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19 de Julho, 2006 Ricardo Alves

Reino Unido ilegaliza dois grupos islamistas

Duas organizações islamistas, a Al-Ghurabaa e a Saved Sect, foram ilegalizadas pelo governo do Reino Unido. Ambas as organizações são consideradas herdeiras do Al-Muhajiroun, que se dissolvera em 2004 por ordem do seu líder, o clérigo extremista Omar Bakri (conhecido por se referir aos autores do 11 de Setembro como «os dezanove magníficos», autoexilou-se no Líbano no verão de 2005). Omar Bakri, que alegadamente continua a controlar as organizações referidas, formou-se na Irmandade Muçulmana e no Hizb-ut-Tahrir, e é famoso pela propaganda do ódio e pelas suas declarações de apoio verbal ao terrorismo («Os seculares dizem que “o Islão é a religião do amor”. É verdade. Mas o Islão também é a religião da guerra. Da paz, mas também do terrorismo. (…) Maomé disse mais: “Eu sou o profeta que ri quando mata o seu inimigo”.»).

Esta ilegalização é possível porque, segundo a recente Lei de Prevenção do Terrorismo britânica, passou a ser crime pertencer a grupos designados pelo governo do Reino Unido como «simpatizantes do terrorismo», e organizar comícios ou usar roupas que lhes demonstrem apoio. Confesso, muito honestamente, que embora não duvide da premência de proibir e reprimir organizações terroristas, tenho algumas dúvidas sobre a necessidade de proibir grupos que «mesmo que não se envolvendo directamente em actos de terrorismo, dão apoio e fazem declarações que glorificam, celebram ou exaltam as atrocidades cometidas pelos grupos terroristas» e que, no máximo, estarão envolvidos no recrutamento a favor de organizações terroristas.

As associações agora ilegalizadas participaram numa famosa manifestação contra a publicação dos cartunes dinamarqueses em que se gritaram palavras de ordem como «Liberdade vai para o Inferno [Freedom, go to hell]» ou «a Europa pagará, o seu 11 de Setembro chegará [Europe, you will pay, your 9/11 is on the way]», e onde também se exibiram cartazes com os dizeres «Massacrai os que insultam o Islão [massacre those who insult Islam]». Na medida em que o cartaz referido é um apelo ao crime (especificamente, um incitamento ao assassinato), não tenho dúvidas de que constitui um crime, e que quem o exibiu deve ser julgado e condenado, como aliás aconteceu. (Já as palavras de ordem, não me parece que constituam um crime, embora revelem fanatismo e desprezo pela vida humana.) Entre o incitamento à violência e a justificação da violência, haverá uma distinção (que admito que nem sempre seja clara). E a ilegalização de um grupo por decisão governamental (e portanto política) é perigosa, ao contrário de condenações judiciais individuais por crimes tipificados na lei. Acho suficiente processar os membros individuais destas organizações por apelarem à violência. Proibir grupos político-religiosos por «glorificarem o terrorismo», conduz também a proibir, por coerência, todos os grupos neo-nazis (por «glorificarem o nazismo») e alguns grupos católicos (por «glorificarem a Inquisição»). Será mesmo esse o melhor caminho?
18 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Guerra civil de Espanha

Hoje, 18 de Julho, completam-se 70 anos sobre o golpe de Estado que ensanguentou a Espanha e que, de algum modo, iniciou a carnificina que o nazi/fascismo prolongaria até 8 de Maio de 1945.

Na sarjeta da história jazem José Sanjurjo, Emilio Mola y Francisco Franco, os generais que derrubaram o Governo constitucional da Segunda República, de que era presidente Manuel Azaña e primeiro-ministro Santiago Casares Quiroga.

Já no dia anterior tinha havido tentativas de sublevação mas foi no final do dia 18 que se iniciou a guerra civil que havia de deixar um rasto de sangue, com centenas de milhares de assassínios e incontáveis feridos, entre espanhóis.

O requinte dos fuzilamentos nos campos de touros e o garrote, como instrumento de tortura e morte, foram a imagem de marca da ditadura de Franco que Hitler, Salazar e Mussolini apoiaram. Era o catolicismo jurássico personificado nos quatro ditadores.

É a memória sinistra de Franco, um católico amigo da missa e da hóstia, que, estátua a estátua, tem vindo a ser derrubada em Espanha. É tarde para julgar os cúmplices mas é tempo de divulgar a verdade sobre o mais baixo e inculto dos três generais, que acabou por tomar o poder.

