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8 de Janeiro, 2007 jvasco

Mutação. Degeneração. Confusão…

No seu livro ‘Genetic Entropy & the Mystery of the Genome’, John Sanford revela que não há mecanismos naturais capazes de manter o genoma humano fixo no seu estado actual. Mutações surgem demasiado depressa para que a selecção natural as possa eliminar a todas, e os genes da nossa espécie vão mudando ao longo do tempo. É uma descoberta importante para um criacionista, mas os biólogos já sabiam disto. Chama-se evolução.

Não admira que os criacionistas achem isto surpreendente. Eles leram num livro que cada ser vivo foi criado de acordo com o seu tipo, e assim ficaria para sempre. A nossa espécie especialmente. Segundo esse livro fomos criados à imagem de Deus, que toda a gente sabe é gordo, magro, claro, escuro, alto, baixo, homem, mulher… bem, mulher não, que essas foram criadas à imagem da costela. Mas seja como for não é suposto mudarmos ao longo do tempo.

Para a biologia dos últimos séculos isto é tão novidade como o pão às fatias. Inspirando-me nas analogias que Sanford oferece, deixo aqui uma ao leitor. As espécies são episódios duma longa novela Venezuelana. A nossa espécie é aquele em que Marisol descobre que Alonso afinal já é casado. Na altura parece uma grande coisa, mas uns episódios mais tarde já ninguém se lembra disso. E se bem que as cenas mudem de episódio para episódio não há nenhum propósito em vista e ninguém sabe como aquilo vai acabar. Se algum dia acaba.

Um exemplo que Sanford julga refutar a teoria da evolução é a diferença entre os humanos e os chimpanzés. Sanford estima que desde a separação das duas linhagens, há seis milhões de anos atrás, se acumularam na nossa espécie cerca de 20 milhões de mutações, e que a selecção natural apenas podia ter fixado mil destas. Mas vou explicar mais do principio.

Primeiro, não imaginem o ADN como uma sequência de letras. São moléculas de ácido desoxirribonucleico. As letras foram ideia de pessoas que passam o dia a inalar éter no laboratório, e são apenas abreviaturas para designar partes dessas moléculas. Ao longo da molécula de ADN há regiões que interagem com outras moléculas e desencadeiam complexas reacções químicas que acabam por determinar a cor dos olhos, da pele, a estatura, o sexo, e assim por diante. Esses trechos são os genes, e pessoas diferentes podem ter genes diferentes no mesmo sitio do seu ADN.

Voltemos ao exemplo de Sanford. Um gene fixa-se na população quando todas as outras variantes desaparecem. Por exemplo, o gene para os olhos azuis estará fixo na nossa espécie quando toda a gente tiver o mesmo gene e os olhos azuis. Sanford diz que só houve tempo para fixar mil novos genes nos últimos seis milhões de anos, baseando-se nos cálculos de Haldane (de 1957… os criacionistas gostam de livros antigos). Haldane considerou um cenário extremo: uma alteração no ambiente reduz a sobrevivência de toda a espécie excepto a pequena minoria que tem uma mutação que é benéfica nas novas condições. Daqui estimou ser preciso 300 gerações para esse gene se fixar na população, mas este valor pode ser bastante mais pequeno noutras situações. Mas vamos dar a Sanford o benefício da dúvida, e usar os números dele: em números redondos, para cada mutação benéfica que se fixe por selecção natural há cerca de 10 mil mutações que se fixaram por acaso.

Mudando novamente de direcção (este post parece uma gincana…). O que observamos em espécies como a nossa é que os trechos que especificam a estrutura química das proteínas ocupam, no total, apenas a milésima parte da molécula de ADN. Além disso, a taxa de mutações nestas regiões é cerca de dez vezes maior que nas regiões mais importantes. Dez vezes mil. Dez mil mutações sem efeito para cada mutação que faz diferença. Mais uma vez, Sanford descobre a roda.

É claro que isto é em números redondos. Mutações fora das regiões que codificam proteínas podem ter efeitos, e mutações que alteram as proteínas podem não ter impacto na sobrevivência do organismo. O número exacto de pelos no nariz, a cor dos olhos, a velocidade de crescimento das unhas dos pés, tudo isso pode variar sem afectar minimamente a sobrevivência ou a informação contida no genoma. O facto importante é que uma espécie é um conjunto diverso de indivíduos em constante mudança. Sanford descobriu isso e ficou assustado, mas não é degeneração, nem perda de informação, nem o fim do mundo. É evolução.

