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26 de Novembro, 2006 Carlos Esperança

Iraque – Violência religiosa

Se, cada vez que morre um iraquiano, vítima da violência sectária, pensássemos no carácter pacífico das religiões, detestaríamos Deus e os seus prosélitos.

Os iraquianos que sucumbem na orgia de sangue, que o tribalismo e a fé se encarregam de levar a cabo, lembram aos agressores o maior erro histórico deste século, mas ilustram a crueldade que só Deus pode.

Quando as rivalidades étnicas entre xiitas e sunitas atingem uma violência intolerável, a que ninguém consegue pôr cobro, vêm à memória as guerras religiosas entre católicos e protestantes que dilaceraram a Europa.

Então era a obediência ao Papa que estava em jogo, misturada com um negócio de indulgências, hoje é o ajuste de contas por umas divergências antigas sobre Maomé, com um genro de permeio.

Os sunitas ganham o Paraíso a matar xiitas, estes têm acesso a matar aqueles. Se vissem o estado lastimável em que chegam, desistiam das 70 virgens que julgam à espera!

Talvez por isso as virgens que aguardam os dementes da fé permaneçam eternamente virgens.

26 de Novembro, 2006 Palmira Silva

In memoriam Mario Cesariny

Cruzeiro Seixas,Mário Henrique Leiria, Natália Correia e Mário Cesariny de Vasconcelos na galeria Otollini, por ocasião da exposição «O cadáver esquisito e pinturas colectivas no meio século da Revolução Surrealista», Fevereiro de 1975.

«O Homem só será livre quando tiver destruído toda e qualquer espécie de ditadura religioso-política ou político-religiosa e quando for capaz de existir sem limites»
Mário Cesariny, declarações reproduzidas em «A única real tradição viva», que o próprio Cesariny reuniu no substancial «A intervenção surrealista» (Assírio & Alvim, 1997).

«O ex-surrealista, o rigoroso e ateu e anti-clerical Mário Cesariny de Vasconcelos»* faleceu esta madrugada com 83 anos.

Com Alexandre O’Neil, António Pedro, José-Augusto França, Marcelino Vespeira, Moniz Pereira, António Domingues e Fernando de Azevedo fundou o Grupo Surrealista de Lisboa, um movimento inspirado no lançado, em 1924, pelo francês André Breton – que Cesariny conheceu em Paris quando frequentava a Academia de La Grande Chaumière- que se propunha a «mudar a vida» e «transformar a sociedade».

Um artista polivalente, com uma extensa obra plástica e poética pontuada de um corrosivo humor, Cesariny foi o dinamizador da prática surrealista em Lisboa, não só com a criação do referido grupo como de «antigrupos» – como Os Surrealistas, com Henrique Risques Pereira, António Maria Lisboa, Fernando José Francisco, Carlos Eurico da Costa, Mário-Henrique Leiria, Artur do Cruzeiro Seixas e Pedro Oom – com a mesma orientação mas questionando e procurando um grau extremo de espontaneidade, objectivo que permeia toda a sua obra poética.

Para Cesariny, homossexual assumido, o amor, «a única coisa que há para acreditar», é «o único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel».

*in Pacheco versus Cesariny – Folhetim de feição epistolográfica, Luiz Pacheco, Editorial Estampa, 1974.

26 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Regeneração cardíaca e células estaminais

Embora na última década, a investigação cardiovascular tenha conhecido um crescimento exponencial que se traduz num melhor conhecimento das alterações moleculares associadas à insuficiência cardíaca, este aumento de informação não teve o resultado esperado na prática clínica, visto que esta doença ainda apresenta um prognóstico sombrio, constituindo presentemente umas das principais causas de morte no mundo industrializado.

A insuficiência cardíaca é assim um problema de saúde pública com elevados índices anuais de morbi-mortalidade, tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento. O tratamento clínico com os inibidores da enzima de conversão da angiotensina (ECA) e os betabloqueadores, melhoraram o prognóstico dos pacientes sintomáticos, mas o tratamento farmacológico apresenta grandes limitações, sendo o número de pacientes refractários muito alto.

