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19 de Julho, 2004 Carlos Esperança

É tempo de Deus entrar de baixa

Os clérigos dizem que os ateus não foram «tocados pela fé». E, sempre que podem, não deixam de tocá-los, como quem toca uma alimária que recusa estugar o passo ou um boi que pretende esquivar-se ao açougue.

Não se detêm a reflectir como é possível que, havendo um único Deus verdadeiro – como alegam -, o dito Deus seja, conforme a latitude, mais cruel, estúpido ou prepotente; de acordo com o regime político, capaz de punir os homens com a pena de morte ou ter de aguardar, cinicamente, para os condenar depois às perpétuas penas; consoante o período histórico, fomentar guerras santas ou resignar-se à liberdade e ao desprezo que lhe votam as criaturas cuja criação lhe atribuem.

Se Deus não fosse o pretexto para a intolerância, a prática de crimes e a crueldade, mereceria aos ateus a mesma simpatia dos deuses gregos ou romanos, das lendas e das fantasias que se perpetuaram de geração em geração.

Quem será capaz de explicar as idiossincrasias que levam Deus a babar-se de gozo com as penitências, as genuflexões, as orações, os jejuns, as flagelações ou as peregrinações? Que mania o leva a reprimir a sexualidade, a ofender a dignidade da mulher ou a ditar a moda no vestuário? Deus consegue ter todas as taras dos homens e nenhuma das suas virtudes.

Na coutada da Igreja Católica (ICAR) Deus era um entusiasta de churrascos para hereges, bruxas e judeus e revelou aos empregados imaginativos instrumentos de tortura com que se deliciava a observar os esgares de dor enquanto um padre os confortava com a exibição da cruz; no Médio Oriente pela-se por decapitações e amputações e atinge o divino gozo com as vergastadas públicas ou as lapidações de adúlteras; na Índia o senhor Deus lá do sítio ainda hoje não compreende que uma viúva recuse acompanhar o defunto à pira funerária.

Há quem leve Deus a sério e lhe agradeça o mal que faz.

18 de Julho, 2004 Carlos Esperança

A vida está difícil. A fé é que salva… alguns



A Igreja católica (ICAR) tem vindo a perder clientela, que muitos atribuem ao anacronismo das suas propostas e ao carácter autoritário do seu clero. É uma explicação insuficiente, quiçá errada, e perigosa. O islão é ainda mais retrógrado e não lhe faltam prosélitos, mártires e conversos. Numa análise empírica dir-se-ia que, quanto mais reaccionária é uma igreja maior é o seu poder de sedução, quanto mais violento e cruel é o seu Deus, mais dóceis e piedosos se tornam os crentes. As aparências escondem o carácter decisivo que o controlo do aparelho de Estado e dos meios de produção exercem sobre a fé.

Pode ver-se como, no Islão, os aparelhos militares, políticos e administrativos se encontram nas mãos do clero, sem prescindirem do aparelho repressivo que estimula a fé, quando esta vacila.

 Qualquer religião que perca o domínio económico e o aparelho de Estado, agora que o conhecimento deixou de ser monopólio eclesiástico, perde influência e tende a exercer um papel residual na sociedade.

Claro que as superstições e alguma apetência pelo fantástico serão sempre aproveitadas para conduzir as ovelhas ao redil da salvação. A ignorância e o desespero fazem o resto. 

 

Isto é válido para as religiões com alvará e para as que se estabelecem nas esquinas dos bairros pobres. Os métodos não variam muito, apenas a sofisticação.

18 de Julho, 2004 jvasco

Mas o que é que isso interessa?

Se Deus não existe, porquê debater a sua existência?

Se Deus não existe, porquê perder tempo a falar sobre ele e sobre as diferentes religiões e igrejas?

Para que é que servem as páginas e textos sobre ateísmo?

Para que é que serve este blogue? 

