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5 de Dezembro, 2006 Palmira Silva

Aborto e religião

Deveria ser consensual, bastando olhar para o mapa mundial da legislação sobre a IVG para o confirmar, que apenas razões religiosas – ou sexistas, o que vai dar no mesmo – impedem a implementação dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) da ONU e das recomendações desta organização em relação à despenalização do aborto!

Acho por isso muito divertidos os protestos dos católicos que asseveram não ser fundamentada na religião a respectiva posição pró-prisão em relação às iníquas mulheres que exibem um «comportamento profundamente leviano, promíscuo, debochado e, sobretudo, egoísta», sub-humanos que o Estado tem a obrigação de vigiar e controlar já que são potenciais «homicidas» da vida não nascida por dá cá aquela palha.

Mas depois lemos que «No «não» [à despenalização do aborto] pode estar muita gente. No «sim» também. Mas no «sim» não haverá católicos. Mesmo que pensem o contrário, que vão à Missa e que comunguem todos os dias (pérola encontrada via Arrastão). E, obviamente, todo o empenhamento da sucursal nacional da Igreja de Roma no movimento pró-prisão não tem nada a ver com religião!

Mas claro, os fundamentalistas católicos (e volto a frisar a palavra fundamentalistas, não me refiro aos crentes normais) não encontram paradoxos nestas posições já que ululam defender «valores radicados na natureza mesma do ser humano», verdades fundamentais indispensáveis à consciência colectiva dos Estados em que se inserem, nomeadamente consideram ser dever do Estado impor esses «valores morais universais e absolutos» na letra da lei. E apenas os «fanáticos» ou «fundamentalistas» ateus não reconhecem a «superioridade moral» do catolicismo e se obstinam em lutar contra as «leis divinas» e a criminalização dos «pecados»!

Como bramia o padre de Santos, nos tempos idos das minhas aulas de catequese, em resposta às perplexidades de uma criança de 6 anos sobre as inconsistências biblicas e contradições morais encontradas na teoria e na praxis católica, as mulheres têm de ser vigiadas e controladas porque são «fracas de espírito» e «atreitas» às tentações do Demo.

E o padre ululava serem obra do Mafarrico as minhas afirmações infantis de que se algo é errado intrinsecamente, então é sempre errado fazê-lo e não percebia porque alguns comportamentos podiam ser errados ou perfeitamente correctos dependendo de quem os fazia ou das circunstâncias! De facto, a duplicidade moral católica, a proibição de tudo e mais umas botas às raparigas – como assobiar ou andar de bicicleta no adro da igreja – não porque fosse errado per se, apenas porque «parecia mal» uma fêmea fazê-lo, não me convenciam!

Esta duplicidade moral misógina indissociável do catolicismo está subjacente à argumentação dos que ululam serem pró-prisão porque «o que está em causa e o SIM autorizará, é que a grávida possa decidir, sem qualquer justificação ou outra motivação, abortar». Isto é, o aborto pode ser errado ou não dependendo das circunstâncias, ou seja, da motivação feminina para o fazer.

A grande questão, ganem os que não reconhecem competência moral para esta decisão à «fraca de espírito» mulher, é que as mulheres fazem «abortos pelas mais fúteis razões». Ou seja, não são contra o aborto quando decidido por quem de direito, a classe médica, ou em caso de violação – a mulher não teve «culpa» da gravidez, isto é, só as levianas, promíscuas, debochadas ou egoístas devem ser punidas – são apenas contra o aborto por decisão (fútil e egoísta) da mulher!

Como afirmou recentemente Ana Vicente, investigadora e membro do movimento leigo «Nós Somos Igreja», «as religiões servem de obstáculo ao desenvolvimento e ao empoderamento das mulheres». E o que está em questão no referendo é simplesmente a recusa católica em reconhecer direitos às mulheres, «inadmissíveis exigências» reinvidicadas por «feministas radicais»!

De facto, durante séculos fomos educados para a intolerância, para o radicalismo e em particular para a misoginia ou preconceitos contra as mulheres. Dogmas religiosos foram pacientemente secularizados como peças estratégicas para a preservação de sistemas ideológicos e, especialmente, para a preservação do poder (e concumitante fausto) da Igreja.

