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26 de Junho, 2006 Carlos Esperança

Timor e a religião

Timor está à beira da guerra civil e do ensino obrigatório da religião católica.

Não faltam armas nem padres.

26 de Junho, 2006 jvasco

Gunther é inocente?

Imaginemos uma aldeia isolada onde vivem cerca de 300 pessoas.

Uma delas é Gunther, um poderoso feiticeiro dotado de enormes poderes de presciência.

Na verdade, Gunther é tão poderoso, que até se sente capaz de criar vida humana, livre, do nada. Como sempre foi totalmente respeitador da Liberdade alheia, se as criar, cria-las-á livres, sem qualquer intenção de que estas vão fazer isto ou aquilo.

No dia 17 de Junho ele decide usar este seu poder. Ocorre-lhe criar o cego Matias, ou então a Maria, ou então o Alberto.

Devido à sua presciência, Gunther sabe que se criar o cego Matias, este cego, livre, usará a sua Liberdade para matar 100 aldeões. Se criar o cego, Gunther não terá esse propósito, mas ele sabe que isso é o que se sucederá.

Gunther também sabe que se criar Ana ou Alberto, eles não matarão ninguém. Poderão fazê-lo, claro, porque são livres, mas Gunther sabe que escolherão livremente não o fazer.

Gunther escolhe criar o cego Matias, e este mata 100 aldeões. Os aldeões que sobraram, desgostosos com a morte de seus familiares, juntam-se e arrastam-no para Tribunal: dizem que a sua decisão de criar Matias resultou na morte de 100 pessoas.

E o leitor? Acha condenável a decisão de Gunther?

Gunther está desolado. Sempre soube que o cego seria apanhado e torturado até à morte, como consequência das suas acções, e ele tem um enorme amor pela sua criação. Mas insiste que é inocente: a decisão foi do cego, mesmo que este último deseje ardentemente nunca ter existido, e mesmo que a decisão de o criar tenha pertencido a Gunther.

25 de Junho, 2006 Palmira Silva

Igreja Católica e Holocausto – Divini Redemptoris

À esquerda: Assim falou Cristo: primeira página da publicação nazi Der Stuermer. O cartoon representa a Juventude Hitleriana em marcha para escorraçar as forças do mal. Na legenda da figura lê-se «Com a vossa fé correrão com o Diabo da terra». À direita «Heil ao Führer de todos os alemães!» primeira página do German Deacons’ Gazette, Abril de 1939, isto é, depois da Krystalnach (noite de Cristal) e mais atrocidades do regime nazi terem sido cometidas.

É didáctico comparar a encíclica «Com ardente inquietação» com a Divini Redemptoris, «sobre o Comunismo ateu», publicada 5 dias depois.

Nesta encíclica não são necessários quaisquer dotes de imaginação (católica) para ler nas palavras do Papa uma condenação vívida «do comunismo, denominado bolchevista e ateu, que se propõe como fim peculiar revolucionar radicalmente a ordem social e subverter os próprios fundamentos da civilização cristã».

Ameaça perante a qual «não podia calar-se nem de facto se calou a Igreja Católica. Não se calou esta Sé Apostólica, que muito bem conhece que tem por missão peculiar defender a verdade, a justiça e todos os bens imortais, que o comunismo despreza e impugna».

No entanto, esta Sé apostólica com os predicados que Pio XI reclama não debitou uma única palavra de condenação quer ao fascismo quer ao nazismo, certamente por não constituirem ameaça para os «bens imortais» defendidos pela Igreja.

De facto, nenhum Papa se deu à maçada de fazer para as ideologias nazi e fascista o que ocupa as muitas páginas desta enciclica: uma exposição dos «princípios do Comunismo ateu, como se manifestam principalmente no Bolchevismo, e os seus métodos de acção» a que se segue a exposição da «Necessidade de Recorrer a Meios de Defesa» para combater o «satânico flagelo bolchevista».

Muito menos sentiu a santa madre igreja a necessidade de lançar em relação ao nazismo «um angustioso apelo às forças morais e espirituais» para o combate ao «mal de natureza espiritual» «fonte» de «que brotam, por uma lógica diabólica, todas as monstruosidades do comunismo», combate para que a mesma Igreja a «bem da humanidade, exige que não se ponham obstáculos à sua actividade».