Penso que quem tenha uma postura racional, por muito convencido que esteja de uma determinada opinião, está sempre disposto a ouvir a oposta e a debatê-la. Não vê isso como uma fragilidade sua, mas sim como uma força: sabe que se a sua opinião está correcta, os seus argumentos são bons, por isso não há que temer confrontá-los. Sabe que se eventualmente descobrir que uma opinião sua estava errada, isso só vai tornar as suas opiniões melhores com o tempo.

Muitos ateus defendem esta postura racional, e notam que o ateísmo tem tudo a ver com ela. Por outro lado verificam que quanto mais debatem sobre o tema do ateísmo (quer com crentes, agnósticos ou outros ateus), mais completa e coerente fica a sua forma de ver o Universo (e Deus tende a parecer cada vez mais implausível, quanto mais se entende o funcionamento do Universo…).

Mas existe uma outra razão que é mais importante e mobiliza ainda mais ateus para este debate: muitos ateus não gostam da ideia de serem agentes passsivos do mundo em que vivem. Sabendo que não existe nenhuma divindade que vá oferecer o Paraíso para quem passar a vida em fervorosas orações, sabemos que o paraíso só passará de um sonho se o construirmos nós – temos de intervir na sociedade e no mundo, tornando-os melhores.

E para intervirmos, não podemos ignorar o que se passa à nossa volta. Como eu disse algures nos comentários recentes: se um indivíduo ateu quer construir um mundo melhor, “então não pode ser alheio às igrejas e às superstições: quando a OMS acusa a igreja católica de estar a agravar um genocídio; quando o islamismo motiva a Al-Quaeda, quando os bispos espanhóis estão contra a possibilidade de existirem casamentos entre homossexuais em Espanha; quando um milhão de pessoas é condenada pela cultura hindu a trabalhar removendo fezes de latrinas, o impacto da crença em Deus no mundo que o rodeia é inquestionável. Se essa crença é uma mentira ou não, é uma questão importante que pode e deve ser debatida.”

17 de Julho, 2004 jvasco

Um tipo de Agnosticismo (e outras considerações…)

Tenho sobre a posição agnóstica (por si) um elevado respeito e consideração.

No entanto, sei que existem vários tipos de agnósticos, com diferentes motivações e razões.

Há quem veja na questão religiosa algo de “artificial” e pouco importante, que só serve para dividir as pessoas, fazendo-as discordar. Com horror à discórdia, à discussão e ao debate, essas pessoas preferem assumir a posição que consideram menos conflituosa. Não são “ateus”, para não ofender os crentes, dizendo que não acreditam, mas não são “crentes” porque simplesmente não acreditam.

 

Considero saudável que numa sociedade e cultura seja normal a discussão de ideias, o desacordo, a argumentação. A ideia de que discutir a actualidade política, a religião ou outros temas do género num jantar de amigos é desagradável, é uma ideia que acho nefasta: as pessoas tendem a manter as suas ideias, sem as “arejar” pelo seu confronto, tendem a desinteressar-se dos assuntos citados, tendem a desinteressar-se mesmo de qualquer assunto “sério”.

 

O facto de algumas pessoas que se dizem agnósticas serem na verdade ateus, com o temor do confronto que referi, é um sintoma deste problema.

Que se discutam temas sérios! Que se dêem bons argumentos! Que se oiçam e respeitem as diferentes opiniões e perspectivas! Que se confrontem ideias diferentes!

As ideias de todos tendem a subir de nível quando a discussão acontece. 

16 de Julho, 2004 Carlos Esperança

Incêndios devastam Portugal

As sucessivas consagrações de Portugal ao Imaculado Coração de Maria, à Virgem Santíssima, à Senhora de Fátima, ao Divino Espírito Santo e a outros heterónimos da fauna celeste, têm-se revelado inúteis. Depois dos devastadores incêndios de 2003, com duas dezenas de pessoas carbonizadas e a maior área ardida de que há registo num só verão, já arderam este ano 20 mil hectares de floresta.

Ou o prazo de validade das consagrações é curto ou a utilidade nula.