O facto de alguns (muito poucos) ateus serem pró-prisão – e, curiosamente, só conheço ateus, nunca conheci uma única ateia pró-prisão – reflecte apenas este condicionamento. Condicionamento que se traduz na convicção masculina de que têm os homens direito a fazer julgamentos de valor em relação aos comportamentos femininos. Nenhum ateu pró-prisão me convenceu de que a sua posição não é simplesmente uma posição sexista, especialmente porque consideram que um embrião não tem valor intrínseco, isto é, só tem um valor que se sobrepõe aos mais elementares direitos humanos in utero. E consideram serem legítimos os abortos realizados por motivos não fúteis – um adjectivo exclusivamente utilizado no feminino cá no burgo!

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5 de Dezembro, 2006 Ricardo Alves

Rushdie: «A religião foi o maior erro da raça humana»

Foi um prazer assistir à conferência-debate com Salman Rushdie, Cláudio Torres e Anselmo Borges em Santa Maria da Feira, na sexta-feira.
Rushdie defendeu bastante bem a posição ateísta, e repetiu várias vezes, sem que ninguém o contradissesse, que os deuses foram criados à imagem dos homens (e não o contrário). Recordou que muitas mitologias têm um momento em que os deuses desaparecem e os homens têm que assumir as suas responsabilidades, e que entrámos nesse momento histórico a partir do Renascimento, e mais concretamente a partir do Iluminismo. Elaborou um pouco à volta do tema, recorrente nas suas entrevistas recentes, de que provavelmente nascemos com um sentido ético que nos leva a perguntar o que está certo e o que está errado, e que pode portanto levar à religião. E foi bastante claro, após as perguntas do público, sobre aquilo que nos separa dos crentes e dos seus «companheiros de estrada» clericais: não confiarmos nos sacerdotes das religiões para responder a perguntas sobre ética. Quanto ao outro uso da religião que Rushdie mencionou (explicar as origens do mundo e da humanidade), hoje já quase ninguém o leva a sério.
Politicamente, Rushdie denunciou as teses huntingtonianas do «choque de civilizações», explicando que o «mundo muçulmano» é muito diverso e está muito dividido, por exemplo entre sunitas e xíitas. Defendeu vigorosamente que apenas quando o Islão for reinterpretado, como Averróis tentou fazer no seu tempo, poderá evoluir. E recomendou a leitura de «Identity and Violence» de Amartya Sen para uma compreensão de como temos muitas pertenças, da nacionalidade e da região ao clube de futebol e à religião. Mencionou igualmente Richard Dawkins («The God delusion») para esclarecer onde sustenta o seu ateísmo.

De um modo geral, ignorou as perguntas do público.
4 de Dezembro, 2006 Carlos Esperança

Pinochet à beira da morte

Depois de o ex-espião russo Aleksandr Litvinenko ter morrido envenenado por uma substância altamente radioactiva, o polónio 210, teme-se que o ex-ditador chileno, Augusto Pinochet, tenha a mesma sorte depois de lhe ter sido ministrada a extrema-unção.

O polónio 210 terá sido fornecido pelos serviços secretos de Moscovo enquanto os «santos óleos» para a unção foram da responsabilidade da ICAR e sintetizados, pela primeira vez, pelos alquimistas do Vaticano.

Normalmente os pacientes não resistem a estes venenos, pelo que se espera, para breve, o fim do devoto católico, amigo do Papa JP2 e da hóstia.

4 de Dezembro, 2006 Ricardo Alves

A ICAR não participa em «campanhas de tipo político»?

O bispo do Algarve da ICAR anunciou no sábado a constituição de uma comissão que coordenará os movimentos anti-escolha na região, com vista ao referendo sobre a despenalização da IVG. Segundo o bispo Manuel Quintas, esta comissão, que «resulta da união da diocese do Algarve a um grupo de leigos», tem a sua origem numa ideia do próprio bispo e irá «sensibilizar paróquias» e coordenar «a nível da diocese».

Entretanto, na Guarda, o bispo local da mesma ICAR anunciou que fará catequeses específicas sobre o aborto em todos os domingos anteriores à campanha, e que a nota pastoral da CEP será comentada em todas as homilias da região, enquanto em Coimbra o bispo Albino Cleto garantiu «todo o seu apoio» aos movimentos que defendam uma cultura adversa à liberdade da mulher.