Isto é, esta encíclica, que denuncia os «erros dos comunistas» já condenados explicitamente pelos seus antecessores, reflecte a «Necessidade de Um Novo Documento Solene» que explique claramente que «O Comunismo é intrinsecamente perverso, e não se pode admitir, seja em que terreno for, qualquer colaboração com ele, da parte de quem queira salvar a Civilização cristã».

Nunca algo remotamente análogo foi dito em relação ao nazismo!

Assim, são muito pertinentes as questões levantadas por Alfredo Pimenta no seu artigo de 1944:

«Pergunto aos homens de boa fé, aos espíritos desapaixonados, às inteligências lúcidas e críticas: há comparação possível entre as duas Encíclicas? (…) Na luta actual, um católico não pode optar, sem perigo de consciência, pela vitória do Reich nazista, contra a Rússia comunista? Na luta actual, não tem o católico o dever de desejar a vitória da Alemanha contra a Rússia?

O Episcopado britânico proclamou, em 29 de Novembro de 1936: ‘um católico não pode ser comunista, e um comunista não pode ser católico’. Quando disse o Pontífice, em sua Encíclica ou fora dela, que um católico não pode ser nacional-socialista, e um nacional-socialista não pode ser católico?

O Episcopado alemão proclamou em 24 de Dezembro de 1936: ‘O Führer e Chanceler Adolfo Hitler viu vir de longe o Bolchevismo, e consagrou-se a afastar este perigo terrível para o nosso povo alemão e para todo o Ocidente. Os bispos alemães entendem que lhes cumpre ajudar nesta o Chefe do Reich alemão com todos os meios sagrados de que dispõem’».

25 de Junho, 2006 Palmira Silva

Igreja Católica e Holocausto: Com ardente inquietação

Eugenio Pacelli (depois Pio XII) assina a Concordata entre a Alemanha nazi e o Vaticano numa cerimónia formal em Roma, realizada em 20 de Julho de 1933. Na fotografia, à esquerda de Pacelli senta-se o vice-chanceler nazi Franz von Papen; à direita Rudolf Buttmann, o embaixador alemão junto do Vaticano.

«Ninguém pensaria em impedir os jovens alemães de estabelecer uma verdadeira comunidade étnica, [baseada] num amor nobre da liberdade e lealdade ao seu país. Aquilo a que objectamos é o antagonismo voluntário e sistemático entre educação nacional e dever religioso»(…)
«Praticada com moderação e dentro de limites, a educação física é uma benesse para a juventude. Mas tanto tempo é agora dedicado a actividades desportivas que o desenvolvimento harmonioso do corpo e do espírito é esquecido e a observação do dia do Senhor negligenciada. (…) Mas esperamos da juventude católica, nas organizações mais favoráveis do estado, que mantenha o seu direito à santificação cristã do domingo».

Este é o conteúdo do ponto 34 da encíclica Mit brennender Sorge, (Com ardente inquietação, restrita à situação da Igreja no Reich, mais nada é abordado nela) de 14 de Março de 1937, «sobre a situação da Igreja Católica no Reich alemão» – «uber die Lage der katolischen Kirche im Deutschen Reich», a tal que é suposta condenar «o racismo nazista de modo solene». Só mesmo uma ardente imaginação permite concluir algo remotamente parecido desta encíclica, que tal como a análoga italiana «Não havia necessidade», reflecte apenas as quezílias inevitáveis entre instituições totalitárias: a Igreja e o Estado, nazi e fascista, respectivamente na Alemanha e em Itália.

As nuvens que toldavam um entendimento de outra forma perfeito tinham a ver com o domínio absoluto e exclusivo sobre certos sectores da sociedade, nomeadamente a educação dos jovens, que quer Estado quer Igreja consideram da sua competência. Em ambas as enciclicas Pio XI reclama uma fatia maior na doutrinação dos jovens, que ele vê usurpada pelo Estado dos dois países, não obstante verberar que tal é garantido pelas Concordatas assinadas entre o Vaticano e a Alemanha nazi e Itália fascista.