A Espanha de hoje é o paradigma de um país livre e democrático, rico e culto, que sob as cinzas da infâmia soube erguer a tolerância e o diálogo. Sobre os escombros de uma sublevação fascista, apoiada pela Espanha católica e pelo clero rural e beato, há um país novo que se impõe pela sofisticação urbana e cultura democrática.

Zapatero é o ícone desta Espanha moderna que renasceu das cinzas dos horrores e se transformou num Estado de direito, progressista e civilizado, enquanto a Conferência Episcopal sente a nostalgia do ditador Franco que morreu com milhares de hóstias e um milhão de mortos e exilados.

18 de Julho, 2006 Palmira Silva

Choque e espanto

Algo que nunca deixará de me espantar e irritar profundamente é a forma como os prosélitos em nome de Deus mentem descaradamente, especialmente para impor as suas anacrónicas «morais» sexuais.

De facto, ao longo de toda a História do cristianismo a única moral «absoluta» cristã que nunca se alterou é a que estabelece que os fins justificam os meios, e um dos meios banalizados pelo cristianismo é a mentira. O pejorativo maquiavélico – que tal como o pejorativo epicurista reflecte o ataque da Igreja em relação a filosofias «blasfemas», no caso de Maquiavel a sua contestação da autoridade «divina» dos governantes e a sua sugestão inédita da separação entre Estado e Igreja – para ser realista deveria assim ser «católico» ou «cristão»!

Um dos exemplos mais flagrantes é a grosseira mentira propalada pelo cardeal Alfonso Lopez Trujillo, responsável pelo Conselho Pontifical da Família, que afirmou no documentário «Panorama – Sex and the Holy City», verberando que se apoiava em estudos «científicos», que o HIV é suficientemente pequeno para passar através de um preservativo. Se pensarmos que um vulgar balão é cheio com hidrogénio, H2, ou hélio, He, simplesmente as espécies químicas de menores dimensões existentes – ou azoto, oxigénio e dióxido de carbono se for cheio com ar, moléculas igualmente muito pequenas – e que o HIV é muitos milhões de vezes maior, é chocante pensar como a Igreja propala uma mentira tão descarada!

Mentira exponenciada pelas afirmações do prelado de que «os preservativos podem mesmo ser uma das principais razões para a disseminação do HIV/SIDA», ecoando o que a conferência dos bispos da África do Sul, um dos países mais flagelados pela doença, tinha afirmado uns anos antes. Não é assim de estranhar que tenham propalado o boato que os preservativos estão contaminados com o HIV!

Numa religião cuja imagem de marca é a pregação ululante de que as profundas dos Infernos é o castigo inevitável para os homens e mulheres livres que não se submetem aos seus ditames, o medo, instalado pela mentira e pela força, das armas ou das câmaras de tortura e fogueiras, sempre foi a arma favorita dos cristãos para propagar e manter a fé.

Dos Estados Unidos de Bush chega-nos a informação que as tácticas cristãs de intimidação continuam em toda a sua «glória e esplendor».

Mais uma vez, as mentiras descaradas têm a ver com sexo, a obcessão de todos os fanáticos cristãos, que acreditam piamente ser a gravidez a punição divina para esta prática «infame» e pecado a fuga a essa punição. A ciência que tanto execram permite que as mulheres escapem a este castigo divino, pelo que os prosélitos de Deus envidam todos os esforços para combater programas de educação sexual e de informação sobre contraceptivos e simultaneamente ululam que um embrião ou feto sem consciência de si nem do meio ambiente, sem sistema nervoso para sentir dor, é um ser humano de plenos direitos, animado pelo «sopro» divino na união dos gâmetas, pelo que o seu abortamento é um assassínio!

Como a esmagadora maioria das pessoas que dão uso aos neurónios tem dificuldade em ver um ser humano num amontoado de células – que não incluem os ditos, ou conexões entre eles no caso dos fetos – estes prosélitos envidam todos os esforços em transpor para a letra da lei como crime o que consideram «pecado» e quando tal não é possível, mentem para tentar aterrorizar, especialmente adolescentes, a não abortar.

Assim, supostos conselheiros em centros de informação sobre a gravidez, financiados com o dinheiro dos impostos de todos os americanos, mentem às adolescentes a braços com uma gravidez indesejada que os procuram, informando-as falsamente que o aborto aumenta o risco de cancro de mama – um dos centros contactados chega ao cúmulo de dizer que o risco aumenta 80% – infertilidade e doenças mentais.