Na Madeira, o conselho diocesano da mesma igreja com sede em Roma organizará «acções concretas (…) para dar a conhecer o verdadeiro sentido do voto: “Não” ao aborto; “Sim” à Vida», naquilo que se assume ser uma «campanha de esclarecimento».

No dia 19 de Outubro, a conferência episcopal portuguesa desta mesma igreja afirmara: «Nós, os Bispos, não entramos em campanhas de tipo político»…
3 de Dezembro, 2006 Carlos Esperança

Agradecimento

O Diário Ateísta, ao assinalar o 3.º aniversário, recebeu amáveis referências na caixa de comentários e várias mensagens nos endereços dos colaboradores.

Aos primeiros apresentamos os nossos públicos agradecimentos, aos outros fizemo-lo pessoalmente.

A todos prometemos continuar a trilhar os caminhos do ateísmo.

3 de Dezembro, 2006 Palmira Silva

SIM ao referendo do aborto


Como lembrou Helena Matos no Público de ontem «Por tudo isto votarei sim a 11 de Fevereiro. Mas não considero que o caso fique aqui encerrado. Em política como na vida as responsabilidades devem ser pedidas a quem de direito. E esta situação aberrante em que nos encontramos tem responsáveis. São eles António Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa. Sobrepondo-se à Assembleia da República, estes dois líderes acordaram na realização dum referendo que não só não resolveu problema algum, como criou vários. Algum dia quer um, quer outro terão de ser confrontados com isto.»

De facto, é aberrante que um país supostamente laico continue no século XXI com uma lei com as teias de aranha da cristandade medieval que ornamentam a nossa. E como recordou Helena Matos aos de memória mais curta, esta situação inadmissível num estado de direito deve-se apenas à beatice dos dois líderes dos maiores partidos nacionais que criaram esta situação por a Assembleia da República ter decidido o que as suas «consciências» católicas não aceitavam: que fosse deixado ao livre arbítrio das mulheres algo condenado pela Igreja!

Por outro lado, apenas quando a alteração à anacrónica lei que temos é mencionada, há unanimidade em torno da necessidade de mais e melhor educação sexual, mesmo por parte dos pró-prisão. Porque também nestas matérias a memória é curta, convém recordar a (pseudo)polémica levantada há cerca de ano e meio pelo movimento MOVE àcerca da disciplina de Educação Sexual. Mais concretamente, e como referi à data, uma campanha difamatória contra a Associação para o Planeamento da Família, APF, que incluiu uma petição que circulou célere na Internet e onde, entre outras coisas, se exigia a suspensão de supostos programas de educação sexual em curso nas escolas, promovidos pelo Ministério da Educação em parceria com a APF.

O slide que ilustra este post foi descoberto pela Shyznogud «numa das muitas apresentações de powerpoint que o MOVE disponibilizava». E retrata exemplarmente o que motiva os pró-prisão para as suas campanhas terroristas! Que não tem remotamente algo a ver com defesa da vida!

Porque convém não esquecer que a campanha caluniosa – que boicotou a introdução da disciplina de Educação Sexual nas escolas – foi lançada por associações ultra-conservadoras, nomeadamente a Associação Juntos pela Vida, as mesmas que hoje ululam merecerem prisão as mulheres que decidirem interromper uma gravidez não desejada.

E porque o referendo se aproxima e os pró-prisão, com a Igreja Católica a liderar os movimentos, estão, como seria apenas expectável, ultra mobilizados para o terrorismo do costume, é uma boa notícia saber que já têm blog o Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim – que integra membros do movimento católico «Nós Somos Igreja» – e os Médicos Pela Escolha.

O Movimento pela Despenalização da IVG já está na blogosfera há uns meses, aliás vale a pena ler este post que relata em primeira mão as tácticas terroristas da Igreja Católica nacional. Uma lista dos blogs nacionais a favor da despenalização da IVG está a ser compilada pelo Daniel Oliveira no Arrastão. Se algum dos nossos leitores souber de algum não indicado, deixe a hiperligação nas caixas de comentários (neste momento reféns de um alucinado cristão pró-prisão que, sem grande surpresa, as utiliza para debitar o seu veneno e como tal os comentários estão sujeitos a aprovação).

