Pela primeira vez em Itália, uma mulher foi, ontem, sábado, ordenada numa igreja do centro histórico de Roma, apenas a centenas de metros do Vaticano que, apesar de afectado por uma crise de vocações, nega o acesso das mulheres ao sacerdócio.
A nova sacerdotisa, Maria Vittoria Longhitano, uma italiana de 35 anos, casada e mãe de duas crianças, pertence à Igreja Vetero Católica Italiana, uma pequena congregação que abandonou o catolicismo romano no século XIX e juntou-se à União de Utreque, estreitamente ligada à Igreja Anglicana.
No passado dia 20 houve um debate sobre «Religião e Ateísmo», organizado pelos alunos da Faculdade de Medicina do Porto, entre Ludwig Krippahl, da Associação Ateísta Portuguesa e o padre da ICAR, José Nuno, moderado pelo jornalista Carlos Magno.
O referido padre afirmou que «os maiores genocídios do século XX foram perpetrados por ideólogos ateístas: nazis e comunistas.
«Como a memória eclesiástica é selectiva, deixo aqui um trecho da conferência que, no dia seguinte, fiz em Lisboa, no Auditório da Biblioteca-Museu República e Resistência e que refere o nazismo:
A religião alimentou a guerra da ex-Jugoslávia e foi o rastilho de ódios que o mosaico étnico e a conivência externa ajudaram a deflagrar. No Kosovo esteve em curso um genocídio dos sérvios ortodoxos sobre sérvios e albaneses islamizados a que a ONU teve de pôr cobro.
A Croácia cometeu, uma vez mais, horrores contra os sérvios, católicos contra ortodoxos, esquecida do passado nazi, na década de 40, em que o Estado fantoche de Ante Pavelic, apoiado pelo Vaticano, quis exterminar todos os judeus e levou a cabo uma campanha de conversão forçada dos cristãos ortodoxos. O seu partido Ustashe era tão repugnante que muitos oficiais alemães protestaram, envergonhados por serem obrigados a associar-se a ele.
O nazismo, sendo um fenómeno de natureza secular, não teria levado tão longe a sua loucura genocida se o cristianismo (católicos e protestantes) não tivesse envenenado os crentes com as concepções anti-semitas que os moldaram. Quando o Terceiro Reich iniciou a vasta e metódica aniquilação dos judeus logo surgiram progroms anti-semitas na Polónia, Roménia, Hungria, Áustria, Checoslováquia, Croácia e outros países. Mas já em 1919, por exemplo, tinham sido mortos 60 mil judeus só na Ucrânia e o nazismo estava longe de ser a religião oficial do Terceiro Reich. Isto para não recordar o carácter anti-semita do concílio de Trento e da Inquisição. De algum modo os nazis foram agentes da teologia cristã para a qual os judeus são ainda piores do que simples hereges; são hereges que repudiam explicitamente a divindade de Jesus e foram autores do deicídio. O próprio Hitler, ao usar a expressão «ninho de víboras», para os judeus, tanto a pode ter ido buscar directamente ao Evangelho de Mateus (3:7) ou a Lutero, que decerto a bebeu aí, mas o anti-semitismo não pode ser alheio à educação católica que recebeu.
Perseguições aos judeus em Espanha com os ataques às judiarias (Toledo, 1355, 12 mil mortos; Palma de Maiorca, 1391, 50 mil mortos; Sevilha, 1391, etc.; com a Inquisição (1478) milhares deles procuraram refúgio em Portugal. Outros, por medo, deixaram-se converter ao catolicismo. Uma perseguição tão cruel levou as judiarias espanholas à miséria, até que em 1492 foi declarada a expulsão dos judeus da Espanha.
Em Portugal, o anti-judaísmo provocou a revolta popular contra os cristãos-novos e os judeus ocorrida em Abril de 1506 – o infame Progrom de Lisboa. A superstição agravou o medo da peste que grassava na cidade e as dúvidas de um judeu em relação ao suposto milagre desencadeou uma onda de ódio, estimulada por um frade, que perseguiu, matou espancou e arrastou semi-vivos para as fogueiras que logo se acenderam na Ribeira e no Rossio – um massacre de 4 mil judeus, enquanto dois frades, o português João Mocho e o aragonês Bernardo, um com uma cruz e o outro com um crucifixo erguido, bradavam: Heresia! Heresia!, atiçando o ódio.»