A encíclica «Com ardente preocupação», que se inicia relatando as dificuldades encontradas pelo Vaticano nas negociações da Concordata, acusa as autoridades alemãs de violar os termos da dita, especialmente, claro, no que diz respeito à educação. Referindo que existe uma «campanha contra as escolas confessionais, garantidas pela Concordata» responsável pela «extrema gravidade da situação, e da ansiedade de todas as consciências cristãs» coarctadas «do direito de uma educação católica aos seus filhos». Isto é, o que preocupa Pio XI e ele denuncia vivamente, nem sequer remotamente tem a ver com a situação dos judeus ou outros grupos perseguidos, apenas com … o proselitismo católico, que considera ameaçado!

De qualquer forma, o Sumo Pontífice expressa a sua esperança de que se «retorne à fidelidade aos tratados [Concordata] e a qualquer arranjo que seja aceitável ao episcopado». Mas este arranjo aceitável ao episcopado tem a ver apenas com a situação da Igreja católica, não há qualquer condenação de doutrinas ou ideologias, nem qualquer declaração de incompatibilidade do nazismo com o catolicismo. Mais uma vez temos apenas uma condenação de situações pontuais, relacionadas com a Igreja, que o Papa espera serem obviadas com a encíclica.

Aliás, a encíclica, na realidade um longo queixume do Papa, nem sequer menciona ideologias políticas ou algo que não seja relacionado com a perda de poder da Igreja, são necessários grandes dotes de imaginação (católica) para ver nela qualquer combate, ataque ou condenação à ideologia nazi.

Como escreveu Alfredo Pimenta, num artigo publicado em «A Nação» a 16 de Março de 1944 (um longo excerto do artigo pode ser encontrado aqui):

«A Encíclica Mit brenennder Sorge termina por palavras de esperança em melhores dias que deverão ser aproveitadas ‘na luta contra aqueles que negam Deus e arruinam o Ocidente cristão’ – ou seja o Comunismo! E tanto que o Osservatore Romano de 22 e 23 do mesmo mês de Março afirma não acreditar que houvesse um alemão que não apreciasse o desejo do Pontífice de ver a Alemanha ‘no seu lugar de honra entre as nações cristãs contra o satânico flagelo bolchevista’».

(continua)
25 de Junho, 2006 jvasco

Os ateus são maus?

Penso que este pequeno video foi feito a pensar no público americano, mas não deixa de ser muito interessante dar uma vista de olhos:

24 de Junho, 2006 Palmira Silva

Igreja Católica e Holocausto – Não havia necessidade

Mussolini com os pios Pios, versão Diego Rivera e versão ao vivo.

Para além da extinção da Acção Católica, a encíclica Non Abbiamo Bisogno – que se pode traduzir livremente por «Não havia necessidade» – carpe a diminuição da importância da igreja no proselitismo de crianças e jovens. Lavagem cerebral desde a tenra infância transferida para o Estado fascista, que segundo Pio XI, «monopolizando completamente os jovens, desde os seus mais tenros anos até à idade adulta, para o benefício exclusivo de um partido e de um partido baseado numa ideologia que claramente se revela numa verdadeira adoração pagã do Estado» «proíbe as pequenas crianças de irem para Jesus Cristo».

Ou seja, Pio XI, condena essencialmente Mussolini (e Hitler) por este pôr lado a lado a desejada idolatria da Igreja Católica com a «Estatolatria», expressa concisamente na máxima fascista: Tutto nello Stato, niente al di fuori dello Stato, nulla contro lo Stato (Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado). Ou seja ainda, é «uma injustificável pretensão que é irreconciliável com o nome e a profissão de fé católica, ensinar à Igreja e ao Papa o que é suficiente ou deve ser suficiente para a Educação e formação cristã da alma», isto é, decidir a quantidade de proselitismo que a Igreja pode levar a cabo nas instituições públicas, violando assim «outro direito da Igreja igualmente inviolável», o direito ao proselitismo exclusivo e ilimitado .

Relembrando que «é um erro grave e desastroso» acreditar e passar a mensagem que é suficiente «a instrução religiosa dada nas escolas e a presença de padres nas Associações de Juventude do Partido [Fascista]. As duas são certamente necessárias».

