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2 de Setembro, 2006 Palmira Silva

Erradicar a pobreza: uma agenda ateia

A presidente do Beverly LaHaye Institute (instituição com o nome da esposa do devoto Tim Lahaye, autor da série Left Behind), integrante da organização de extrema-direita teocrata «Concerned Women for America» (CWFA)- por sua vez intimamente ligada à Focus on the Family – atacou recentemente o National Council of Churches por, imagine-se, esta organização de esquerda, com ligações perigosas a Cuba, pretender a ignomínia de alimentar pessoas com fome em vez de lhes pregar os Evangelhos!

Janice Shaw Crouse, nomeada por Bush para as Nações Unidas, acusa a NCC de tentar erradicar a pobreza no mundo aderindo aos Millennium Development Goals das Nações Unidas, implicando que a salvação do Mundo será conseguida via ONU e não através de Cristo!

«A NCC submete-se à liderança de uma entidade secular que oferece soluções utópicas, em vez de soluções bíblicas, aos problemas do mundo. Adicionando insulto à injúria a NCC usa os seus membros como soldados que cumprem a agenda da ONU [erradicar a pobreza] pelo Mundo». Uma agenda de esquerda que pretende substituir a Bíblia!

Completamente inadmissível e anti-cristão! Um cristão quando alimenta alguém com fome tem não só que evangelizar devidamente esse alguém como frisar que o faz em nome de Deus! Esta ideia peregrina da NCC de colaborar com a ONU é uma ofensa a Deus! Para além de constituir uma ameaça aos interesses norte-americanos, como se viu na história inadmíssivel da NCC em Cuba!

Alimentar os pobres e combater a pobreza é, na opinião da fundamentalista cristã, uma experiência devotada ao insucesso e na qual não se deve investir nem mais um cêntimo! A única solução admissível é

«trabalho missionário, em que se envia pessoas para países que nunca ouviram falar do Evangelho e quebra-se o círculo da pobreza oferecendo às pessoas a esperança de Jesus Cristo»!

Ou seja, combater a pobreza é mau – perde-se clientela – especialmente mau se for via as ateias solidariedade e filantropia e não caridade cristã. O que é preciso em vez de pão é alimentar os desgraçados com fábulas e mitos e promessas ocas de uma vida melhor no «Álem»!

1 de Setembro, 2006 Palmira Silva

Quem sofre de confusão moral e intelectual?

Esta imperdível peça de Keith Olbermann foi a merecida reacção do conhecido comentador ao discurso de dia 29 de Agosto à convenção nacional da Legião Americana em Salt Lake City do secretário de estado da Defesa dos Estados Unidos, Donald H. Rumsfeld. Rumsfeld acusou todos os que questionam as políticas da administração Bush em relação à guerra do Iraque em particular e ao combate «ao eixo do mal» em geral de enfermarem de «confusão moral e intelectual».

Queixando-se dos baralhados «morais» nos media americanos, que, imagine-se, deram mais importância aos abusos verificados em Abu Ghraib que ao facto de o sargento Paul Ray Smith ter ganho a medalha de honra (sic), Rumsfeld verberou que esta confusão intelectual lhes impede a apreensão das lições da História, nomeadamente no que respeita à ascensão ao poder de Hitler.

Absolutamente imperdível a crítica de Olbermann! Não há mais nada a acrescentar! Para não perderem pitada, podem ver a transcrição aqui!

1 de Setembro, 2006 Carlos Esperança

As máfias de Deus e as outras

É conhecida a religiosidade dos mafiosos sicilianos bem como de agentes de profissões análogas, como passadores de droga, traficantes de armas e proxenetas, meros exemplos da harmonia entre o crime e a superstição.

Quando, há algum tempo, a cantora pop Madonna foi à Rússia e se fez coreografar numa cruz logo as poderosas máfias autóctones a intimidaram e chantagearam com ameaças aos dois filhos e marido.

Surpreende os incautos ver máfias e Vaticano do mesmo lado da barricada, defensores dos bons costumes e do respeito pela iconografia de que a religião se apropriou.