Como afirmou Henry Waxman, eleito pela Califórnia para a Câmara dos Representantes, que integra a comissão democrata que investigou como são gastos os muitos milhões de dólares de dinheiro federal entregues pelo Compassion Capital Fund a estes centros:

«Centros de aconselhamento à gravidez são quase todos organizações pró-vida cujo objectivo é persuadir [pela mentira] adolescentes e mulheres com gravidezes não desejadas a escolher a maternidade ou a adopção».

Até agora não foi possível contactar a porta-voz do Departmento de Saúde e Serviços Humanos, que financia os centros.

17 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Perigo religioso

As religiões são instrumento do nacionalismo e o rastilho de guerras. Se pertencessem à esfera privada e fossem usadas para conforto individual, à semelhança dos placebos, que deixam felizes os doentes convencidos do valor terapêutico de substâncias neutras, não havia perigo.

Infelizmente, a associação de numerosos interessados na conquista do poder transforma as religiões numa arma ao seu serviço, num produto que exige o combate à concorrência e aos que desmascaram a fraude.

A humanidade tem evoluído no sentido de assegurar direitos, liberdades e garantias aos cidadãos, o que desola e enfurece os avençados do divino. Os padres aprofundam, nos seminários, o estudo da vontade do seu Deus e, quando os soltam, partem diplomados a vigiar e promover a fé.

Os clérigos são obstinados na promoção das suas verdades e intolerantes para as alheias. Recitam o catecismo como os papagaios articulam sons e debitam, frenéticos, preces e sermões.

Por todo o Planeta, multidões de parasitas de Deus vivem da pregação e dos ofícios pios como ilusionistas. Alguns, à força de persuadir incautos, acabam eles próprios convencidos de que é verdade a mentira que promovem. Mas o efectivo perigo resulta da conquista do poder e dos meios que usam para converter os outros.

As guerras religiosas aí estão para o demonstrar. Hoje, como sempre, Deus é das piores desgraças que assolam a humanidade.

17 de Julho, 2006 Ricardo Alves

«A laicidade como princípio fundamental»

São frequentes as confusões sobre aquilo de que se fala quando se fala de laicidade. Muitos católicos confundem frequentemente laicidade com anti-religiosidade, por exemplo. O filósofo nosso contemporâneo que, na minha opinião, melhor tem explicado o sentido moderno do laicismo é Henri Peña-Ruiz. Está traduzido para português, na Associação República e Laicidade, o texto «A laicidade como princípio fundamental da liberdade espiritual e da igualdade», cuja leitura recomendo a todos os que queiram, sem preconceitos, compreender o que defende a Associação República e Laicidade.
  • «Alguns homens crêem em Deus. Outros não. A liberdade pressupõe o carácter facultativo da religião ou do ateísmo. Por isso se usará aqui o termo genérico «opção espiritual», que não favorece nem uma nem a outra versão da espiritualidade. A igualdade pressupõe a neutralidade confessional do Estado e das instituições públicas, para que todos, crentes e não crentes, possam ser tratados sem privilégio nem estigmatização. Assim se alcança a maior justiça no tratamento das diversas opções espirituais. A separação do Estado e de qualquer igreja não significa luta contra a religião, mas sim, simplesmente, vocação para a universalidade, e ao que é comum a todos os homens para lá das suas diferenças. As diferenças não são negadas, mas podem sim viver-se e assumir-se livremente na esfera privada, quer se expresse a nível individual ou a nível colectivo (a confusão entre dimensão colectiva e carácter juridicamente público é um sofisma, pois confunde o que é comum a certos homens e o que é de todos). (…)» (Ler a continuação em «A laicidade como princípio fundamental da liberdade espiritual e da igualdade».)

Aconselho também a leitura do Glossário essencial da laicidade, adaptado de um livro de Étienne Pion, para uma discussão do uso de termos como laico, leigo, laicidade, anticlericalismo ou tolerância.

Publicação simultânea [Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

17 de Julho, 2006 jvasco

Meio milhão de visitas

De acordo com o sistema «sitemeter» o valor acumulado das visitas diárias chegou hoje aos 500 000. A todos os nossos leitores, muito obrigado.

Esperemos que continuem a gostar dos nossos artigos, e a passar por cá para ler ou comentar.

16 de Julho, 2006 Carlos Esperança

O Vaticano e as Caldas da Rainha

O Vaticano está para a religião como as Caldas da Rainha para a cerâmica. No Estado teocrático fabricam-se santos e virgens, nas Caldas fazem-se à mão o que lhes faltou para deixarem de ser.

Nas Caldas presta-se culto à fertilidade, no Vaticano combate-se a natureza com metáforas e exalta-se a castidade.

