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29 de Julho, 2010 Eduardo Costa Dias

“Erro técnico” não, costume bárbaro sim!

Segundo o Expresso online, “após ser submerso três vezes na pia baptismal, um bebé de acabou por morrer com problemas respiratórios. O padre responsável pelo ritual de baptismo, que teve lugar na Moldávia, está a ser investigado pela polícia (…) Relatos de quem estava na igreja, em Chisinau, contam que minutos depois do ritual o bebé começou a espumar da boca e a deitar sangue do nariz, acabando por falecer a caminho do hospital (…) A equipa médica que assistiu a criança encontrou água nos pulmões, diagnosticando morte por afogamento (…) O religioso nega as acusações e alega ter obedecido aos cânones religiosos das cerimónias de baptismo(…)”

29 de Julho, 2010 Carlos Esperança

A ICAR e a política

A lei sobre o aborto introduzida há pouco na Espanha é tão “insensata” quanto o primeiro-ministro do país, José Luis Rodríguez Zapatero, afirmou o presidente da Academia Pontifícia para a Vida, Ignacio Carrasco de Paula.

Comentário: O Vaticano é tão insensato como o Papa. Zapatero foi eleito pelo povo espanhol e não representa uma ditadura como o Sr. Ignacio de Paula. Todos sabemos que o sufrágio universal não é uma criação da única teocracia europeia, é um direito dos povos, que devem exigir respeito aos primatas tonsurados.

29 de Julho, 2010 Ricardo Alves

O jogo «Fátima»

Está na internet o jogo «Fátima». O objectivo é guardar o número máximo de ovelhinhas, mas há que ter cuidado com as «aparições» da «Senhora de Fátima», que pode distrair os jogadores obrigando-os a rezar.

Divertimento aconselhado a católicos e ateus.

29 de Julho, 2010 Fernandes

Jesus Lava Mais Branco

– A Igreja teve lições de marketing?

– “Estamos a brincar? Quanto a lições, a Igreja só pode dá-las. As empresas mortificam os homens medindo a sua produção, enquanto nós sabemos valorizá-los. O marketing? Foi Jesus que o começou há dois mil anos”.

Monsenhor Ernesto Vecchi, – 2 de Outubro de 1997.

É extraordinário como a humanidade consegue não aprender nada com a história. Não me refiro, claro está, aos fariseus em cujo comportamento aplicam velhas regras e, mesmo que sejam inventadas outras novas, adoptam-nas fingindo hipocritamente uma fé que não possuem, mas às pessoas de boa fé, vítimas destes. Quando uma religião assenta o seu discurso no irresistível fascínio da promessa de vida para além da morte: o marketing aparece, e até o templo dos vendedores acaba por ser vendido pelos mercadores do templo.

O primeiro passo é criar uma mercadoria que esteja à disposição de todos, aliada a uma aquisição epontânea na base das próprias necessidades que se fazem emergir artificialmente. Basta fazer crer ao público alvo que tem necessidade do produto para que o ciclo de consumo, inicie o seu caminho. Se isto não é um milagre da fé, é certamente um milagre económico.

O marketing, segundo os seus autores, é uma guerra, e para alcançar sucesso é preciso criar a perturbação psicológica no público alvo. Para isso, nada melhor que o “sentido de obrigação” e o “sentido de culpa” a ele associado. A Igreja não poderia descuidar um instrumento de persuasão de tal amplitude.

De facto ainda hoje no agressivo mercado dos detergentes, tanto se usa a informação sobre as características do produto como simultaneamente se instala naqueles que ainda não o escolheram, doses maciças de “social embarrassement”, ou o sentido de culpa pela possibilidade de parecerem os mais sujos e mal cheirosos na vida social. Não se limitam a transmitir a “boa nova”, mas também difundir um sentimento de culpa para conseguir recrutar os inseguros e ignorantes.

Jesus estendeu a graça, quer a quem pecou, quer a quem ainda não pecou (nunca se sabe). Deste modo os “consumidores” dirigir-se-ão à “Marca”, seguros de poderem utilizar o crédito e de o poderem renovar através da confissão. Quem se pode queixar de um serviço assim? A “consumer satisfaction” está garantida. Milhões de pecadores só esperam ser perdoados para poderem continuar a pecar.

Para atrair clientes e fundamentar a sua “fidelização”, exigem as mais elementares regras do marketing que se adopte um símbolo.