Entre 1979 e 1982, cinco cardeais referidos no inquérito do IOR (Banco do Vaticano) e do Banco Ambrosiano, com a média de 69 anos de idade e gozando todos de boa saúde, esqueceram-se de respirar. Sucedeu-lhes o mesmo que a João Paulo I cuja imprudência de revelar que iria fazer um inquérito ao IOR logo alertou Deus para a necessidade de o chamar à sua divina presença, como soe dizer-se em jargão religioso.

Em vida de João Paulo II, enquanto foi possível conservá-lo, a Santa Aliança (agência de espionagem do Vaticano) teve um papel muito activo na venda de armas à Argentina, durante a Guerra das Malvinas, no desvio de fundos do IOR para o «Solidariedade», de Lech Walesa e na lavagem de dinheiro da droga e de outras pias actividades.

O arcebispo Paul Marcinkus, Roberto Calvi, Licio Gelli e Michele Sindona, este último lavava dinheiro de heroína, tiveram uma relação íntima com Paulo VI, João Paulo II e cardeais da Cúria num triângulo que envolvia o IOR, o Banco Ambrosiano e a falsa loja maçónica P-2.

Foi Licio Gelli quem apresentou Somoza a Roberto Calvi. A Nicarágua converteu-se em refúgio seguro para o dinheiro «B» do Vaticano e o IOR, em troca, pagou grandes somas ao ditador.

A falência do Banco Ambrosiano só não causou maiores danos ao Vaticano porque são antigas as nódoas e tão frequentes que qualquer canonização lhes serve de lixívia. Mas custou muito dinheiro ao Papa.

Fonte: A Santa Aliança – Cinco séculos de espionagem do Vaticano, de Eric Frattini.

1 de Setembro, 2006 Palmira Silva

Darwin e os esqueletos do catolicismo


Em Novembro último escrevi, a propósito das afirmações de então de Bento XVI, que prenunciavam a sua cruzada contra a «ateísta» evolução, que estas afirmações:

«Indicam que, na conjuntura actual, o Vaticano se sente com força política para iniciar uma guerra contra a ciência e os ateus cientistas que, se não for travada imediatamente, terá como desfecho um retrocesso civilizacional que nos fará regredir ao obscurantismo medieval tão aclamado pela Igreja. Ou seja, a ciência, completamente incompatível com quaisquer revelações divinas, é extremamente perigosa para a fé já que pode dar respostas ‘materialistas’ sobre os ‘mistérios» da vida’. A ciência, os ‘ateus’ cientistas e os seus produtos como sejam o execrado ‘humanismo ateu’, são, como há vários meses previ, o inimigo em que assestam as baterias do Vaticano, já que ameaçam a sua hegemonia integrista.»

A guerra do Vaticano contra a ciência inicia-se oficialmente hoje com o seminário em que Ratzinger e os seus teólogos de estimação – os seus ex-alunos – vão pomposamente examinar a evolução, como se tivessem alguma autoridade ou competência para isso, seminário cuja conclusão anunciada pode ser encontrada nas páginas virtuais da Agência Ecclesia.

Tirando a pontuação, a prosa escolhida para dar título à notícia é de facto um retrato fiel da realidade «Darwin e o Génesis: regresso ao passado».

Com a longa prática da ICAR em distorcer a ciência quando tal lhe convém, o artigo da Agência Ecclesia prepara o caminho para a conclusão das lucubrações obscurantistas do dito seminário com barbaridades acéfalas tais como:

«O desenho inteligente, por outro lado, é uma teoria científica que não se opõe à ideia de evolução, mas ao mecanicismo neodarwinista (nem é a única alternativa ao neodarwinismo)».

Em primeiro lugar, e como há uns anos o Diário Ateísta vem explicando, a IDiotia NÃO é uma teoria científica, aliás é completamente anti-científico, não se vislumbrando na IDiotia qualquer resquício científico que contamine a pureza obscurantista do pensamento cristão dos seus proponentes; sequer qualquer resquício da honestidade intelectual indispensável ao pensamento científico. A IDiotia, como os seus proponentes admitem, é uma forma disfarçada de criacionismo, mais concretamente «Nós acreditamos que o [Desenho Inteligente] movimento ajuda o movimento do criacionismo bíblico porque faz com que as pessoas se apercebam da parvoíce da teoria da Evolução».