Não sei se é a maldade de Deus ou a incúria dos homens que vai reduzindo o País sistematicamente a cinzas.

16 de Julho, 2004 Carlos Esperança

Maus, porcos e santos

Se um presidente condecora um patife é insensato, se um papa canoniza um facínora é piedoso.

 

João Paulo II levou longe de mais a glorificação aos corsários da fé. Desde a beatificação do cardeal fascista Stepinac e do papa anti-semita Pio IX, até ao tenebroso S. Josemaria Escrivá de Balaguer, são incontáveis os biltres que escaparam à justiça dos homens e foram arremessados aos altares pelo fanatismo de JP2.

 

Pelo carácter perigoso e prosélito da seita Opus Dei, cujos gerentes estão a ser sucessivamente canonizados, convém não deixar esquecer o fundador.

 

A respeito desse cúmplice da mais sinistra ditadura da Europa Ocidental, do século que passou, deixo aqui a carta piedosa que escreveu ao ditador Franco, um dos mais pusilânimes e frios assassinos dos tempos modernos, admirador e cúmplice de Hitler.

 

A carta do santo da ICAR ao santo do fascismo fui buscá-la ao «Oeste Bravio»

   

Carta de São Escrivá de Balaguer ao Generalíssimo Franco em 23 de Maio de 1958. (Publicada en la revista Razón Española – N° enero-febrero 2001)

 

Al Excmo. Sr. D. Francisco Franco Bahamonde, Jefe del Estado Español.

Excelencia,

No quiero dejar de unir a las muchas felicitaciones que habría recibido, con motivo de la promulgación de los Principios Fundamentales, la mía personal más sincera.La obligada ausencia de la Patria en servicio de Dios y de las almas, lejos de debilitar mi amor a España, ha venido, si cabe, a acrecentarlo. Con la perspectiva que se adquiere en esta Roma Eterna he podido ver mejor que nunca la hermosura de esa hija predilecta de la Iglesia que es mi Patria, de la que el Señor se ha servido en tantas ocasiones como instrumento para la defensa y propagación de la Santa Fe Católica en el mundo.Aunque apartado de toda actividad política, no he podido por menos de alegrarme, como sacerdote y como español, de que la voz autorizada del Jefe del Estado proclame que “la Nación española considera como timbre de honor el acatamiento a la Ley de Dios, según la doctrina de la Santa Iglesia Católica, Apostólica y Romana, única y verdadera y Fe inseparable de la conciencia nacional que inspirará su legislación”. En la fidelidad a la tradición católica de nuestro pueblo se encontrará siempre, junto con la bendición divina para las personas constituídas en autoridad, la mejor garantía de acierto en los actos de gobierno, y en la seguridad de una justa y duradera paz en el seno de la comunidad nacional.Pido a Dios Nuestro Señor que colme a Vuestra Excelencia de toda suerte de venturas y le depare gracia abundante en el desempeño de la alta misión que tiene confiada.Reciba, Excelencia, el testimonio de mi consideración personal más distinguida con la seguridad de mis oraciones para toda su familia.De Vuestra Excelencia affmo. in DominoJosemaría Escrivá de BalaguerRoma, 23 de mayo de 1958.

Nota de la revista: El original de esta carta lo posee la hija del Generalísimo, Duquesa de Franco.

 

Mais estulto do que acreditar em milagres é confiar em quem os aprova.

15 de Julho, 2004 jvasco

Esclarecimento

Vou aproveitar este artigo para fazer um esclarecimento que já tenho repetido até à exaustão nos comentários, mas cuja repetição parece sempre insuficiente, já que continuamos a ser mal interpretados. Vou falar por mim, mas estou certo que o essencial daquilo que vou dizer se aplica aos outros autores.

 

Não tenho nada contra os crentes. Não lhes desejo nenhum mal. Três dos meus melhores amigos são umbandistas, alguns familiares e amigos da família, que muito estimo, são católicos (incluindo os meus Avós, a minha Madrinha e o meu Padrinho). Há figuras públicas que admiro que são religiosas (não conhecia bem a falecida Maria de Lurdes Pintasilgo, mas tinha a respeito dela uma ideia positiva).

