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8 de Outubro, 2006 Palmira Silva

Carta a uma nação cristã

Novo livro do filósofo Sam Harris, «Carta a uma Nação Cristã.»

Não obstante as pretensões dos nossos crentes leitores de que a filosofia implica uma mundivisão religioso-sobrenatural, a maioria dos filósofos actuais, aliás todas «as ciências humanas, como a história, a psicologia, a sociologia e a filosofia» como se queixou Ratzinger na sua palestra em Regensburg, partilham com o ateísmo uma visão do Universo científico-natural na qual assentam as respectivas elucubrações.

Na realidade, considerando que a teologia não é filosofia, é apenas pseudo filosofia, com excepção dos que se dedicam à filosofia da religião, são muito poucos os filósofos contemporâneos que contemplem «verdades reveladas» ou o sobrenatural a não ser para as desmistificar. Na minha opinião, as religiões «reveladas» são tão incompatíveis com a filosofia como o são com a ciência, já que assentam em dogmas inquestionáveis e o dogmatismo não é consentâneo com uma postura filosófica.

De facto, desde a Renascença que a visão científico-natural do mundo e concomitante humanismo permearam o pensamento ocidental. Desde a Renascença que a Cristandade, a supremacia da religião e da visão religiosa-sobrenatural do Universo, está em declínio no Ocidente. O Humanismo, o traço dominante da Renascença, venceu o teocentrismo medieval, com a sua redescoberta do homem, confiante no seu intelecto, poder e valor, em contraste com a Idade Média, que apenas considerara o homem como um ser pecaminoso e sem valor intrínseco. Libertação do homem renascentista bem representada no discurso «Da dignidade do homem» (Hominis Dignitate) de Picco della Mirandola.

Antes da visão cientifico-natural prevalecer, as pessoas acreditavam e utilizavam astrologia, alquimia, cabala mística e demais parafernálias religioso-sobrenaturais. A mundivisão mitológica e mágica do mundo proporcionava um weltanschaaung e propósito cognitivo pré-científico, em que se acreditava, por exemplo, que os corpos celestes eram manifestações de forças divinas sortidas que podiam magicamente influenciar objectos terrestres. De acordo com esta crença astrológica – considerada científica – os corpos superiores poderiam imprimir nos corpos inferiores a podridão e as chagas. E o ar era o elo condutor. Caso estivesse corrompido pelos astros, «feriria o coração» e agravaria a natureza do corpo sem que a pessoa sentisse nada. Todos os aspectos da vida humana eram assim determinados «sobrenaturalmente» e o sobrenatural dominava a forma como vivia e morria o homem medieval.

No centro do peito da figura que eu havia contemplado no seio dos espaços aéreos do Sul, eis que surgiu um roda de maravilhosa aparência. Continha os signos que a reaproximavam dessa visão em forma de ovo, que eu tive há dezoito anos e que descrevi na terceira visão do meu livro Scivias. «O Livro das Obras Divinas», Hildegard von Bingen, a tal para a qual, segundo o Vaticano, «a relação entre fé e ciência era quase co-natural».

As imagens fantásticas da visionária beneditina expressam as teorias sobre o microcosmo e a cosmologia vigentes. A «vontade» de Deus e a vinda de adversidades podem ser lidas nos signos do céu, os pecados da terra ressoavam nos céus. Cometas e eclipses eram «maus presságios», uma forma de Deus anunciar catástrofes sortidas com que decidira mimosear a Terra.

A cosmologia medieval distinguia duas regiões do Universo, a esfera sublunar, que continha todas as substâncias sujeitas à corrupção devido à incompatibilidade natural existente entre os quatro arqué – os elementos primordiais de Empedokles ainda aceites – (o fogo quente, o ar seco, a terra fria e a água húmida) que a constituiam. A segunda região, a esfera supralunar (ou celeste), era povoada pelos astros, pelos santos que estão na «Glória Eterna», os anjos e Deus. Acreditava-se que o mundo supralunar emitia fluidos, influxos invisíveis ou segredos naturais, que influenciavam o mundo sublunar.

