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7 de Maio, 2014 Carlos Esperança

A bruxa de Trevões (Conto)

Em qualquer história aparece sempre uma personagem que se destaca das restantes por uma qualquer saliência da personalidade ou por uma qualquer qualidade especial, seja ela de natureza comportamental, temperamental, anímica ou de uma outra variante psicológica, das muitas que compõem o tipo humano.

Neste caso, é o senhor F, um homem que, naquela aldeia duriense, situada na bordadura da fronteira com o planalto transmontano, sobressaía entre os demais, por ser muito esperto e matreiro e ter o olho muito fino para o negócio. Destemido, bem-falante, arrojado e possuidor de uma grande autoconfiança, seria assim que ele seria descrito por quem estivesse, fora da história, a observar-lhe o grau de superioridade que exibia, onde quer que se encontrasse. Apostou ele, numa roda de amigos, à volta de uma mesa de uma taberna da Carrapatosa – e já depois de ter dado as últimas notícias sobre a guerra do Hitler, ouvidas em outros sítios, das suas constantes andanças – que iria desmascarar o raio da velha bruxa de Trevões, cuja fama de advinha e de curandeira se espalhara por muitas léguas em redor.

Foi só descer, por um caminho de cabras, a íngreme ladeira do vale do Douro, contratar o serviço ao barqueiro da Valeira, para atravessar o rio, subir a encosta até o Santo Salvador do Mundo, possivelmente um antigo local de culto celta, recuperado depois pelo cristianismo, que ali ergueu doze capelinhas, tantas quantas são as estações da Via Sacra, mas que agora estava votado ao abandono, devido à concorrência de outros santuários mais sumptuários e bem situados estrategicamente em lugares de acesso fácil, e ei-lo a apanhar a nova estrada de maquedame, que o levaria, já depois de uma légua a andar a pé, à aldeia de Trevões.

Quando a velha o mandou franquear a porta que dava para uma salinha, onde recebia os clientes, já ele tinha mudado de semblante, agora carregado de fingida tristeza e de recatada humildade. A tal personagem, fora da história, que o visse agora, poderia dizer que o senhor F já não era o mesmo homem exuberante, que vira na Carrapatosa, cabisbaixo, tímido e exibindo até uma certa dificuldade em falar.

Feita a saudação do costume, com muita reverência de parte a parte, e depois de ambos se sentarem à volta de uma mesinha, coberta por uma camilha vermelha, a velha, de olhos vivos e perscrutadores, à procura de um qualquer sinal importante, perguntou-lhe ao que vinha.

O senhor F torceu-se no assento, colocou no movimento das mãos, sobre o tampo da mesa, toda a sua encenada hesitação, e respondeu: sabe, minha senhora! O meu pai foi para o Brasil, quando eu era muito pequeno, ao ponto de nem sequer me lembrar muito da sua cara. Depois de algumas cartas, enviadas do Brasil, para a minha mãe, ele deixou de escrever e nunca mais soubemos nada sobre a sua vida. Não sabemos se é vivo ou se é morto.

A velha, depois de perguntar qual a terra do senhor F, e o que fazia, assim como o nome completo do seu pai e o ano em que ele emigrara para o Brasil, e dando sinal de estar satisfeita com as respostas recebidas, pediu licença para retirar-se por uns momentos e entrou para uma outra dependência da casa, fechando a porta, o que levou o senhor F a pensar que a bruxa deveria ter ido consultar os recortes necrológicos dos jornais, que ele sabia que ela guardava, só assim se explicando o facto de ela pedir o envio dos jornais de terras estranhas e longínquas, a quem decidia ir para o Brasil ou para África, depois de ouvirem o seu vaticínio.

Uma vez regressada à sala, e compenetrando-se na solenidade do momento do anúncio do augúrio, que, como se saberá, será infalível e irrevogável, a velha disse: Sabe, senhor F!… O seu pai está vivo, está com muita boa saúde e é um homem muito rico. Brevemente, ele regressará a Portugal, para se juntar à família.