A cruz foi o escolhido. Na época da adopção deste sinal, o mesmo “product manager” que inventou a marca estava perfeitamente consciente que aquele símbolo “era escândalo para os Judeus e loucura para os pagãos” (1 Cor 1, 23). Mas o instrumento de morte é agora reproduzido como “tradmark” transformado em jóia unissexo que se aloja entre os seios das senhoras ou pendura nos muros dos asilos e escolas. A pergunta fica: que “gadget” traríamos hoje connosco, se Jesus tivesse sido enforcado ou decapitado?

O processo de criação de uma marca, permite atribuir ao produto qualidades que não lhe pertencem. Para que estas qualidades se possam “instalar”, devem ser constante e regularmente repetidas. Garantidas por testemunhas que darão reputação e funcionam como “crédito de confiança”. Habituar a clientela a frequentar regularmente o ponto de venda, criando uma ligação emocional entre os lugar e os próprios utentes, é o sonho de qualquer estratega de marketing que a Igreja conseguiu realizar.

Com a “sagrada escritura” nascia um poderoso instrumento monodireccional e absolutista, como para nós é hoje a televisão. Adquiriram um carácter sagrado todas as palavras derivadas dela, as suas interpretações e até os seus intérpretes. “Benditos sejam aqueles que crêem mesmo não tendo visto” (Gv 20, 29). Uma estratégia infalível.

Podemos engarrafar água desta nascente escrevendo no rótulo que é natural, mas não devemos esquecer que era natural mesmo antes de ser engarrafada e distribuída segundo as estratégias de marketing. Podemos confundir os nossos semelhantes escrevendo que esta água é a água por antonomásia, ou que “sacia mais do que a água”, mas continuará a ser sempre pura e simplesmente água, duas partes de hidrogénio e uma de oxigénio, vulgarmente conhecida na natureza. Antes que a humanidade compreenda este facto tão simples, muita água deverá passar por baixo das pontes.

Fonte: Ballardini, Bruno. – Jesus Lava Mais Branco.

28 de Julho, 2010 Carlos Esperança

Carta a Salazar nos 40 anos do seu passamento

Meu velho ditador:

Se pudesses ouvir, claro que não podes, e tu sabias que não havia vida para além da que tiveste, ouvirias o clamor das famílias dos que sofreram em Caxias, Aljube, Peniche, Tarrafal, S. Nicolau ou Timor.

Fez ontem 40 anos que morreste com 40 anos de atraso. Alguns fascistas ainda te evocam com nostalgia. Há sempre alguém que recorda um crápula, os que não têm memória ou os que odeiam a liberdade. Acontece o mesmo com Estaline, Mao, Franco e Mussolini, este mesmo, de quem tinhas uma foto na tua secretária de trabalho.

Tu não tinhas coração, eras um hipócrita abrigado à sombra de uma Igreja que protegeu todos os fascismos, um facínora que se escondia atrás da polícia política que aprendeu a torturar na Alemanha nazi, um demente com horror a eleições, pavor ao progresso e aversão ao povo. A censura era o teu colete anti-bala, as polícias a guarda pretoriana e os padres os agentes de propaganda.

Viveste a obsessão dos medíocres e conseguiste tornar-te ainda mais vil com a mania do poder que exerceste com violência, enquanto a PIDE assassinava e os esbirros aturdiam um povo que amordaçaste com a censura, o analfabetismo, os tribunais Plenários e uma multidão de cúmplices de todas as idades e condições. A Irmã Lúcia não deixou de dizer a Cerejeira que foste o homem escolhido pelo deus do cardeal para seres algoz da pátria.

A guerra colonial foi uma paranóia pessoal que levou a morte a centenas de milhares de pessoas. Ainda hoje não se fala dela, por remorso uns, por vergonha outros, quase todos por um trauma que ficou de 13 anos da guerra injusta, inútil e criminosa que o cardeal Cerejeira dizia ser em defesa da pátria e da civilização cristã..

Há quem deseje minimizar os crimes, dizendo que ignoravas que a PIDE assassinou Humberto Delgado quanto atribuíste o crime ao Partido Comunista, ou José Dias Coelho, abatido na Rua dos Lusíadas, quando puseste a circular que se tratava de ajuste de contas entre membros do seu partido.

Eras um farsante, o tirano que nunca saiu do país, o carrasco do povo a quem negaste o acesso ao ensino e à liberdade. Evocar o 40.º aniversário da tua morte é lamentar que tenhas morrido impune, que tivesses à tua volta a corja de imbecis e cúmplices que iam ao hospital da Cruz Vermelha encenar reuniões do Conselho de Ministros para que pudesses crer que ainda eras o algoz vitalício da pátria que desonraste.