Ou seja, as pessoas não percebiam a natureza das interacções químicas e físicas, os processos físicos pareciam ser o produto de enigmáticas «propriedades ocultas» e os elementos e reacções químicas pareciam ser o produto de magia. Hoje, quando a ciência se impôs com as suas explicações naturais de fenómenos naturais, não há alguma razão ou prova para acreditarmos que, a existir o sobrenatural indispensável às religiões, este tenha qualquer interacção ou efeito no mundo natural.

A falência óbvia da mundivisão religiosa-sobrenatural para explicar o Universo, a falta de qualquer evidência da existência do sobrenatural associada à certeza de que a existir não exerce qualquer influência no mundo natural, não obsta a que os fanáticos de todas as religiões se achem no direito de impor a todos as suas fantasias religiosas. E explica porque são cruzados contra a ciência todos os fanáticos em nome de Deus. Um dos aspectos abordados por Harris no seu novo livro.

7 de Outubro, 2006 Palmira Silva

Violência nos subúrbios de Paris

Michel Thoomis, secretário geral do sindicato Acção Polícia, escreveu uma carta ao ministro do interior francês avisando Nicolas Sarkozy de que decorre uma intifada não declarada contra a polícia nas ruas dos bairros sociais de Paris, que albergam um grande número de desempregados de origem magrebina.

De acordo com este sindicalista, que pede carros blindados e canhões de água para controlar a situação:

«Nós estamos num estado de guerra civil, orquestrada por radicais islâmicos. Já não se trata de uma questão de violência urbana, é uma intifada com pedras e cocktails Molotov. Já não se vê dois ou três jovens enfrentando a polícia, vê-se blocos de edíficios a serem despejados nas ruas para libertar os ‘camaradas’ quando estes são presos».

O número de ataques à polícia aumentou cerca de 33% nos dois últimos anos e os polícias, especialmente os que patrulham estas zonas em pequenos grupos, são imediatamente atacados mal tentam prender algum dos habitantes destes bairros problemáticos.

Algumas fontes da polícia francesa insistem no entanto que o problema é essencialmente criminoso, uma reacção dos patrões do crime organizado destes bairros às políticas duras de combate à criminalidade do ministro do interior, que é um dos mais fortes candidatos do centro-direita às eleições presidenciais de Abril próximo.

Uma destas fontes afirmou ao Figaro que essas políticas «destruiram a economia paralela dos bairros sociais» e segundo Gerard Demarcq, do maior sindicato policial francês, o aumento do número de ataques à polícia apenas reflecte o facto de que esta recuperou território anteriormente na posse de bandos criminosos, traficantes de drogas e outros marginais.

Os presidentes de câmara dos subúrbios mais afectados, os mesmos que há um ano assistiram a semanas de violentos tumultos e à destruição pelo fogo de centenas de carros, já expressaram a sua preocupação sobre as novas tácticas policiais, mais musculadas, de combate à criminalidade que segundo eles conduzem a um círculo vicioso, isto é, que a acção policial destinada a erradicar o crime organizado das suas comarcas agravará o resentimento dos locais.

Les Mureaux, subúrbio parisiense constituído por 46% de habitação social, conheceu outro tumulto no passado fim de semana, com vários polícias feridos e um carro da polícia incendiado. Na quarta-feira, cerca de 100 polícias – e alguns jornalistas- efectuaram um raid matinal num dos bairros mais problemáticos deste subúrbio, des Musiciens. Esta reacção da polícia às agressões sofridas tem levantado alguma celeuma em França e já motivou um pedido de explicação ao ministro do Interior por parte do Partido Socialista francês.

7 de Outubro, 2006 Palmira Silva

Prémio Nobel da Química 2006

O investigador norte-americano Roger D. Kornberg foi ontem distinguido com o Prémio Nobel da Química 2006. O cientista foi galardoado pelo seu trabalho sobre «a base molecular da transcrição eucariótica».

A resolução da estrutura atómica da ARN polimerase serviu de base a um trabalho extremamente elegante que foi decisivo para elucidar a nível molecular o mecanismo de transcrição em eucariotas ou eucariontes (organismos cujos células têm núcleo- todos os organismos multicelulares são eucariotas).

