um facto que nada tem de paradoxal e é uma obsessão doutrinária.

Depois agride os iluministas, sem os quais, a vida da Igreja seria um sonho, mas a dos livres-pensadores um pesadelo, por a considerarem « a principal inimiga da ciência: supersticiosa, obscurantista, persecutória do estudo e investigação rigorosos», jurando que a evidência histórica demonstra o contrário.

Denuncia ainda os jacobinos por terem acusado a Igreja pelas «terríveis perseguições religiosas, étnicas e sociais, destruição cultural de múltiplos povos, amiga de fogueiras e câmaras de tortura, chacinas, saques e genocídios», como se fosse uma mentira que «a caridade, mediação, pacifismo» que atribui à sua Igreja pudessem desmentir.
Depois de passar pelos marxistas chegou onde agora lhe dói: «Vivemos hoje talvez o caso mais aberrante: a Igreja é condenada por… pedofilia».

JCN não percebe que ninguém, a não ser as Igrejas, a começar pela sua, em relação aos judeus, converte os crimes individuais em ferrete colectivo.

O que JCN não percebe é que não estão em causa crimes de alguns padres (até podiam ser quase todos) no legítimo ataque à ICAR. Nem se acusam cristãos, como finge crer. O que o devia envergonhar e revoltar é a cumplicidade de numerosos bispos e dos três últimos papas a protegerem os pedófilos sem cuidarem do mal que faziam às crianças, preferindo ocultar os crimes a salvar crianças dos predadores.

A pungência da prosa do megafone do episcopado, JCN, converte-se em ridículo para quem sabe o que está a acontecer: «O ataque à Igreja é uma constante histórica. A História muda. A Igreja permanece. Porque ela é Cristo. Dela é a nona bem-aventurança: “Bem-aventurados sereis quando vos insultarem e perseguirem” (Mt 5, 11).

Amém.

12 de Abril, 2010 Carlos Esperança

Carta ao presidente da Conferência Episcopal Portuguesa

Exmo. Senhor
D. Jorge Ortiga
Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP)
cep.sgeral@ecclesia.pt
Quinta do Cabeço, Porta D
1885-076 MOSCAVIDE

Excelência:

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) assiste na comunicação social à pressão que os  bispos portugueses exercem sobre o Governo para que seja concedida tolerância de ponto nos dias previstos da visita de Bento XVI a Portugal, no próximo mês de Maio.

A AAP nada tem contra a visita de dignitários religiosos, sejam de que religião forem, mas não pode aceitar que o carácter laico do Estado português seja posto em causa e, muito menos, que sejam exercidas pressões indevidas sobre os órgãos da soberania.

Acresce que se adensam as suspeitas de encobrimento de crimes de pedofilia por parte do actual pontífice, de ter protegido padres sob investigação e outros cuja condenação transitou em julgado, em várias nações. A própria tentativa judicial de incriminar Bento XVI, por cumplicidade, está a ser estudada por juristas de diversos países.

Os factos, pouco abonatórios para a reputação do pontífice, desaconselhariam a vinda, até cabal esclarecimento do seu comprometimento, para não constranger as entidades que o protocolo obriga a recebê-lo. Dadas as dificuldades financeiras por que o País passa devia também este facto merecer do Vaticano ponderação suficiente para não as agravar.

A Associação Ateísta Portuguesa, certa de que não serão muitos os portugueses que se regozijam com a visita prosélita de Bento XVI e que serão ainda menos os que aceitam os custos que a pompa e a circunstância acarretam, pede a V. Ex.ª que a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), através do Núncio Apostólico, solicite o adiamento sine die da viagem prevista, não faltando razões substantivas que o justifiquem.

Desejando que o bom senso impere, a AAP espera que a visita inoportuna não seja um factor de perturbação política e o pretexto para branquear as responsabilidades pessoais deste Papa e o comportamento do Vaticano durante os três últimos pontificados.

Confiando que a CEP possa demover a obstinada intenção de Bento XVI de visitar Portugal, durante o vendaval de escândalos que o compromete,

Apresenta a V. Ex.ª os seus cumprimentos.