Esta situação pode mudar em breve graças a descobertas revolucionárias descritas em dois artigos publicados online na revista Cell na passada quarta-feira.

Uma equipa de cientistas do Massachusetts General Hospital e da Harvard Medical School em Boston, liderada por Kenneth Chien, identificou células estaminais embrionárias em ratos que se podem transformar nos vários tipos de células que constituem o coração, cardiomiócitos, células endoteliais vasculares e células musculares lisas.

Os cardiomiócitos são células altamente diferenciadas que param a sua multiplicação logo após os primeiros anos de vida. A morte dos cardiomiócitos, por exemplo como consequência de um enfarte do miocárdio, origina uma fibrose tissular, que dependendo da extensão pode levar a insuficiência cardíaca.

A equipa de Chien tinha descrito num artigo anterior um grupo de células precursoras do músculo cardíaco a que chamaram células islet-1 (isl1+). Estas células, que são definidas pela presença da proteína is11, foram encontradas nos tecidos cardíacos de ratos e humanos recém-nascidos.

Neste artigo os cientistas descrevem o que acontece a estas células, que podem ser obtidas de células estaminais embrionárias, que, para sua grande surpresa, são percursoras não apenas das células que constituem o músculo cardíaco mas igualmente de todo o tipo de células cardíacas.

Como afirmou Chien, «Este estudo documenta um paradigma para a cardiogénese, em que se mostra que a diversificação das linhagens de células musculares e endoteliais derivam de uma decisão a nível de uma única célula, a célula multipotente isl1+ que é uma célula progenitora cardiovascular».

No segundo artigo, a equipa liderada por Stuart Orkin do Howard Hughes Institute em Chevy Chase, Md., isolou células de um embrião de rato que expressam um gene cardíaco específico, o Nkx2.5+. Estas células diferenciam-se espontaneamente em cardiomiócitos e células do sistema de condução cardíaco – que conduzem os impulsos eléctricos que permitem os batimentos do coração. Com alguma surpresa verificaram que algumas destas células – que expressam um segundo gene, o c-kit e a que chamaram c-kit+Nkx2.5+ – se transformavam em células musculares lisas.

As células Isl1+ estudadas por Chien podem dar origem às células c-kit+Nkx2.5+ descritas por Orkin, mas a relação precisa entre os dois tipos de células é um tema que necessita ser investigado.

«Não se sabe qual é a relação entre estas células, se é que há alguma. Uma pode ser a predecessora da outra ou podem ser linhas separadas» afirmou Orkin apontando que as as células estudadas pelas duas equipas parecem corresponder a campos diferentes de progenitores cardíacos. Estudos anteriores indicam que os campos cardíacos primário e secundário geram estruturas no lado esquerdo e direito do coração, respectivamente.

A descoberta destas células mãe específicas para tecidos cardíacos é extremamente promissora para terapias regenerativas de corações doentes. A regeneração usando células estaminais embrionárias totipotentes tem riscos associados à possibilidade de crescimento descontrolado destas dando origem a teratomas, um tipo de tumor.

Dada a posição oficial do Vaticano em relação à investigação em células estaminais, e ao facto de que para a Igreja de Roma uma célula estaminal – assim como um óvulo fertilizado e um embrião – é uma pessoa, usar para fins terapêuticos uma célula estaminal embrionária, como ululou Tarcisio Bertone, secretário da Congregação do Vaticano para a Doutrina da Fé «Do ponto de vista ético, é como pôr fim a uma inocente vida humana».

Para serem coerentes com a sua «ordem moral natural, isto é, cristã», os fundamentalistas católicos que ululam contra «o comportamento profundamente leviano, promíscuo, debochado e, sobretudo, egoísta» das «homicidas» de vida não nascida dever-se-iam abster deste tipo de tratamento quando ele for disponibilizado. Mas claro, os pró-prisão na realidade estão-se nas tintas para a defesa da vida, apenas querem ver punidas as levianas, promíscuas, debochadas e egoístas mulheres, pelo que neste, como em outros temas, não é de esperar qualquer coerência dos fundamentalistas católicos…

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26 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Separação da Igreja e do Estado na Noruega

Como o Ricardo já tinha referido, a situação anacrónica de um dos países menos religiosos do mundo, a Noruega, em que existe uma religião oficial e uma igreja de estado a que pertencem nominalmente 88% mas de facto apenas 10% da população, está prestes a terminar.