A transcrição é a leitura da informação contida nos genes ou fragmentos de ADN, informação transcrita numa molécula de ARN que é complementar à cadeia da dupla hélice de ADN «lida». É o primeiro de dois passos, transcrição e tradução referidos conjuntamente como expressão génica, necessários à produção de proteínas. A transcrição não se limita à expressão de proteínas já que o ARN tem outras funções para além de servir de ponte entre o ADN e a produção de proteínas.

A ARN polimerase é a principal enzima do complexo enzimático responsável pela transcrição do ADN em ARN. Ao contrário dos procariotas ou procariontes – organismos unicelulares, por exemplo bactérias, cujas células não têm núcleo – onde o processo de transcrição é relativamente simples, com apenas um co-factor designado por factor sigma, nos eucariotas existem uma série de co-factores necessários à transcrição, os factores de transcrição ou TFs.

Esta complicada coreografia molecular está directamente relacionada com o grau de complexidade celular encontrado nos organismos multicelulares. Estes organismos apresentam células especializadas, como um neurónio ou uma célula muscular, que necessitam expressar diferentes proteínas, isto é, de activar genes diferentes. Ou seja, a transcrição selectiva das dezenas de milhares de genes presentes numa célula determinam se esta se transformará num neurónio, numa célula muscular, do fígado ou se se mantém estaminal. E determinam se uma dada célula se desenvolve normalmente ou se transforma numa célula cancerígena.

Investigar como são activados os genes é uma questão fundamental em biologia, necessária, por exemplo, à diferenciação optimizada de células estaminais numa futura medicina regenerativa.

Enquanto o prémio Nobel da Química trata da activação e transcrição de genes, o prémio Nobel da Fisiologia e Medicina, atribuído segunda-feira aos investigadores norte-americanos Andrew Fire e Craig Mello, tem a ver com a desactivação ou silenciamento de genes.

De facto, os dois cientistas foram galardoados pela sua descoberta da interferência de RNA (RNAi), mecanismo que permite silenciar genes introduzindo na célula uma curta cadeia dupla de RNA complementar à sequência de RNA do gene a silenciar. Ou seja, este mecanismo, presente naturalmente não só em animais mas também em plantas como defesa contra vírus e para regular a expressão de cerca de 30% dos genes, permite, de forma simples e eficaz, manipular a expressão de um determinado gene. Para além de ser fulcral na investigação da função de uma determinada proteína, pode suprimir a expressão de uma proteína que esteja na origem de uma determinada patologia.

Por exemplo, pode ajudar a controlar os níveis de colesterol, como indicam estudos preliminares realizados em primatas em que se silenciou o gene que codifica uma proteína envolvida no transporte e metabolismo do «mau» colesterol.

6 de Outubro, 2006 Palmira Silva

Laicidade radical e outras falácias – II

Para além de uma cedência inadmíssivel às pretensões do terrorismo islâmico, se estas de facto se devessem ao que pretendem os que querem combater o fundamentalismo islâmico com o católico, «a exclusão de Deus» que constitui «um ataque às convicções mais íntimas» dos terroristas em nome de Deus, o que advogam os católicos mais fanáticos, para além de corresponder ao desmoronamento da sociedade tolerante que construímos, não só não resolveria o problema que o terrorismo em nome de Allah constitui como apenas conduziria a uma escalada da violência e a uma nova «cruzada».

Como o confirma, por exemplo, o facto de o número 2 da Al-Qaeda, o egípcio Ayman al-Zawahri, para além de chamar fracassado e mentiroso a George W. Bush, ter designado por charlatão o auto intitulado representante do Deus católico, numa mensagem de vídeo divulgada a semana passada no site da rede de televisão Al-Jazeera. O líder terrorista mencionou Bento XVI afirmando «Esse charlatão acusou o Islão de ser incompatível com a racionalidade, enquanto esquece que a sua própria cristandade é inaceitável para uma mente sensível».

A única forma de combater o terrorismo religioso e simultaneamente defender a nossa sociedade é a defesa intransigente dos valores em que esta foi fundada, primordiais entre estes a laicidade e a liberdade de expressão!

