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4 de Julho, 2010 Carlos Esperança

Vaticano, S. A. – O offshore da impunidade

Os escândalos do banco do Vaticano. a Igreja não vive só de avé-marias

Instituto para Obras Religiosas fez negócios pouco santos, garante o autor de “Vaticano SA”.

O Vaticano é há muito um centro de corrupção e intriga política onde o dinheiro e a fé se movem de mãos dadas. A opacidade da única teocracia europeia esconde a teia de interesses que liga prelados, políticos sem escrúpulos e mafiosos.

No bairro de 44 hectares, que deve a Benito Mussolini o estatuto de que goza, urdem-se tramas, tecem-se redes de poder e lava-se dinheiro de origem criminosa. A cupidez e a falta de escrúpulos vai até ao Papa, corrompe tiaras, oxida báculos e corrói mitras e barretes cardinalícios.

Deus é um mero álibi para os crimes que andam à solta naquele bairro mal frequentado. A imunidade papal trava o braço da única justiça que existe – os tribunais dos homens.

Os papas mais pérfidos acabam por fazer, depois de mortos, os milagres que os hão-de conduzir aos altares, esquecidos ou ignorados os crimes praticados em vida. A história do Vaticano é uma sucessão de horrores que a fé dos crédulos e o esplendor da liturgia conseguem mascarar.

A origem do ouro de que se fazem os anelões dos prelados é um segredo bem guardado mas o destino do dinheiro lavado num dos mais obscenos offshores do mundo é ainda mais enigmático e obscuro.

Quantas conspirações, intrigas e traições, por todo o mundo, não foram pagas com o óbolo dos crentes e as esmolas para as alminhas do Purgatório? O Vaticano é um bairro sem lei, onde o negócio das indulgências, sacramentos e bênçãos é a fachada sob a qual se esconde um dos mais perigosos centros de poder sem qualquer controlo democrático.

Os Estados de direito não podem permitir que os delitos fiquem impunes no espaço europeu onde um futuro santo, com a alcunha de Sumo Pontífice, num Estado fantoche que usa o pseudónimo de Santa Sé, dirige um bando à margem da lei e ignora as normas éticas que devem reger a sociedade.

3 de Julho, 2010 Ludwig Krippahl

Fé.

“Fé” é um termo que não se consegue definir bem por palavras porque, como “amor”, refere mais do que aquilo que as palavras podem descrever. Quem já sentiu sabe o que a palavra refere mas a quem nunca sentiu o dicionário dará sempre uma ideia incompleta. E este problema é muito apontado como prova do Mistério que estas coisas são; o Amor, a Fé, Deus, etc. Mas este é um problema comum a quase todas as definições fora de sistemas formais como a matemática e a lógica. Passa-se exactamente o mesmo com “salgado”, “verde” ou “cheiro a couves”. Quem já sentiu sabe o que significa e quem nunca sentiu não vai perceber o significado todo. Ainda assim, há aspectos destas coisas que podemos compreender por palavras mesmo que, sem as sentir, fique alguma coisa de fora.

A propósito de um texto do Domingos Faria sobre o ateísmo ser o primeiro passo para a fé (1), perguntei-lhe o que é a fé e para que serve. Não contava com uma definição completa da fé, mas bastava algo que desse uma ideia do seu papel. E a propósito da resposta do Domingos decidi escrever estas minhas impressões acerca da fé e daquilo para que pode servir.

O Domingos respondeu, como responde muita gente, que ter fé é acreditar. Mas não pode ser, por várias razões. A fé é apresentada como razão para crer, e se justificam acreditar porque têm fé a fé tem de ser algo que precede a crença e os leva a acreditar. Além disso, a crença admite facilmente a possibilidade de erro. Muitas vezes até acompanhamos a expressão de uma crença com um “se não me engano”, indicando precisamente que podemos estar enganados naquilo em que acreditamos. Acredito que vai chover ou que a faca do pão está na gaveta, mas se calhar não é verdade. A fé não é assim. É contraditório dizer que se tem fé em algo e ao mesmo tempo admitir que se pode estar enganado, porque tal admissão revelaria falta de fé.

A fé também implica a expressão insistente, e persistente, da crença. Perseverança e fidelidade. Eu acredito que isso dos deuses é treta mas, não tendo fé, se me ameaçarem com a fogueira digo logo que acredito nos deuses que quiserem, como hóstias e invento pecados no confessionário se for preciso. Um grande contraste com a fé dos mártires que optam pela tortura e morte só para persistir na afirmação das suas crenças.

Outra diferença entre acreditar e ter fé é que acreditar faz parte de compreender mas a compreensão exclui a fé. Eu compreendo porque é que o interruptor faz acender a luz, e para compreender isso tenho de acreditar em várias proposições acerca desse circuito eléctrico. Mas uma vez que compreendo não há espaço para ter fé. Se acende sei porquê, e se não acende é um disjuntor desligado ou uma lâmpada fundida. Não é uma crise de fé.