A discussão pública sobre a separação entre o Estado e a Igreja na Noruega iniciada há uns meses – que inclui a possibilidade de um referendo sobre o tema – num país em que a larga maioria da população apoia a medida, foi reforçada pela decisão de há uns dias do órgão máximo eclesiástico, o Sínodo Geral, que votou maioritariamente (63 contra 19) a favor da separação da Igreja e do Estado neste país.

Como referiu igualmente o Ricardo, a Igreja da Noruega, luterana, é liderada pelo Rei da Noruega, com o Storting (Parlamento Norueguês) como órgão legislativo supremo. A Constituição desta monarquia impõe que a família real e pelo menos metade dos membros do Governo professem a religião de Estado, uma imposição bizarra num país em que desde 1964 uma emenda à Constituição permite a todos os habitantes o direito de praticar a sua religião ou não religião livremente.

25 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres II

Pelas razões indicadas no post anterior, não é de espantar que a argumentação recorrente dos pró-prisão – que se desdobram em regurgitações «moralistas» sobre os motivos que levam as mulheres a abortar – assente implicita ou explicitamente no paradigma católico da mulher, um ser sem direitos que se deve «sacrificar» por um qualquer óvulo fertilizado, sendo as que não o fazem seres imorais em quem não se pode confiar a decisão sobre o futuro de uma gravidez indesejada!

De facto, sem se aperceberem que essa argumentação deixa claro que não é a defesa da vida por que militam os pró-prisão, mas sim a recusa em reconhecer direitos à mulher, os que consideram ser a prisão o lugar das mulheres que abortam por motivos «fúteis» ou «egoístas» ululam:

«o que está em causa e o SIM autorizará, é que a grávida possa decidir, sem qualquer justificação ou outra motivação, abortar»

Ou seja, o problema não é abortar, o problema é que a mulher possa abortar por decisão própria sem autorização de moralistas que julgarão os seus motivos! O que subentendem os defensores do NÃO ao referendo que se aproxima é que a mulher não tem qualidades morais para que se possa deixar a decisão sobre a interrupção de uma gravidez indesejada em mãos femininas!

Como ironiza Fernanda Câncio no Glória Fácilde leitura diária recomendada – «a ideia primordial de quem defende o não» é assim «a ideia de que a uma mulher que rejeita a gravidez não tendo sido violada ou não lhe tendo sido detectada qualquer malformação no feto não se reconhecem ‘justificações’para abortar» .

Isto é, contrariando todos os axiomas em que deveria assentar o Direito num estado moderno, os pró-prisão consideram perfeitamente legítimo que o Código Penal nacional criminalize um crime sem vítimas – o embrião não é uma pessoa, como eles próprios admitem ao considerar perfeitamente «morais» os abortos permitidos pela lei actual – , isto é, que se mande para a prisão as «desavergonhadas» que pensam serem pessoas de plenos direitos que podem decidir por si próprias!

A criminalização do aborto é uma forma de violência contra as mulheres e «atenta contra os valores da sua autonomia e dignidade enquanto pessoas humanas». Hoje é um dia em que os adeptos do NÃO deveriam reflectir sobre os motivos porque não só toleram como acham justificada a manutenção desta violência contra as mulheres!

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25 de Novembro, 2006 Carlos Esperança

Os bispos não desarmam

Os bispos católicos consideram-se detentores da verdade única e vêem a Europa como coutada da Igreja Católica e um protectorado do Vaticano.

Lembram constantemente as origens cristãs do Continente como se não houvesse milhões de homens e mulheres que sentiram na pele a intolerância, as perseguições e as fogueiras purificadoras que bandos de eclesiásticos ateavam aos hereges. Mesmo entre os cristãos não esquecem os protestantes a violência do proselitismo romano e o espírito retrógrado do Concílio de Trento ou do Vaticano I.

