Loading
23 de Fevereiro, 2015 Carlos Esperança

Petição ACABAR COM ABORTO GRATUITO

Para: Governo e Assembleia da República

Chegou-me hoje, em correio eletrónico, o convite para assinar uma petição para acabar com o aborto gratuito, uma solicitação ao destinatário errado. Logo me veio à memória a minha vizinha, D. Efigénia, amiga da missa e da hóstia, que adoeceu com o resultado do último referendo sobre a IVG.

No período que precedeu o Referendo da IVG papou a missa diária, deixou queimar o arroz três vezes, vazou-lhe a sopa outras tantas e incendiou-se-lhe o fogão quando se distraiu a rezar a salve-rainha. Até o bolo de chocolate que fizera para o filho, que vinha de fim-de-semana, se esturrou quando rezava o terço no oratório do quarto.

A D. Efigénia dizia-me que era uma pena eu não ir à missa, tão boa pessoa, até rezava pela minha conversão e não se desencorajava de ver-me subir as escadas da igreja da paróquia, entregue a uns frades depois de começarem a escassear os padres seculares.

A D. Efigénia nunca pensou perder o Referendo, era pela vida, sabia que a Senhora de Fátima andava a desfazer-se em lágrimas de sangue, estranha hemorragia ocular de uma imagem pia, e que não permitiria que as forças do mal vencessem.

Aliás, ela bem sabia como os portugueses são atreitos ao medo do Inferno, embora este tivesse sido abolido, e como sentem a falta das cantorias e do padre no funeral. Sorria feliz com o Cânone 1331 que excomungaria os que votassem SIM no Referendo: «não poderiam casar, batizar-se nem ter um funeral religioso».

Julgava a boa da D. Efigénia que o medo era suficiente para dar a vitória à Senhora de Fátima, ao seu amado filho, ao pai do Céu e a todos os que se preocupam com pecados.

Quando soube que 2.338.053 eleitores desprezaram as orações, missas, novenas, terços e outros pios demonífugos, deu em cismar que Deus não existia, a senhora de Fátima era uma invenção, os anjos não voavam e os padres eram funcionários de uma empresa cujos produtos não têm certificado de garantia nem prazo de validade.

A D. Efigénia ainda se benze mas julga que alguns defensores do Não são proprietários de clínicas clandestinas e que a despenalização do aborto lhes prejudicou o negócio.

Entre a salvação da alma e a reflexão, a D. Efigénia ainda hoje hesita e se aflige, adoece e cisma, e nunca mais rezou um pai-nosso. Tem muitos na conta e não resultaram, até se convenceu de que o aborto não é sacramento e pode ser feito sem a ajuda eclesiástica.

Se esta petição lhe chegar, não sei como reagirá, oito anos após a última deceção. Com a saúde precária e a fé abalada, temo pelo seu futuro mas estou em crer que o remetente me confundiu com a D. Efigénia e me mandou a petição que lhe era destinada.

22 de Fevereiro, 2015 Carlos Esperança

Mais um texto para obrigar os crentes ao esforço de pensarem

Para nós enquanto espécie, a religião foi a nossa primeira versão da verdade. Foi a nossa primeira tentativa porque, verdadeiramente, não sabíamos nada. Não sabíamos que vivíamos num planeta esférico. Não sabíamos que o nosso planeta dá voltas em torno do sol. Não sabíamos dos micro-organismos causadores de doenças. Daí as religiões primitivas terem inventado que as doenças eram provocadas por maldições, ou bruxas, ou maus agoiros ou demónios. Não sabíamos nada desde a infantil, aterrorizante e ignorante origem da nossa espécie animal primata que é de onde vem a religião.

Assim como foi a nossa primeira tentativa com a filosofia, com a moralidade, com os cuidados de saúde. Mas porque é a nossa primeira tentativa, é a pior. Em todas estas áreas nós evoluímos incomensuravelmente. Nós temos agora melhores explicações para estes temores, resolvemos todos estes mistérios.

Mas ainda assim vivemos, em pleno século XXI, com sociedades sob regimes totalitários que nos proíbem de pensar sobre o progresso que tem sido feito, ou nos nega o conhecimento que estes avanços tivessem de facto ocorrido. Mas em algum momento no futuro, estas sociedades abandonarão a sua dependência medonha do sobrenatural e compreenderão o quanto mais miraculoso, muito mais bonitas, muito mais elegantes, muito mais iluminadas, muito mais harmoniosas são as explicações cientificas. Pensem sobre o quanto fascinantes Einstein e Darwin são. Pensem sobre o quanto mais elegante e convincente eles são em comparação com a ideia de um arbusto ardente ou a exigência de que sem uma circuncisão não haverá nenhuma redenção.

