León Ferrari, morreu quinta-feira aos 92 anos. Foi um dos artistas mais prestigiados da Argentina, mas também uma das figuras que mais irritou os católicos em seu país. Entre eles, o então cardeal Jorge Bergoglio, chamando um de seus exemplares como “uma vergonha” para Buenos Aires.
“Quem sou eu para julgar os gays?”, disse o Papa Francisco, na primeira conferência de imprensa na viagem de regresso ao Vaticano.
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Esta interrogação do Papa católico, ainda que fosse um gesto estudado para limpar a face da sua Igreja, destinado a atenuar a erosão moral causada por sucessivos escândalos, não deixa de marcar uma diferença abissal com a tradição romana e o seu antecessor.
Bento 16, ressentido da longa repressão sexual, nutria pela sexualidade a animosidade e o constrangimento que caracteriza a ICAR. Negar o sacerdócio a homens com «tendências homossexuais profundamente enraizadas» era espantoso em quem reclamava a castidade
Bento 16 não conhecia o desejo. Jamais percorreu um corpo, saboreou uma boca ávida ou sentiu o afago; não descobriu no seminário um púbere adolescente ou um diácono curioso; não contemplou, na paróquia, o cio de uma catequista; não sentiu, na diocese, o assédio de um presbítero ou a languidez da freira que lhe engomava os paramentos.
A raiva às mulheres e o desvario perante opções sexuais minoritárias remete para uma adolescência em que o pecado solitário é a única fonte de prazer e vergonha, o coito uma obsessão reprimida e a ejaculação noturna se tornou um remorso com sabor a genocídio.
Se, em vez de orações e jejuns, amassem, os vetustos inquisidores gostariam do amor.
A pergunta do Papa Francisco, “Quem sou eu para julgar os gays?”, traz uma mudança capaz de aliviar a infelicidade e dissimulação a que, durante séculos, a Igreja condenou parte da humanidade. Finalmente parece existir um pensamento humano sob uma tiara.
É justo saudar a leve brisa que parece percorrer os soturnos corredores do Vaticano.
absoluta. Que interessava a orientação sexual se era vedada a atividade?
Para Bento XVI o paradigma de sacerdote era um ‘homem com tendências heterossexuais profundamente enraizadas e nunca experimentadas’. Não admira. A ICAR nega à mãe do seu Deus o êxtase de um orgasmo e ao marido a consumação do matrimónio. Até o Deus mais velho da trilogia quis reduzir a reprodução a um trabalho de olaria.
O papa Francisco surpreendeu claramente ao defender o Estado secular: “a coexistência pacífica entre as diferentes religiões fica beneficiada pelo estado secular, que, sem assumir como própria, nenhuma posição confessional, respeita e valoriza a presença do fator religioso na sociedade “.
Como se conciliam tais palavras, que admito sinceras, com o que se passa em Portugal:
– Isenções de impostos de que beneficia a Igreja católica Apostólica Romana (ICAR);
– Pagamento pelo Estado dos capelães militares, hospitalares e prisionais;
– Existência de uma disciplina de EMRC;
– Contratação de professores da EMRC, livremente nomeados e exonerados por bispos;
– Presença de cavalos, músicos e militares nas procissões e em outros espetáculos pios;
– Profusão da iconografia católica nas paredes dos edifícios públicos;
– Presença de sotainas em cerimónias do Estado;
– Designação pia de hospitais quando não há uma só Igreja com nome de políticos;
– Com restrições orçamentais, uma embaixada exclusiva para o bairro do Vaticano;
– Etc., etc., etc..
O pára-raios na Igreja
Serve para lembrar aos ateus
Que um cristão, por mais que o seja,
Não tem confiança em Deus!
António Aleixo
Deus é um produto da nossa mente. A nossa mente é um produto do nosso cérebro. O nosso cérebro é um produto da evolução. Como tal, Deus não pode ter existido antes de nós sermos. E sendo que só o que existe pode gerar, Deus é um produto do Homem e não este um produto de Deus.
AUTO DA BARCA DO HM*
Por
João Pedro Moura
– Ó da barca, para onde me levas?
– Para meu novo porto, mas de Senhor velho, viajante! Eu, H.M., ao leme… o porto é só meu!
– E que me ofereces nesta tua barca velha?
– Ora… isso mesmo… um vinho único e bom e bom petisco, de celeste aprisco!
– …
– …
– Chamas bom a este vinho, de sabor a pinho?! E petisco a este cisco?! De arisco e diabólico aprisco!…
– É tudo da minha capela, viajante! E só eu é que enfuno a vela!…
– H.M., que porto é aquele de que afinal me afastas?! Não lá pastas?!…
– Por ora derivo, viajante! Não tenho divo, que me oriente!…
– Mas não governas capela???!!! Não és tu que enfunas vela???!! ! Que testas no teu porto novo???!!!