Comentário: Não cabe ao autor pronunciar-se sobre o mérito. Embora com as diferenças normais entre um discurso de improviso e o texto escrito, vou procurar a forma de colocar à disposição dos leitores o referido texto.
Biblioteca-Museu República e Resistência – Espaço Cidade Universitária
(Próximo da Faculdade de Farmácia)
Rua Alberto de Sousa, 10 – A (Zona B do Rego) – Lisboa
Estações de Metro: Cidade Universitária; Entrecampos
Num bairro de 44 hectares habitava um cardeal que a idade e o múnus tornaram casto. Na adolescência passou pela juventude hitleriana onde a disciplina o moldou.
Despida a farda, perdida a guerra, vestiu a sotaina onde não faltaram adereços com que a hierarquia o foi adornando. João Paulo II, papa polaco, viu nele o bispo ideal para lhe guiar a Prefeitura da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (ex-santo Ofício).
A idade canónica para a resignação (75 anos) não o removeu das funções. Com o prazo de validade excedido o Papa nomeou-o Decano do Colégio Cardinalício, quiçá grato pela preparação do Catecismo da Igreja Católica de que o havia encarregado.
Foi esse Decano que ascenderia a papa perante o desmazelo do Espírito Santo e o olhar atento do Opus Dei. Mal sonhava que a ocultação dos crimes de alguns padres lhe cairia como nódoa indelével na brancura dos paramentos e o travaria na pressa beatificadora dos antecessores, igualmente manchados pelo encobrimento. Hoje, uma confissão bem feita já não é benzina capaz de desencardir tal nódoa, por mais sincero que seja o arrependimento e a promessa de não mais pecar.
Foi neste vendaval de vergonha, sob pressão da comunicação social de todo o mundo, que o recandidato a PR de um país ansioso por romarias e tolerâncias de ponto convidou o Papa infamado.
São duas caras que não inspiram paixões mas atraem cúmplices, não induzem simpatia mas fazem confluir interesses, não se comportam como deviam mas são reverenciados pelas funções. Foi assim que a recandidato Cavaco convidou o futuro santo e actual regedor do Vaticano.
Em Lisboa, o Papa Ratzinger elogiou o cardeal Cerejeira, cúmplice da ditadura fascista e da guerra colonial; no Porto olvidou o bispo Ferreira Gomes que, por honradez, sofreu 10 anos de exílio, mas nem o Papa nem o anfitrião alguma vez se distinguiram no amor à democracia.
O País viajou de joelhos, os ministérios pareceram sacristias, a família presidencial deu o exemplo aos mordomos das festas sacras e até os cadetes militares fizeram uma pausa na carreira das armas, transportando o andor da senhora de Fátima, para mostrarem que a glória militar não se compara com a de carregadores de padiolas pias.
Finalmente, o PR promulgou a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo, com a raiva de quem não tem alternativa e a azia de uma decisão amarga.
Esperemos que o país volte ao normal, que não é bom, depois dos dias de Papa, em que foi pior.
Nota: Entrada livre. Todos serão bem recebidos. Podem perguntar ao segurança do HSJ, à entrada, que ele indicará o caminho.
Após o Iraque revelar que a Al-Qaeda planeava um ataque na África do Sul durante a Copa do Mundo, o alto membro da rede terrorista preso naquele país revelou nesta terça-feira que as delegações da Holanda e da Dinamarca eram os alvos das ações.
O saudita Abdullah Azam Saleh al-Qahtani, de 30 anos, ainda disse que as torcidas destas seleções também poderiam ser atacadas.