A identidade da Europa reside na tolerância e no secularismo. A sua coroa de glória é a laicidade. A única bíblia é a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

A sua vergonha é a inquisição, a reforma, a contra-reforma, as cruzadas e a última teocracia que resiste num bairro mal frequentado de Roma, com 44 hectares de sotainas, muitas arrobas de pias ossadas e imensos tesouros surripiados dos países pobres pelo poder que o Papa exercia ou pelo terror que infundia.

Do esclavagismo à tortura, da condenação à morte ao desterro, não houve maldade, infâmia ou crueldade que os sucessivos bandos de eclesiásticos, de mitra e báculo, não praticassem.

Os Papas foram quase sempre os responsáveis pelo atraso, ignorância e superstição dos povos. Ainda hoje infantilizam os crentes com milagres que embrutecem, orações que ensandecem e uma catequese que infunde o terror divino.

Qualquer referência ao cristianismo não é mera redundância, é um gesto de fanatismo que germina no coração do Papa e o pretexto para o proselitismo que é a tara comum às três religiões do livro.

É dessa demência mística, desse negócio da fé, que é preciso libertar a Europa.

25 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres

A incapacidade de compreender e conviver com a diversidade e de aceitar que os direitos do Homem se referem também à mulher, mesmo quando disfarçadas por manobras de marketing, são o apanágio da Igreja de Roma. A Inquisição, uma das fontes privilegiadas para tipificar a intolerância, preservada na congregação dirigida durante décadas pelo actual Papa, especializou-se em difundir na sociedade civil o pensamento único e em perseguir ou estigmatizar todos os que ousassem questionar os ditames do Vaticano.

De facto, durante séculos fomos educados para a intolerância e para o radicalismo. Dogmas religiosos foram pacientemente secularizados como peças estratégicas para a preservação de grupos e sistemas ideológicos. Urge quebrar paradigmas, ousar, como fizeram os demolidores de preconceitos de todas as épocas, sair do espírito de rebanho cultivado pelos que não toleram críticas ou divergências.

A sexualidade é o tema em que a influência nefasta do cristianismo, em todas as suas vertentes, especialmente a misoginia e a homofobia, contamina com mais virulência a nossa sociedade. Uma das faces da misoginia cristã, a relegação da mulher a um sub-humano sem direitos, é o tema onde os monolíticos preconceitos cristãos – de que muitos não percebem as origens – se têm demonstrado mais difíceis de erradicar da nossa sociedade, completamente condicionada até há escassos 30 anos pelos representantes locais da Igreja de Roma!

Hoje, o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, deveríamos reflectir porque razão, como é apontado por Dulce Rocha, vice-presidente da Associação Portuguesa das Mulheres Juristas, «Bater na mulher é um comportamento que é tolerado na sociedade».

Porque razão a PSP e a GNR registaram, apenas no primeiro semestre de 2006, 10.308 queixas por violência doméstica , o que significa que em seis meses pelo menos o mesmo número de homens considerou ser perfeitamente justificada a punição física de qualquer comportamento menos «próprio» da respectiva mulher/companheira.

Condicionadas pelo paradigma mariano da mulher que permeia a sociedade nacional, quantas mais mulheres não se queixaram por considerarem que o espancamento foi «merecido»?

De facto, a nossa é uma sociedade em que permanece anacronicamente o modelo cristão da mulher subjugada ao marido, aos filhos e à casa, uma sociedade que faz julgamentos de valor sobre os comportamentos das mulheres e que desdenha como «egoístas» e epítetos ainda menos simpáticos as que não seguem esse paradigma.

Modelo inculcado pelo matraquear incessante da Igreja de Roma, que não reconhece direitos – a que chama «exigências ‘para ela mesma’»- à mulher, apenas deveres, nomeadamente o dever de morrer por um qualquer óvulo fertilizado ou às mãos de um marido mais violento.

Igreja que santificou a violência conjugal ao apontar como exemplo a seguir Isabella Canori Mora, que preferiu morrer às mãos de um marido abusivo a «violar a santidade do matrimónio». Igreja que nega o direito à vida da mulher ao canonizar como «santa Mãe de Família» Gianna Beretta Molla, que preferiu morrer a abortar.