Palavras não eram ditas, e já o senhor F, com um ar triunfalista, e batendo com os nós dos dedos no tampo da mesa, largou uma sonora gargalhada e retomou o seu ar altivo e descontraído. Oh, minha senhora! O meu pai já morreu há uns anos e nunca foi para o Brasil.

E, quando já se levantava, exibindo descarado desdém e dando mostras de que se iria embora, mesmo sem pagar o serviço, a velha, com uma serenidade profunda, adquirida nas catacumbas do tempo, por herança dos seculares segredos da profissão, travou-lhe o ímpeto e a afronta do escárnio: O senhor F está enganado! O seu pai, aquele que já morreu há uns anos, não era o seu pai…

Alexandre de Castro – Maio de 2014

bruxa

6 de Maio, 2014 Carlos Esperança

Anticlericalismo e ateísmo

O ateísmo é a posição natural de quem não acredita em anjos, nas mentiras repetidas dos livros sagrados, nas religiões, na trapaça dos milagres e no delírio do sobrenatural.

Ser ateu é cultivar a dúvida, manter a sanidade mental que as certezas metafísicas põem em xeque e não acreditar em Deus e na família disfuncional que lhe inventaram.

O ateísmo é a forma descontraída de negar o que os crentes afirmam de forma crispada, desprezar os dogmas, os rituais e a liturgia do divino que tanto trabalho deu aos homens a inventar.

Ser ateu é querer morrer de pé sem ter de viver de joelhos, viajar de rastos de templo em templo, dobrar a coluna aos parasitas da fé e contribuir para a difusão das religiões.

Ser anticlerical é denunciar os avençados do divino, mostrar onde escondem as cartas dos truques, o fundo falso da mala dos milagres, o espelho escondido das ilusões e minar o poder que fruem as matilhas clericais para se dedicarem às burlas e extorsão.

O anticlericalismo é a vacina que defende o povo do respeito pela sotaina, do temor da mitra e da reverência da tiara. Denunciar o clero é dizer às pessoas que a água benta é igual à outra, que a hóstia é uma rodela sem data de fabrico, verificação das condições de higiene e sem prazo de validade nem código de barras.

Um anticlerical acredita mais facilmente na pureza do azeite da cooperativa da aldeia do que nos óleos que o bispo leva da cidade para crismar os garotos que fazem a comunhão solene. É mais limpo o óleo de girassol do que a mistela com que o oficiante faz cruzes na testa de um moribundo.

O anticlerical ama a vida, o padre vive da morte. Os homens gostam de entender-se mas o clero porfia em criar divisões, cada padre afirmando que o seu Deus lava mais branco.

Ser anticlerical é desatar a rir quando uma multidão eleva o rabo e mete o focinho no chão julgando que Deus está a ver e leva a sério essas manifestações de ridículo.

O anticlerical vê um padre com a cruz com que julga espantar o demo e lembra-se do infeliz que viaja pregado e cheio de chagas para comover os simples e sacar esmolas.

Deus foi uma funesta invenção dos homens da Idade do Bronze e o clero é a sua única prova.

5 de Maio, 2014 Carlos Esperança

A Frase

Castillo: Num dos estudos mais fiáveis que se fizeram mostra-se que “de 1938 casos examinados de santos canonizados, 78% pertenceram à classe alta, 17% à classe média e só 5% à classe baixa”.

(Padre Anselmo Borges, in DN)

5 de Maio, 2014 Carlos Esperança

Maria, mãe de Deus

Por

Leopoldo Pereira

«Maria, mãe de Deus»

Esta “máxima” é sobejamente conhecida, não carecendo de explicação, sobretudo se nos reportarmos aos cristãos, ainda que católicos, ortodoxos, anglicanos e luteranos venerem Maria de modo diverso. Ou seja: O assunto não deixa de ser confuso e está envolto em muitas lendas. Para ajudar à confusão, acredita-se que Madalena era, ao tempo, mais popular que Maria. De qualquer modo tentar-se-á resumir o que de mais importante se nos oferece, dando aos “testemunhos” a nossa interpretação, sempre que o acharmos interessante.

