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24 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Casal adopta menina de 5 anos

O título deste post pareceria inusitado não fora o casal em questão ser constítuido por Vasco Pedro da Gama e Júnior de Carvalho, ou seja, um casal homossexual. De facto, num inédito no Brasil – em que apenas por duas vezes foram confirmados os direitos de adopção por casais homossexuais, mas ambos constituídos por mulheres-, o casal referido, que cohabita há 14 anos, viu confirmada por um tribunal estadual a adopção por ambos de uma menina previamente adoptada por Vasco da Gama.

De acordo com o advogado, se os dois homens tivessem inicialmente tentado a adopção como um casal muito provavelmente não a teriam conseguido.

23 de Novembro, 2006 Ricardo Alves

O regresso do véu

A questão do véu marcou, nas últimas semanas, a opinião pública de três países europeus. No Reino Unido, Jack Straw afirmou que pede às mulheres muçulmanas com quem se reune que tenham a cara visível; na Holanda, Rita Verdonk (a tal que chegou a retirar a nacionalidade a Hirsi Ali) quer proibir o uso da burca nas ruas; em França, alguma extrema direita quer interditar o véu em todo o território.

Desde que comecei a escrever neste blogue que tenho defendido a lei francesa de 2004 que proibiu os «símbolos religiosos ostensivos» nos serviços públicos. Porque defendo a laicidade do Estado e porque, num país como a França que retirou os símbolos religiosos dos edifícios públicos há um século, é hoje necessário impôr regras aos fundamentalistas que tentam instrumentalizar as alunas muçulmanas para provocarem nas escolas públicas a segregação dos sexos, tensões entre comunidades confessionais, e o avanço de um programa obscurantista e reaccionário. Entendo portanto, igualmente, que uma professora não pode dar aulas de véu, e muito menos de cara tapada, uma questão que se colocou recentemente na Inglaterra (o mesmo é válido para uma advogada num tribunal).

No entanto, não defendo que se proíba o uso da burca ou de máscaras na rua, a menos que haja razões de segurança, ou quando é necessário romper com um passado de submissão da mulher. Nesse espírito, a Tunísia tem a minha compreensão por proibir o véu nas ruas, como a Turquia também a tem por o proibir nas universidades e no parlamento. Num país como a Holanda, não defenderia a proibição da burca nas ruas, mesmo sendo (e é) um símbolo e um instrumento da autoridade familiar ou clerical, da desigualdade dos sexos, e de uma ideologia totalitária. Quando vi mulheres de cara tapada num supermercado do Seixal ou num centro comercial da capital, senti um desconforto e uma revolta semelhantes ao que sinto quando vejo os «cabeças rapadas» que se passeiam orgulhosamente por Lisboa.

Por tudo isto, espanto-me com a ingenuidade de alguma esquerda multiculturalista (refiro-me a Joana Amaral Dias no 5 dias) que parece não compreender o real significado das burcas e dos véus. Nos anos 60, eram raros os véus nas capitais árabes. Foi a revolução islamo-fascista de Khomeini, em 1979, que os trouxe de volta. Desde aí, os véus tornaram-se um instrumento e um símbolo de um movimento islamista que pretende escravizar as mulheres (e os homens) do mundo muçulmano, e que detém o poder no Irão, na Arábia Saudita, na Palestina, no Sudão e na Somália. Mais importante do que defender o direito de ter comportamentos extremistas e separatistas, deveria ser, penso eu, combater contra uma ideologia totalitária, obscurantista e machista como o islamismo. E entender o que têm para dizer tantas mulheres de origem muçulmana que não encaram o véu como apenas mais um trajeum direito»?), mas sim como o símbolo e instrumento de opressão feminina que efectivamente é.

Quanto à lei francesa que proibiu os símbolos religiosos ostensivos, há razões para fazer um balanço essencialmente positivo. Das muitas centenas de alunas que usavam o véu, apenas algumas dezenas foram excluídas da escola e remetidas para o estudo em casa. E as escolas privadas islâmicas não proliferaram. Não é por acaso que os muçulmanos de França têm uma opinião positiva da laicidade, e que em França apenas 46% dos muçulmanos se vêem primeiramente como tal (e 42% se vêem primeiramente como franceses), enquanto no Reino Unido 81% se vêem primeiramente como muçulmanos (e apenas 7% como britânicos)…
23 de Novembro, 2006 lrodrigues

O mundo maravilhoso da cura pela fé

Uma das actividades mais lucrativas que o homem já inventou é a religião.