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3 de Dezembro, 2006 Palmira Silva

Valores cristãos

James Dobson e a «cura» de Ted Haggard. Bill Mahler comenta aqui os resultados das últimas eleições americanas em que os republicanos perderam muitos «votos morais».

Uma sondagem do Barna Group descobriu, para grande consternação dos teocratas americanos, que «Os grandes líderes cristãos americanos são desconhecidos do grande público, mesmo entre cristãos» enquanto Denzel Washington é não só conhecido por praticamente todos os americanos como apresenta quase um pleno de aprovação – em contraste com os baixissimos níveis favoráveis aos cinco líderes escolhidos.

Fazendo soar todas as campainhas de alarme, o presidente do grupo evangélico, George Barna, interpretou os resultados como indicando que «o cristianismo está a perder o seu poder na cultura americana» indicando ainda que «os cristãos estão mais sintonizados para questões de cultura e divertimento que para questões de fé» e conclui que tal acontece «porque mesmo os líderes mais importantes da comunidade cristã têm ressonância limitada com a população». E, horror dos horrores, «Estes números indicam que milhões de cristãos dedicam mais da sua energia mental à literacia cultural que à literacia bíblica».

Diria que, infelizmente, as conclusões do evangélico estão longe da realidade, e demasiados americanos na população em geral demonstram que de facto o cristianismo não perdeu o seu poder, político especialmente. Basta olhar para o item «Os evangélicos pensam diferente» em que Barna indica que em relação à população em geral os evangélicos brancos apresentam maiores níveis de aprovação de G. W. Bush e uma visão mais negativa de Bill Clinton, por exemplo. Em relação à literacia bíblica basta pensar na percentagem de americanos que acredita piamente nas patetadas criacionistas para confirmar que não só impera nesta faixa da população como a iliteracia cultural é de facto a sua imagem de marca. Aliás, carpem que «Nós [os cristãos] estamos sob ataque do segmento inteligente e instruído da sociedade»!

Por outro lado, são os que apresentam um maior nível de aprovação dos «grandes líderes cristãos» escolhidos por Barna, onde se incluem aberrações como o reverendo Doomsday (dia do juízo final) Tim LaHaye – co-autor da série apocaliptica «Left Behind», fundador da American Coalition for Traditional Values, da Coalition for Religious Freedom, da organização anti-feminista Concerned Women for America e do Institute for Creation Research – e James C. Dobson, fundador e presidente da maior organização teocrata americana e uma das mais radicais, – a organização fundamentalista Focus on the Family – que comparou a investigação em células estaminais embrionárias com as experiências nazis conduzidas com pacientes vivos, durante e antes do Holocausto.

Não sei exactamente qual o objectivo do preocupado evangélico com este artigo, provavelmente tentar mudar os hábitos televisivos dos cristãos norte-americanos, o que não deve ser difícil dada a quantidade de redes cristãs de televisão onde os delírios dos referidos lunáticos podem ser apreciados ao vivo e a cores.

Como nota de curiosidade, uma das sondagens produzidas pelo Barna Group, que publica anualmente o relatório «State of the Church» em que analisa o estado da nação em relação ao cristianismo, foi retirada da página do grupo por pressão das organizações cristãs que não queriam pública essa informação.

A sondagem tão execrada pelos teocratas indicava que, contrariamente ao que é ululado por todos os flavours do cristianismo que se reclamam os grandes defensores da moral e bons costumes e da «família», a taxa de divórcio nos Estados Unidos apresenta os valores mais elevados nos cristãos conservadores e os valores mais baixos entre… ateus e agnósticos! Assim como a taxa de aborto apresenta o seu máximo entre… católicos!

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3 de Dezembro, 2006 Carlos Esperança

O Vaticano é a lavandaria das almas

O Vaticano é uma enorme lavandaria onde se lavam os pecados e se branqueia a alma.

Nas sucursais, espalhadas pelo mundo, basta um padre, que não seja maneta, e uma cruz em bom estado, para branquear os pecados e varrer o lixo da alma dos arrependidos.