Tudo o que os IDiotas se limitam a debitar são protestos de que o mundo biológico é demasiado complexo para ter evoluído e como tal é necessário postular um criador. E, claro, debitam estridentemente lamúrias de cristianovitimização em que carpem supostas teorias da conspiração urdidas pelos «satânicos» darwinistas para impedir o progresso teológico científico da «teoria». E debitam contestações assaz imbecis das evidências experimentais que comprovam a macroevolução (evolução de uma espécie para outra que os IDiotas negam), como por exemplo em relação ao Tikataalik rosae.

Ou seja, os IDiotas não produziram um único modelo, uma única hipótese para a sua suposta teoria «científica», que reclamam nada ter a ver com religião e que afirmam rebater completamente o «ateísta» (e para alguns satânico) evolucionismo. Com excepção, claro, do hilariante e completamente cretino modelo de origem e evolução das espécies com base em anjos, demónios e demais mitologias.

Em segundo lugar, e comprovando a total incompetência e ignorância científica dos IDiotas da ICAR, que em matéria de ciência estão século e meio atrasados, confundem evolucionismo com darwinismo quando na realidade hoje é aceite que há mais mecanismos operantes na evolução que não apenas a selecção natural.

A preparação do ataque cerrado à ciência por parte dos IDiotas católicos iniciou-se o mês passado na revista Atlântico, um reduto dos democratas cristãos da nossa praça, que mimosearam os seus devotos leitores com um dos mais imbecis artigos de opinião defendendo o criacionismo que tive oportunidade de ler, da autoria de Tiago Cavaco e que dá pelo título«Darwin e os esqueletos da humanidade».

Uma vez que a referida revista não é aquisição que eu recomende, podem apreciar a vacuidade profundidade intelectual do artigo (e do seu autor) no post «O sexo dos anjos» que transcreve excertos do referido artigo em defesa da IDiotia.

O iluminado autor, que parou igualmente em termos de ciência na «Origem das espécies», isto é, no século XIX, já que confunde darwinismo com evolucionismo, afirma pomposamente que «O darwinismo começa a soçobrar» supostamente devido ao «vigor académico do Design Inteligente». O que é uma mentira descarada. Na realidade, a academia em peso rejeita a IDiotia como inanidades delirantes debitadas pelo templo dos neo-criacionistas disfarçados de IDiotas, o Discovery Institute, que conta nas suas hostes a totalidade do «vigor académico» da IDiotia: 400 pseudo-cientistas, na sua esmagadora maioria sustentados pelo Instituto!

31 de Agosto, 2006 Carlos Esperança

Quem assassinou João Paulo I?

(…)

«Nesse mesmo dia teve lugar um acontecimento que deveria ter alertado o Papa a respeito da sua segurança pessoal. O Papa recebeu uma das maiores autoridades ortodoxas, o metropolita Nicodemo de Leninegrado. Os dois homens sentaram-se tranquilamente a beber café, mas assim que deu o primeiro golo o russo caiu ao chão e morreu quase instantanea- mente. O resultado oficial foi enfarte, embora fosse um homem relativamente jovem, de 49 anos, e segundo todos os indícios bastante saudável.»

(…)

Grandes conspirações da História – DN, 30-o8-206

Grandes conspirações da História – DN, 31-08-2006

31 de Agosto, 2006 Palmira Silva

Hitler, Darwin e evolução

Carl Sagan sobre evolução num dos episódios da série Cosmos

O último ataque dos IDiotas à evolução é, para variar, um tiro no pé. Na total falta de argumentos científicos, os fundamentalistas cristãos recorreram à táctica habitual dos apologetas: a mentira pura e dura num revisonismo histórico que seria rísivel não fora essa mentira ser prodigamente transmitida não só nas inúmeras estações de televisão cristãs nos Estados Unidos como nalgumas estações públicas.