Aproveitar a ameaça que o terrorismo islâmico constitui – e uma simples inspecção aos nossos arquivos confirma termos denunciado desde sempre o fundamentalismo religioso, seja de que confissão for, como a pior ameaça à humanidade na actualidade – para verberar, como um dos apologetas profissionais de serviço ao nosso espaço de debate o faz, que a laicidade e os laicistas são os «maiores amigos» do terrorismo islâmico e que «o verdadeiro inimigo dos terroristas é o Papa Bento XVI», apenas confirma a minha análise da palestra de Regensburg: que esta foi cuidadosamente estudada para que Bernardos sortidos espalhados pelo Ocidente fizessem a apologia de Bento XVI e do catolicismo como bastião da defesa contra o fundamentalismo islâmico e simultaneamente atacassem a laicidade e os valores civilizacionais que pretendem falaciosamente defender!

De facto, afirmar que passa pelo fundamentalismo católico a defesa do nosso modelo de sociedade, isto é, dos seus valores civilizacionais – declarados contra a Igreja católica, que sempre os combateu e os denominou de «loucura e erro» – é rejeitar esses valores e corresponde a uma regressão para uma sociedade análoga à que os fundamentalistas islâmicos querem impor (ou já impuseram) nos respectivos países.

Ao embarcarmos nas falácias preparadas pelos fundamentalistas católicos, que se desdobram em ataques constantes à laicidade e à liberdade de expressão – lendo os textos dos escribas de serviço aparentemente apenas o Papa e os católicos podem usufruir dessa liberdade para criticar outras posturas face à religião, principalmente o islamismo e o ateísmo – não estamos a defender a nossa sociedade: estamos a atacar as bases em que ela foi construída!

Não há qualquer diferença em género que não em espécie entre sociedades integristas em que a religião, qualquer, determina todos os aspectos do quotidiano. A ameaça que constitui o terrorismo islâmico deve-se ao fundamentalismo religioso em que se baseia não ao facto de a religião em causa ser a islâmica. Qualquer fundamentalismo religioso constitui uma ameaça aos nossos valores civilizacionais, que não distinguem cor nem credo.

É extremamente preocupante que há pouco menos de um mês, sem fanfarras nem grandes anúncios públicos, a Assembleia Geral das Nações Unidas tenha aprovado uma moção genérica de combate ao terrorismo global, em que se inclui uma frase defendendo a tomada de medidas contra «a difamação das religiões». Isto é, exortando os estados membro à criação de leis punindo a «blasfémia».

Esta medida, a ir para a frente, indica apenas que o terrorismo global teve a sua primeira grande vitória: a derrota dos valores civilizacionais em que assentam as nossas sociedades democráticas e simultaneamente a derrota de uma declaração que a ONU proclamou faz 58 anos no próximo dia 12, principalmente dos seus artigos 18, 19 e 28.

6 de Outubro, 2006 Palmira Silva

Da laicidade radical e outras falácias

O ateísmo, normalmente reduzido ao seu significado etimológico, isto é, a negação de Deus (ou deuses), na realidade é a posição filosófica herdeira da filosofia grega, que correspondeu ao abandono das explicações religiosas até então vigentes e em que se procurou, através da razão e da observação, um novo sentido para o universo.

Uma das escolas filosóficas mais antigas, associada ao atomismo, nomeadamente como foi desenvolvido por Epicurus, o primeiro ateísta de que há registo histórico, assentava na existência exclusiva de causas naturais para todos os aspectos da natureza. O ateísmo, se quisermos, corresponde à evolução desta escola filosófica na medida em que os ateístas não sentem qualquer necessidade do sobrenatural, isto é, o Universo é simplesmente aquilo que vemos, é a única realidade existente e nós somos apenas um infíma consequência de processos naturais casuísticos. Assim, o significado da nossa vida é o que fazemos dela e não há qualquer causa última quer para nós quer para o Universo.

Em resumo, para os ateístas a mera concepção de um qualquer ser transcendente ou sobrenatural é, para além de desnecessária, absurda, e toda a «ligação» para além da física, a metafísica que muitos confundem com sobrenaturalidade, se reduz à sua definição por William James, «apenas um esforço extraordinariamente obstinado para pensar com clareza», isto é, sem arbitrariedade nem dogmatismo.