De facto, haverá sempre pessoas capazes de darem o que têm (e até o que não têm), para comprar um lugar no Paraíso, para assegurarem a concessão de um favor divino ou até a cura de uma doença.
Claro está que os profissionais da exploração da fé – qualquer que seja a sua religião – não hesitam em aproveitar-se da frequente fragilidade emocional das pessoas para lhes extorquirem dinheiro.
Quantas pessoas em desespero tentam tudo e mais alguma coisa, e se arruinam autenticamente na esperança de conseguirem que alguém interceda junto de uma divindade qualquer, e lhes consiga a cura para a doença terminal de um filho.
A profissão da exploração da fé das pessoas é de tal forma lucrativa, que não faltam habilidosos que criam as suas próprias religiões.
Há lugar para todos, e todos se passeiam nos seus jactos particulares exibindo fortunas colossais armazenadas em contas bancárias off-shore à custa de incautos «fiéis», que lá vão acreditando que os seus gurus são capazes de milagrosas curas pela fé.
Claro que só «os outros» é que aparecem curados. Porque se alguma doença não se cura, a culpa não é do santo milagreiro, mas unicamente de quem não tem uma fé «suficientemente forte».
Pois bem:
Um dos mais famosos desses free-lancers da religião pululou nos Estados Unidos nos anos 80 do século passado, e dava pelo nome de Peter Popoff.
Durante anos ficaram célebres as suas curas pela fé e as suas extraordinárias exibições em recintos desportivos adaptados para o efeito.
Até que um belo dia… apareceu James Randi, que resolveu desmascarar a habilidosa marosca.
Como uma imagem vale mil palavras, o filme abaixo mostra e conta melhor do que ninguém as habilidades de Peter Popoff.
Chegando a facturar, naquela altura, mais de 4 milhões de dólares anuais com as suas curas milagrosas, Peter Popoff parecia sem qualquer dúvida dotado de extraordinários poderes divinos.
E as pessoas não cessavam de se maravilhar: não só curava cancros com as mãos como ainda adivinhava de longe os nomes das pessoas que o procuravam e quais as doenças que as afligiam.
Por vezes adivinhava até as suas moradas!
«Desconfiado» de que as divinas iluminações de Popoff teriam uma explicação mais terrena, James Randi decidiu levar para uma das suas exibições um «scanner» de frequências de emissões de rádio.
Como é óbvio, não tardou a descobrir que as milagrosas inspirações de Peter Popoff se deviam a um auricular sem fios e a preciosas dicas que de longe lhe eram ditadas pela sua mulher, que lia as «fichas de oração» que os fiéis preenchiam antes das sessões.
O esquema foi desmascarado por James Randi no «Tonight Show», e em 1987 Peter Popoff declarou falência.
Mas se desta vez o mundo se livrou de um aldrabão que impiedosamente se aproveitava das fragilidades das pessoas para lhes extorquir dinheiro, muitos outros aldrabões continuam a pulular impunemente por todo o lado.
Uns exercem a sua profissão de forma mais rudimentar, em templos insufláveis, outros em velhos cinemas adaptados, outros ainda em gigantescas basílicas.

Mas, ao fim e ao cabo, e tirando isso, nada mais os distingue…

(Publicado simultaneamente no «Random Precision»)

23 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Cientistas unidos contra a religião

Há mais de dois anos que alertamos os nossos leitores para a guerra que prevíamos iminente entre as religiões do livro e a ciência. Com grandes protestos dos nossos leitores católicos que asseveravam ser a sua uma religião completamente compatível com a ciência, escrevemos muitas dezenas de posts* alertando para o problema e desmascarando todas as patetadas criacionistas.

Dois anos passados as nossas previsões, infelizmente, mais uma vez se concretizaram. Como seria expectável, já que para recuperar o integrismo perdido é absolutamente necessário às religiões que os crentes acreditem nas patetadas que vendem como «verdades absolutas reveladas» e que são de facto reveladas como cretinices absolutamente absurdas pela ciência.

Os nossos avisos de uma guerra iminente entre religião e ciência eram escarnecidos pelos fanáticos de serviço ao nosso espaço de comentários como alarmismos sem justificação. Fanáticos de serviço que agora se referem ao evolucionismo em particular e à ciência em geral, como cientifismo, isto é, a irracional «religião» dos abominados ateus!