De facto, o documentário Darwin’s Deadly Legacy: The Chilling Impact of Darwin’s Theory of Evolution, produzido pelo teocrata James Kennedy, o tele-evangelista do Coral Ridge Ministries, em colaboração com os acéfalos apóstolos do Discovery Institute, nomeadamente o presbiteriano Philip Johnson e o católico Michael Behe, pretende mostrar «porquê a evolução é uma má ideia que devia ser descartada no caixote de lixo da História».

Isto é, não interessa que cientificamente a evolução seja inatacável, de facto seja a pedra basilar de todas as ciências da vida, a evolução deve ser substituida pela IDiotia ou neo-criacionismo porque… Hitler era, supostamente, um evolucionista!!

Para além de ser uma falácia óbvia, uma mistura de Apelo às Consequências (argumentum ad consequentiam) com um argumento ad hominem, o documentário é um tiro no pé porque na realidade Hitler era um criacionista! Ou seja, como Hitler é reconhecidamente um dos maiores monstros psicopatas que a humanidade produziu, os devotos cristãos deturpam a verdade histórica para usar o criacionista católico Hitler para advertir os mais ignorantes do perigo quer do ateísmo quer do evolucionismo, que ululam de dedo em riste terem sido as causas do Holocausto!

Na realidade, como indica Ed Brayton nos Despachos das Guerras Culturais, uma análise, por exemplo do Mein Kampf, mostra claramente que Hitler, como bom católico, não só acreditava ter sido o homem criado à imagem de Deus como negava como absurda a hipótese evolucionista de evolução do homem de um ancestral comum ao macaco.

Um artigo recente na revista Archaeology, que descreve como Heinrich Himmler criou um instituto de investigação chamado Deutsches Ahnenerbe – Studiengesellschaft für Geistesurgeschichte (Ancestralidade Germânica – Sociedade de Investigação e Ensino), destinado a fabricar evidências da superioridade ariana, a tal raça nórdica superior (e mítica) que Hitler achava ser «um pecado contra a vontade do Eterno criador» contaminar por miscigenação com «raças» inferiores. Assim, os arianos deveriam compreender que era uma missão divina «dar ao Todo Poderoso Criador seres como Ele próprio fez à Sua imagem», ou seja, «O Weltanschauung (visão do mundo) que baseia o Estado numa ideia racial deve ter sucesso na promoção de uma era mais nobre, na qual os homens não mais darão atenção exclusiva ao cruzamento e criação de cães e cavalos e gatos com pedigree, mas envidarão os seus esforços para melhorar a raça humana».

De acordo com o artigo, «Himmler também encontrou tempo num encontro para transmitir a Bohmers [um dos arqueólogos do Ahnenerbe] a sua posição pessoal no assunto evolução do homem. Deve ter sido uma conversa instrutiva. Como Bohmers depois indicaria, Himmler descartou imediatamente a hipótese de que a raça humana estava próxima dos primatas. Estava igualmente indignado com uma ideia avançada por outro investigador alemão que propunha ser o Cro Magnon descendente do Neandertal. Para Himmler, ambas as hipóteses [a evolução e a relação entre Cro Mgnon e Neanderthal] eram ‘cientificamente completamente falsas’. Eram igualmente ‘muito insultuosas para os humanos’».

Como termina Ed Brayton, os fundamentalistas cristãos distorcem as evidências históricas da mesma forma que distorcem as evidências científicas e tentam, em completa oposição e negação de todos os factos históricos e científicos, distorcer a realidade para impor a sua mundivisão patética, assente não na realidade mas em mitos. Fabricando o mito de um Hitler ateu e darwinista para suportar o seu mito de um Criador/Designer inteligente!

Infelizmente, as televisões públicas americanas que em tempos transmitiam programas como o Cosmos de Carl Sagan agora devotam-se a propagar mentiras e a envenenar a opinião pública, à boa maneira nazi, com lixo como o é este «documentário» cristão!

