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28 de Abril, 2010 Carlos Esperança

Tradução e adaptação a Portugal do manifesto francês

O Papa tem o direito de vir a Portugal. Longe de nós a ideia de nos opormos, porque somos laicos. Mas a recepção oficial, de forma reverencial e com fundos públicos, não é desejável.

Enquanto chefe de Estado, Bento XVI não merece entusiasmo de uma democracia laica e igualitária. À frente de um pequeno Estado teocrático e patriarcal ele usa o seu lugar de observador permanente da ONU para dificultar todos os programas a favor do planeamento familiar, dos direitos das mulheres, da luta contra a Sida, ou das minorias sexuais. Frequentemente ao lado das piores ditaduras da Organização da Conferência Islâmica.

Enquanto líder religioso, Bento XVI é um papa ultraconservador e reaccionário. A sua visão do catolicismo, promovida através dos movimentos como o Opus Dei ou a Legião de Cristo, é dogmática, estreita, anti-feminista, discriminatória, hostil a um ecumenismo efectivo e ao espírito modernista do Vaticano II. Não há qualquer razão para reverência. Mas é assunto dos crentes.

Enquanto cidadãos laicos, a nossa vigilância está noutro lugar. Nós temos de aproveitar esta visita para recusar e voltar a recusar a «laicidade positiva», um termo utilizado por Bento XVI e repetido por todos os beatos ao serviço do papa e do Vaticano.

Fiéis à CRP, que separa o Estado das Igrejas, nós estamos amarrados à laicidade sem adjectivo. Quer dizer a uma laicidade que distingue bem a esfera do domínio público da sociedade civil e da esfera privada. Esta separação mantém prudentemente à distância a política da religião, no interesse de ambas.

Recusamos a evolução desta laicidade para uma religião civil à americana, a subvenção pública dos locais de culto, assim como a brandura da vigilância para com as seitas.

Apelamos, pelo contrário, a uma vigilância face a todos os integrismos. Esta vigilância passa pela revalorização dos laços sociais com um modelo laico, o apoio às associações de bairro lutando por viver em conjunto e à defesa da escola pública. Nós dizemo-lo sem rodeios: na transmissão dos princípios da República, o padre, o pastor, o rabino ou o imã não poderão jamais substituir o professor.

Nós não pensamos que o perigo das comunidades imigrantes seja tornarem-se «desertos espirituais», mas de se tornarem guetos sofrendo do bloqueamento da ascensão social, da subida dos preços imobiliários, do recuo dos serviços públicos e da falta de miscigenação social.

Nós não temos a pretensão de crer, como afirmam os avençados do divino, que «Deus está no pensamento e no coração de cada homem». Mas nós estamos certos de uma coisa, por mais importante que seja, a questão espiritual não nos parece ser apanágio das funções do Estado cujo papel é antes o de se ocupar da questão sicial.

Se o catolicismo faz incontestavelmente parte do património cultural de Portugal, o País não é já a nação consagrada ao Imaculado Coração de Maria, depois de várias décadas de democracia, mas uma República separada das Igrejas como estabelece a CRP. O seu objectivo não é procurar que um grande número de portugueses acreditem mas que vivam melhor, cada vez mais livres e mais iguais. Tal deverá ser a missão que incumbe aos órgãos do Estado. Tal é a nossa esperança.

Adaptação e tradução por CBE

27 de Abril, 2010 Carlos Esperança

Momento zen de segunda_ 26_04_2010

Na sua homilia de hoje, no DN, João César das Neves (JCN) parece apavorado com a legalização do casamento gay, convencido definitivamente da sua obrigatoriedade ou servindo-se do pretexto para não falar dos escândalos que inundam a sua Igreja.

Qual profeta, ungido na sacristia de uma paróquia rural, JCN afirma que «Aquilo que chocará o futuro são sem dúvida as tentativas radicais e atabalhoadas na legislação da família», motivo que o levou a intitular o sermão «A construção de um monstro».

Considera a lei do aborto de 2007, responsável pelo morticínio de milhares e insurge-se contra o que chama «enorme fraude política de usar um referendo não vinculativo sobre a despenalização do aborto” para o legalizar, omitindo que o anterior, igualmente não vinculativo e menos participado, suspendeu a legislação legalmente votada na A.R..

Depois de uma frase pia, de ressonância apocalíptica, « O aborto é apenas um aspecto, de longe o mais sangrento, da vasta investida recente contra a vida», atira-se à “lei da procriação medicamente assistida” de 2006 exibindo um desvelo pelo embrião humano superior ao que alguma vez lhe mereceram as crianças que morrem vítimas da fome, da guerra e das doenças que o seu omnipotente deus consente.

