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2 de Abril, 2014 Carlos Esperança

A política e a religião

Acusa-se o Governo de indiferença social, de ser um bando de ultraliberais cuja agenda conduz ao desmantelamento do Estado, com a Saúde, a Educação e a Segurança Social reduzidas a estilhaços.

Trata-se da calúnia de quem pretende alfabetizar à força quem ganharia a glória celeste pela sua ignorância, de quem troca a fé pela sabedoria e a metafísica pela ciência. Não se dão conta os arautos da sabedoria de como a ciência prejudica a virtude, a abundância a penitência e as proteínas o jejum?

Há quem prefira um médico a um padre, aulas de religião às de matemática, assistentes sociais a capelães militares, hospitalares e prisionais. Felizmente, há quem, ao mais alto nível, se preocupe com o destino da alma face ao egoísmo que privilegia a saúde.

O Governo não condena os velhos à penúria, apenas os defende dos bifes, que lesam a função renal, dos netos que lhes invadem a casa, sob o pretexto do desemprego dos pais, e das guloseimas que fazem subir o açúcar e a HTA. Há pessoas, com mais de 70 anos, que teimam em viver, como se as pensões fossem amigas da Segurança Social.

O Governo não tem capacidade para pagar as dívidas da Madeira, os prejuízos do BPN, do BPP, os calotes municipais, pareceres jurídicos de escritórios de amigos e lugares de assessores para jovens que passaram a vida nas madraças juvenis dos partidos, cansados de colar cartazes e de caluniarem adversários na NET, com perfis criados a preceito.

Urge entender que a esperança de vida compromete o bem estar dos governantes e, não podendo estes abdicar das suas mordomias, é necessário reduzir drasticamente a nefasta esperança de vida. Espero que a troika, depois das eleições, exija ao Governo a solene promessa de reduzir um ano de vida a cada português para equilibrar o que aumentou a cada trabalhador.

Não podendo a Segurança Social acompanhar a esperança de vida o equilíbrio deve fazer-se à custa da última.

A teimosia dos velhos, que se agarram à vida, é antipatriótica. A longevidade é uma doença cujo combate já começou. O Governo sabe que o desmantelamento do SNS é duplamente benéfico. Basta deixar sobreviver alguns idosos para visitar em épocas eleitorais e fingir apego aos velhos.

1 de Abril, 2014 Carlos Esperança

Momento zen de segunda_31-03_2014 – DN

João César das Neves (JCN), megafone ortodoxo do clero reacionário e depositário da herança do concílio de Trento, brindou-nos hoje com uma homilia a que deu o título de “O fósforo e a gasolina”.

Execrou a cultura ocidental porque, “após ter tentado (…) revolucionar religião, política e economia”,  “decidiu abalar a família”. Trocou a ordem tradicional pela “libertinagem mais total». Ele lá saberá os meios que frequenta e os hábitos da sua madraça, para dizer que “Foi formulado um axioma sensual, decretando o prazer venéreo como supremo e absoluto” [sic]. Freud veria na obsessão sexual o recalcamento que substitui pelo cilício.

Informa que “Os horrores da Revolução Francesa, União Soviética, etc. resultaram do esquecimento da estrutura social natural”. Não explica, basta-lhe a fé. “Também a crise financeira global ou os desastres de automóvel vêm do descuido de velhos princípios de prudência. Nada se compara, porém, com o arrasador mito libertino contemporâneo”, diz JCN. Talvez não seja o substantivo que o apavora, é o adjetivo que o excita. Aceita, decerto, o mito, adora os seus mitos, apenas execra a lascívia.

No fervor da homilia pergunta, citando o livro de cabeceira: “Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?” (Mt 6, 27). Ignora os progressos da medicina e da farmacologia e de como está obsoleto o livro citado.

JCN – “Os resultados da nossa experiência libertina são há muito evidentes. Explosão de divórcios e violência familiar, queda catastrófica da natalidade, patologias mentais, sobretudo infantis, pornografia, degradação da mulher, insucesso escolar, marginalidade, droga, exclusão, vício, miséria, suicídio”.

Quem imaginaria na prática do sexo, que JCN chama “experiência libertina”, sequelas tão devastadoras e contraditórias? Nem um pároco de aldeia! JCN parece ignorar que a castidade é a mais demolidora atitude contra a reprodução e jamais alguém provou que a prática sexual seja culpada do insucesso escolar e, muito menos, da queda catastrófica da natalidade, entre as desgraças que aponta ao único prazer que não prejudica a saúde.

JCN finda a homilia, sem a ameaça do Inferno, mas acusando o Estado: “O propósito supremo é proteger desesperadamente o precioso postulado lascivo. Pode dizer-se que nisto o nosso tempo confirma o famoso epitáfio irónico: “Aqui jaz o homem que foi com um fósforo ver se havia gasolina no tanque. E havia.”

JCN ensandeceu mas continua a ser um manancial de humor num país sorumbático.