Mas «não são suficientes», apenas permitem à Igreja «o mínimo da sua efectividade espiritual e sobrenatural» já que são conduzidas numa «concepção de Estado que faz com que as gerações em crescimento pertençam a ele [Estado] inteiramente, sem alguma excepção» o que não pode «ser reconciliado com a doutrina católica ou com os direitos naturais da família», que reinvidicam esse privilégio para a Igreja, acrescentando que «não é possível a um católico aceitar a pretensão de que a Igreja e o Papa se devem limitar às práticas exteriores da religião».

Mas Pio XI esclarece que «Nós não dissemos que queremos condenar o partido [fascista]». Muito longe disso. De facto «Nós realizámos um bom trabalho em prol do partido [fascista]» e «Já dissemos que conservamos e conservaremos uma lembrança e uma eterna gratidão pelo que foi feito em Itália pelo bem da religião [católica, claro]».

O Papa queixa-se apenas da «ingratidão» dos fascistas italianos a quem, como Pio XI recorda, lhes concedeu todo o apoio, e agora querem limitar o poder da Igreja. Mas deixa o aviso que, para se impor num país de cultura católica como a Itália, o fascismo não pode hostilizar a Santa Sé. «Que interesse e que sucesso pode ter um partido, num país católico como a Itália, mantendo no seu programa, ideias e práticas que não podem ser reconciliadas com a consciência católica?».

Porque a alegação de que «A Itália é um país católico mas anti-clerical» é uma blasfémia já que «ninguém está nesta única Igreja de Cristo e ninguém nela permanece a não ser que, obedecendo, reconheça e acate o poder de Pedro e de seus sucessores legítimos». (Encíclica Mortalium animos, de 6 de Janeiro de 1928)

Assim, Pio XI expressa a sua «esperança confiante» de que tais ideias e práticas sejam abandonadas e assim seja devolvido à Igreja o que é dela por «mandado divino»: «a educação e formação cristã dos jovens» que ela [Igreja] «deve sempre reclamar com uma insistência e intransigência que nunca pode cessar ou enfraquecer».

Ou seja, a encíclica exprime o desejo de convivência do Vaticano com o regime fascista e expressa uma condenação não de doutrinas mas de acções pontuais que limitam a influência da Igreja Católica, «a depositária infalível da verdade».

Em relação às perseguições feitas a Judeus e outros grupos, as encíclicas Non abbiamo bisogno e Mit brennender Sorge e são completamente omissas, com uma «honrosa» excepção, na primeira, para louvar a perseguição movida pelos fascistas italianos ao «socialismo e organizações anti-religiosas» naquele país.

Pouco depois da publicação da enciclica «Não havia necessidade», Mussolini cede à pressão do Vaticano e à pressão internacional que a extinção da Acção Católica italiana despoletou e esta volta em força à cena política italiana.

Em 1932, Pio XI recebe Mussolini por ocasião da celebração do décimo aniversário da sua tomada de poder e confere-lhe a l’Ordine dello Speron d’Oro. Mussolini retribui agraciando Eugenio Pacelli, núncio apostólico na Alemanha de Hitler e futuro Pio XII, com o Collare dell’Annunziata, a mais alta condecoração da casa de Sabóia, abolida com a implantação da República em 1946.

24 de Junho, 2006 Palmira Silva

Igreja Católica e Holocausto – Itália II

No início dos anos 20, o Partido Popular estava prestes a formar uma coligação com o partido reformador que poderia ter estabilizado a política italiana e frustrado a tomada de poder por Mussolini. Mas nessa altura Bento XV morre e é eleito Pio XI, o Cardeal Ratti que tinha seguido atentamente o percurso do Partido Fascista.

A 2 de Outubro de 1922, o Papa Pio XI fez circular uma carta ordenando ao clero para que deixasse claro que não se identificava com o Partido Popular, o que na prática cortou qualquer oposição a Mussolini. No seguimento da ascensão de Mussolini ao poder, nesse mesmo ano, o secretário de estado do Vaticano, o cardeal Gasparri, encontrou-se em segredo com Il Duce no início de 1923, encontros em que discutiram o partido católico, que Mussolini via como um obstáculo ao domínio fascista.

