[A menina foi submetida a dez dias de terapia intensiva e começou a fazer hemodiálise. Quando tudo parecia encaminhar-se para que melhorasse, contraiu uma infecção hospitalar. Para a curar da bactéria, os médicos precisavam de dar-lhe um antibiótico. Mas os rins podiam não aguentar o poder do medicamento.
Foi então, a 13 de Junho, que Alexandra Maria se ajoelhou junto à cama da filha, levou ao peito o livro «Memórias da Irmã Lúcia» e pediu à vidente que curasse a menina e a deixasse viver sem sequelas. Dias depois, a criança recuperou. «Fizeram análises e já não havia sinais da infecção, nem da doença», conta a mãe, salientando que até os médicos classificaram a cura de «milagre»]. (Correio da Manhã, 3/2/2006)
Como previsto, pelo Diário Ateísta, em 18 de Fevereiro do ano passado, no artigo «A canonização de Lúcia», a adjudicação de um milagre seria breve, apesar de, por hábito, a intercessão milagreira estar interdita a cadáveres menores de cinco anos.
O Vaticano prescindiu da cobrança dos 250 a 300 mil euros à postulação portuguesa, custo habitual de uma beatificação – excelente augúrio, tratando-se de dinheiro.
Menos de um ano depois, e antes de removido o cadáver, já chegaram às mãos do padre vice-postulador 13 quilos de milagres, em cartas, que referem graças recebidas.
E há um que não falha. É, pelo menos, a convicção do padre responsável pelo processo de canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto. «É uma cura sensacional, já por intercessão da irmã Lúcia depois da sua morte», disse o sacerdote.
O Diário Ateísta soube pelo Correio da Manhã, um jornal com excelentes relações com o divino e com o antigo director da PJ, que se chama Rosário André, tem quatro anos e vive na cidade de Salta, no Norte da Argentina, a menina curada em Junho de 2005 por intercessão da Irmã Lúcia.
A mãe da criança, Alexandra Maria, é uma grande devota de Nossa Senhora de Fátima e dos Pastorinhos.
Está, assim, em vias de ser reparada a injustiça, provocada pela longevidade, em que a Lúcia se atrasou no caminho da santidade, apesar de ser a única confidente da Virgem, que a aturava nas conversas, a via e lhe fazia os recados.
Graças à Lúcia, os portugueses criaram pelo terço uma loucura só hoje comparável à do Euromilhões, a Rússia começou o processo de conversão e JP2 levou um tiro por não ter previsto que o 3.º segredo era com ele.
É engraçada a forma como esta imagem traduz bem a polémica que causou

A transferência do direito divino para a soberania popular foi um pequeno passo para a democracia e uma grande decepção para o clero.
A liberdade é um bem cada vez mais escasso. Devassada pela insegurança dos Estados, ameaçada pelo medo e tolhida pelo fanatismo religioso, a liberdade precisa de quem a defenda contra tudo e contra todos.
A publicação destas caricaturas de Maomé desencadeou a ira do islão e os desacatos, ameaças e violências dos fanáticos do pastor de camelos. Amanhã seriam os cristão a combater esta alusão ao calvário de Cristo e a liberdade de expressão regressava às mãos dos padres e coronéis que na ditadura exerciam a censura à imprensa.
Temos na memória o trauma das perseguições da inquisição, a celeuma recente de um aconselhável preservativo colocado em sítio menos óbvio – o nariz de João Paulo II -, pelo cartoonista António e o assassinato de um médico por um pastor evangélico, na sequência da prática de um aborto, nos EUA.
Temos o direito de caricaturar Deus, como afirmava intemerato o jornal France Soir «OUI, on a le droit de caricaturer Dieu».
Se nos deixarmos tolher pelo medo, não tarda que o poder seja de novo confiscado pelo clero, que sempre reivindicou procuração divina, e que sejam postos em causa direitos, liberdades e garantias arduamente conquistados ao longo dos séculos.
Dar publicidade aos testemunhos de irreverência, humor e heresia não é provocação aos crentes, é um acto de cidadania em defesa da liberdade de criação, uma ousadia contra a chantagem, uma advertência de quem resiste ao medo, à violência e à chantagem.
Este artigo, publicado em simultâneo no Diário Ateísta e no Ponte Europa, é um acto de solidariedade para com todos os criadores artísticos, órgãos de comunicação social que os acolhem e países que não se vergam à histeria da fé e ao fascismo religioso.
É também uma forma de homenagear Salman Rushdie cuja condenação à morte nunca foi censurada pelo Vaticano.
Não faltam cobardes a dizer que «deve haver um certo cuidado» e que «talvez não tenha sido sensato». A pusilanimidade não conhece limites.
«O cardeal húngaro Laszlo Paskai, antigo arcebispo de Esztergom e de Budapeste, trabalhou para os serviços secretos comunistas nos anos 1960 e 1970, escreve esta quinta-feira o semanário húngaro Elet es Irodalom».
Trata-se mais de um agente duplo do que propriamente de um espião da União Soviética. Não se pode dizer que trabalhava para Deus e para o Diabo.
O KGB e o Vaticano eram duas centrais de intoxicação internacional.