30 de Agosto, 2006 Ricardo Alves

Trujillo condena menor violada que abortou

O Cardeal colombiano Alfonso López Trujillo chamou «rede de malfeitores» à equipa médica que fez um aborto a uma garota de 11 anos, a qual engravidara do padrasto que a violava desde os 7 anos de idade. As violações propriamente ditas não são mencionadas por Trujillo, que se abstém portanto de as condenar. Anteontem, Trujillo ameaçara com a excomunhão todo o pessoal médico envolvido. Ontem, afirmou que «não excomungou ninguém» (parece ser um processo automático, um «reflexo condicionado» divino…) mas simultaneamente alargou a excomunhão a «políticos, legisladores e parentes [da criança]».

O médico responsável pelo aborto declarou ter a consciência tranquila, porque actuou dentro do quadro legal, e replicou que «malfeitor foi quem a violou». A senadora colombiana Gina Parody comentou que «o Vaticano tem o direito de excomungar quem quiser; mas espero que também excomunguem os padres que violam rapazes ou raparigas».

Este caso tem sido enormemente mediatizado na Colômbia, porque se trata da primeira interrupção voluntária da gravidez feita legalmente, após a alteração da lei em Maio passado. Deve notar-se que Trujillo preside ao Conselho Pontifício da Família e é frequentemente apontado como um possível sucessor do actual Papa.
30 de Agosto, 2006 Ricardo Alves

Ética sem religião

Em entrevista à revista alemã Der Spiegel, Salman Rushdie diz-nos, sem papas na língua, que «os fundamentalistas de todas as fés são o mal fundamental do nosso tempo». E acrescenta que «a compreensão do que é o bem e o mal existia antes de cada religião em particular; as religiões só foram inventadas pelas pessoas depois, para exprimir essa ideia». A ideia de que a ética é historicamente anterior à religião, e que pode dispensar uma «moral revelada», tem que ser repetida quantas vezes for necessário. Porque é verdade e porque é uma verdade que poucos querem admitir, preferindo tentar convencer-nos de que os «valores morais» caíram do céu aos trambolhões ou foram retirados de um «mundo exterior» pelos filósofos.

Salman Rushdie já explicou mais detalhadamente a sua ideia de que «o nosso sentido de bem e mal (…) precede a religião» noutra entrevista (onde se afirmou também um «ateu da linha dura»). A religião é apenas uma forma sistematizada das reflexões morais num dado momento histórico, que se torna problemática por reclamar uma autoridade «divina» e se prolongar muito para além do momento datado em que foi estabelecida.

Só sairemos dos impasses criados pelo monopólio da religião sobre a ética quando compreendermos que não há qualquer risco de um «caos moral» quando a ética se baseia em valores laicos. Um bom artigo sobre este aspecto foi publicado por Sam Harris na Free Inquiry há alguns meses: «The Myth of Secular Moral Chaos».
30 de Agosto, 2006 Palmira Silva

In memoriam: Vashti McCollum

Vashti McCollum, duas vezes presidente da American Humanist Association e uma activista ateísta (ou humanista, como preferia ser chamada) morreu dia 20 de Agosto, aos 93 anos, em Champaign, Illinois.

Uma mulher extraordinária, Vashti McCollum lutou pela separação da Igreja e do Estado numa altura em que ser-se ateísta não era socialmente aceite, em meados da década de 40, e o preço pessoal que pagou pela sua determinação foi muito elevado. A sua acção para que deixasse de existir educação religiosa na escola pública frequentada pelo seu filho, ostracizado e perseguido pelos colegas por se recusar a assistir às ditas aulas de religião, resultou numa resolução do Supremo tribunal que desde então protege a separação da Igreja e do Estado na educação.

A resolução de 9 de Março de 1948, com uma votação 8 contra 1 (impossível de obter hoje em dia com o Supremo Tribunal, graças aos bons ofícios de G. W. Bush, minado por Opus Dei), declarava que a educação religiosa em propriedade pública era inconstitucional, já que violava a 1ª Emenda.