Todas as religiões, especialmente as do livro, são anti-ateísmo e todas elas, na sua história mais ou menos recente, perseguiram e assassinaram todos os que se atreviam a pôr em causa os dislates em que assentam. Todas elas, com excepção do judaísmo, consideram ser obrigação dos crentes espalhar a fé e combater o ateísmo. No entanto, muitos crentes, os mais fanáticos em especial, ululam estridentes acusações de anti-religiosidade em relação a todos os ateus que se atrevem a afirmar publicamente as suas convicções filosóficas.

E enquanto um crente que combata o ateísmo é designado como convicto ou coerente com a doutrina respectiva, um ateu que simplesmente se atreva a manifestar, num espaço que tem o nome Diário Ateísta, as suas convicções filosóficas ou a sua coerência humanista é imediatamente rotulado de ateísta radical ou fundamentalista.

Ou seja, por uma qualquer razão obscura, esses crentes, que não foram permeados pelo pluralismo nem respeitam de facto os valores civilizacionais em que assenta a nossa sociedade democrática, consideram ser apenas o que chamam «convicção» religiosa o que é na realidade fundamentalismo, porque passa pela defesa de um conjunto de princípios, de natureza religiosa tradicionais e ortodoxos, a que chamam «valores radicados na natureza mesma do ser humano», tidos por verdades fundamentais e indispensáveis à consciência colectiva dos Estados em que se inserem, nomeadamente consideram ser dever dos Estados impor esses «valores morais universais e absolutos» na letra da lei.

E chamam «fanáticos» ou «fundamentalistas» ateus aos que se opõem a essa «legítima» imposição a todos dos dislates religiosos respectivos e denunciam as manobras nesse sentido.

Mais interessante ainda é o oxímoro com que mimoseiam os que se opõem a que o Estado seja utilizado na evangelização da sociedade: laicistas radicais!

Tal como não podem existir graus nem adjectivação da democracia, ou há democracia ou não há, também ou existe laicidade ou de facto não há separação Estado-Igreja. Quando quem detém o poder político legitimamente sufragado perpetua ou prolonga esse poder – vide o que está a acontecer na Venezuela em que Hugo Chavez prepara a perpetuação da sua presidência – mata a democracia; de igual forma, quando o Estado deixa a Igreja, que aproveita a mínima oportunidade para tal, imiscuir-se no espaço público (em que este público se refere ao espaço sobre a tutela do Estado) deixa de existir laicidade – contra a qual verberam todas as religiões nos países em que são maioritárias e que exigem veemente e estridentemente naqueles em que são minoritárias.

Nas sociedades ocidentais os sucessivos embates entre a ciência e a religião iniciados na Renascença, exactamente com a redescoberta do trabalho do ateísta Epicurus na forma do poema de Titus Lucrecius Carus De rerum Natura, continuados nos combates políticos ao poder da Igreja, proporcionaram a sociedade tolerante, democrática e assente em valores humanistas que é a nossa. Sociedade que é incompatível com o fundamentalismo religioso. Qualquer que este seja, islâmico ou cristão!

(continua)
5 de Outubro, 2006 Carlos Esperança

A Procissão da Senhora da Conceição (Crónica)

Para animar a fé e variar a liturgia eram frequentes as festas canónicas que esgotavam os ovos, o açúcar e a capacidade de endividamento na mercearia da aldeia.

A missa iniciava as festividades e prolongava-se com rituais e padres paramentados a rigor, vindos das paróquias vizinhas, e o sermão de um outro, contratado para enaltecer a santa e avivar a fé. O pregador subia ao púlpito e distinguia-se pela desenvoltura com que se exprimia, tanto mais apreciado quanto menos percebido, podendo confundir as virtudes e trocar os santos sem beliscar a fé ou pôr em risco os honorários.

Depois da missa a procissão percorria as ruas da aldeia com uma ou outra colcha nas janelas e mantas de farrapos garridas, que era pobre a gente e a intenção é que salvava.