Da tua herança resta o medo e a cobardia, o atraso e o servilismo, o gosto pela delação e a memória dos crimes que cometeste. E a eterna gratidão a uma cadeira. E o desprezo pela Igreja que foi tua cúmplice.

27 de Julho, 2010 Ricardo Alves

Novos embustes de Fátima

Em Fátima, para o espectáculo de 13 de maio em que a estrela principal era Ratzinger, a organização anunciou que previa um grandioso meio milhão de pessoas. No dia 14 de maio, corrigiram: teriam estado presentes 350 mil pessoas. Agora, sabe-se que uma contagem a partir das fotografias estima o número de pessoas presentes entre 35 mil e 40 mil.

Fora concedida tolerância de ponto, naquele dia, a 740 mil pessoas.

26 de Julho, 2010 Fernandes

Infância perdida

Quando penso na minha infância, fico impressionado pela exiguidade das recordações que tenho de meu pai. Por causa do casamento minha mãe mudara-se para longe da sua terra natal. Era “um bicho do mato” e só tinha verdadeiros contactos com o pároco da freguesia.

Estou convencido que decidiu muito cedo que seu único filho havia de ser padre. Enfeitou-me e destinou-me ao sacrifício.

Recordava-me muitas vezes a frase de Lapérine: «quando temos de escolher entre dois caminhos, devemos tomar o caminho mais duro: o medo é o sinal do dever.»

Comecei muito cedo a ter pesadelos, via-me queimado pelas chamas do Inferno, e gritava, ao que parece, como condenado. O médico tranquilizava a minha mãe dizendo-lhe que se tratava de febres de crescimento. Na realidade o pecado mortal foi a obsessão de toda a minha infância e eu confessava-me muitas vezes com medo de não ter dito tudo. Recordo-me de um texto do meu catecismo, que se intitulava: «Pelos meus pecados mereci o Inferno.» Li-o e reli-o tantas vezes que ainda o sei de cor:

«Oh! Como são terríveis as torturas dos condenados no Inferno. Estão privados para sempre da visão de Deus. Sofrem num fogo mil vezes mais ardente do que todos os fogos da terra. Ouve constantemente blasfémias, gritos de raiva e de desespero. Estão rodeados de demónios. E por quanto tempo dura este suplício atroz? dura para sempre, para sempre, dura toda a eternidade. Oh como é terrível o Inferno! E é isso que nós merecemos pelo pecado mortal. Neste momento, talvez até eu próprio tenha pecados mortais a pesar-me na consciência. Se morresse agora, seria, portanto, precipitado no Inferno. Oh meu Deus, não permitais que eu morra neste estado. Arrependo-me sinceramente de todos os meus pecados e prometo nunca mais Vos ofender.»

Minha mãe evitava qualquer gesto de ternura para comigo, porque era preciso endurecer-me. Beijava-me na testa e, em seguida, apresentava-me a sua face direita. Nunca me lembro de ter estado sentado nos seus joelhos. Só uma vez me pegou nos braços: o dia da minha primeira comunhão. No fim do almoço, o prior da freguesia anunciou que eu ia entrar para o seminário, porque tinha vocação. Jesus tinha-me dito, no íntimo do meu coração, que fosse padre.

Fiquei estupefacto e inquieto, pois nunca tinha ouvido nada disso. Mas a alegria da assistência, o sorriso e a ternura da minha mãe, o facto de ser uma vedeta que teria direito à primeira fatia do bolo, apaziguaram um pouco a minha inquietação e as minhas dúvidas. Foi assim que entrei para o seminário menor. A minha primeira impressão foi desagradável. Era um grande edifício, triste, de estilo napoleónico, com longos corredores sombrios e dormitórios enormes. Quantas vezes os percorri em forma e em silêncio, com as mãos atrás das costas, sob o olhar severo de um padre, que espreitava ao mais pequeno murmúrio. Éramos vigiados com extrema severidade e o grande receio de todo o corpo docente, era que houvesse entre nós amizades particulares. No recreio, tinhamos de brincar juntos. Se um de nós ficava de lado a reflectir ou a brincar sozinho, era imediatamente acusado de ter maus pensamentos. Quando, em vez de um só, eram dois, o caso era ainda mais grave. Era impossível ter um companheiro, um amigo, pois qualquer relação preferencial era considerada como doentia. No dormitório tínhamos de dormir com as mãos fora da roupa…

– Tens pensamentos maus?