O seu pai, Arthur G. Cromwell, um arquitecto apreciador de Spinoza e Thomas Paine, igualmente ateísta, foi presidente da Rochester Society of Free Thinkers e foi o responsável pelo fim da educação religiosa no único condado em que tal acontecia até à acção da sua filha.

No julgamento inicial da acção, antes de chegar ao Supremo, Arthur Cromwell foi responsável por um dos momentos mais dramáticos no julgamento histórico quando, depois de dizer que não acreditava em Deus, se recusou a jurar dizer a verdade em nome de um mito. O seu neto, James McCollum, afirmou o mesmo.

A Time magazine observou que ao pé deste julgamento o famoso julgamento da evolução, o Monkey Trial, tinha sido uma brincadeira de crianças. De facto, o caso de Vashti não foi julgado apenas nas salas dos tribunais. Durante os três anos que durou o processo, Vashti recebeu inúmeras ameaças físicas, foi despedida do seu emprego, alvejada com tomates e couves podres e viu o gato da família linchado.

Apesar de todo o «amor cristão» tão prodigamente dirigido para si, Vashti foi um exemplo de coragem e perseverança, pois como afirmou no seu livro A woman’s fight, «Temos de agarrar todas as oportunidades para defender a causa da liberdade».

Em total contraste, Katherine Harris, membro do Congresso e candidata ao Senado, que supervisionou em 2000 a recontagem de votos no estado da Flórida que deu a vitória a Bush, disse a semana passada que a separação da Igreja e do Estado é uma «mentira», que Deus não pretendia serem os Estados Unidos «uma nação de leis seculares» e que se os eleitores não elegerem políticos cristãos nas eleições para o congresso do Outono próximo permitiriam a «legislação do pecado».

Harris, muito criticada pelas suas afirmações, disse ainda que separar a religião e a política é «errado porque é Deus que escolhe os nossos governantes».

Uma homenagem adequada a Vashti ocorrerá com toda a probabilidade em 7 de Novembro próximo, data em que serão escolhidos os membros do Congresso norte-americano, Senado e Câmara de Representantes, assim como 36 governadores. Todas as projecções indicam que os teocratas republicanos serão duramente penalizados nestas eleições, iniciando o processo de recuperação democrática nos Estados Unidos. Recuperação democrática que inclui a efectiva separação estado-religião por que tanto lutou Vashti e que a administração Bush quasi destruiu!

29 de Agosto, 2006 Carlos Esperança

Religiões e liberdade

Quando julgamos que a religião que nos oprime é a pior há sempre a possibilidade de encontrar outra mais opressora.

A intolerância do catolicismo, as mentiras metódica e sistematicamente difundidas e a aliança com o poder, por mais cruel e abjecto que pudesse ser, não são um paradigma da fé sedeada no antro do Vaticano, são uma constante do clero dos vários monoteísmos.

Mesmo que não acreditem, os clérigos empenham-se em convencer os incautos de que Deus agarrou um apóstolo e lhe ditou as suas vontades. Por muito absurdas que sejam, por mais perversa que se afigurem, é difícil rever as parvoíces e os desígnios que lhe atribuíram os homens e se tornaram o ganha-pão dos sacerdotes.

Nenhuma religião dispensa os rituais iniciáticos nos filhos dos crentes avençados.

A circuncisão ou o baptismo são a nódoa que mancha os primeiros passos de um neófito como o ferro em brasa de uma ganadaria marca o gado.

A apostasia é a emancipação de um livre-pensador do dogma e das piruetas litúrgicas, a afirmação da liberdade perante as litanias do clero e dos seus satélites que, não raro, se converte em risco de perseguição e morte.

É preciso conhecer a demência do protestantismo evangélico, a estupidez cruel do Islão ou as idiotices do judaísmo ortodoxo para nos darmos conta do imenso capital de tolice e maldade que encerram as religiões reveladas, plágios sucessivos cada vez mais cruéis.

Deus podia ter sido um mito divertido mas converteu-se, por vontade dos autores, num biltre incapaz de se submeter às regras da urbanidade e da democracia, numa perversão apocalíptica que espalha o terror e imbeciliza os crentes.