Começamos por salientar que o Filho de Maria foi endeusado apenas pelos cristãos, já que para judeus e muçulmanos ele é considerado profeta. Portanto, das três religiões monoteístas só a cristã decidiu que Jesus Cristo é Deus. Para os cristãos, Maria é mãe de Deus. Certo?

Segundo o Livro (sagrado), Deus criou o Céu, a Terra, o Sol, a Lua, plantas, animais e o Homem, há cerca de seis ou oito mil anos. Ora nessa altura Deus era Órfão, ainda não tinha Mãe, o que viria a acontecer em finais do Séc. 1 A.C., início do Séc. 1 D.C. A Ciência (tipo desmancha-prazeres), provou que tudo já existia, mais os outros planetas do Sistema Solar, os dinossauros, etc., pormenores desconhecidos dos Aristóteles da época, que viriam a conservar a Terra parada durante vários séculos, e o Sol em movimento! Até Copérnico lhes trocar as voltas…

Não acreditem em tudo o que vão ler, que eu próprio não acredito. A verdade é que, ou vem nos Livros, ou a nossa narrativa nos parece mais plausível.

Maria, filha de Ana (Santa Ana) e de Joaquim (São Joaquim), nasceu na Galileia, onde viveu até perto dos 12 anos, altura em que engravidou, já órfã de Pai. Mudou-se para Jerusalém, onde viria casar com o viúvo José, talvez tio por parte do Pai. E como chegámos aqui?

Sem um Curso de Teologia, ou algo de semelhante, tarefa hercúlea! Fica a nossa versão:

As legiões romanas ocupavam imensos territórios na Bacia Mediterrânica, incluindo a zona a que nos vimos reportando. Ora o invasor raramente é bem visto e ali não foi diferente. Os habitantes locais odiavam os romanos e ansiavam pela chegada do Messias, para os libertar. Enquanto tal se não verificasse, lá iam aguentando o barco. As raparigas, ao invés, derretiam-se pelas “fardas” e não ficavam indiferentes aos piropos, o que obviamente deixava namorados, irmãos e pais em polvorosa!

Por relatos da História e até por constatação em território pátrio, sabemos que os romanos não se quedavam pelos “engates”; construíram estradas, pontes, teatros, aquedutos, represas, trouxeram novas tecnologias para o regadio e gostavam de tomar banho, um hábito esquisito, que os levava a criar balneários, termas e sei lá que mais (taras). Deixaram filhos e obra. O que a História não refere é que havia “concertos” em recintos próprios, por vezes bailes, onde atuavam “bandas”. A juventude aderia e não raro, mesmo em tempos de crise, os bilhetes esgotavam com meses de antecedência. Os músicos apresentavam-se meio esfarrapados, com os cabelos em pé, tatuados, com brincos, colares e pregos nos lábios, sobrancelhas, partes púdicas, muitas vezes drogados, e punham o som da aparelhagem no máximo. Depois limitavam-se a pular no palco, a dar cambalhotas, a abrir as bocarras e a fingir que tocavam; a aparelhagem fazia tudo. Entretanto o público também berrava, erguia e abanava os braços, aplaudia, assobiava, dava urros e gania; as moças chegavam a desmaiar. Ora os papás dos jovens, alguns mais evoluídos, iam pactuando, mas de pé atrás.

Os chefões dos legionários, bem como alguns elementos da Administração Pública, deslocavam-se vulgarmente em carros sport, de um, dois, três e quatro cavalos. Era a coqueluche e as raparigas olhavam com inveja, mas de forma recatada, não fossem os companheiros dar por isso! As viaturas ficavam estacionadas à saída do recinto e os felizes proprietários convidavam a garota que estivesse mais disponível, oferecendo-lhe boleia até casa. Se a estratégia resultava, logo havia de surgir uma qualquer pane pelo caminho: Ou um cavalo avariava, ou uma roda furava, acabando a rapariga por regressar muito tarde, contratempo que geralmente despoletava um sermão dos valentes, quando não uma carga de pancada jeitosa. Mas o pior nem era isto, que as mazelas iam sarando, complicado era quando um determinado inchaço aumentava, em vez de diminuir.