As operárias trabalham o barro com carinho e volúpia, pintam-no com gosto e exacerbam-lhe as cores. Levam-no ao forno para que o calor o endureça e lhe mantenha a forma.

Os padres esconjuram o falo, cozem a farinha e cortam-na às rodelas como quem reduz a fatias um salpicão, resumindo Deus a finas tiras de perversão castrante.

Nas Caldas os corpos cansados da olaria regressam a casa e ainda levam forças para o sortilégio do amor e o milagre da vida. Criam filhos com prazer enquanto no bairro das sotainas se criam cardeais para negócio e satisfação de clientelas.

No Vaticano rezam-se orações, debita-se a Bíblia, usam-se cilícios e escondem-se os desejos que despontam sob hábitos e batinas.

Nas Caldas da Rainha há um povo que vive, ri, canta, chora e se diverte. No Vaticano há uma cáfila que disfarça sentimentos e esconde a verdade, que ameaça as crianças com o inferno e os adultos com o juízo final.

Na pequena cidade reina a virtude e a felicidade, votam em eleições e escolhem o presidente da Câmara. No Estado do Vaticano há um ditador vitalício que se julga fiel testamentário de Deus e obriga as pessoas a porem-se de joelhos e a andar de rastos.

No Vaticano até os anjos perdem o sexo e, talvez por isso, é o único Estado do mundo onde não há maternidade. Nem o Papa tem sexo, quando muito pias reentrâncias talhadas para abominações recônditas.

Nota: Dez minutos antes da meia-noite o Diário Ateísta registou 500.000 visitas. Obrigado a todos os que nos visitam.

16 de Julho, 2006 Palmira Silva

Tu stultus es

Tu stultus es (tu és estúpido) é o motto do meu jornal satírico favorito «The Onion», publicado em suporte celulósico desde 1988, inicialmente por estudantes da Universidade de Wisconsin, na rede desde 1996 e hoje em dia sedeado em New York.

A minha Cebola favorita tem-me fornecido não só artigos satíricos de um humor inigualável como confirmações hilariantes da máxima do jornal, normalmente proporcionadas por devotos cristãos que acreditam ser verdade as fabulosas caricaturas que os fundamentalistas cristãos e as suas ululantes «causas» permitem.

Estou a lembrar-me da patetada cristã em torno dos livros Harry Potter, em que uma mentecapta, a fazedora de opinião cristã Helen Makkai, acreditou sem pestanejar na notícia obviamente falsa da Cebola que reportava uma atracção pelo satanismo nos seus pequenos leitores e deu origem ao movimento que vilifica os livros de J. K. Rowling, nos quais se inclui Bento XVI.

Uma das minhas favoritas aconteceu durante a minha estadia nos Estados Unidos e um dos meus colegas de laboratório, igualmente devoto da Cebola, fez questão que eu comprovasse no jornal da sua cidade natal, algures no Mississipi, a profunda verdade do motto. Esta foi despoletada por um artigo simplesmente fabuloso sobre os protestos de fundamentalistas cristãos em relação à inclusão da 2ª lei da Termodinâmica nos curricula escolares. A segunda lei da termodinâmica diz que num processo espontâneo a entropia do Universo aumenta e, tal como no artigo do Onion, uns devotos locais protestavam «um princípio científico profundamente perturbador que ameaça a compreensão do Universo de Deus pelas nossas crianças».

A semana passada a blogosfera americana teve um momento alto de hilariedade quando o escriba do blog anti-aborto e fundamentalista cristão «March Together for Life» [nota: o artigo foi alterado com imagens chocantes e falsas depois de ter sido transformado num fenómeno da internet pelo que não indico a respectiva hiperligação] tropeçou num artigo velho de sete anos «I’m Totally Psyched About This Abortion!». O devoto cristão, com longa prática de considerar serem verdades literais as barbaridades da Bíblia, acreditou piamente no que leu e atacou visceralmente o artigo num post que rapidamente catapultou o obscuro blog para uma notoriedade nunca antes imaginada.

Um artigo «histórico» da Cebola, «Christ Kills Two, Injures Seven In Abortion-Clinic Attack» caricaturava magistralmente as inconsistências cristãs em relação à «defesa intransigente» da vida mas suponho que também neste caso o sarcasmo passe ao lado da maioria dos fundamentalistas cristãos. Quiçá por alguma lesão cerebral pré-frontal que impede aos que a apresentam perceberem mais que o significado literal das palavras…

16 de Julho, 2006 Palmira Silva

O poder da sátira

Um dos meus filósofos favoritos contemporâneos é Sam Harris não só pelas razões óbvias, isto é, o facto de compartilharmos a certeza que a atitude complacente em relação às religiões é uma ameaça latente para o modelo de sociedade que queremos construir – uma sociedade justa, de paz e tolerante – mas também porque a uma licenciatura em Filosofia soma o seu trabalho de doutoramento numa das áreas que considero mais fascinantes, as neurociências, e num tema ainda mais fascinante, a neuroteologia que basicamente estuda as bases biológicas da crença.