Felizmente já muitos na comunidade científica se aperceberam do carácter organizado e profundamente político das investidas das religiões organizadas contra a ciência, guerra aberta cujo fim é um retrocesso civilizacional ao pré-Iluminismo. Esta regressão é indispensável para as religiões recuperarem a hegemonia medieval, quando a religião dominava todos os aspectos do quotidiano e quando todo o poder estava de facto na mão dos clérigos não dos governantes.

Boa parte da comunidade científica já despertou da complacência em relação às religiões e apercebeu-se que a contemporização com as patetadas religiosas não pode continuar!

Assim, a revista Nature de amanhã apresenta um artigo que traça o quadro negro do criacionismo na Europa e alerta para a necessidade da comunidade científica se empenhar na luta contra o movimento anti-evolucionista em que os fanáticos de todas as religiões se empenham neste momento.

De igual forma, o Washington Post de há uns dias noticiou a formação de um Think Thank para promover o uso da razão. O anúncio, acompanhado de uma declaração em defesa da ciência e da laicidade, expressa as preocupações de vários cientistas sobre o poder nefasto e desmesurado da religião na política norte-americana em especial, em que a esmagadora maioria das decisões são tomadas com base na fé e não na razão.

O The Center for Inquiry-Transnational combate a influência nefasta da religião na política (e na sociedade) pugnando para que as decisões políticas sejam baseadas solidamente na razão – ou seja, na ciência – e não na irracionalidade – isto é, na religião.

A ameaça que constituem as religiões foi ainda analisada durante três dias no Salk Institute for Biological Studies em La Jolla (San Diego), Califórnia, num evento recheado de prémios Nobel apropriadamente intitulado «Para além da crença».

Como afirmou Steven Weinberg logo no ínicio da conferência «O Mundo precisa acordar deste longo pesadelo da crença religiosa. Tudo o que os cientistas puderem fazer para enfraquecer o poder da religião deve ser feito e pode ser de facto a nossa maior contribuição para a civilização».

Não poderia estar mais de acordo e nada me poderia dar mais satisfação que ver as minhas preocupações com o desvario fundamentalista que infectou o Mundo serem partilhadas pela comunidade científica internacional! E confirmar que o antídoto para o vírus religioso que utilizamos no Diário Ateísta já há uns anos, o livre pensamento, o racionalismo, a divulgação da ciência e a demolição dos disparates religiosos, é preconizado abertamente como um dever dos membros da comunidade científica – se não quisermos regredir para um passado sangrento e obscurantista!

* São demasiados artigos para indicar as hiperligações. Podem ver os resultados da pesquisa no ateismo.net sobre o tema aqui, aqui ou aqui.

22 de Novembro, 2006 jvasco

O sobrenatural

O sobrenatural é mesmo uma treta. Não é novidade que há muita treta nesta vasta categoria. Muitos que acreditam em deuses não acreditam em fadas, os que acreditam em fadas e unicórnios já não acreditam no Pai Natal, e os que aínda acreditam são novos demais para ler blogs.

Mas o que quero aqui apontar como treta é o próprio conceito de sobrenatural, esta ideia de haver na natureza coisas que estão para além da natureza. O que quererá isso dizer?

Suponhamos que os espíritos dos meus bisavós aínda persistem, e vagueiam por aí a coscuvilhar a vida dos seus descendentes. Se for mesmo assim que as coisas funcionam neste universo, então esses espíritos são tão naturais como os seus antigos corpos. A ciência moderna até nos diz coisas bem mais estranhas. A gravidade é uma distorção do espaço-tempo. Um electrão nunca tem a posição e a velocidade perfeitamente determinadas. Todos os seres vivos neste planeta são parentes, descendendo de antepassados longínquos pela acumulação de pequenas diferenças ao longo de inúmeras gerações.

A imagem da natureza dada pela ciência moderna viola quase tudo o que há poucos séculos se pensava ser as leis da natureza. Será que toda a ciência hoje em dia é sobrenatural? Não. Uma excepção a uma regra que pensávamos ser uma lei natural não é indicativo de influência sobrenatural, mas apenas sinal que estávamos enganados. Se o diccionário diz que os corvos são todos pretos e encontramos um corvo branco, o erro é de quem fez o diccionário. O corvo não tem culpa.