Então inventavam-se as desculpas mais esfarrapadas e os matulões segredavam entre si: “Foi por obra e graça do Divino Espírito Santo”. Dificilmente as desculpas pegavam e o mais frequente era a moça abandonar a casa dos pais. Surgiu até uma canção marota, mais ou menos assim: “Quem é o pai da criança? Sei lá, sei lá”. O caso de Maria assumiu um carater sobrenatural, portanto muito diferente dos demais e a prová-lo está a inequívoca presença de Gabriel. As más-línguas dizem que a prima Isabel, mais desinibida, também ajudou. Passado algum tempo, Gabriel resolveu voltar (de novo em forma humana), para ver como corriam as coisas; este curto bate-papo havia de ficar célebre em todo o mundo: “ Quem sois vós, Senhor?” “Ninguém, se já nem tu me conheces!”

Nota: Maria teve mais seis filhos e não morreu. Antes que tal sucedesse, decidiu viajar (não sabemos em que meio de transporte) para o Céu (onde quer que Isso fique), em carne e osso. De vez em quando aparece por cá, mas em carne e osso… não!

 

4 de Maio, 2014 Carlos Esperança

SODOMA – Crónica

Naquele tempo, andava Deus na divina ociosidade a que se remeteu depois de ter criado o Mundo, quiçá arrependido do estratagema que engendrou para que os animais se multiplicassem, a ruminar uma desculpa por ter incluído a macieira quando fez as plantas, sabendo que sem Eva e sem maçã estaríamos todos, ainda hoje, condenados ao Paraíso e ao tédio.

Tinha acontecido o dilúvio e a engenharia ousado construir a torre de Babel. O primeiro foi um susto bem pregado e uma experiência radical e a segunda um enorme fracasso e uma extraordinária confusão.

Pelas planícies do Mar Morto estendiam-se cinco cidades que tinham níveis diversos de progresso, costumes e interesses diferentes. Brilhavam Sodoma e Gomorra pela enorme riqueza, com um nível de vida de causar inveja, graças ao sector terciário que então não tinha ainda designação adequada por não haver economistas encartados. As outras eram menos importantes, a acreditar no primeiro livro do Pentateuco.

Vinha do Norte o ar quente que, depois de percorrer e acariciar as águas do mar, entrava suavemente em Sodoma para animar os corpos, inebriar a alma e soltar a fantasia de que o mundo era capaz, na sua difícil infância, e produzir um indizível arrebatamento.

Homens e mulheres contavam instantes do tempo breve que o expediente dos escritórios lhes tomava, para cultivarem, a seguir, todos os prazeres febrilmente sonhados. Mesmo nas horas de trabalho não se coibiam de ser felizes e soltarem a imaginação. Os afazeres que o desenvolvimento tecnológico se tinha encarregado de aliviar eram cada vez mais um mero resquício para justificar a maldição bíblica que viria a ser criada com efeitos retroativos. O trabalho era um bem muito escasso e, dele, ninguém se quisera apropriar.

Como os livros ainda não tinham sido inventados, todos liam o livro da vida através dos sentidos. Tinham-se habituado a usar o corpo e a dar-lhe alma. Eram desmesuradamente felizes a ponto de esquecerem Deus e os seus ensinamentos, as ameaças e maldições, o sofrimento e a cultura que o inventara. E, porque eram felizes, não os atingia a doença, a fome, o medo ou a guerra.

Imagina-se o seu grau de felicidade pela intensidade da cólera divina, que enviou o fogo que destruiu Sodoma e, com ela, as outras cidades, e, com os adultos que se divertiam, as crianças, que ainda não sabiam folgar, e também os velhos que tinham esquecido já os divertimentos, se algum dia os conheceram, e, talvez, algum anjo que tivesse tentado pôr termo ao pecado e acabou violado, chamuscadas as penas no desejo e esturricado, também ele, nas labaredas.