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(continua)
25 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Fundamentalistas cristãos contra Wal-Mart

A história do Wal-Mart, a maior rede grossista ou de «discount stores» do mundo, confunde-se com a história do seu fundador, Samuel Moore Walton, mais conhecido como Sam Walton, nascido em 1918.

Sam Walton era um devoto cristão, tão devoto que institui em 1991 o prémio Sam e Helen R. Walton, destinado a premiar as igrejas que promovam formas criativas de espalhar a fé. Os fanáticos cristãos americanos, para além de se acharem no direito de decidir o que as lojas devem ou não vender -especialmente os abominados contraceptivos – esperam ainda que a companhia, que emprega mais de um milhão e meio de pessoas, siga o exemplo do seu fundador e seja não só prosélita mas reflicta todos os preconceitos e ódios indissociáveis do cristianismo mais jurássico.

Depois de no ano passado a Catholic League for Religious and Civil Rights,um grupo de pressão fundamentalista católico, ter feito um boicote ao Wal-Mart por este supostamente ter entrado na inventada «guerra ao Natal», isto é, se ter arrogado à heresia de admitir que existem não cristãos no mundo, a rede volta a ser alvo de boicote dos fundamentalistas cristãos.

Desta vez o que levou os ululantes cristãos a paroxismos de ódio foi o facto de o Wal-Mart, horror dos horrores, reconhecer que os homossexuais são pessoas e têm direitos!

Assim, a empresa é acusada pelos fanáticos cristãos de ser dominada pelo mafarrico, algo que é dever cristão impedir que continue.

«O Diabo está a forçar as nossas escolas, empresas e igrejas a reconhecer coisas que são abominações a Deus. Os cristãos não podem deixar que isto aconteça».

Os fanáticos cristãos inspiram-se no seu livro «sagrado e inerrante» para preconizar o modus operandi contra os possuídos pelo Demo:

«David não teve qualquer problema em cortar a cabeça a Golias porque sabia que Golias era um inimigo de Deus e um inimigo do povo de Deus. Ele sabia os estragos que Golias faria se fosse permitido viver».

Aparentemente os «defensores incondicionais da vida» consideram que vida é sinónimo de cristão… os não cristãos não são vida: são inimigos de Deus e como tal não têm quaisquer direitos!

Algo que sempre me intrigou é o facto de, embora ululando ser a sua uma religião de «amor(?)», as únicas campanhas, para além de espalhar a fé, em que estes cristãos mais fundamentalistas se empenham são campanhas de ódio: ódio contra homossexuais, ódio contra as mulheres que abortam, ódio contra ateus e os que não aceitam os ditames do cristianismo, etc..

24 de Novembro, 2006 jvasco

O conflito entre Ciência e Religião

O vigia num navio de guerra avista uma luz entre o nevoeiro. Avisa o comandante, que manda o imediato ordenar ao outro navio que mude de rota. O imediato tenta várias vezes, mas pelo rádio recebe apenas um pedido idêntico. Irritado, o comandante pega no microfone: «Daqui fala o Comandante Silva. Este é um navio da Marinha, e não alteramos o nosso rumo! Saiam da nossa rota!». Do outro lado vem a resposta paciente «Aqui fala o Martins, e isto é um farol. Faça lá o senhor Comandante como achar melhor…»

O conflito entre ciência e religião faz me lembrar esta anedota. A religião traz a autoridade da tradição, duma coisa séria e importante, mas a ciência está limitada pela realidade e daí não pode sair. Se a astronomia, a geologia, ou a biologia contradizem uma certa interpretação de um dos muitos livros sagrados não é a ciência que tem que mudar. E o humor em si ilustra outro ponto de divergência. Para uma piada ter graça temos que a compreender, mas não precisamos de acreditar. O gozo de fazer ciência é essa compreensão, associada a uma dúvida que antecipa algo ainda mais fascinante. A religião é o oposto. A Santíssima Trindade ou a hóstia que se transforma no corpo de Jesus são ideias incompreensíveis, que a religião quer que se acredite sem reserva, sem compreensão. Sem humor. A ciência tem piada; a religião é séria e sisuda.