31 de Março, 2014 Carlos Esperança

Notícias da lavandaria

Ex-diretores do Banco do Vaticano serão julgados por lavar dinheiro

Ex-diretores são suspeitos de autorizar pagamentos suspeitos.
Dinheiro lavado seria da ordem de 23 milhões de euros, diz Justiça italiana. (Da AFP)

Dois ex-diretores do Banco do Vaticano serão julgados por lavagem de dinheiro, informou nesta sexta-feira (28) a Justiça italiana.

Paolo Cipriani, ex-diretor-geral do Banco, oficialmente chamado de Instituto para as Obras da Religião (IOR), e seu vice, Massimo Tulli, são acusados de lavagem de dinheiro envolvendo 23 milhões de euros.

31 de Março, 2014 Carlos Esperança

Mas não curou nenhum

O Papa Francisco recebeu, este sábado, em audiência, na Sala Paulo VI, no Vaticano, milhares de cego e surdos e encorajou-os a construir relações fraternas.

“Só quem reconhece a própria fragilidade, o próprio limite, é que pode construir relações fraternas e solidárias, na Igreja e na sociedade”, disse o Papa Francisco aos cerca de 6 mil membros do «Movimento Apostólico Cegos» e da «Pequena Missão para os Surdos», entre familiares, Congregações, escolas, associações, entidades e movimentos, provenientes do Brasil, Argentina, Alemanha, Espanha, Estados Unidos, Inglaterra e Malta.

30 de Março, 2014 José Moreira

A Metáfora

Confesso que não li a Bíblia. Ou antes, ainda não ti a Bíblia toda. Pela singela razão de que não gosto de prosseguir a leitura de um livro ser ter compreendido devidamente a leitura anterior. Ora, na Bíblia empanquei naquela parte que diz que Caim, depois de ter matado Abel e de Javé se ter chateado com ele quando descobriu, o que

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quer dizer que aquela cena do “Deus sabe tudo” é uma brande treta, dizia eu que Caim foi, segundo a Bíblia, ter à terra de Node. Aí conheceu sua mulher, mas em lado nenhum  diz donde veio essa mulher, o que é estranho se considerarmos que até ao episódio em questão só havia três pessoas à face da Terra, ou seja, Eva, Adão e Caim, já que Abel tinha entrado em defunção. Ora, não compreendendo isto, acho que é meu dever ético não prosseguir a leitura, não vá a compreensão do episódio fazer falta para compreender os episódios que, fatalmente, hão-de seguir-se.

Compadecido com as minhas dúvidas, e ansioso por que eu voltasse às sagradas leituras, o meu amigo Libório, católico confesso a compulsivo, elucidou-me: “Não tens de te preocupar. Até ao episódio de Abrão, a Bíblia é uma metáfora, nada daquilo é verdade. Só a partir de Abraão, ele incluído, é que passa a ter  foros de verdade, ou seja, tudo aquilo aconteceu mesmo!”

Acabei por me tranquilizar, mas logo outra dúvida me surgiu:

– Olha lá, Josué é antes ou depois de Abraão?

– É depois, naturalmente! Abrão é referido no Génesis, ao passo que Josué só surge no Êxodo.

– Então – prossegui eu – se tudo o que acontece após Abraão é verdade, parece não haver dúvidas de que o Sol anda à volta da Terra, e não o contrário.

E sem lhe dar tempo:

– Porque em Josué 10:12 refere-se que “Então Josué falou ao Senhor, no dia em que o Senhor deu os amorreus nas mãos dos filhos de Israel, e disse na presença dos israelitas: Sol, detém-te em Gibeom, e tu, lua, no vale de Ajalom.” Ora, a Lua toda a gente sabe que gira à volta da Terra; quanto ao Sol, se Josué também o mandou parar é porque ele é que anda.

O meu amigo ficou de me dar uma resposta mais tarde.

30 de Março, 2014 Carlos Esperança

Salazar, o governante sério e, naturalmente, católico

Uma mentira pode ser repetida até ao infinito mas não passa a ser verdade. Há quem chame ao abutre de Santa Comba, estadista; incorruptível, ao verme de S. Bento; honrado, ao infame que a censura, a pide, a legião e o medo deixaram que fosse uma cadeira a resgatar a honra que os portugueses não puderam.

O antigo dirigente do CADC não tratou da vida mas tirou-a a muitos. O ódio à liberdade aleitado no seminário e assanhado no poder, fez dele uma referência fascista universal, o delinquente que manteve a guerra colonial durante 13 anos, um malfeitor que demitiu insignes professores, prendeu democratas e assassinou adversários.

Já poucos se lembram das eleições de Humberto Delgado, onde a vontade popular foi falsificada e a honra de um país enxovalhada.

Em 1958, durante a campanha eleitoral publicou o decreto-lei que proibiu a oposição de fiscalizar o funcionamento das mesas de voto. Foi assim que o fascista indigitado, Américo Tomás, «ganhou» as eleições a Humberto Delgado.

salazar_santinho