Associação Ateísta Portuguesa – Odivelas, 12 de Abril de 2009

11 de Abril, 2010 Carlos Esperança

A rubrica que tardava a aparecer…

Bento 16 perseguido pelo passado

Por

E – Pá

Há alguns anos que se denuncia a existência de documentos secretos oriundos do Vaticano com o fim de instruir os bispos católicos sobre a melhor forma de ocultar e evitar acusações judiciais em caso de crimes sexuais contra crianças…link

Nesta situação estará o documento Crimen Sollicitationis, da responsabilidade do papa João XXIII, uma cartilha de 39 páginas, escrita em latim, no ano de 1962, e distribuída pelos bispos católicos de todo o mundo.
Este ignóbil escrito impõe um pacto de silêncio entre a vítima menor, o padre que é acusado do crime e quaisquer testemunhas ou pessoas a par do ocorrido. Quem quebrasse esse pacto seria excomungado pela Igreja Católica, conforme foi denunciado, em devido tempo, pela BBC.

A ICAR reagiu através do arcebispo Vincent Nicohls que tentou controlar danos referindo que o referido documento documento não se refere a eventuais actos de pedofilia por parte dos padres, mas apenas ao “uso impróprio do confessionário”. Em vez de esclarecer a questão da pedofilia no seio da Igreja levantou um outro problema: uma eventual utilização com inconfessáveis fins do segredo do confessionário…

Poderemos dizer que estes factos remontam a tempos passados em que o crime de pedofilia tinha outra moldura penal. Tal asserção que encerra alguma verdade não se pode aplicar à ICAR cujos parâmetros morais sempre pairaram à margem do Direito Civil.

Mas o que dizer, ou melhor, o que pensar, da carta em destaque (cuja autenticidade foi confirmada pelo jesuíta Federico Lombardi) link, assinada pelo punho do então cardeal Joseph Alois Ratzinger – hoje papa Bento XVI – datada de 1985, em que o então perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício) se opôs à destituição do cura Stephen Keisle da diocese de Oakland (Califórnia), – acusado por abusos sexuais em menores praticados em 1981 – invocando “ o bem da Igreja Universal”?

Esta é a “Doutrina da Fé”!

10 de Abril, 2010 Carlos Esperança

Padre Mário da Lixa

Papa Bento XVI vem a Fátima caucionar um crime, porventura ainda pior que o da pedofilia, que o clero de Ourém cometeu, em 1917, contra três crianças daquela freguesia.

Jornal Fraternizar, edição n.º 177, de Abril-Junho 2010

9 de Abril, 2010 Carlos Esperança

A pedofilia, a Igreja católica e as responsabilidades

Quem sempre se insurgiu contra aquela oração das sextas-feiras que visava os judeus, todos os judeus, ao longo dos séculos, de todos os séculos, por terem matado o Cristo; quem repudiou aquele secular anti-semitismo, a demência racista, o ódio à concorrência, não pode transformar agora os crimes individuais em culpa de uma instituição.

Os crimes são individuais e só nessa óptica devem ser julgados. A Igreja católica, por mais delitos que tenha cometido ao longo da História, não pode ser julgada pelo actual comportamento dos seus empregados.

A ICAR paga agora séculos de poder absoluto, o despotismo do seu clero e as obsessões papais. Não está provado que o clero católico seja mais devasso do que o protestante ou do que o islâmico, sendo o último mais implacável na violência com que impõe o Corão e no policiamento que faz dos desgraçados que mastigam uma sanduíche de presunto ou que saboreiam um copo de vinho.

O que perde a ICAR é o desplante com que oculta os crimes e protege os criminosos, a ignorância de que é crime o encobrimento que fez nas últimas décadas para evitar que o seu clero perdesse a autoridade que despoticamente exerceu nas zonas mais atrasadas do Planeta.

A pressa do actual Papa em canonizar os seus dois últimos antecessores não é alheia ao comprometimento dos pontífices na ocultação dos crimes do clero. O milagre de João Paulo II obrado na freira polaca, que sofria de Parkinson, não resistiu à recidiva e pôs a nu o prodígio de fazer, depois de morto, o que não conseguiu em vida para si próprio.