Ao longe, Abraão assistira ao espetáculo que o seu Deus pirómano lhe serviu à hora da sesta, tirando moncos do nariz, enquanto Loth, seu sobrinho, por bambúrrio da sorte ou por morar nos subúrbios, se esgueirava com as filhas e a mulher, tendo esta olhado para trás, apesar da recomendação divina em contrário, e sido transformada em estátua de sal, por ser nela maior a curiosidade do que a obediência.

Para dizer alguma coisa ou por se ter arrependido do fogo que ateara ou, somente, para criar factos que dessem conteúdo ao Êxodo, ao Levítico e a outros escritos, fez Deus, a Abraão, umas promessas que acabariam por dar origem a Israel, muito tempo depois, e dado a Jacob e aos seus 12 filhos o Egipto para se instalarem e cumprirem uma profecia.

Sodoma ficou na memória oral dos povos pelos hábitos sexuais de uma escassa minoria. Conhecendo-se hoje melhor, Deus e os seus humores, a fé e os seus preconceitos, a devoção e a sua intolerância, somos levados a crer que seriam deliciosas as vitualhas, capitosos os líquidos, requintados os hábitos, agradáveis as relações, enfim, felizes os seus habitantes, a ponto de Deus perder a paciência e ser tomado por aquela cólera que o celebrizou.

Terá sido Loth o autor do boato a que se deve o verbo criado a partir do nome da cidade desaparecida. Ou um qualquer viandante saído antes do fogo e ansioso de se pôr ao lado do algoz.

3 de Maio, 2014 Carlos Esperança

4 TESES CONTRA OS “MILAGRES”… …E UMA ADENDA… A FAVOR…

Por

João Pedro Moura

PRIMEIRA TESE

“MILAGRE” E CIÊNCIA

             Os católicos e sua ICAR sustentam, infundamentada e esporadicamente, que esta ou aquela pessoa foram alvo dum “milagre”, pois estavam doentes, com bastante gravidade, mas a doença desapareceu “milagrosamente”, por intercessão directa dum qualquer exemplar “santificado” do jardim da celeste corte…

Quase sempre se trata duma doença que, aparentemente, desaparece sem explicação médica, quero dizer, científica, ou de sobreviventes dum acidente de viação ou aviação, supostamente salvos por um “milagre”…

Mas, o facto de uma doença ser anulada, sem aparente intervenção médica ou de qualquer maneira curativa, e o doente ter impetrado a benesse divina para a sua cura, não significa a outorga de curativo divinal, até porque isso ainda seria mais inexplicável que o desaparecimento da doença…

Significa que a ciência, em geral, e a Medicina, em particular, não têm explicação para o problema…

… E não ter explicação para tal significa isso mesmo e não “milagre”.

… E uma explicação pode ser, ou não, dada posteriormente, noutra época mais evoluída e com mais conhecimentos…

 

SEGUNDA TESE

“MILAGRE” E CIVISMO SOLIDÁRIO…

 

Temos, então, a seguinte cena milagreira típica:

Uma pessoa está a deitar sangue por vários lados, em perigo de vida, ou está com uma doença grave; a observá-la estão, obviamente, as entidades do aprisco divino, que não intervêm, pois estão à espera da impetração da vítima; esta impetra, a uma qualquer dessas entidades fantasmagóricas, pela benesse curativa; esta é concedida, segundo a vítima. Eis o “milagre”!

Querem ver aonde isto nos conduz?

Vejamos um caso: está uma vítima no chão, devido a um acidente rodoviário; uma pessoa aproxima-se, impávida e serena, mas não lhe presta ajuda, esperando que a vítima … lhe peça ajuda…

Vejamos outro caso: um doente está à rasca com uma maleita, degenerativa ou não, contorce-se, pávido e inquieto, com as dores; ao lado, está um médico que lhe podia acudir, mas não acode, pois está à espera que o doente lhe peça ajuda, à semelhança do procedimento religioso…

Em ambos os casos, quem podia socorrer, e não socorre, cai na alçada do código penal de qualquer país do mundo, por falta de socorro a vítimas. Mas na teoria do “milagre”, não! Só se presta ajuda, religiosamente, quando a vítima pedir…

Mas só para algumas vítimas!…

Ou então, em caso de acidentes, primeiro, o deus e respetivo séquito de “santinhos” assiste à ocorrência, sem nada evitar, e depois vai “ajudar” a salvar…

Mas só para alguns acidentes! …

Agora, digam-me se isto tem alguma ponta por onde se lhe pegar!