Eis um exercício mental: se vocês são fiéis de alguma religião monoteísta têm de acreditar no seguinte: Sabemos que a nossa espécie existe há cerca de 200 mil anos e aí se separou dos cro-magnom e de espécies rivais primitivas. Eis o que os monoteístas têm de acreditar: durante 200 mil anos os humanos nasceram como uma espécie primata; com uma mortalidade infantil abundante; esperança de vida talvez de 25 anos; as doenças provocadas por micro-organismos provocavam morte e sofrimento atroz; terramotos, vulcões, tempestades, eras glaciares provocavam mais morte e sofrimento aterrorizante; a luta pela posse da terra, por comida, por mulheres é mais tribalismo igualmente assustador.

Durante 195/196 mil anos os céus olharam para tudo isto de braços cruzados, com total indiferença e frieza. E é então que há cerca de 3/4 mil anos numa parte realmente bárbara e analfabeta do oriente médio (não na China onde as pessoas já conseguiam ler, ou pensar de uma forma evoluída ao ponto de já fazerem ciência, não, não, não).

Foi na parte mais primitiva e analfabeta do oriente médio que Deus pensou e decidiu: “Não posso deixar isto continuar, é melhor intervir. E qual a melhor forma senão através de sacrifícios humanos, pragas e assassínios em massa?
Se isto não os fizer comportarem-se moralmente, Eu simplesmente não sei o que fará?” Se houver alguma pessoa que se ponha a acreditar em qualquer coisa remotamente parecida com esta, ela se condena a ser realmente muito estúpida e muito imoral.

Este texto é da autoria de Cristopher Hitchens.

a) Paulo Franco.

21 de Fevereiro, 2015 Carlos Esperança

A fé e a ciência

– Email enviado por

Casa do Oleiro

Se houvesse um julgamento após a nossa morte, na sequência do qual – na medida em que nos contentássemos com a personagem que nos foi dada  nesta vida e nos mostrássemos humildemente obedientes e crentes – fôssemos recompensados, vivendo alegremente  até ao fim dos tempos num refúgio/paraíso permanente que nos protegesse do sofrimento e da agitação do mundo. Era assim que seria  se o mundo tivesse sido pensado e planeado para ser justo. Era assim que seria se os que sofrem recebessem o consolo que merecem.

Assim, as sociedades que pregam a satisfação com a nossa actual passagem pela vida na expectativa de uma recompensa depois da morte  tendem a vacinar-se contra a teoria da evolução.

Além disso, o medo da morte, que, nalguns aspectos, é adaptativo na luta evolucionária pela existência, é inadaptativo na guerra. As culturas que ensinam a existência de uma outra vida de bem-aventurança para os heróis – ou mesmo para aqueles que apenas fizeram  o que lhes disseram os detentores da autoridade – podem conseguir uma vantagem  competitiva.

Deste modo, a ideia de uma parte espiritual da nossa natureza que sobrevive à morte, o conceito de uma outra vida, deve ser fácil de vender pelas religiões e pelas nações. Neste campo, não podemos esperar um cepticismo muito generalizado. As pessoas querem acreditar  nisso, ainda que os indícios sejam escassos, para não dizer nulos.

Se eu sonho que me encontrei com um progenitor ou com um filho morto, quem é capaz de me dizer que isso não aconteceu realmente?

Se tiver uma visão de mim próprio, a flutuar no espaço olhando lá para baixo, para a Terra, talvez esteja de facto a flutuar no espaço; por quem se tomam os cientistas, que nem sequer partilharam a experiência, para me dizer que tudo se passa na minha cabeça? Se a minha  religião ensina que é a palavra de Deus, inalterável e infalível, que afirma que a idade do universo é de apenas alguns milhares de anos, os cientistas só podem estar a ser ofensivos e ímpios quando afirmam que o universo existe já à alguns milhares de milhões de anos.

É irritante a ciência pretender estabelecer limites àquilo que podemos ou não alcançar. Quem disse que não podemos deslocar-nos mais  depressa que a luz? Já diziam isso acerca da velocidade do som, não é verdade? Quem nos impedirá, se tivermos instrumentos realmente  poderosos, de medir simultaneamente a posição e o movimento linear de um electrão? Se somos muito inteligentes, porque não haveremos  de construir uma máquina de movimento perpétuo, que gera mais energia do que consome e que nunca pára?

Quem se atreve a impor limites ao engenho humano?

De facto, é a natureza que o faz. De facto, nesta lista de actos “proibidos” está contido um resumo razoavelmente sistemático das leis da  natureza, das leis que regem o funcionamento do universo. É revelador que a pseudociência e a religião não reconheçam limitações na natureza. Pelo contrário, “todas as coisas são possíveis”. Prometem um orçamento de produção sem limites, por mais que os seus aderentes tenham ficado desiludidos e se tenham sentido traídos.

(Este texto foi retirado do livro de Carl Sagan “Um mundo infestado de demónios”.)