A demência parece ter tomado conta do Vaticano. Os 44 hectares de sotainas parecem  povoados por uma tribo da idade da pedra onde o grande feiticeiro usa camauro e os acólitos se distinguem pela cor das meias e o exotismo dos trajes femininos.

O ex-chefe da repartição de milagres, embrutecido por jejuns e orações, diz que a roupa suja se lava em família, ignorando a gravidade do crime de ocultação e o abandono, ao instinto predador de psicopatas pios, de crianças que deviam merecer consideração.

Ratzinger fez uma cartilha secreta para “ocultar crimes sexuais” o que só pôde fazer com a bênção de João XXIII e manter com a conivência de João Paulo II.

Quem fez, em latim, este documento cuja tradução não existe em português, não estará à espera da canonização, mas é injusto que morra sem prestar contas à justiça dos homens. A outra é uma ficção para ganhar a vida.

Nota: Para esclarecimento dos bispos portugueses é importante lembrar o Artigo 367º (Favorecimento pessoal) do referido Código Penal:

«Quem, total ou parcialmente, impedir, frustrar ou iludir actividade probatória ou preventiva de autoridade competente, com intenção ou com consciência de evitar que outra pessoa, que praticou um crime, seja submetida a pena ou medida de segurança, é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa.»

9 de Abril, 2010 Carlos Esperança

Viagem de autocarro (Crónica)

Há tempos entrei num autocarro, tendo-me sentado no banco ao lado de um padre católico, do outro lado da coxia.

Olhei aquele rosto triste de um homem de 70 anos, com o colar romano a apertar-lhe o pescoço como o cincho onde se espremia o queijo para extrair o soro. Há muito que não via tal adereço na via pública. O uso deve ter-se mantido com a resignada dedicação ao múnus.
Não pude deixar de apreciar aquele homem só, a caminho de alguma casa da Igreja ou de um ritual qualquer que já perdeu o sentido, ou nunca o terá tido, e de que a sociedade se desinteressou.

Que sofrimento ajudou a desenhar aquelas rugas? Quantos desejos reprimidos e anos perdidos com o pescoço apertado por um colar e a lapela ornada com uma cruz?

Terá amado? Teve sonhos? Realizou-os? Próximo de mim estava um cidadão solitário, com olhos vagos e o ar de quem cumpriu a vida sem a viver.
Seria preciso ser cínico ou mau para não sentir compaixão por quem dedicou o tempo e a juventude a uma quimera, perdeu a vida perseguindo o sonho do Paraíso e se aproxima do fim da estrada sem saber porque a percorreu.

Somos ambos da mesma massa. Com poucos anos de distância ensinaram-nos a ajoelhar e a rezar. Eu levantei-me, ele ficou de joelhos. Eu vivi a vida, amei e passei incógnito na estúrdia, sem um colar que pressupõe a trela e sem a cruz a que não terão faltado espinhos. Ele imolou a vida por um mito e esqueceu-se de si próprio por coisa nenhuma.

Um homem nunca anda só, é certo, traz consigo as memórias que guarda e os sonhos que acalenta; mas, com o passar dos anos, sobram memórias e mingua o tempo para sonhar.

É injusto que aquele homem que sofreu o que eu não sofri e trocou a vida que recordará por outra que lhe inventaram, tenha os mesmos sete palmos de terra à espera, sem um filho que o recorde, sem alguém que o chore. Por um deus que inventaram para lhe tramar a vida.

Suportou jejuns, abstinências e mortificações, e passou os dias guardando horas para a leitura do breviário. Quanto terá sofrido na convicção de que podia atenuar o martírio do seu Deus?

(Publicada no Jornal do Fundão de 08-04-2010)

8 de Abril, 2010 Ricardo Alves

Apresentação de livro ateísta

No sábado, às 16 horas, estarei na Livraria Bulhosa de Campo de Ourique (Lisboa, Rua Tomás da Anunciação 68 B) para apresentar o livro «Deus o Homem e a Verdade», de Manuel Sousa Figueiredo, que constitui uma bela e irónica história do cristianismo, seus impasses e contradições, de um ponto de vista ateísta.

Estais todos convidados.