Silêncio interrogativo da minha parte.

– Deixas divagar o teu espírito?

– Sim, às vezes isso acontece. Penso naquilo que gostaria de fazer. Gosto de trabalhos manuais. Gostava de ser carpinteiro.

– Tocas no teu corpo?

Após um silêncio que eu pressenti como ameaça, o padre mandou-me embora, dando-me por penitência rezar duas ave-marias.

 Durante todo este período trabalhei muito. Era o primeiro da turma. Isso granjeou-me alguma consideração por parte dos meus condiscípulos e dos meus superiores. Quando voltava a casa, tinha a impressão de ser um ser à parte. A minha mãe beijava-me na testa, o meu pai apertava-me a mão. Nunca cheguei a saber se ele estava de acordo com a minha vocação. Ele nunca dava a sua opinião. Durante as minhas estadas em casa, o prior da freguesia vinha visitar-nos regularmente. Interessava-se muito pelo bom resultado dos meus estudos e felicitava-me apertando-me a orelha.

Conservo a recordação de uma infância solitária; não tinha um amigo no seminário menor; não tinha um amigo quando vinha de férias. Via com nostalgia as crianças da vizinhança baterem-se entre si, correr, gritar no jardim. A minha dignidade de seminarista não me permitia participar nessas coisas. Dava grandes passeios solitários pelos campos. Por vezes meu pai acompanhava-me. Ia sempre calado a apertava-me a mão com força. Apontava com a bengala algumas flores ou arbustos e dizia-me o nome deles em latim. Nunca tivemos uma única conversa.

Quando os meus primos vinham a minha casa sentia que eles me admiravam, mas não se sentiam à vontade comigo. De quando em quando, tínhamos direito a jogar ao dominó ou à batalha naval. Para mim era um ponto de honra ganhar todas as partidas. Na verdade não tinha qualquer outro meio de exprimir a minha agressividade.

As férias grandes eram para mim uma provação particularmente penosa. Todas as manhãs ia ajudar à missa das sete e depois ajudava o sacristão a arrumar os paramentos. O sacristão era um velho militar reformado. Foi ele talvez o único juntamente com meu pai, a perceber a minha tristeza e o meu mal-estar. Depois da missa levava-me muitas vezes a sua casa, para me mostrar algum troféu que trouxera das suas campanhas. Tinha um magnífico sabre que deve ter cortado algumas cabeças. Via-me no recreio do seminário menor a cortar a cabeça dos meus condiscípulos, mas acho que nunca dos meus profesores.

Ao domingo fazia o peditório em todas as missas. No fim da função, o prior apreciava com uma olhadela o conteúdo do saco e manifestava muitas vezes o seu descontentamento: – Unhas-de-fome, no próximo domingo eu lhes direi.

Os peditórios rendiam muito mais quando vinha algum missionário pregar e pedir para as missões. Para o seminário ou para os padres idosos. A sua abundância era directamente proporcional à veemência e às imprecações do pregador.

Eu divertia-me a apreciar quais os argumentos mais rendíveis (ajuizava da rendibilidade pelo número de notas que caiam no saco). A acumulação dos bens materiais, sinal de torpeza e egoísmo e injúria feita à pobreza de Cristo, tinha um êxito nitidamente superior. Mas o mais rendível de todos era a culpabilidade e a angústia: lembro-me de um missionário, robusto e bronzeado, que tinha o dom de encher o meu saco até ao cimo. Utilizava sempre o mesmo género de argumentos: O vosso apego ao dinheiro há-de-vos perder e levar para o Inferno. Estais certos de que o adquiristes honestamente e de que não explorastes o vosso semelhante? Muitos de vós devem ter grandes pesos na consciência. Sabei repartir os vossos bens para obterdes a indulgência do Senhor.

Todas estas verificações me deixavam vagamente inquieto. Este apelo à má consciência provocavam em mim um certo mal-estar. Sentia que havia ali algo que não estava certo, mas não conseguia saber bem o quê. Conservei sempre um complexo de culpa em relação ao dinheiro, e penso que a isso não são estranhas estas diatribes ao domingo.

– Soglinac, Pierre. – A neurose cristã.

26 de Julho, 2010 Fernandes

Diálogos de um Ateu

Comprei um pequeno livro na livraria Cervantes em Salamanca. Achei-o tão divertido que decidi partilhá-lo.