Finalmente, a fé é proposta como uma virtude. Ter fé é ser fiel a uma crença. É moralmente bom, digno e virtuoso. E rejeitar essa crença é mau. É uma falha, uma traição, uma imoralidade. Coisa de quem não é de fiar. O que não se passa com as crenças em geral. Sem a fé, acreditar ou deixar de acreditar são actos moralmente neutros. Não é virtude acreditar que o autocarro vem à hora indicada no horário nem é defeito de carácter deixar de acreditar quando a hora passa e o autocarro não veio.

E não só é virtude ter fé como é defeito de carácter criticar o que acreditam pela fé. Todos reconhecemos que, em geral, as crenças estão sujeitas a críticas e discussão. Mas às crenças motivadas pela fé é dá-se um estatuto especial, com pressões sociais contra a dissensão aberta e muitas vezes até leis que punem quem as criticar demasiado.

Há mais coisas que se poderia dizer acerca da fé e mais coisas que não se consegue pôr em palavras, que só quem tem fé é que pode sentir. Mas estas características da fé já dão uma ideia da sua função. Daquilo para que serve a fé. Serve para manipular as pessoas.

Os requisitos de um mecanismo psicológico para fazer as pessoas acreditar no que quisermos são exactamente estas características da fé. Algo que dê a sensação de justificar a crença em coisas que não se compreende. Que faça sentir essa crença como uma virtude, a descrença como um defeito e a crítica como uma ofensa. Que torne desconfortável admitir a possibilidade de erro. E que motive o crente a defender e propagar a crença mesmo com grande sacrifício pessoal.

Por isso a fé é um excelente vector de clonagem de crenças*. Basta inserir a crença que se quer propagar, infectar alguns hospedeiros e a fé trata de a espalhar pela população. E dá para muitas crenças. Que certas pessoas têm um canal especial de comunicação com um deus, são lideradas por um chefe infalível e não fazem mal às crianças. Que este livro é sagrado. Ou aquele, ou o outro. E não é só com deuses. Dá para produzir católicos e criacionistas, mas também cientólogos, raelianos e sistemas de governo liderados por um morto.

E, ao contrário do que escreveu o Domingos, o ateísmo não é o primeiro passo para a fé. É uma das manifestações da vacina contra esse agente infeccioso.

* É uma analogia um pouco técnica, mas pareceu-me boa demais para deixar passar. De qualquer forma, com a Wikipedia qualquer um pode saber biologia molecular: Cloning vector.

1-Domingos Faria, Ateísmo – um primeiro passo para a Fé.

3 de Julho, 2010 Carlos Esperança

Igreja, fé e tolerância

Quantos dos que se refugiam no anonimato e defendem deus, como se existisse, seriam capazes de permitir aos ateus que escrevessem em espaço seu? Quantos avençados do divino enjeitariam a censura que a Igreja católica praticou até ao Vaticano II e as outras religiões monoteístas ainda mantêm?

Algum clérigo aceitaria que um ateu discutisse as suas homilias na igreja onde celebra a missa ou nas madraças onde apela à guerra santa, e, naturalmente, fazem a apologia do seu deus?

O Diário Ateísta tem permitido que fanáticos, a coberto do anonimato, insultem quem mantém vivo um espaço que assegura a pluralidade num país beato onde a Igreja apoiou uma ditadura de 48 anos, foi miguelista contra os liberais e monárquica contra os republicanos.

São sobretudo os fanáticos quem se indignam quando lhes lembram o anti-semitismo do Novo Testamento e os milhões de judeus que a sua Igreja assou ou expulsou dos países onde o despotismo teve a sua bênção.

Resta-me a consolação de saber que o seu deus não pode espreitar pelo buraco de todas as fechaduras nem ter capacidade para registar num caderno todos os pecados que mais de sete mil milhões de habitantes cometem, de acordo com livros pouco recomendáveis a que chamam santos.

Se o deus que inventaram para amedrontar a humanidade se dedicasse a evitar a fome, os cataclismos e as guerras, talvez merecesse consideração. O deus que aqui defendem os cruzados, nas caixas de comentários, é um delinquente psicótico que deve ser combatido em nome da higiene pública.

2 de Julho, 2010 Carlos Esperança

O Diário Ateísta e os salafrários de deus

Há quem não entenda que em matéria de convicções contam os direitos e liberdades individuais e não os desvarios e violências de um deus que os homens primitivos criaram à sua imagem e semelhança.

Há quem, a coberto do anonimato e da indulgência dos ateus, venha bolçar inanidades em português medíocre, e com um ódio torpe, às caixas de comentários dos posts que aqui se publicam.