À frente iam os pendões, empunhados por braços possantes que contrariavam o vento, seguidos de bandeiras com imagens pias e anjinhos, apeados, de asas derreadas. A seguir viajavam alinhados os andores do Sagrado Coração de Jesus e de alguns santos que aliviavam o mofo e o abandono na sacristia. Por último vinha a estrela da companhia, a Senhora da Conceição, de comprovada virtude e milagres ignorados.

Os padres viajavam sob o pálio, conduzindo o arcipreste a custódia que exibia a hóstia consagrada, com acólitos a empunhar as varas.

Em meados do século que foi os cruzados gozavam ainda da estima de quem prevenia a salvação da alma e desconhecia a história das guerras religiosas. Assim, ladeando os andores, exultavam os garotos, meninos com uma faixa onde, a vermelho, se destacava a cruz e as meninas com uma touca que lhes escondia os cabelos e exibia uma cruz igual.

Depois dos padres e dos mordomos, orgulhosos dentro das opas, viajavam pelas ruas enlameadas as Irmandades. As Irmãs de Maria traziam o pescoço enfaixado com fitas azuis. Seguia-se a Irmandade do Sagrado Coração de Jesus com fitas vermelhas e, finalmente, as Almas do Purgatório com fitas roxas atrás de um estandarte que as anunciava, não fosse o diabo tomá-las como suas.

A cobrir a retaguarda a banda da Parada atacava música sacra enquanto os foguetes estalejavam no ar. A passo lento se o tempo convidava, ou mais apressados se a chuva fustigava, os crentes regressavam à igreja com deserções antecipadas a caminho de casa onde aguardavam as vitualhas.

Eram assim as procissões da minha infância percorrendo as ruas tortuosas da aldeia e os rectos caminhos da fé.

5 de Outubro, 2006 Palmira Silva

Prémio Nobel da Física 2006

O Prémio Nobel da Física 2006 foi atribuído aos astrofísicos George Smoot e John Mather pelos seus trabalhos sobre a origem do universo e o Big Bang, mais concretamente pela descoberta das propriedades da Radiação Cósmica de Fundo de Microondas (RCFM) com o satélite COBE- Cosmic Background Explorer Satellite.

A RCFM foi prevista por Gamow, Alpher e Herman, em 1948, quando estudavam a origem dos elementos químicos e o estado da matéria no Universo primordial e foi descoberta, por serendipidade, há quase quarenta anos, por Arno Penzias e Robert Wilson. A detecção da RCFM, uma das fontes mais ricas de informação sobre o Universo primordial e por isso considerada como uma das mais importantes descobertas da história da cosmologia observacional, valeu a Penzias e Wilson o Prémio Nobel de Física em 1978.

Como a Real Academia Sueca das Ciências anunciou, o Nobel foi atribuído aos dois cientistas norte-americanos pela «sua descoberta da anisotropia [perturbações na distribuição espacial da RCFM] e emissão tipo corpo negro da Radiação de Fundo Cósmica de Microondas». O «trabalho efectuado sobre a origem do universo numa tentativa para melhor compreender a origem das galáxias e das estrelas» «reforçou o cenário do Big Bang para explicar a origem do universo».

De acordo com o o cenário Big Bang, a RCFM é uma relíquia da fase inicial do Universo já que «Imediatamente após o Big Bang o Universo pode ser comparado a um corpo que emite radiação [fotões] com uma distribuição de comprimentos de onda emitidos que depende apenas da sua temperatura. O forma do espectro deste tipo de radiação tem uma distribuição especial conhecida como radiação de corpo negro. Quando foi emitida a temperatura do Universo era de quase 3000 ºC. Desde então, de acordo com o cenário Big Bang, a radiação arrefeceu gradualmente à medida que o Universo expandia. A radiação de fundo que medimos hoje corresponde a uma temperatura que é apenas 2.7 graus acima do zero absoluto*» .

Isto é, actualmente em cada centímetro cúbico do Universo existem cerca de 400 fotões, a uma temperatura de -270 ºC ou 3 Kelvin. Este gás de fotões, uma relíquia do Big Bang e uma prova da expansão e de um passado extremamente quente do Universo, constitui hoje a sonda de excelência sobre os eventos do Universo primordial e permite reconstituir, com razoável precisão, cerca de 13.5 mil milhões de anos de História Cósmica. As anisotropias do RCFM constituem uma fotografia das flutuações de matéria que deram origem a galáxias e grandes estruturas do universo.

