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16 de Setembro, 2004 André Esteves

Liberdade religiosa no mundo – 2004

O relatório anual do Departamento de Estado americano sobre a liberdade religiosa no mundo foi hoje publicado.

Resumindo: a mesma treta de sempre – os direitos dos crentes aqui e acolá, blah, blah, blah… Dos descrentes: nada.

Mais um documento para consumo dos crentes americanos, (uma nação sob Deus), para saberem para onde enviarem missionários e alimentarem o complexo «Eu sou melhor cristão, porque sofro por Cristo». No relatório sobre Portugal o Departamento de Estado americano aparentemente engana-se nos números, inflacionando o número de crentes protestantes. Provavelmente alguém na embaixada americana fala mais com os líderes da Aliança Evangélica e com os membros da comunidade Judaica do que lê o valor dos últimos censos…

Porrada em termos de direitos religiosos leva a Arábia Saudita (Considerando as amizades desta administração, até se tem alguma surpresa), mas sendo uma monarquia teocrática o que é que se podia esperar?

Podem ler tudo aqui [Inglês].

16 de Setembro, 2004 André Esteves

Padre Melícias em monólogo

Hoje liguei a televisão para ver notícias e eis que no segundo canal encontro o padre Malícias em directo. O homem não se consegue calar, sempre a interromper a jornalista. Deve ser a energia das jantaradas.

Bem.. Haviam de ver a quantidade de patranhas sobre o mutualismo que ele nos enfiou pelo ouvido.

Imagino que o irrequieto franciscano nunca tenha ouvido falar de Proudhon, dos mutualistas anarquistas e republicanas da 1ªRépublica, nem das instituições mutualistas que foram «roubadas» aos republicanos pelo fascismo. Hoje repousam na mão segura da igreja.

Conhecendo uma pessoa, que o conhece pessoalmente não me admira. Estar com o homem é aguentar um chorrilho de anedotas porcas. Mas nem isso seria um problema. O problema é que tem de ser sempre ele a contá-las… De onde virá esta mania do protagonismo?

Já considerei pôr o meu dinheiro no Montepio. Julguei que ainda mantinha algum espírito mutualista anarquista e republicano. Depois descobri que era controlado pelo Sr.Melícias.

Vade Retro Satanás!!

16 de Setembro, 2004 Ricardo Alves

Darwinismo em perigo na Sérvia-Montenegro

O ensino da teoria da evolução esteve em perigo na Sérvia-Montenegro. A Ministra da Educação, de seu nome Ljiljana Colic, tentou que a teoria da evolução não fosse ensinada no ano escolar que agora se inicia. Simultaneamente, recomendou que futuramente o darwinismo fosse ensinado a par do criacionismo. Segundo o biólogo Nikola Tucic, a decisão terá resultado de pressões da Igreja Ortodoxa Sérvia.

Felizmente, após uma reunião entre a ministra e o Primeiro Ministro Vojislav Kostunica, e num momento em que a imprensa balcânica cobria de ridículo a Ministra da Educação, o vice-ministro da Educação surgiu perante os jornalistas e anunciou que «Charles Darwin ainda está vivo», estando a Ministra «ausente em viagem de negócios».

A escola pública deve servir para transmitir conhecimentos e não para difundir crenças. Deve desenvolver o espírito crítico e o raciocínio lógico; não deve propagandear dogmas nem submeter os jovens a uma religião.

Notícia na BBC (português); Notícia na Laic.info (francês); Notícia na National Secular Society (inglês).

16 de Setembro, 2004 Carlos Esperança

Cristãos censuram livro

Desde 1961 que a Sagrada Congregação da Fé (ex-Santo Ofício da Inquisição), deixou de elaborar o Índex (lista de livros cuja leitura era proibida). Não foi por benevolência do cardeal Joseph Ratzinger, anacrónico guardião da moral e dos bons costumes, que a lista deixou de ser elaborada, mas por se ter tornado uma fonte de divulgação das obras censuradas.