É essa a grande treta desta ideia do sobrenatural, de algo que está para além da natureza, de algo que viola as leis naturais. O máximo que pode acontecer é algo violar o que nós pensamos ser as leis naturais, mas chamar a isso sobrenatural é apenas tentar disfarçar a nossa ignorância. Não sabemos porque há raios e trovões? São os deuses. Algo que prevíamos ser duma forma afinal é de outra? Foi a bruxa, o mau olhado, ou os maus pensamentos. Alguém anda a ver fantasmas? É o inexplicável, o insólito…

Sobrenatural?

Treta.

Se a natureza se porta duma forma que não esperávamos, são as nossas expectativas que estão erradas. Por ignorância, assumimos algo que não devíamos ter assumido. Infelizmente, isso é perfeitamente natural.


——————————–[Ludwig Krippahl]

21 de Novembro, 2006 Ricardo Alves

Que a força esteja com eles!

Existem religiões sem fé nem manipulação de grupo. Os Cavaleiros de Jedi, por exemplo. No Reino Unido, os indivíduos auto-organizados que se revêem na mitologia da série de filmes da «Guerra das Estrelas» eram 390 000 à data do censo de 2001, sendo portanto a quarta religião mais numerosa nesse país, atrás somente dos anglicanos, muçulmanos e católicos. Ao contrário dessas religiões mais tradicionais e mais autoritárias, os Cavaleiros de Jedi não respeitam exageradamente os seus representantes, não lhes atribuem autoridade para os «representarem» sobre assuntos políticos ou científicos, não têm tendência para se meterem na vida sexual das outras pessoas, e provavelmente até serão capazes de admitir que a sua religião é uma fantasia criada por outros seres humanos. Uma fantasia que eles vivem sem aborrecer ninguém. (E se todas as religiões fossem assim?)

Os Cavaleiros de Jedi estão a pedir reconhecimento oficial pela ONU. Só posso desejar que a força esteja com eles! (Particularmente se for a força da gravidade, para mantê-los com os pés bem assentes na Terra…)
21 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Richard Dawkins e os fundamentalistas II


Deepak Chopra, o guru new ager adepto de curas «quânticas», que escreveu, entre mais de 40 conjuntos de disparates, as barbaridades agrupadas no «Life After Death: The Burden of Proof» – um livro que pretende existir «conhecimento validado pela ciência» que «prova» a existência de vida depois da morte – é outro dos IDiotas criacionistas que se sentiu pessoalmente atacado pelo livro «The God Delusion» de Richard Dawkins.

Chopra – que confirma exercer a mecânica quântica um fascínio especial em todos os charlatães e cujas inanidades quânticas, nomeadamente as referidas «curas quânticas» e afins, lhe mereceram um prémio IG Nobel da Fisíca em 1998 -, ataca Dawkins em dois artigos, tão imbecis que tenho dificuldade em escolher qual deles o pior!

Dawkins, recentemente escolhido pela Salon como o homem mais sexy do mundo, é acusado por Chopra no primeiro artigo de «espremer Deus num canto» já que apresenta a crença na existência de Deus como «um tema nós versus eles. Ou se é pela ciência (isto é, razão progresso, modernismo, optimismo em relação ao futuro) ou se é pela religião (isto é, irracionalidade, resistência reaccionária ao progresso e constatação que há mistérios que só Deus sabe)».

O que é extremamente injusto, já que segundo Chopra, existem homens de ciência – como o próprio Chopra que explica «quanticamente» milagres e demais disparates sobrenaturais – que são ou foram profundamente religiosos, citando explicitamente Newton e Einstein.

Claro que meter no mesmo saco Einstein e Newton é já de si um disparate, uma vez que o «Deus» de Einstein, um ateu ou pelo menos panteista, não tem nada a ver com o Deus de Newton. Mas a falácia que Chopra subentende neste primeiro artigo, isto é, que estes físicos revolucionários que todos conhecem, «produziram» conhecimento inspirado «religiosamente» é um disparate total!

De facto, Chopra brame angustiadamente «A ciência é o único caminho para o conhecimento? Obviamente que não [caso contrário acaba o negócio multi milionário de Chopra que vende patetadas místicas como sendo ciência]».

E para explicar que existem «vibrações» quânticas iluminadas por Deus para se chegar ao conhecimento, descreve o ser do homem, isto é, as características que nos distinguem dos outros animais – que devemos à evolução única do nosso cérebro – como sendo provas irrefutáveis da existência de Deus!