Há quem julgue que a falta de educação e a raiva são o passaporte para o Paraíso que lhes reserva um deus violento criado na Idade do Bronze. Apagar o vómito de fanático é um acto que está à distância de um clic, mas os ateus relevam quem foi envenenado pela fé e intoxicado pelo clero.

Impede-nos o respeito por crentes, que se identificam e discutem de boa fé, que usemos para os anónimos a mesma  linguagem e insultos que aprenderam nas sarjetas do ódio madraças e sacristias.

Dificilmente alguém tem um passado tão negro e longo no combate à liberdade como as religiões monoteístas, o que não faz dos crentes malfeitores mas faz dos prosélitos gente pouco recomendável.

A sanha dos intoxicados pela fé lembram as catequistas da minha infância, tementes a deus e ignorantes, que diariamente semeavam o ódio aos ateus, comunistas, judeus e hereges no coração de crianças de seis ou sete anos. Eram beatas cujo analfabetismo não as impedia de debitar as aleivosias que o padre lhes ensinava.

Num mundo onde a tolerância e a diversidade deviam ser o paradigma da convivência cívica, aparecem solípedes à solta, que podem ser enfermeiros ou professores, cobardes que ocultam a identidade, sectários que uivam hinos ao seu deus e zurram ameaças aos que seguem a sua consciência.

Continuaremos a deixa-los usar a linguagem ao nível do deus em que acreditam.

1 de Julho, 2010 Carlos Esperança

Ateísmo, laicismo e anticlericalismo

Para quem esteja em Lisboa e pretenda participar, informa-se que a próxima conferência na BM-RR é amanhã.

1 – Ateísmo, Laicismo e Anticlericalismo em Portugal

Dia 02 de Julho – 18H30: Ricardo G. Alves (Presidente da Associação República e laicidade)

Tema: Laicidade e ensino

Biblioteca-Museu República e Residência – Espaço Cidade Universitária

(Próximo da Faculdade de Farmácia)

Rua Alberto de Sousa, 10 – A  (Zona B do Rego) – Lisboa

Estações de Metro: Cidade Universitária; Entrecampos

1 de Julho, 2010 Carlos Esperança

Papa cria organismo de combate à secularização

O papa Bento XVI vai instituir no Vaticano um órgão para combater a secularização e «reevangelizar» países ricos e desenvolvidos do Ocidente, segundo ele ameaçados pelo «eclipse de um sentido de Deus».

Se não recorrerem à violência sectária, é tão legítimo o Papa combater a secularização como todos os livres-pensadores, ateus, cépticos e agnósticos, a evangelização. A luta pelas ideias em que se acredita é uma conquista do Iluminismo, herança da Revolução Francesa, paradigma das democracias.

É igualmente lícito crer, descrer ou ser contra as crenças, desde que sejam respeitadas a legalidade democrática e a dignidade humana. É por isso que o Diário Ateísta combate as crenças, pela desconfiança na sua bondade, mas não deixará de defender o direito a que todos os homens e mulheres as possam praticar e divulgar.

O mundo civilizado sabe no que deu o processo de reevangelização islâmica começada com o Aiatolá Khomeini de quem Bento XVI é um avatar. Os assassínios em nome da fé, seja qual for o objecto da fé, não podem ser tolerados. Ninguém negará a violência que grassa, por todo o mundo, em nome de deuses que nunca fizeram prova de vida.

A demência islâmica, apostada em converter o mundo ao seu deus – o único verdadeiro –, é semelhante ao despotismo sionista e ao furor obscurantista de Bento XVI. Não é por acaso que o jovem das juventudes hitlerianas foi o ideólogo do Vaticano no tempo de JP2, um papa rural e supersticioso, que criou a indústria das canonizações e desatou a reconhecer milagres feitos por cadáveres com séculos de defunção.

Este pontífice, continua o negócio, com obstáculos no caminho, e sem renunciar a fazer da fé um instrumento de proselitismo obscurantista e agressivo. A sua interferência nos assuntos internos dos países onde tem apoios prova a obsessão pelo poder. Que queira salvar a alma, seja isso o que for, é um direito que lhe assiste; insistir em salvar a alma dos que não querem é um abuso a que é preciso pôr cobro.

B16 está disposto a aliar-se ao diabo para conter a liberdade que os países democráticos conquistaram. É preciso estar atento às suas arremetidas contra os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos dos países livres.

Mais uma vez, pergunto: O que terá levado o Vaticano, o arcebispo de Cantuária e o rabino supremo de Israel a tomarem uma posição favorável ao aiatola Khomeini quando, na sua pia demência, condenou à morte Salman Rushdie pelo abominável crime de…ter escrito um livro?