Engana-se quem pensa que a ICAR se tornou tolerante de motu proprio. Só a falta do braço secular lhe moderou os ímpetos. «O Código da Vinci» acaba de ser proibido no Líbano pelos serviços de segurança, «na sequência de uma queixa apresentada pelas autoridades religiosas cristãs do país, escandalizadas com as referências privadas à vida de Jesus Cristo».

Com a mesma desculpa que é hábito dar para os crimes da Inquisição, o padre Abdo Abou Kasm, presidente do Centro de Informação Católica, diz que foi a Segurança que proibiu a obra, «depois de ter recebido a nossa resposta». «Chegámos à conclusão de que o livro ataca as crenças cristãs, afirmando que Cristo se casou com Maria Madalena e dela teve uma progenitura. Nós denunciamos estas tentativas de atacar as crenças cristãs e as de qualquer outra religião, sob a capa da cultura» – esclareceu o tolerante padre católico, para quem a censura e as perseguições, na defesa das crenças cristãs, deixam de ser crimes e tornam-se boas acções.

16 de Setembro, 2004 Carlos Esperança

Viva a República

Sob o título «Leis religiosas geram polémica» (título errado na edição online), escreve o Diário de Notícias: «Causaram profunda efervescência, na época, três leis emanadas do Governo Provisório da República: a da Separação entre o Estado e as Igrejas; a que permitiu o divórcio; e a que estabeleceu o Registo Civil».

A ICAR moveu-lhes uma luta obstinada. Fomentou o ódio, instigou arruaças e conjuras militares, denegriu, caluniou e combateu ferozmente o que hoje aceita. Negou os sacramentos e funerais religiosos a quem apoiasse a República, armas que à época aterrorizavam as pessoas, receosas do castigo de Deus, da chantagem dos padres e da reprovação social.

Convém referir que algum clero foi perseguido, algumas vezes de forma violenta, por condenável retaliação. Mas é interessante ver como leis tão justas foram combatidas com tanta brutalidade, só possível porque o catolicismo é um cristianismo rural que vingou nas aldeias, por entre regos de couves e leiras de feijão de estaca, adubado pelo espírito retrógrado de padres fiéis ao concílio de Trento. Como religião a ICAR é tão falsa como as outras, como ideologia é mais reaccionária que várias seitas protestantes, como veículo para a salvação é igualmente o caminho para lado nenhum.

O Portugal beato, rural e analfabeto é hoje um pesadelo do passado, graças à progressiva secularização, mas, há três quartos de século, foi o caldo de cultura onde germinou Salazar, esse génio da mediocridade que, para castigo do Povo, abandonou o seminário e transformou o País em sacristia.

A ICAR tem ainda um enorme poder que se exerce à sombra das sacristias, nos meandros da conferência episcopal, disfarçado em obras de assistência ou infiltrado no aparelho de Estado mas as leis da Separação entre o Estado e as Igrejas, a que permitiu o divórcio e a que estabeleceu o Registo Civil aí estão, desde 1911, como símbolo da modernidade de que a República Portuguesa foi pioneira.

Viva a República.

15 de Setembro, 2004 André Esteves

Imaginem o que eu ouvi…

…alguém afirmar que mesmo que não acreditássemos em deus, o melhor era comportarmo-nos como se nele crêssemos. Imagino que seja o que um padre pedófilo faz diariamente.

15 de Setembro, 2004 Carlos Esperança

Notas piedosas

Espanha – O arcebispo de Madrid e Presidente da Conferência Episcopal Espanhola oferece ajuda ao povo espanhol para exigir ao Governo que, «ao menos nas escolas públicas, se mantenha a opção académica do ensino da religião para os alunos cujos pais assim o peçam».

Comentário: O «Episcopado espanhol exige direito de escolha da disciplina de religião». Não é um direito que reclama, é uma obrigação que quer impor – o ensino da religião católica na escola pública. Este é o conceito de liberdade religiosa da ICAR.