De facto, Chopra não se sabe bem como – aparentemente nunca leu, ou se leu não percebeu uma vírgula de sequer um livro de Dawkins – afirma que Dawkins nega a existência do amor, arte, altruismo (explicado no Gene Egoísta), beleza, verdade, etc..

O primeiro artigo batendo em Dawkins é assim um conjunto de disparates em que Chopra esgrime um conjunto assombroso de falácias para afirmar que a religião produz conhecimento (científico?) mas não dá um único exemplo de grandes descobertas produzido pelo pensamento religioso – que não há, obviamente!

No segundo artigo Chopra pega na constatação de um facto por Dawkins:

«Deus é desnecessário. A ciência pode explicar a Natureza sem qualquer ajuda de causas sobrenaturais como o é Deus. Não há necessidade de um criador»

sobre o qual não há quaisquer dúvidas – causas sobrenaturais estão nos antípodas de ciência – para balir novamente que Dawkins encurrala os crentes num «nós versus eles», que ignora muitos crentes num Deus impessoal – e volta a tirar Einstein da manga para ilustrar este Deus impessoal. Chopra brame que Dawkins reduz o conceito de Deus ao Deus cristão do catequismo, que criou o mundo em 6 dias e descansou ao sétimo:

«Ou acreditamos que há um Deus pessoal, um criador sobrehumano que criou o mundo de acordo com o Genesis ou somos crentes racionais no método científico».

Como é óbvio para todos os que de facto leram o livro, Dawkins não apresenta esta dicotomia. Na realidade, logo no início do livro Dawkins distingue entre o Deus metafórico ou panteísta e impessoal de Einstein da ilusão de Deus de que trata o livro e afirma que «Confundir deliberadamente os dois é, na minha opinião, um acto de alta traição intelectual».

Claro que honestidade intelectual é completamente incompatível com os «produtos quânticos» que Chopra vende aos mais incautos. Para o sucesso do negócio e para a saúde «quântica» da conta bancária de Chopra – que afirma desdenhar Dawkins da possibilidade da existência de «cientistas religiosos», o que não é verdade Dawkins apenas explicita que ninguém faz ciência por iluminação divina ou via «verdades reveladas»- é necessário que a resposta dos seus clientes à pergunta absurda com que o charlatão termina o artigo seja negativa:

«A ciência tem de excluir Deus em qualquer forma?»

Cuja resposta é obviamente afirmativa: se a ciência incluir causas sobrenaturais deixa de ser ciência e passa a ser religião! Causas sobrenaturais não têm qualquer lugar em ciência! Por muito que isso custe aos fanáticos de qualquer religião, Deus não é um argumento científico. Deus é uma construção humana que é aceite pela fé, que, por definição, dispensa qualquer prova científica, lógica ou racional!

21 de Novembro, 2006 jvasco

Omnisciência é impossível

Já é conhecido o argumento que demonstra a inconsistência lógica do conceito de omnipotência. «Poderá Deus criar uma pedra que não possa levantar?»

Recentemente descobri, via Ludwig, um argumento que mostra a impossibilidade lógica da Omnisciência. Baseado no teorema de Godel, é simples e elegante:

«Deus não pode saber que esta proposição é verdadeira»

Se a proposição for falsa, nenhum ser omnisciente pode saber que é verdadeira, pelo que a afirmação será verdadeira necessariamente.

A afirmação só pode portanto ser verdadeira, mas isso implica que existe algo que este alegado ser omnisciente não sabe…

20 de Novembro, 2006 Carlos Esperança

A CEP ensandeceu

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) comporta-se, sob a presidência do arcebispo de Braga, Jorge Ortiga, como a sucursal do ministério romano da Promoção da Virtude e da Prevenção do Vício.

A CEP começou por negar à Assembleia da República o direito de legislar sobre o aborto e acabou a designar a procriação medicamente assistida – quando os espermatozóides ou os óvulos utilizados no processo não forem do próprio casal – «infidelidade consentida».

Os bispos, reprodutores absentistas, não são peritos em questões de reprodução e andam a ler anúncios pornográficos. Julgam que os espermatozóides viajam no pénis do dador até ao óvulo da receptora ou que a produtora do óvulo o deixa extrair, às escuras, por um falo desconhecido a fazer de aspirador.