Caros senhores párocos,
Antes de falarmos de vossas paternidades, permitam-me uma fugaz divagação sobre taxistas. Ainda não há muito, a propósito duns atropelos algo indecorosos que ocorriam no aeroporto de Lisboa, não poucos cidadãos manifestaram nos jornais uma forte desconfiança na classe. De imediato um jovem veio responder com indignação que era filho de taxista e que o pai, numa vida inteira de trabalho, sempre procedera como homem íntegro e impoluto. O jovem tinha razão ao não querer um homem de bem misturado com a mexerufada mais ou menos carroceira que indispunha os colaboradores e leitores dos jornais.
Eu penso que, ao dirigir-me a vossas senhorias, não corro o risco de que venha um filho desagravar o pai, e, se vier, pois tudo é possível nestas desajustadas eras, sempre protestarei que não me refiro aos párocos honrados, cumpridores do seu mester, respeitadores da constituição e da lei, repesos das malfeitorias contra Hipácia e Galileu, leitores de romances, informados do mundo, preocupados com as suas ovelhas, horrorizados com as memórias do Santo Ofício, para resgate do qual pedem perdão à divindade todas as noites, chorando.
É, na verdade, muito difícil conversar e sustentar um determinado ponto sem recorrer às generalizações, porque os contínuos ‘distinguo’ acabam
por entrevar o discurso. Seja a conversa sobre taxistas, jornalistas, toureiros, advogados ou calceteiros, compreenderão que ela resulta enfraquecida se a cada passo tivermos de acrescentar: «Claro que não são todos assim, eu até conheço uns torcionários de bom coração e altíssima cultura.»
Falo, senhores curas, com tristeza e com repulsa dos párocos do século XIX que por qualquer equívoco da Biologia continuam a negrejar e a bramir em igrejas que há por aí. Cabe aos cientistas averiguar como é que organismos com 200 anos tomam conta de um espaço público que a liberdade de culto consente ao seu múnus, para o desvirtuar em exercícios de solta demagogia e propaganda política. Talvez a água benta conserve, o incenso enrije e o ar dos templos, preservado das correntes deletérias do exterior, mantenha os corpos e as almas de outrora tal como elas eram. Já não se exibem, porventura, cartas remetidas do céu, como nos bons tempos de Baltasar Gracián e, até, de Júlio Diniz, mas há que reconhecer que a decadência e a má qualidade dos correios vêm sendo notórias desde há uns anos a esta parte.
Senhores priores, eu sei como vossas mercês, com o venerando Bispo de Roma à cabeça, trovejaram tão ferinamente contra o sufrágio universal, contra a liberdade de expressão, contra a liberdade de imprensa, contra a liberdade de ensino, contra a liberdade de manifestação, contra a igualdade perante a lei, contra a liberdade de culto, contra a República, contra o 25 de Abril, contra o divórcio, contra a pílula, contra o preservativo. Trovejar até seria o menos, porque lamentavelmente chego a pressentir em alguns dos vossos colegas um ressentimentozinho por já não ser permitido queimar gente ou denunciar gente para ser queimada.
Se a divindade que vossas senhorias reverenciam existisse, existência que nunca foi provada e de que eu me permito, discreta mas firmemente, duvidar, decerto que o perfil da personagem, como vem às vezes relatada, não se compaginaria com certos comportamentos e certas vozearias dos seus subordinados.
Isto, senhores padres, vem a propósito de rumores que considero fundados acerca do teor das algumas homilias em matéria de referendo, utilizando os altares para violentar a boa fé dos crentes e a liberdade das consciências. A ser verdade, e por o Ministério Público andar tão ocupado com outro tipo de manipulações, que não teve decerto tempo para, neste campo, defender os interesses da República, eu julgo-me no direito de vos relembrar os vossos deveres e as condições legais em que a prática do vosso culto é aceite.
Há, senhores curas, entre os crentes, gente absolutamente admirável, a muitos títulos, que soube merecer o respeito e a admiração dos outros cidadãos: queiram inspirar-se nela. Há quem pratique, desinteressadamente, boas obras: tenham a bondade de testemunhar, apontar e seguir esses magníficos exemplos.
E, já agora, de uma vez por todas, de preferência dando mostras de arrependimento, convertam-se finalmente à democracia.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.