E isso vê-se nas atitudes. Em todos os laboratórios vemos piadas ou cartoons com sátiras à ciência. A prestigiosa universidade de Harvard atribui anualmente os prémios Ig-Nobel, uma crítica sardónica às argoladas dos cientistas. Mas basta um desenho de um papa com um preservativo no nariz ou de um profeta com um turbante em forma de bomba e ficam milhões de crentes ofendidos. O humor é uma forma poderosa de crítica, que suscita a exploração de outros pontos de vista. Enquanto a ciência se alimenta deste diálogo crítico, a religião não quer nada com isso.

E a maior diferença é na reacção a outras ideias. Os cientistas que discordam colaboram para determinar quem tem razão. Quando crentes discordam não há nada a fazer. Nunca Católicos e Judeus vão colaborar num projecto para determinar objectivamente a divindade de Jesus. Há quem queira resolver o conflito entre ciência e religião isolando os campos, com a ciência encarregando-se dos factos e a religião dos valores. Mas o problema não é o conflito de ideias. Há conflitos de ideias na ciência, na arte, e na filosofia sem qualquer problema. Pelo contrário, este conflito de ideias é bom porque estimula o diálogo, o progresso, e novas ideias. O problema é que certas ideologias não toleram o conflito de ideias. Os nacionalismos, ideologias políticas, e religiões tendem a reagir muito mal a ideias contrárias, e a transformar conflitos de ideias em conflitos de pessoas.

Não é o farol que tem que sair da frente, e não são as ideias diferentes que criam o conflito entre ciência e religião. O que causa este conflito é basear uma ideologia na certeza absoluta que é Verdade. Quem tem esta certeza está fechado a posições contrárias, nega a possibilidade de mudar de ideias, e não tem interesse em manter o diálogo. Interessa-lhe suprimir a oposição em vez de aprender com ela, desde a subversão do ensino científico por meios políticos até aos atentados bombistas.

——————————–[Ludwig Krippahl]

24 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Recolher obrigatório em Bagdad


Bagdad é desde ontem à noite uma cidade fantasma, depois da série de atentados mais sangrentos desde o início da guerra, que causou 202 mortos e cerca de 250 feridos, ter levado o governo a impor um recolher obrigatório sem fim prevísivel.

O aeroporto de Bagdad assim como o de Bassorá e os portos no sul do Iraque encontram-se fechados. O massacre em Sadr City, uma área densamente populada por iraquianos shiitas que foi o palco da série de atentados bombistas de ontem, ocorreu momentos depois de helicópteros americanos e o exército iraquiano terem sido obrigados a intervir num ataque ao Ministério da Saúde – dominado por shiitas.

Desde o ataque em Fevereiro último a Samarra – que atingiu um dos lugares mais sagrados dos muçulmanos shiitas, o santuário al-Askari – que o Iraque tem assistido a um escalar da violência entre shiitas e sunitas. Segundo a ONU, foram vítimas mortais desta violência cerca de 3 709 civis iraquianos em Outubro, o número mais alto de mortes civis verificado desde o início da guerra há 44 meses, um número que se prevê ser eclipsado em Novembro.

As Nações Unidas indicaram igualmente que fogem mensalmente do país cerca de 100 000 iraquianos, perfazendo um total de 1.6 milhões de refugiados desde Março de 2003, data em que a guerra «divinamente ordenada» se iniciou.

Desenvolvimentos: Enquanto em Bagdad se desenrolavam os funerais das vítimas dos atentados de ontem, em que os que quiseram prestar homenagem às vítimas foram autorizados pelo governo a quebrar o estrito recolher obrigatório na cidade, um atentado com um carro armadilhado fez mais 22 vítimas mortais na cidade de Talafar, perto da fronteira com a Síria.

O grupo shiita liderado por Moqtada Sadr, que tem apoiado o governo do primeiro-ministro Nouri Maliki, ameaçou retirar-se do governo e do parlamento se Maliki se encontrar na próxima semana, como está previsto, com G. W. Bush.