A mulher na ICAR – Defendendo que o «Reconhecimento do papel da mulher na sociedade é indispensável», JP2 exalta, na mensagem dirigida às Religiosas do Amor Divino «o seu apostolado através da animação litúrgica, da catequese, da formação nos oratórios juvenis, nas escolas profissionais e nos laboratórios, da assistência nas casas-família para mulheres sozinhas com filhos e nos centros de acolhida e escuta para pessoas deficientes e marginalizadas».

Comentário: Estas são as tarefas que JP2 considera destinadas a elevar o papel da mulher na sociedade.

João Paulo II – JP2 assegura que «Deus guia a história humana, apesar da presença de satanás e do mal».

Comentário: Provavelmente desiludido com o comportamento do patrão, atribui as culpas do estado do Mundo à concorrência – Satanás e o Mal. A única boa notícia é que Deus não é o único responsável por tanta desgraça. O próprio papa tem algum mérito.

15 de Setembro, 2004 jvasco

Cepticismo na Scientific American

Já aqui alertei para o artigo Mustangs, Monists and Meaning da Scientific American sobre o «preconceito da alma».

Mais tarde, vim a descobrir que o mesmo autor escreve regularmente uma coluna, sempre dedicada ao tema do cepticismo.

Assim sendo, descobri lá uma lista de artigos sobre os seguintes assuntos:

Milagre na rua das probabilidadescomo ocorrências extraordinárias acontecem regularmente

O número de Deus é superiorquais as probabilidades de Deus existir?

Morte por teoriacomo o obscurantismo médico pode matar

E os restantes, que ainda não li.

15 de Setembro, 2004 Palmira Silva

Fundamentalismos

Um post do Boss no Renas e Veados alertou-me para a extensão do campo de acção dos auto designados grupos pró-vida (humana, claro) americanos à trivial pílula contraceptiva. Com o pretexto de que a pílula tem uma eficiência de 70% na inibição da ovulação e impede a implantação no útero de um possível óvulo fertilizado, farmacêuticos e médicos fundamentalistas recusam-se a fornecer ou prescrever o atentado às leis divinas do “crescei e multiplicai-vos” ao abrigo de recentes leis estaduais, que o permitem por razões morais.

Um dos principais sinais históricos que encontramos invariavelmente em épocas de crise é a adesão de pessoas a vertentes (religiosas ou políticas) que se caracterizam por um radicalismo extremo e uma inflacção do sentimento de pertença a um grupo que assuma o papel de protector e detentor da VERDADE ou MORAL absolutas. Um maniqueísmo exacerbado dos nós (os bons) e dos outros (os maus), do Bem contra o Mal.

Não subscrevo a tese do choque civilizacional de Samuel Huntington (que previa há uma década que este seria inevitável no pós guerra fria), mas acho que de facto o maniqueísmo ou lógica bipolar existente antes da queda do muro era um elemento aglutinador que prevenia a eclosão dos conflitos regionais a que agora assistimos e o ressurgimento dos fundamentalismos religiosos, a praga anacrónica do século XXI.

De certa forma, o vazio emocional que a queda do muro proporcionou, e que destruiu um meme ideológico e, por arrastamento, todos os memes ideológicos que se construiram por oposição, foi rapidamente ocupado pelo memeplexo sempre subliminar da religião

No caso da religião católica a resposta (muito rápida) foi um negar crescente do concílio Vaticano II. Procura-se agora restaurar a antiga ordem, fundada no casamento (incestuoso) do poder político com o poder clerical. Com uma integração de todos os elementos da sociedade sob a hegemonia do espiritual representado, interpretado e proposto pela Igreja Católica (mais uma vez com o seu expoente máximo no Papa, não mais um primum inter pares). O inimigo a combater é a modernidade, com as suas liberdades e o seu laicismo.

Este é apenas mais um caso recente em que a laicidade, neste caso no Direito, é ameaçado por fundamentalistas religiosos. Que só vem reforçar o meu post anterior…