Em 1924, no seguimento do assassinato do líder do Partido Socialista por fascistas, o Partido Popular juntou-se ao partido socialista na exigência de que o rei demitisse Mussolini como primeiro-ministro, e afirmou o desejo de formar um governo de coligação. Pretensão cortada cerce por Pio XI que não demorou em avisar os católicos que tal era estritamente proíbido pela lei «moral», já que é um pecado a colaboração com o mal e o socialismo era um mal maior. O Vaticano ordenou a todos os padres para abandonarem o Partido Popular. Esta posição da Igreja levou à desintegração do partido, de implantação principalmente nas áreas rurais onde o partido assentava nas estruturas eclesiásticas.

Na sua primeira encíclica, um manifesto político datado de Dezembro de 1923, «Ubi arcano Dei consilio» (Onde está o plano oculto de Deus), Pio XI, que considera dever o catolicismo permear todas as actividades humanas, apresenta a Acção Católica quasi como panaceia universal para os males do mundo, proeminentes entre eles o «modernismo moral, legal e social».

Modernismo que não reconhece nem «a posição na sociedade que Ele em pessoa atribuiu à sua Igreja», a única instituição que «pode conceber leis internacionais em harmonia com o mundo» tal «como na Idade Média», nem que «A própria origem e natureza divina da soberania da Igreja exige» que a Igreja jamais «seja sujeita a alguma autoridade ou lei, qualquer que esta seja, mesmo que essa lei seja uma que proclama certas garantias para a liberdade do pontífice romano».

Modernismo que Mussolini se encarrega de eliminar de Itália quando em 1926 declara ilegal e dissolve o então irrelevante partido católico e cumpre a sua ambição: impõe em Itália, com o apoio explícito do Vaticano, a primeira ditadura fascista. Também em Outubro de 1926 Pio XI e Mussolini dão início às negociações que culminam com a assinatura do tratado de Latrão em 11 de Fevereiro de 1929, que cumpre integralmente as exigências, políticas e não só, de Pio XI, expressas no «plano oculto de Deus». Assim, não só é criado o estado soberano do Vaticano como o catolicismo é declarado a religião oficial do país, o ensino religioso passa a ser obrigatório nas escolas italianas e é proibida a admissão em cargos públicos dos sacerdotes que abandonassem a batina. Para além disso, é oferecido uma indemnização monetária vultuosa a Pio XI, supostamente pela perda da soberania nos Estados Pontifícios.

Em 31 de Outubro de 1926, o legado pontifical Cardeal Merry del Val, declara publicamente:

«Os meus agradecimentos vão para ele (Mussolini) que segura nas mãos o governo de Itália, que, com uma visão clara da realidade, desejou e deseja que a religião seja respeitada, honrada e praticada. Visivelmente protegido por Deus ele melhorou visivelmente a sorte da nação, aumentando o seu prestígio no mundo».

24 de Junho, 2006 Palmira Silva

Igreja Católica e Holocausto – Itália


«Devemos-nos perguntar se a perseguição do nazismo contra os judeus não teria sido facilitada pelos preconceitos anti-judaicos existentes em alguns corações e mentes cristãos». – Cardeal Edward Cassidy – Nós lembramos – uma reflexão sobre o Shoah, 1998.

Neste documento oficial do Vaticano, que supostamente é um me(i)a culpa da ICAR em relação ao Holocausto é afirmado, entre inúmeros outros revisionismos descarados da História para limpar a imagem da Igreja, que «o Papa Pio XI condenou o racismo nazista de modo solene na Encíclica Mit brennender Sorge, que foi lida nas igrejas da Alemanha no Domingo da Paixão de 1937, iniciativa que provocou ataques e sanções contra membros do clero».

Na realidade a referida encíclica, assim como a enciclica Non Abbiamo Bisogno de 29 de Junho de 1931, igualmente referida pelos revisionistas católicos como críticas dos regimes nazi e fascista respectivamente, são críticas restritas às acções que limitaram a imiscuição, política e não só, da Igreja Católica nos respectivos países.