*A temperatura não é mais que uma medida da agitação molecular ou atómica. Ao zero absoluto ou 0K estão congeladas as rotações, vibrações e translacções, isto é, moléculas ou átomos estão quietinhos.

5 de Outubro, 2006 Carlos Esperança

Viva a República

Viva o 5 de Outubro

Fizeram mais pela liberdade alguns homens, num só dia, do que Deus desde sempre.

4 de Outubro, 2006 Ricardo Alves

Religião, teorias de conspiração e aproveitamentos

As teorias de conspiração podem originar literatura fascinante, mas são tão alienantes como a religião. Fascinam porque estabelecem ligações imprevistas, mesmo que falsas ou tremendamente especulativas. E alienam porque suspendem a nossa incredulidade explorando o nosso desejo e o nosso medo de que exista uma ordem oculta no universo.

A realidade da existência de uma ou várias redes terroristas islamo-fascistas, responsáveis pelo 11 de Setembro e pelo 11 de Março, é inegável. É também um facto que esses grupos são a ala armada de um movimento islamista mais vasto (embora minoritário nos países de origem), estruturado essencialmente pela Irmandade Muçulmana e pelo dinheiro saudita, e que controla escolas, instituições de caridade e partidos políticos. A teocracia iraniana desempenha um papel estruturante no lado xiíta, minoritário dentro do Islão.

No entanto, atribuir à Al-Qaeda capacidade militar para conquistar a Europa, ou olhar para os imigrantes muçulmanos como a vanguarda de uma invasão programada, ou falar da Europa como um protectorado islâmico, são delírios paranóides que relevam de preconceitos racistas, da angústia demográfica, de entusiasmo deslocado pelas aventuras militares dos EUA e de Israel, ou da obsessão identitária com a «civilização ocidental e cristã».

Nos anos 20 e 30 do século passado, a extrema direita afirmou-se na Europa, manipulando um anti-semitismo que se alimentava de teorias sobre uma «conspiração judaica internacional», na qual participariam organizações reais (mas débeis), e minorias urbanas que só lhes estavam ligadas pela mesma abstracção religiosa.

Hoje, o mesmo sector político tem interesse em conjugar os sentimentos islamófobos, o apoio a guerras de conquista e o apelo identitário-conservador cristão. Existe uma diferença fundamental entre quem ataca simultaneamente uma religião e as suas primeiras vítimas (os próprios crentes), estimulando o racismo, e quem critica todas as religiões por princípio, promovendo a laicidade.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]
4 de Outubro, 2006 Palmira Silva

A Igreja e o aborto


Sob os auspícios deste Papa absolutista, que considera que apenas as posições da Igreja em todas as matérias são legítimas, assistimos a uma mudança de estratégia da ICAR que tenta impor à Europa laica os seus ditames anacrónicos verberando «que não se trata de impor aos não-crentes uma perspectiva de fé, mas sim de interpretar e defender os valores radicados na natureza mesma do ser humano».

Isto é, com a pesporrência totalitária de quem se arroga detentor das «verdades absolutas» reveladas, de quem acha que só a «racional» hierarquia da Igreja de Roma é competente para definir o que é a natureza humana da qual decorrem, sem discussão, os seus dogmas, Bento XVI, que confunde pluralismo com relativismo, autisticamente afirma que os «valores» católicos são «valores morais universais e absolutos» e que não aceitar esta supremacia do catolicismo sobre todos os aspectos da vida corresponde a uma «ditadura do relativismo».

Esta nova estratégia de afirmação dos dislates debitados pela Igreja de Roma não como preconceitos religiosos mas sim como «verdades absolutas» que todos devem seguir foi adoptada pelo Cardeal Patriarca de Lisboa que sobre o aborto declarou pomposamente ser a posição da igreja uma posição de «ética fundamental» e não «religiosa».