– Ora, nem novo nem velho testamento!… Mingua-me o tento! Já não aguento!…
*H.M. – Heteronimista Metastático: apodo da mascote viscosa, deste Diário, em processo (abortivo…) de renascimento crédulo…
Por
Anteontem, novos e violentos confrontos assolaram o Egipto provocando muitas vítimas e lançando o País numa perturbadora confusão que se intensificou desde que um golpe militar interrompeu mais uma ‘deriva islâmica’ no Norte de África. link
Independentemente de aspectos formais relativos à ‘normal’ eleição deMorsi, enquanto candidato da Irmandade Muçulmana pelo Partido Justiça e Liberdade e que revelaram, mais uma vez e cedo, a capacidade de perverter à posteriori a essência democrática que procura a sua legitimação no voto e num programa político o que o processo em curso nos revelou foi o início de uma deriva para um ‘regime islâmico’ (onde a Democracia é a primeira das vítimas).
O exercício que se impõe fazer é compreender o que parecendo comezinho poderá estar por detrás da actual situação a influenciar os mais recentes acontecimentos.
Na verdade, a Irmandade Muçulmana apareceu ‘suavemente’ na ‘revolta egípcia’ que depôs Mubarak pretenso ‘sucessor’ do pan-arabismo Baas que inspirou Nasser. A queda de Mubarak que ficou a dever-se às manifestações de revolta públicas, aparentemente sem nítida direcção política, mas poderosas e impressionantes no capítulo da potencialidade de movimentação política. Concomitantemente, o vitorioso desfecho da rua provocou profundas dissensões no aparelho militar que não conseguiu impor aos ‘revoltosos da praça de Tharir‘ uma solução congeminada entre os altos comandos e o deposto Mubarak – o Conselho Supremo das Forças Armadas.
De facto, as Forças Armadas, ‘obrigadas’ pelas circunstâncias a alinhar num projecto complexo e confuso de democratização do Egipto ficaram, depois do último acto eleitoral ganho por Mohamed Morsi, numa posição desconfortável. E cedo começaram as intrigas, as retaliações e as movimentações contra a estrutura militar dirigente e contra os tribunais.
A Irmandade Muçulmana terá a nítida percepção de que precisa de começar por domesticar para depois ‘comandar’ – segundo as suas leis – o maior exército de África (muito próximo do meio milhão de efectivos). A acção política visível da Irmandade Muçulmana assenta no largo conceito de ‘assistencialismo islâmico’ que é suportado pela manutenção e desenvolvimento de uma intrincada rede de assistência social, educativa e sanitária aparentemente ‘neutra’ mas politicamente comandada por princípios religiosos (inflexíveis e dogmáticos) que não demoram muito tempo a revelar-se. Esta ‘rede assistencialista’, enquanto a Irmandade esteve interdita de actuar na sociedade egípcia (tempo de Mubarak e antecessores), foi sub-repticiamente ganhando força (conseguiram como ‘independentes’ 20% dos votos nas eleições de 2005) e esta organização cresceu (e sobreviveu) à custa de dinheiros árabes e dos seus militantes tornado possível cobrir – na clandestinidade – uma significativa parcela da população (provavelmente muito acima dos 20% eleitoralmente revelados em 2005).
A extensão dessa rede dando-lhe uma dimensão nacional e um estatuto universalista necessário para ‘sossegar’ os fiéis islâmicos (crentes na providência divina) e outros (coptas, p. exemplo) arrasta consigo sérios problemas de sustentabilidade financeira.
E, então, coloca-se uma questão crucial: onde arranjar esse dinheiro?
– Obviamente que a ‘solução’ passa pelas Forças Armadas egípcias.
Esta imensa corporação domina vastas e estratégicas áreas económicas como foi recentemente revelado pela Wikileaks. São um exemplo único de um ‘Exército/Empresa’ capaz de ‘representar’ cerca de 50% do PIB egípcio. Trata-se de uma enorme holding fortemente armada. Estas ‘qualidades’ colocaram as Forças Armadas na mira da Irmandade Muçulmana tornando indispensável o seu controlo para sustentar, financiar e levar a bom porto a acção político-religiosa.
Resumindo: a Irmandade Muçulmana já vencedora no campo eleitoral aparece interessada no controlo hegemónico da economia egípcia instrumento necessário para financiar as suas políticas. As Forças Armadas tratando-se de um grande empório económico não se deixam expropriar porque ficam sem garantias quanto à sobrevivência e à manutenção do status quo (privilégios e mordomias) da corporação militar.
Daí o golpe de 3 de Julho que aparece à luz do dia apoiado por forças estranhas a este diferendos primários: a oposição liberal e laica, onde a heterogeneidade campeia.
O desfecho é, também, previsível: Num país maioritariamente islâmico (sunita) um dia haverá um acordo, uma partilha que encaixe no mesmo barco as Forças Armadas e os movimentos islâmicos que se acoitaram na sombra da Irmandade.
E quem será excluído?
– Os liberais e as correntes laicas que agora aparecem ao lado dos militares sem controlar os seus desígnios.
A História tem destas particularidades. Nem sempre os lutadores, uma vez vitoriosos, conseguem distribuir a vitória por todos e permanecer no terreno a liderar as mudanças qualitativas que protagonizaram.
Há sempre ‘alguém’ que, apesar de gostar de actuar na sombra, aparece a apropriar-se, a expropriar… a (re)tirar dividendos.
Depois de insistir sobre a “responsabilidade social” dos governantes, o chefe da Igreja católica surpreendeu claramente ao defender o Estado secular: “a coexistência pacífica entre as diferentes religiões fica beneficiada pelo estado secular, que, sem assumir como própria, nenhuma posição confessional, respeita e valoriza a presença do fator religioso na sociedade “.
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