Por outro lado, como indica a historiadora Susan Zuccotti1 , não obstante os artigos anti-judeus no jornal oficial do Vaticano, L’Osservatore Romano, terem desaparecido durante o papado de Pio XII, eram muito frequentes até finais dos anos 30, revelando abertamente os «preconceitos anti-judaicos» existentes nos corações dos papas da época.

A pesquisa exaustiva da historiadora indica ainda a reticência do L’Osservatore Romano em referir sequer as atrocidades do regime nazi, nunca mencionadas. Mesmo depois da libertação de Roma em 1944 o jornal do Vaticano nunca mencionou o genocídio levado a cabo pelo regime nazi. No entanto, todas as letras foram poucas para denunciar as agressões soviéticas.

Depois da extradição, em 16 de Outubro de 1943, de 1 259 judeus romanos, mesmo debaixo do nariz do Papa, que não mexeu alguma vez um dedo em defesa dos judeus italianos, apenas é referida a caridade universal do Papa, sem distinção de «nacionalidade, religião ou ascendência» e em Dezembro do mesmo ano aparece um débil artigo, inconsequente, que objecta contra a prisão de judeus… por italianos. A intervenção nazi nunca é mencionada!

Na sequência da série de posts sobre o Holocausto, e dado a recorrência com que as referidas encíclicas são utilizadas na defesa da Igreja, certamente por quem sabe que a maioria dos que aceitam esta lavagem da História nunca as irá ler, retomo o tema com a análise da encíclica de 1931.

Uma vez que esta se inicia com uma crítica dura da extinção da Acção Católica (e de grupos das organizações de juventude católica a ela ligados) é necessário enquadrar politicamente esta extinção. Que teve cariz essencialmente político porque alguns dos seus dirigentes tinham sido igualmente dirigentes do partido católico, o Partido Popular, opositor do Partido Fascista no início da «carreira» deste último e perseguido, por vezes sangrentamente, por Benito Mussolini. Pio XI, que nunca referiu ou condenou as atrocidades cometidas pelos fascistas contra os católicos de cor política «errada», logo nos primeiros parágrafos da encíclica apressa-se a relembrar o papel fundamental que o Vaticano e ele próprio, Pio XI, tinham tido na ascensão de Mussolini e do Partido Fascista.

De facto, Bento XV decretou em 1919 que ninguém que tivesse ocupado uma posição de responsabilidade no Partido Popular poderia ocupar qualquer cargo directivo no que viria a ser uns anos mais tarde a Acção Católica, uma organização supostamente não política sob o controlo directo dos bispos, que traça a sua origem a 1867, na Sociedade da Juventude Católica Italiana, aprovada no ano seguinte por Pio IX.

A organização foi proibida pelo Vaticano de participar na política e deste modo não lhe era permitido opor-se ao regime fascista. Pio XI, o criador da Acção Católica que configurou e nomeou, ordenou posteriormente a todos os católicos que se juntassem à Acção Católica. Como consequência, centenas de milhares de católicos italianos trocaram o Partido Popular pela Acção Católica, deixando aberto o caminho ao «Homem da Providência» (como se referiu Pio XI em relação a Mussolini, em 20 de Decembro de1926).

Homem enviado pela Providência divina, porque, como o então arcebispo Roncalli, depois João XXIII, proferiria em 1939 (Mons. Roncalli, Carta à família, em 25 /12/39, apud Hebblethwaite, Giovanni XXIII, Rusconi Milano, 1989, p. 230).
«Benditos nós em Itália. Desta vez é preciso mesmo dizê-lo: há uma mão que guia o Duce pelo bem dos italianos. Eu creio que Deus queira recompensar governantes e súbditos pela paz feita com a Igreja (…) E é preciso que sejamos reconhecidos a Mussolini. Quantos homens de Estado houve na Itália antes dele! Os Papas sempre estiveram dispostos à conciliação, mas sempre faltou o homem capaz de lhes corresponder da parte do Estado».

1 – Susan Zuccotti, «L’Osservatore Romano and the Holocaust, 1939-1945»
Holocaust and Genocide Studies – Volume 17, Nº 2, 2003, pp. 249-277, Oxford University Press