A maior parte dos ateus limita-se a sê-lo, sem o afirmar aos sete ventos. Tem uma atitude paternalista do tipo: «eles que acreditem nesses disparates, se isso os faz felizes». Devo dizer que, durante algum tempo, também fui assim. 

Não manter esta atitude (o «ateísmo militante»), longe de ser desrespeito ou inimizade para com os crentes, pode ser (também) uma atitude de preocupação para com eles (e para com as pessoas em geral). «As pessoas que acreditem no que quiserem, mas que tenham acesso a todos os dados, informações e perspectivas, para fazerem a melhor escolha». Se me bato para que os diferentes mitos urbanos desapareçam, para que as mentiras repetidas até à exaustão deixem de ser consideradas verdades, então terei de considerar que as religiões representam o melhor exemplo dessa triste ocorrência.

14 de Julho, 2004 Mariana de Oliveira

Passou a procissão II

As criancinhas são sempre arrastadas para estes eventos. Por sorte, muitas delas vêem a máscara como uma espécie de Carnaval… Outras, chateiam-se, choram, cansam-se, apanham muito calor de tarde e frio à noite. Resultado: uma ida ao hospital pediátrico no dia seguinte.

 

 

 

 

 

 

 

Ainda não consegui encontrar uma explicação para a máscara de D. Dinis. Será por ter atingido a santidade ao casar-se com Isabel?

 

 

 

 

 

Até foi uma procissão bastante concorrida. Os tempos de crise assim obrigam… pena é que fique sempre tudo na mesma.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

14 de Julho, 2004 Carlos Esperança

Escândalo sexual piedoso



A diocese de Viena de Áustria tem sido um sólido apoio da política ultraconservadora de João Paulo II e uma fonte de preocupações para o Vaticano. Há poucos anos, o então cardeal, pilar da moralidade, guardião dos bons costumes, defensor da família, adversário do divórcio e promotor da castidade, viu-se obrigado a resignar à diocese por envolvimento em numerosos actos de pedofilia.

Sua Santidade (SS) aceitou a resignação «com profunda mágoa», sem ter esclarecido se a mágoa se devia aos motivos ou à perda de um influente apoio.

Agora a capital do pacífico e encantador país volta a protagonizar um sério escândalo sexual, com a ICAR no centro do furacão.

Mas onde está o escândalo? Não é na homossexualidade, orientação que as democracias aceitam com o respeito que é devido às minorias.

O escândalo reside essencialmente em 4 aspectos:

1 – No exibicionismo do reitor do seminário, com a mão direita nos órgãos genitais de um seminarista enquanto olha de frente a objectiva da câmara fotográfica, com a mesma satisfação com que cantou a primeira missa ou ministrou pela primeira vez a comunhão;

2 – Na contradição entre o que prega e o que faz a ICAR;

3 – No uso de fotos de pornografia infantil e orgias sexuais pelo reitor e vice-reitor do seminário, nas relações com outros padres e seminaristas, quando se sabe que há pais que ingenuamente lhes enviam filhos menores à confissão ;

4 – Na campanha de intolerância que a ICAR desenvolve contra a homossexualidade, nas perseguições que lhes moveu no passado e na covardia que os impede de denunciarem a bíblia como fonte de violência e iniquidade: “Os actos homossexuais são uma abominação aos olhos do Senhor” Leviticus 18:22, “Os homossexuais devem ser executados” Leviticus 20:13.

Enfim, os mullahs islâmicos têm com frequência rapazinhos ao seu serviço sexual, os pastores protestantes e os rabis exibem as mesmas condutas e, tirando os aspectos do foro criminal, resta-me usar de alguma benevolência para com os algozes, vítimas de um celibato imposto pelo último ditador da Europa – o papa JP2.