«As leis do divórcio de 2008 e uniões de facto de 2009 constituem enormes atentados à instituição familiar, só comparáveis à campanha de 2010 pelo casamento do mesmo sexo», – diz o microfone da Igreja católica ligado às segundas-feiras no DN.

JCN encara a educação sexual como uma imposição de «ideologia frouxa e lasciva» às crianças e jovens e ruge contra as praias de nudistas. Depois mistura coisas diferentes: divórcio (quererá proibi-lo?), uniões de facto e filhos fora do casamento, a que atribui a baixa natalidade, esquecendo que pior, para a reprodução, é a castidade.

JCN considera a legislação familiar portuguesa, em linha com o que se passa na Europa, um plano malévolo digno de Nero, Napoleão e Hitler, esquecendo as paixões que os dois últimos despertaram em altos dignitários da sua Igreja.

Enfim, JCN é uma poderosa vacina contra a Igreja de que é prosélito.

26 de Abril, 2010 Eduardo Costa Dias

Nova versão da singular expressão brasileira “rouba mas faz”…. “é pedófilo mas ‘fez um bom trabalho na Igreja'”!

População apoia padre pedófilo
Numa reacção que surpreende quem acompanha o caso, o padre Luiz Marques Barbosa, de 83 anos, detido há uma semana sob a acusação de pedofilia, está a receber forte apoio da comunidade católica de Arapiraca, cidade do estado brasileiro de Alagoas onde foi pároco durante vinte anos e onde os supostos abusos terão ocorrido. A casa onde devido à idade foi autorizado pela Justiça a cumprir prisão domiciliária é cenário diário de uma verdadeira romaria de fiéis que querem confortar o sacerdote.

Desde o amanhecer, dezenas de pessoas, homens, mulheres e crianças, vão até à habitação, cercada por muros altos e por uma rede electrificada, para expressar solidariedade ao sacerdote. Rezam com ele e confortam-no. De acordo com testemunhos, o padre Luiz Barbosa está abatido mas recebe todos e não foge do delicado assunto que o colocou naquela constrangedora situação, assumindo que mantinha uma relação homossexual com o rapaz, ex-acólito, que o denunciou. Mas nega ter abusado de menores.
“Ele está a ser confortado pelos fiéis porque fez um bom trabalho na Igreja”, afirmou a um repórter o comerciante Robson de Paula, ao sair da casa do sacerdote, onde levou até a esposa e a filha, mostrando que o respeito e a quase devoção a Luiz Marques não acabaram.
Uma outra senhora, que não se quis identificar, afirmou que “não compete a nós julgar os pecados dele, quem tem d julgá-lo e, se for o caso, puni-lo, é Deus.”

Correio da Manhã, 26 de Abril 2010

26 de Abril, 2010 Ricardo Alves

ICAR em queda na Alemanha

O número de alemães que pagam o «imposto de igreja» está em queda acentuada. As notícias mais recentes indicam várias dioceses em que o número de renúncias a permitir que parte do imposto estatal seja captado pela ICAR triplicou ou quintuplicou.

Na Alemanha, é possível ao contribuinte indicar a comunidade religiosa à qual deseja que parte (8%-9%) do seu imposto seja afecto. As comunidades religiosas beneficiárias são a Igreja Luterana, a ICAR e a Comunidade Judaica. Este «imposto de igreja» permite saber quantos contribuintes pertencem a cada uma das principais comunidades religiosas.

Segundo uma sondagem, 26% dos católicos alemães poderão deixar de contribuir desta forma para a ICAR alemã, que retira 70% do seu financiamento do «imposto de igreja».

26 de Abril, 2010 Luís Grave Rodrigues

Será que ainda vamos a tempo de fazer uma coisa destas em Portugal?

 

Um brincalhão qualquer do “Foreign Office”, o ministério dos Negócios Estrangeiros britânico, resolveu fazer circular um documento com aparência oficial em que se sugeria ao Papa Bento XVI que aproveitasse a sua visita ao Reino Unido em Setembro próximo para lançar a sua própria marca de preservativos «Benedict», para inaugurar uma clínica de abortos e para abençoar um casamento homossexual.

Descoberta a brincadeira, lá foi o brincalhão transferido sabe-se lá para onde, e lá teve o “Foreign Office” de andar a desmentir tudo e a pedir desculpas formais ao Papa e à Santa Sé.

Mas parece que a coisa é bem capaz de não ficar por aqui.