Os bispos podem fazer greve à reprodução e obrigar os úteros das freiras à inactividade, não têm o direito de ofender quem procura um filho a quem transmitir o amor que sente.

Não sei se a alma viaja nos órgãos reprodutores do homem e da mulher mas, para quem odeia o sexo, devia ser mais sedutor o tubo de ensaio do que os fluidos pecaminosos que acompanham a concepção.

Não admira o despautério do bando da mitra e do báculo. Reuniram em Fátima, um local de embuste, e foram embrutecidos para julgarem a virgindade a maior virtude da mulher.

Se estes homens não escondessem, sob a sotaina, os recalcamentos que os perturbam!

20 de Novembro, 2006 jvasco

Debate sobre as atitudes religiosas dos Portugueses

O debate do passado dia 17 foi muito bom, e agradeço aos organizadores, especialmente à Filomena Carvalho, pelo amável convite, e ao meu irmão por ter sugerido a minha presença. Moderado por Fernando Catroga, participaram António Rego pela Igreja Católica, Mário Mota Marques pela comunidade Baháï, Jónatas Figueiredo pela comunidade Evangélica, e Mahomed Abed pela comunidade Muçulmana. Eu estava no panfleto como representante da «comunidade céptica», mas fiz questão de deixar claro que não representava uma comunidade, mas sim uma ideia: a ideia de viver sem religião. A descrença.

Comecei por esclarecer que descrença não é acreditar no contrário. Isso é apenas uma crença diferente. A descrença é perguntar em vez de afirmar, principalmente perguntar como é que o crente sabe que a sua crença é verdadeira. Como é que sabe que Maria era virgem? Que Jesus ressuscitou? Que Mahomed era mesmo um profeta? Estas perguntas incomodam os crentes, mas são perfeitamente legítimas.

E podemos ver o que acontece sem estas perguntas. As crenças religiosas apresentadas são fruto de um longo processo de aplicar a crença para obter respostas. Todas as religiões têm respostas, e todas têm a certeza absoluta que têm as respostas certas. Mas têm respostas diferentes. Parece que o método da crença não é o melhor. Principalmente porque a certeza absoluta dificulta o dialogo com os que têm a certeza absoluta do contrário, como podemos ver em muitas partes do mundo (nem sempre com crenças religiosas, mas sempre com certezas absolutas).

Por isso propus o método da dúvida, da questão, da descrença. Não dá recompensas, nem nesta vida nem na próxima, nem dá castigos para quem discorda. Não dá a verdade absoluta nem uma ligação directa ao criador. Mas dá a possibilidade de corrigirmos os nossos erros, e abertura ao dialogo com quem tem outras posições. Não tive oportunidade de o dizer no debate, mas acho que isso é melhor que qualquer deus ou verdade absoluta.

Da assistência veio a inevitável pergunta: sendo céptico, como posso evitar cair no relativismo moral? Como posso encontrar valores? Já estava à espera desta. Por sorte, imediatamente antes outro membro da assistência tinha comentado que todas estas religiões tinham em comum a prática do bem, o que me facilitou a vida. Se reconhecemos algum bem em todas é porque já temos uma noção de bem que é independente da religião. E crente ou descrente, o ponto final de qualquer juízo moral é sempre cada um de nós. Mesmo que um deus nos venha bater à porta a dizer o que é bom ou mau temos que decidir se concordamos ou não. O fundamental é sermos capazes de julgar as crenças e a fé de acordo com os nossos princípios morais, e não deixar que a fé dite o que para nós é certo ou errado. Esse é o caminho do fundamentalismo, e a razão para os extremismos em todas as crenças (não só as religiosas).

No final do debate o moderador lançou uma boa pergunta: há verdade na religião? Mais especificamente, se todas as religiões são verdadeiras, se só uma é verdadeira e as outras falsas, se todas são falsas, ou se há uma mais verdadeira que outras. Os outros participantes deram a resposta previsível: todas as religiões têm alguma verdade, mas há uma que é mais verdadeira. Claro que não houve consenso quanto àquela que supostamente é mais verdadeira.

Eu respondi que verdade não é aquilo em que acreditamos, mas aquilo que resiste à dúvida; para saber se as religiões são falsas ou verdadeiras temos que duvidar delas e ver o que aguenta. A audiência riu-se, mas acho que alguns ficaram a pensar. No fundo, era só isso que eu queria.

——————————–[Ludwig Krippahl]