Que entidades divinas tão cruéis, perversas e sádicas!!!

Que povo tão crédulo e néscio, que acredita nestas patranhas e procedimentos!

TERCEIRA TESE

…E PORQUE NÃO EVITAM A DOENÇA OU O DESASTRE???!!!

A sustentação da “tese” taumatúrgica, pela sua extravagância, remete-nos para as seguintes objecções:

a) Por que é que uns poucos são “curados milagrosamente” e a esmagadora maioria não???!!!

b) Por que é que há sobreviventes de acidentes e catástrofes, nuns casos, e noutros não???!!!

É de todo incompreensível e desabonador da taumaturgia, que haja uns supostos “miraculados”, mas todos os outros impetradores e acidentados não aufiram da ansiada benesse divina!…

c) Por que é que o suposto benfeitor divinal trata da cura, geralmente após longo sofrimento, e descuida o evitamento da doença???!!!

Faz algum sentido, um doente andar anos a implorar a benesse duma qualquer figurinha estatual, amadeirada ou porcelânica, do aprisco clínico-celestial, sem que tais figurinhas evitem a doença, e só uns anos depois de o doente andar a arrastar-se por médicos e hospitais, é que as conspícuas entidades taumatúrgicas decidem sacudir o langor tórpido que as tolhe, para virem acudir a quem delas impetra???!!!

Se em qualquer código penal do mundo, decerto que há castigo para quem não presta, e porque podia prestar, socorro a uma pessoa em dificuldades momentâneas de vida, então, também é castigável a atitude do bloco taumatúrgico da celestial ordem, pois que veem pessoas morbosas e noutras dificuldades, sem lhes prestar cuidados imediatos…

d) Acresce que também não se percebe por que é que o taumaturgo dá uma benesse curandeira, evitando uma morte ou um grave problema, mas o beneficiário acaba por morrer, mais tarde ou mais cedo, da mesma ou doutra doença, sem que se volte a falar de milagres ou se peça uma satisfação ao taumaturgo, por distrate do prazo de garantia milagreira ou por falta de renovação da benesse!…

Simplesmente incompreensível!!!….

…Mas há quem acredite em tanta incongruência!!!…

e) 2 casos, dos mais desconcertantes, para ilustrar esta estranha arte curativa:

Primeiro: a “santinha de Balasar”, Alexandrina, de seu nome, na freguesia homónima da Póvoa de Varzim.

Pois esta “santa”, que ainda não o é, um dia, saltou da janela da sua casa para fugir a um assaltante que, se calhar, também a queria violar.

Ficou entrevada e, a partir de certo ano, dizem os técnicos da “santa”, deixou de comer… até à sua morte. Aí coisa para uns 13 anos de défice gastronómico…

Morreu há mais de 50 anos.

Também já fez “milagres”, segundo os entendidos…

Mas o que interessa agora é realçar esse suposto estado de santidade, adquirido no entrevamento e nas pulsões místicas, que ela tinha, mas sem nunca melhorar o seu estado de sofrimento, devido à paraplegia…

Não podia o deus dela conceder, a tão devota criatura, a mercê da liberdade das pernas em vez da santidade paraplégica e estomacal???!!!

Segundo: lembrais-vos da Milinha? A senhora Maria Emília Santos, acamada durante 22 anos, algures em Leiria, e que, após mais uma invocação da “Jacintinha“ de Fátima, ficou a andar, embora um bocado peca das pernas?!