Sam Harris é o autor de um Manifesto Ateísta, já referido pela Mariana, um texto absolutamente indispensável em que «Harris, filósofo graduado em Stanford, que estudou religiões ocidentais e orientais, ganhou o prémio PEN de 2004 [e o de 2005] com o livro ‘The End of Faith‘, que examina e explora de forma explosiva os absurdos da religião organizada. ‘Truthdig’ pediu a Harris que escrevesse uma resenha da sua tese que defende que a crença em Deus e o apaziguamento dos extremistas religiosos pelos moderados de todas as crenças foi e continua a ser a maior ameaça para a paz mundial e um assalto continuado à razão».

Numa entrevista mais recente Harris afirma algo que é também a minha convicção profunda «Mas os moderados religiosos dão cobertura aos fundamentalistas devido ao respeito em relação a qualquer debate baseado na fé que os moderados exigem. Como consequência, isso sustenta o fundamentalismo e os fundamentalistas fazem um uso muito cínico e artístico do politicamente correcto nos nossos discursos».

Este politicamente correcto, imposto pelos moderados de todas as religiões, que impede o apontar das irracionalidades e da obscenidade imoral de inúmeras passagens dos seus textos «sagrados», é o principal obstáculo a ser vencido na construção de uma sociedade que se coadune com o século XXI e com o respeito pelos direitos humanos.

O combate ao fundamentalismo religioso passa por combater este politicamente correcto complacente e expor como absurdas, anacrónicas e irracionais as «verdades absolutas» dos Livros que os seus devotos querem impor a todos. Mas os argumentos lógicos e racionais, embora necessários, não são suficientes.

Como Sam Harris indica, esta é uma guerra de ideias, a ser travada em várias frentes, na qual não se deve subestimar o poder do ridículo. O filósofo/neurocientista aponta como exemplo a forma como o Ku Klux Klan perdeu a força e prestígio e passou em 60 anos de dezenas de milhões de aderentes para uns meros cerca de 5 000 actualmente. Simplesmente porque um homem, Stetson Kennedy, aderiu ao KKK nos anos 40 e passou o mambo jambo cretino desta organização às pessoas que escreviam os episódios radiofónicos de «As Aventuras do Superhomem». Ouvir semana após semana as palermices do Klan expostas na rádio contribuiu mais para a queda do Klan que argumentos racionais e éticos.

Ou seja, o embaraço público de subscrever opiniões cada vez mais ridicularizadas devido à sua denúncia satírica ditou o fim do Klan.

Aliás, não é por acaso serem as sátiras, por exemplo, os cartoons de Maomé, o cartoon do António, a peça «Me cago en Dios», que levam os crentes aos arrobos mais paradoxais de indignação.

Também por isso o alvo dos ataques mais virulentos dos crentes que comentam nestas páginas é o Carlos Esperança. Quantas mais pessoas como o Carlos afrontarem o tabu de criticar as religiões e o fizerem da forma satírica magistral que é a imagem de marca do Carlos, mais fácil será acabar com a praga anacrónica das guerras «santas» e da subordinação das sociedades, nomeadamente do Direito, aos muitos disparates absurdos das religiões .

Neste dia em que o Diário Ateísta está prestes a completar meio milhão de visitantes aproveito o ensejo para parabenizar o Carlos que consegue mostrar… divinalmente… o rídiculo da fé e incomodar os mais fanáticos com as suas caricaturas dos fundamentos das crenças.

Todos têm o direito em acreditar no que quiserem, em astrologia, em quiromancia, em psicografia, em Xenu, que o Elvis está vivo mas foi raptado por extraterrestres, em Thor, Baco, Deus e restantes mitologias sortidas; ninguém tem o direito a exigir que esses disparates sejam «respeitados» pelos restantes. É tão impossível «provar» a inexistência de Deus como «provar» que o Elvis não está a ser objecto de estudo de uns quaisquer homenzinhos verdes. Para um ateu tão rídicula é essa tese como a que sustem que a Bíblia é a «palavra revelada» de um Deus da Idade do Ferro, sublimação da ignorância dessa era.