O cardeal Renato Martino, antigo presidente do Conselho Pontifício do Vaticano para a Paz e a Justiça declarou que se o Governo britânico convidou o Papa, deveria tratá-lo com respeito, porque fazer troça das crenças de milhões de católicos, não só no Reino Unido mas em todo o mundo, é de facto muito ofensivo.

E acrescentou que este incidente, de tal modo é ofensivo, poderá mesmo vir a causar o cancelamento da visita do Papa ao Reino Unido.

É pena que os responsáveis pelo Vaticano se ofendam tanto com uma brincadeira de um obscuro funcionário do ministério dos negócios estrangeiros britânico e não se incomodem sequer com a sua persistência em discriminar os seres humanos em razão da sua orientação sexual ou com os efeitos das mortíferas consequências da sua política sobre o preservativo, principalmente na África sub-Sariana.

Isto para não falar do tenebroso escândalo da pedofilia e do sofrimento causado a milhares e milhares de crianças por esse mundo fora, com a miserável complacência das mais altas estruturas da Igreja Católica, incluindo a do Cardeal Joseph Ratzinger.

Mas se uma brincadeira deste género é bem capaz de fazer cancelar a visita do Papa ao Reino Unido, será que em Portugal ainda vamos a tempo?…

                          

24 de Abril, 2010 Carlos Esperança

CÉU, INFERNO, PURGATÓRIO E LIMBO

Por

CSF

A tradição católica do Purgatório decorre do judaísmo, do rezar pelos mortos.

A existência do Purgatório foi concebida em 593 durante o pontificado do papa Gregório I e proclamada pelo Segundo Concílio de Lyon (1274), pelo Concílio de Florença (1438 1445), e pelo Concílio de Trento (1545 1563).

Em 2005 a Igreja Católica ainda defende o Purgatório, tal como consta nas secções 1020-1032, 1054, 1472 e 1473 do Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1992.

Segundo a actual doutrina católica, imediatamente após a morte, uma pessoa sofre o julgamento particular em que o destino da alma é especificado. Alguns unem-se com Deus no Paraíso e outros são destinados ao Inferno. O pecado mortal é uma “grave violação da lei de Deus”, um estado de punição e separação eterna de Deus. Algumas almas não estão suficientemente livres dos pecados veniais (que significa “pecados perdoáveis”) e as suas consequências para entrar imediatamente no Paraíso, as quais, estão destinadas a unirem-se com Deus no Céu, e para isso devem passar pelo estado de purificação do Purgatório. “não nos coloca em oposição directa com a vontade e amizade de Deus”. Embora “constitua uma desordem moral”, não priva o pecador da amizade com Deus e, consequentemente, da felicidade eterna do Céu. O perdão dos pecados e a purificação podem ocorrer durante a vida, por exemplo, no Sacramento do Baptismo e no Sacramento da Penitência. No entanto, se esta purificação não é atingida totalmente em vida, os pecados veniais podem ser purificados após a morte. No Purgatório, as almas “obtém a santidade necessária para entrar no Céu”. O Purgatório é uma purificação que envolve um castigo temporário doloroso, associada à ideia de fogo, semelhante ao Inferno. O Papa Gregório I escreveu que deve haver um fogo de purificação para algumas pequenas falhas. Orações para os mortos, esmolas, indulgências e obras de penitência na crença católica diminuem a duração do tempo que os mortos passam no Purgatório.

O Papa Paulo VI escreveu: a indulgência é “(…) uma remissão da pena (…) através da intervenção da Igreja”.

A Igreja Católica ensina que o destino dos que estão no Purgatório pode ser afectado pelas acções e intercessão dos vivos. Por causa da comunhão dos santos, os fiéis que ainda são peregrinos na terra são capazes de ajudar as almas do Purgatório, oferecendo orações em sufrágio por eles, em especial a missa.

Para inventar o Purgatório o clero católico recorreu a novas concepções de espaço e tempo; relacionar Terra e Além implicava numa espacialização do pensamento que, lidando com estruturas matemáticas, deixasse de lado as antigas concepções dualistas e criasse esquemas lógicos ternários nos quais a noção de intermediário passasse a ter papel fundamental. Foi assim que, entre guerreiros e sacerdotes, a nova concepção da sociedade de ordens introduziu os trabalhadores; entre o Céu e o Inferno, o sistema de Além completou-se com o espaço Purgatório.

Podemos dizer hoje, grosso modo, que o Purgatório corresponde à burguesia, tal como o Céu pertence à nobreza e ao clero e o Inferno pertence aos trabalhadores manuais: lavradores e artífices.