Graças à confissão, o bondoso cardeal podia prestar um excelente serviço às duas multinacionais da repressão.
«Obviamente que sou solidário com os meus colegas Dinamarqueses» Zédalmeida
Bill Gates comprometeu-se a subsidiar um milagre para a Irmã Lúcia
A blasfémia não vai abater a liberdade de expressão da sociedade em que vivo. Eu, pelo menos, não faço tenções de deixar isso acontecer.
Como já há uns largos meses previ, o Vaticano veio em auxílio, (mal) disfarçado, claro, de outro católico exemplar, grande defensor de óvulos e espermatozóides, Silvio Berlusconi, que parte para as eleições de Abril próximo com uma clara desvantagem em relação ao seu opositor, que encabeça a coligação de centro-esquerda, Romano Prodi.
Não obstante dizer que a Igreja Católica não vai interferir nas eleições apoiando directamente, isto é, pelo nome, qualquer dos candidatos, o Cardeal Camillo Ruini, o eclesiástico máximo da Conferência de Bispos Italianos, afirmou que os eleitores italianos «deviam ter em consideração» assuntos como o aborto e o reconhecimento legal de uniões de facto homossexuais, vivamente condenados pelo Papa há uns dias, quando escolherem quem os vai governar nos próximos anos.
Considerando que Romano Prodi, social-democrata que foi presidente da Comissão Europeia, se declarou a favor do reconhecimento dos direitos legais dos casais que vivem em união de facto, hetero ou homossexuais, embora não pretenda permitir o casamento homossexual e que Berlusconi se tem desdobrado em aparições públicas com um discurso que mereceu a observação no Corriere della Sera que, aos 69 anos e casado em segundas núpcias, Berlusconi «aparentemente tornou-se um cristão tradicionalista do dia para a noite», não é muito difícil ver nas palavras do Cardeal um apelo ao voto em Berlusconi!
De facto, usando toda a máquina mediática que controla, Silvio Berlusconi tem reiterado ao vivo e a cores, sob o aplauso do Vaticano, que a sua coligação de centro-direita representa os «valores familiares» e como tal afirmou já o seu repúdio ao reconhecimento das uniões de facto. Para além disso, pretende limitar as importações da pílula Mifepristone, mais conhecida como RU486, num país em que o aborto é legal desde 1978, e prometeu colocar activistas pró-vida nos centros estatais de aconselhamento sobre o aborto. O discurso pré-eleitoral fundamentalista católico de Berlusconi já levou milhares de manifestantes a Roma e Milão reclamando, respectivamente, o reconhecimento legal de todas as uniões de facto e que não seja revogada a lei de 1978, referendada em 1981, que permite o aborto em Itália.
Entretanto as tentativas de conquistar o voto católico de Berlusconi atingiram contornos caricatos no fim de semana passado quando, em directo numa das quasi diárias aparições nas estações de televisão italianas, prometeu honrar o «ideal católico da castidade» abstendo-se de sexo até depois das eleições!
O Corriere della Sera realça no entanto que o voto de castidade temporária de Berlusconi surgiu depois de ele ter respondido «Sim, frequentemente» à pergunta do tele-pregador que o entrevistava se tinha sido fiel às suas mulheres…
Terminei o meu último artigo notando que o puritano é aquele que se horroriza com o facto de alguém, algures, procurar a felicidade de uma forma que ele não aprova. E acrescentei que o totalitário vai mais longe e tenta impedir que esse alguém, esteja onde estiver, faça algo que não afecta mais ninguém. A descrição serve tanto para o Islão como para o catolicismo: são dois exemplos de religiões totalitárias. E é pertinente neste caso: existe um preconceito social enraizado, de inspiração religiosa, contra os adultos que mantêm entre si relações sexuais que muito poucos praticariam, mas que não afectam mais ninguém. E existe uma resistência irracional, também de origem religiosa, a que essas pessoas oficializem perante o Estado uma união estável.
No Portugal da Inquisição (se me é permitido falar da Inquisição…) o totalitarismo católico foi levado às últimas consequências: mesmo no espaço familiar e privado era proibido praticar outra religião que não aquela que detinha o poder político e público. A prisão de António José da Silva, por exemplo, deu-se quando uma escrava de casa descobriu que o seu amo respeitara alguns rituais judaicos, em segredo e atrás das portas fechadas da sua residência. O dramaturgo morreu na fogueira.
As religiões atrás referidas reunem no mesmo sistema uma cosmovisão e uma ética (o que é legítimo e não aborrece ninguém), mas as igrejas que as representam laboram para impor essa ética por via política (a cosmovisão já não aguenta o confronto com a ciência). Se tivessem o campo inteiramente livre, mesmo o nosso espaço privado seria escrutinado e controlado para que se aferisse da correcção religiosa do nosso comportamento pessoal. E no entanto, as igrejas poderiam falar apenas para os seus. No caso do casamento de pessoas do mesmo sexo, até seria melhor que evitassem pronunciar as excomunhões e anátemas habituais. Não os prejudica e nem sequer os afecta: não é nada com eles. E, no dia em que passar a ser uma escolha banal, também não será nada connosco.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.