Lamentando ainda «que a discussão esteja condicionada por algumas confusões, como a de limitar a questão a um problema religioso ou um direito da mulher». Na realidade quem está condicionado pela confusão do Papa e do Vaticano entre religião e Direito/ética é o próprio Policarpo. Nem a ética nem o Direito num estado laico são competência da Igreja nem a questão do aborto se reduz a uma questão dogma religioso versus direito da mulher. A redução da discussão sobre o aborto aos direitos da mulher em relação aos supostos direitos de «uma criança por nascer» é uma das muitas falácias usadas pela igreja nas suas campanhas terroristas contra o aborto.

Como aquela que a diocese de Coimbra já tem em curso, não obstante a prelecção falaciosa do cardeal patriarca de Lisboa. Um exemplo de puro terrorismo psicológico em que a diocese utiliza nos folhetos a fotografia de um bebé de meses que é filho de uma das signatárias do Movimento pela Despenalização da Interrupção da Gravidez.

Uma campanha repleta das falácias utilizadas pela ICAR na questão do aborto, já que não tem argumentos lógicos para defender a sua posição absurda, neste caso o chamado «apelo às emoções» em que se utiliza uma foto de um bébé já com alguns meses para pretender que um zigoto, embrião, ou feto – ou uma célula estaminal totipotente – normalmente referidos como a «criança ainda por nascer», são equivalentes ao bébé sorridente com que ornamentam os seus folhetos terroristas!

A outra falácia muito comum, muito bem desmontada neste artigo que recomendo, é a invocação do fantasma da «cultura da morte», com reminiscências explícitas ou implícitas ao nazismo, o reductio ad Hitlerorum usado e abusado para tudo pelos revisionistas históricos cristãos – esquecendo que Hitler criminalizou o aborto para as mães arianas. O que é um argumento absurdo por parte de quem admite como legítima a pena de morte e as mortes colaterais de guerras «justas» ou «injustas». E, como lembra o filósofo Pedro Madeira, é importante frisar que o facto de sermos a favor do aborto não implica, de modo algum, que sejamos a favor da pena de morte.

No cerne da questão do aborto, assim como na questão da investigação em células estaminais ou na clonagem terapêutica em que a argumentação da Igreja é exactamente a mesma, reside simplesmente a questão: têm direito incondicional à vida uma célula estaminal toti ou pluripotente*, um óvulo fertilizado e um embrião?

O resto da argumentação sobre o aborto é folclore ou falácias. Aquilo que se está a decidir na questão do aborto é se devemos ou não conferir o estatuto ético e legal de uma pessoa a uma célula estaminal do muco do nariz ou outra célula adulta qualquer- se estas forem alteradas para totipotentes – a um óvulo fertilizado e a um embrião.

Que a Igreja confira um valor acrescentado transcendente, a alma, a esta célula estaminal totipotente e considere que «Se alguém recusa a dignidade ao embrião [e a esta célula estaminal], então deveria negar também a dignidade à criança» esse é um problema que os crentes têm de enfrentar nas suas opções pessoais. Agora não podem impor a toda a sociedade, supostamente laica, os preconceitos e doutrinas da sua religião.

*De uma forma simples, e de acordo com a sua origem, podem dividir-se as células estaminais em dois grandes grupos: as células embrionárias e adultas. As células embrionárias são totipotentes, isto é, podem dar origem a todos os tipos celulares especializados. As células adultas são também indiferenciadas, porém, como se encontram em tecidos diferenciados, já são especializados, isto é, podem diferenciar-se apenas dentro da sua linhagem celular, pelo que são designadas de multipotentes. Apenas alguns tecidos apresentam células estaminais pelo que a sua utilização é limitada.

No caso da clonagem, terapêutica ou reprodutiva, é introduzido o ADN de uma célula diferenciada qualquer num óvulo a que foi retirado o material genético. No caso da ovelha Dolly foi introduzido o ADN retirado de uma célula mamária adulta, já diferenciada. Ou seja, a introdução num óvulo de ADN com genes diferenciados dá origem a uma célula estaminal totipotente. Célula estaminal que o Vaticano considera ter o mesmo estatuto de uma pessoa.

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