20 de Fevereiro, 2015 Carlos Esperança

O perigo existe

ISIS’ plans to conquer Europe via Libya have been revealed in letters seen by an anti-terrorism group. Owing to its perfect location on the continental doorstep, the terrorists plan to ferry fighters from North Africa across the Mediterranean.
RT.COM
18 de Fevereiro, 2015 José Moreira

Parecia mais complicado…

Segundo leio, essa coisa da beatificação e/ou da canonização não é, afinal, tão complicada como parece. Tudo se resume a um fenómeno que a ciência não possa, não saiba ou não queira, explicar. De preferência, uma cura inexplicável (estão, automaticamente, dispensados os membros que cresçam a amputados. Isso não conta para o Totobola). Depois, é só atribuir o milagre a uma entidade, de preferência completamente morta e em estado defuntivo há anos, quantos mais melhor. Se houver trabalho de equipa, como é o caso em apreço, a coisificasção torna-se ainda mais fácil, como se compreenderá: sempre são dois mortos a obrar o mesmo milagre. Depois, tudo se resolve: o papa de turno consulta o patrão, e este nunca vai contra. Aliás, todos sabemos que a vontade de Deus é, sempre, coincidente com a vontade dos homens, papas ou não papas. Coincidências…

E pronto. Temos a papa feita para caírem mais uns tostões nos cofres da ICAR.

E ainda dizem que há quem saiba mais que o papa…

18 de Fevereiro, 2015 Carlos Esperança

Email do leitor L. M. B.

Tomo a liberdade de falar sobre este pequeno excerto dedicado à explicitação filosófica sobre “o que é um milagre”, por Olavo de Carvalho, aqui:
Diz o sujeito que através da comparação entre duas causas, uma (natural) que provoca uma cura de cancro, outra (sobrenatural) que provoca exactamente a mesma cura, em duas pessoas diferentes (suponho), entre estas duas causas não há comparação possível e a segunda não é do nosso conhecimento. O problema, parece-me, é que não se pode fazer filosofia sobre os fundamentos lógicos (ou sobre a falta deles) inerentes a duas causas que produzindo o mesmo resultado ocorreram, não obstante, em duas pessoas diferentes. Certamente que a primeira conclusão que não nos deixaria ir mais longe neste raciocínio, se formos intelectualmente honestos, é que se as duas pessoas são diferentes isso implicaria desde logo a abertura de outras causas possíveis que pudessem estar por detrás da cura do cancro no segundo caso, o caso dito sobrenatural. Então teríamos que investigar até que ponto a cura do segundo caso poderia ter sido causada por causas naturais e não sobrenaturais – é aqui que está a falácia do suposto “lógico” que analisa a “estrutura da possibilidade” (como ele diz) do suposto milagre. A experiência não seria replicável, ou seja, não seria repetível em condições diferentes porque as duas pessoas são diferentes!
Logo a seguir ele salta para a colocação de duas opções que, em princípio, esgotariam o universo de possibilidades de colocar a questão: ou uma causa natural ou uma causa sobrenatural teriam que explicar determinado resultado (a cura de uma doença, dada como exemplo) e logo a seguir salta para o caso das aparições de Fátima. Apenas há um problema: é que pula por cima da prova histórica, do testemunho humano (ocular, auditivo, etc). É que podemos sempre desconfiar que aquilo que é dado como milagre não o seja porque os testemunhos foram mal analisados, deturpados, ou simplesmente errados. E assim, através da exposição oral, supostamente lógica, engana-se o ouvinte que corre atrás do orador como cão atrás de uma carroça tentando adivinhar o caminho para onde se dirige e não reparando que pode durante o percurso ser desviado.
Durante a oratória eliminou-se subrepticiamente a possibilidade da confrontação testemunhal dos factos supostamente milagrosos para serem introduzidos na questão como factos incontestados. Aqui, repare que ele passa a Fátima (veja o minuto 00:09:25). E o argumento agora é o seguinte: o milagre tem uma inteligibilidade própria que os factos não miraculosos não têm. E que inteligibilidade é essa no exemplo de Fátima? As relações entre a dança do Sol, a primeira guerra mundial, as visões dos pastorinhos, as luzes no céu, a revolução bolchevique de 1917, entre outros, são descritas como “conexões internas que normalmente nós não vemos” plenas de segnificados simbólicos. O “símbolo” passa a ser depois considerado como conceito central para prosseguimento do discurso.
Portanto, este discurso só pode ser desmontado aplicando a mesma lógica de ferro que usam no diário de uns ateus sobre as incongruências e falta de sentido entre os referidos componentes tipicamente pertencentes ao milagre de Fátima. Mas para isto só as considerações históricas e o contexto no qual ocorreu o acontecimento poderão deitar luz e minar este tipo de discurso falsamente profundo e com pretensões pseudo-filosofantes para enganar jovenzinhos.
Proponho que alguém no «diario de uns ateus» ou na associação ateista se dedique à desmontagem metódica deste discurso e de discursos como este como forma pedagógica de exercitar o pensamento científico e crítico.
https://www.youtube.com/watch?v=kOOPb1RJu80&list=PLMy-mz_8wNfHoCRL93cXJYWQadgsUPIlY

What is a miracle? Lecture by Olavo de Carvalho. Part 4.