Pois essa sujeita foi muito celebrada pela suposta cura divina, mas ninguém se lembrou de perguntar a quem de direito por que é que tal criatura esteve 22 anos entrevada, sem que o curativo da “Jacintinha”, ou doutro taumaturgo, lhe acudisse!!!…

… E, nas palavras imorredoiras do Carlos Esperança, a Milinha “morreu completamente curada 6 meses depois”!…

f) Até chego a pensar que o catolicismo glorifica o sofrimento!…

g) Até chego a estranhar por que não há tais proezas taumatúrgicas nas outras igrejas cristãs, ou nos muçulmanos, judeus e outros espécimes da religiofauna terrestre!…

Não há nada como ser devoto da igreja certa!…

QUARTA  TESE

“MILAGRES” DE MORTOS…

             Mas estas três primeiras teses não são nada, comparadas com a quarta!…

POR QUE RAZÃO É QUE OS TAUMATURGOS SÓ OPERAM DEPOIS DE MORTOS E NÃO DURANTE AS SUAS VIDAS???!!!

É um facto muito conhecido que os clérigos, como padres, frades e freiras, assim como os seus raros assessores leigos, erigidos à condição de santos, só fazem operações taumatúrgicas quando estão reduzidos à condição de ossamentas …

Ora, um clérigo importante, em vida, é que fala com as pessoas, é que as toca, que as acaricia, que as pode massajar, dar-lhes umas palavras de “conforto espiritual”, enfim, seria na plenitude da pujança de vida desses clérigos e ofícios correlativos, que os pobres de saúde poderiam invocar a benesse curativa!….

E então até se poderiam organizar as “associações de curados” dos papas João XXIII ou do JP2, tendo essas associações como patronos, precisamente o seu taumaturgo… ali ao vivo, e até a presidir a umas celebrações gastronómicas periódicas, sob a bênção do “Senhor”…

Mas não!!! Nada disso!!!

Os taumaturgos do clero e afins só operam “post mortem”, em adiantado estado de decomposição, e, em grande parte dos casos, já só sobrando ossadas ou objectos pessoais em relicário purpurado…

Ora, a dupla pergunta, então, surge absolutamente imperativa:

Por que estranhíssimo motivo é que os taumaturgos do jardim da celeste corte só operam no lastimoso estado de defuntos em vez do glorioso estado de vivos???!!!….

Que estranhas propriedades físico-químicas é que têm certos corpos para operarem prodígios taumatúrgicos, depois de mortos e longo tempo mortos, em vez de operarem prodígios cirúrgicos… ao vivo???!!!…

Incompreensível!!!…

Mais: primeiro alega-se “milagre”; depois, a Igreja, mais tarde ou mais cedo, acaba por reconhecer o dito, isto é, reconhece que um dos seus clérigos cadaverosos, invocado pelo doente e armado em taumaturgo, “curou” a maleita dum crédulo.

Mas isto remete-nos, concomitantemente, para a seguinte questão: que tratados da Igreja é que afirmam que os seus clérigos defuntos manifestam não só um estado especial de “vida”, como também a propriedade taumatúrgica???!!!…

Se a Igreja não tem qualquer estudo, obra ou o que quer que seja de reflexão ou de demonstração sobre “vida para além da morte”, por que é que aprova o milagrório???!!!

Incompreensível!!!…

Mas compreensível à luz dos pingues proventos, decorrentes de mais uma festa religiosa e do estendal de quinquilharia cultual, gerada pelo novo santinho…

 ADENDA

A FAVOR DOS MILAGRES…

 – Considerando que é no estado de morto e bem morto, devidamente decomposto na sua matéria constitutiva, que se assume a condição de taumaturgo…

             – Considerando que são os clérigos o tipo de gente privilegiada para aceder ao bloco taumatúrgico da ordem clínica celestial, e assim operarem maravilhas de saúde, que, pelos vistos, não lhes são acessíveis em vida…

– Proponho aos católicos a matança de padres, frades e freiras, mormente os de maior pendor místico, a fim de se prover tal clínica milagreira com superiores recursos humanos do obituário católico e assim aumentar a oferta de serviços, para que os milhões de doentes e outros possíveis beneficiários possam auferir a benesse de que carecem e assim dar outra eficácia e utilidade ao clero…