A confissão é a barrela da alma. É a limpeza dos pecados que conspurcam uma peça, só visível ao microscópio da ICAR, cuja desinfecção se faz na oficina da marca.

A recitação do credo é a benzina dos pecados veniais, enquanto o acto de contrição é a lixívia dos mortais. Mas, para uma limpeza a seco, sem que a alma encolha ou desbote, nada melhor do que a compra de indulgências e o resgate das impurezas em numerário.

Não há pecado cujo perdão resista a uma esmola avantajada, patifaria que o ouro não indulte, crime que o dinheiro não absolva.

Fica mais caro lavar um sacramento do que um pecado. Anular o matrimónio custa uma fortuna, absolver uma velhacaria basta a esmola, e um pai-nosso para disfarçar a cobiça eclesiástica.

Antigamente, quando havia Purgatório, era a missa o combustível que punha em marcha a alma de um defunto. Com menos de trinta, patinava na lama e não arrancava. Só uma missa rezada por trinta padres tinha força equivalente e era capaz de fazer levantar voo a uma alma atolada no lodo do Purgatório e pô-la a voar em direcção ao Paraíso.

Não há detergente mais eficaz do que o vil metal nem música que desvaneça o divino como os acordes das moedas a tilintar nas bandejas das igrejas. Deus não é o criador do mundo, é o banqueiro e patrão do clero.

O baptismo é a primeira barrela da alma e a extrema-unção a última limpeza das nódoas de um cristão. Com os santos óleos, a alma do defunto voa para o Céu, limpinha, para não ferir a pituitária divina. Vai lavada, passada e engomada com certificado de garantia do asseio que o último sacramento confere.

2 de Dezembro, 2006 Palmira Silva

China executa fundador de seita evangélica

Cultos esotéricos e muitas vezes violentos não são novidade na História da China, como é exemplo a Sociedade do Lótus Branco, um misto entre budismo messiânico (Maitreya) e maniqueismo, que se tornou proeminente pelo seu papel na Revolta do Lótus Branco (1786-1804) que resultou na queda da dinastia Qing. Aliás, estas seitas do milénio, que acreditam na volta de um messias (neste caso Buda Maitreya) estão na base da maioria das quedas das dinastias governantes, desde os «Turbantes amarelos» que derrubaram a dinastia Han até às revoltas de Taiping – a sociedade Nian por trás desta revolta contra a dinastia Qing (1850?64) é considerada uma «reencarnação» do Lótus Branco – e Boxer – mais uma vez fomentada pelo Lótus Branco agora na versão Yihequan (1899-1901), – que abriram caminho ao comunismo.

Na realidade, desde os primórdios da China, que o «Mandado dos Céus», um conceito chinês utilizado pela primeira vez pela dinastia Zhou e depois por todos os imperadores chineses, é invocado para justificar o poder temporal: os governantes são abençoados pelos céus mas se não governarem bem os céus ficam desagradados e o «Mandado» será oferecido a outrem.

O vácuo ideológico deixado pela falência do comunismo neste país tem vindo a ser preenchido por um interesse fanático na religião, especialmente nas comunidades rurais, onde a qualidade de vida é francamente baixa e em que muitas seitas, especialmente evangélicas, prometem saúde – em zonas em que o estado se demitiu das suas responsabilidades em termos de cuidados básicos de saúde- prosperidade e a certeza do «arrebatamento» no Apocalipse que afirmam estar prestes a chegar. Tudo a troco de dinheiro, lealdade à seita e secretismo absoluto.

De facto, como indicou o Francisco, o Estado controla estritamente as religiões, pelo que este interesse pelas religiões traduz-se na clandestinidade da maioria destas seitas, que operam maioritariamente nestas zonas rurais empobrecidas, e onde a competição entre seitas atinge níveis de violência mortais.

As autoridades chinesas executaram na passada semana pelo menos 12 membros, incluindo o líder e fundador, da «Three Grades of Servants Church», que com a sua rival «Eastern Lightning» são as duas seitas evangélicas com mais seguidores na China. Os muito agressivos métodos de angariação ( e manutenção) de clientes da primeira, que resultaram na morte de 20 membros da sua rival, estão na base das condenações.