Um ateu e um crente encontram-se num café. O ateu é um homem educado e com sentido de humor; o crente também mas carece de algum sentido de humor. O ateu, como acontece com a maioria dos ateus, lê bastante; o crente lê menos, mas como costumam dizer, não precisam ler, basta-lhes acreditar. Os diálogos inclinam-se a favor do ateu porque entre os crentes não é fácil encontrar uma pessoa excessivamente culta. Com hábito de leitura, talvez, mas não excessivamente culta. Porque a cultura, a ilustração e o conhecimento, derrubam a fé. Receio que se aplique o aforismo: «Reflictamos, disse o crente, e se fez ateu».

Há dezenas de teólogos, sobre tudo católicos, que gastam as suas vidas buscando provas da existência da Deus. É uma pena porque a sociedade ficaria grata se os seus trabalhos tivessem melhor fim, ou seja, um fim prático. Escritores ateus não abundam porque como se recordarão, o ateísmo nunca se constituiu em escola e muito menos em igreja ou facção. Os ateus andaram ao longo da história de um lado para o outro, sem instituição que os acolhera, quase sem pai nem mãe. De vez em quando escreviam um livro, de vez em quando eram queimados, os livros e os autores. Eram tempos difíceis que ainda se mantêm em certas latitudes.

Os crentes não queimavam só ateus, também se queimavam e matavam entre si. Vamos aos diálogos:

O ateu oferece um livro sobre ateísmo ao crente .

– Consegue demonstrar-me que Deus não existe? – pergunta o crente.

– Não tenho que demonstrar uma inexistência, pelo contrário, o que é preciso é demonstrar a existência.

– Então não acredita em Deus?

– Eu sou ateu! Você não?

– Claro que não, eu acredito em Deus, sou crente.

– Um crente!? Maravilha. É difícil encontrar um crente.

– Há muitos crentes.

– Olhe que não, há muitos que crêem que acreditam, mas não são crentes.

– Pois eu acredito em Deus.

– Então ofereço-lhe este livro, afinal foi escrito a pensar nos crentes.

– Agradeço mas não aceito.

– Não me surpreende, os crentes sempre se negam a ler livros ateus.

– Não me recuso, mas acredite não o necessito. Eu acredito em Deus.

– Atreve-se então a discutir comigo a inexistência de Deus?

– Atrevo-me a discutir sobre a existência de Deus, que não é a mesma coisa.

– Bom, então vamos discutir um livro que demonstre a existência de Deus, não a sua inexistência porque essa salta à vista a partir dos milhares de livros que foram escritos tentando provar a sua existência. Estou a falar-lhe como compreenderá, de séculos e séculos de Teologia.

– Eu não vou aqui defender os santos padres, um crente de hoje não se parece em nada com um crente de antigamente.

– Quer então dizer-me que se acabou com a proclamação de milagres, aparições, profecias e outras coisas parecidas?

– Penso que não devemos abordar factos que de alguma maneira são inexplicáveis.

– Mas se me diz que são inexplicáveis, nunca chegará a explicá-los!

– Explicar um milagre parece um contracenso.

– Não tenha dúvida que assim é. Eu nunca vi um milagre, seguramente você também não, mas mesmo que o visse, ou seja; mesmo que presenciasse um facto que escapasse ao meu raciocínio, nem por isso negaria a racionalidade.

– Negaria então o facto milagroso?

– Os factos meu caro, não podem negar-se, não são discutíveis, discutível é a sua interpretação. E os crentes, explicaram sempre o que não tem explicação, a partir da fé em Deus. Por isso, e perdoe-me que lhe diga, um crente não pode ser razoável.

– Mas eu não nego a razão. Já lhe disse que sou um crente moderno.

– Não há crentes modernos nem antigos, sempre houve crentes e descrentes, e você é um crente, ou seja; coloca-se fora da razão, e por conseguinte, fora de tempo.

– Está chamar-me atemporal!?

– Claro que sim, tal como as religiões que só subsistem por isso, porque se colocam fora de tempo.

– Bom, gostava de continuar esta conversa mas tenho pressa.

– Pois sim, outro dia será. Gosto de conversar com um crente que tenta ser razoável.

– Sou razoável, não duvide. Até à próxima, adeus.

– Dizer adeus a um ateu, é correcto. O prefixo «a» é negação, logo você vai embora e deixa-me como me encontrou, sem Deus.

*Ignacio Ferreras, Juan. – Diálogos del Ateo.