Fica assim patente que a criação do Purgatório serve a necessidade de criar um lugar ideológico para a burguesia, ou seja, para aqueles que não estavam livres do “pecado” de ter trabalhado mas que por outro lado tinham riquezas e eventualmente títulos.

Para percebermos melhor a finalidade do Purgatório é útil conhecer as ideias de Jacques Le Goff.

Ele separou o «Tempo de Deus» e o «Tempo dos Mercadores» (Le Goff, 1980: 43).

A Idade Média rege-se pelo tempo de Deus, ou seja, neste período o tempo é entendido como uma dádiva de Deus e como tal não podia ser alvo de moeda de troca (Deus dispunha o tempo dos seres humanos como bem entendia, gerido em seu nome pelas autoridades eclesiásticas); a sociedade era regida pela religiosidade (os sinos das igrejas ou dos mosteiros marcavam momentos para a fé – convocação para a missa, celebração de festas religiosas, etc.) e assim encontramo-nos perante uma forma de gerir o tempo, comunitária e centralizada na Igreja.

Apesar da sua existência ter sido inventada em 593, o Purgatório só foi utilizado em pleno Tempo dos Mercadores.

O tempo dos Mercadores rege-se pelo comércio e pela capacidade do indivíduo em fazer dinheiro – dispondo para tal do tempo que ele acha necessário (correndo o risco de criar um certo distanciamento ou falta de assiduidade nas suas obrigações religiosas); encontramo-nos, nesta situação, perante uma forma descentralizada e individualista de gerir o tempo e as obrigações na comunidade.

Para lidar com o embaraço provocado por esse egocentrismo monetarista que em tudo contraria a passagem bíblica de Mateus 19:24 (“Repito-vos: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino do Céu”), tanto por interesse próprio das novas classes burguesas fazedoras de dinheiro como da tradicional classe clerical que dele tanto precisava, houve necessidade de reorganizar o sistema divino para permitir o ingresso dos endinheirados no Paraíso e/ou a sua aceitação social na comunidade: criou-se para isso, o Purgatório.

Com este artifício, o dinheiro do pecador (o qual sabia estar vedada uma ida directa para o Paraíso) podia ser utilizado para transaccionar o período de estadia nessa antecâmara intermédia chamada Purgatório, compatibilizando-se assim todos os interesses: os pecadores endinheirados sabiam que teriam de pagar pelas suas faltas de alguma maneira, num lugar (sem com isso hipotecar a sua salvação depois da morte ou a sua ostracização no mundo terreno), e o clero continuaria a ser coerente em relação às Escrituras: o seu papel como «gestor financeiro» do Purgatório juntava assim o ingresso no Paraíso de ser objecto de qualquer sanção ou comércio mundano.

A compra de tempo de penitência e redenção fora da ordem natural das coisas, ou seja, no Purgatório, terá implicações na fragmentação da dualidade moral (bom/mau) e na concepção e organização do império celeste: aquilo a que actualmente podemos chamar uma parlamentarização do mundo divino, perene, Iatico, eterno, começava a operar-se; e, com esse feito, começava também a desmoronar-se as estruturas religiosas que permitem uma tão radical mudança nesse organigrama supostamente imutável (pois se as organizações precisam de reestruturações nos seus departamentos é porque estas não funcionam tão bem nem são tão eficientes quanto seria desejável sejam elas terrestres ou celestes. Controlada que estava a gestão do tempo espiritual, devem ser verificadas as Implicações da gestão eclesiástica no tempo natural.

Céu/Purgatório/Inferno = Clero/Trabalhadores/Guerreiros

ou

Céu/Purgatório/Inferno = Nobres+Clero/Burgueses/Trabalhadores

(TEXTO BASEADO EM VÁRIAS OBRAS, ENTRE ELAS A HISTÓRIA DO ATEÍSMO EM PORTUGAL DO ARQUITECTO LUÍS  FERREIRA RODRIGUES)

23 de Abril, 2010 Ricardo Alves

Já não sobram bispos

Demitiu-se agora o bispo belga Roger Vangheluwe, que assume os seus crimes: «Quando ainda não era bispo e também durante algum tempo depois de ser, abusei sexualmente de um jovem da minha entourage próxima. A vítima ainda está marcada».

Depois das duas demissões noticiadas anteontem, parece indesmentível que a ICAR optou por queimar o que houver para queimar, o mais depressa possível. Esperando que a crise dure o menos possível e que não sobre nada para denunciar. É uma fuga para a frente. Para ser credível, deveria ser acompanhada das denúncias dos casos que ainda não prescreveram.