——————————–[Ludwig Krippahl]

7 de Janeiro, 2007 Carlos Esperança

As religiões têm o clero que merecem

O Arcebispo Wielgus tomou posse canónica da Diocese e a cerimónia de entrada oficial na Catedral de São João Baptista, em Varsóvia, foi marcada para hoje.

O novo arcebispo de Cracóvia sucederia a Josef Glemp. Graças a esta nomeação, de um antigo colaborador da polícia secreta comunista, ficava reposto um certo equilíbrio num país onde a colaboração do primaz costumava ser com a CIA, após a queda do nazismo.

Ver o artigo «Na melhor mitra cai a nódoa».

No entanto, o novo arcebispo de Varsóvia pediu a demissão durante a missa, demissão que o Vaticano aceitou. A resignação deve-se não ao passado de colaboração com o regime soviético mas ao facto de se ter tornado público.

D. Stanislaw Wielgus confirmou que assinou um acordo com a polícia secreta comunista no final dos anos 70.

7 de Janeiro, 2007 jvasco

Entropia Genética: primeiras impressões.

«Há umas semanas o Jónatas Machado teve a amabilidade de me oferecer o livro «Genetic Entropy & The Mistery of the Genome», do John Sanford, o que me deu a oportunidade de ficar a conhecer melhor os argumentos mais recentes do movimento criacionista.

O livro é um pouco estranho. Pretende ser uma divulgação científica e objectiva, mas todos os capítulos começam com um subtítulo que diz «Newsflash», no meio do texto há frases sublinhadas, frases a negrito, e muitos pontos de exclamação. A sensação é de estar a ouvir um pregador emocionado a exortar os seus seguidores em vez de uma explicação científica. Também incomoda a forma como o livro subestima a capacidade de compreensão do leitor. Quando o autor diz que as instruções para fazer um carrinho de mão caberiam num livro, temos um desenho de um carrinho com um livro em cima. Quando o autor fala da fábula da princesa que sentia uma ervilha através do colchão, lá vem o desenho da princesa em cima de uns colchões e ervilhas espalhadas à volta.

Mas interessa mais o conteúdo que a forma. A proposição central do livro é que o nosso genoma está a degradar-se pela acumulação de mutações. Todos nascemos com mutações e, segundo Sanford, a selecção natural não consegue eliminar um número suficiente para prevenir a destruição da informação no genoma humano. Para isto Sanford invoca o custo de selecção, um termo criado por Haldane para designar a quantidade de mortes (ou esterilidade) necessária numa população para que um alelo (um gene de um tipo) substitua outro.

Suponhamos que todos os indivíduos de uma população têm o gene A, e surge um mutante com a variante B deste gene. Para que a população fique toda com o gene B é preciso que muitos indivíduos com o gene A morram sem descendentes. Como só uma parte da população pode ser eliminada a cada geração, e como em geral vão morrer também indivíduos com o gene B, é preciso muitas gerações para que o gene B substitua o gene A na população. Haldane estimou que este processo numa espécie como a nossa demoraria cerca de 300 gerações.

Mas isto é muito diferente do problema de eliminar mutações novas. Quando surge uma mutação deletéria num indivíduo basta que esse indivíduo morra sem descendentes para que a mutação seja eliminada da população. É surpreendente que Sanford tenha confundido o custo de eliminar uma mutação nova com o custo de substituir um gene presente em toda a população.

Sanford também assume que a proporção de mutações prejudiciais é uma constante, mas isso é falso. Imaginemos um o organismo com os melhores genes possíveis para todos os atributos. Adão, para os criacionistas; a criação perfeita (antes de perder a costela). Neste qualquer mutação será prejudicial. Mas conforme os descendentes vão acumulando imperfeições vai aumentando a probabilidade de uma mutação aleatória melhorar algo, quanto mais não seja por reverter um gene mutante ao gene original.

Na realidade não há uma degradação constante mas um equilíbrio dinâmico. Mutações aleatórias introduzem um grande numero de imperfeições e algumas melhorias ocasionais. A selecção natural elimina defeitos graves rapidamente faz com que as melhorias se propaguem lentamente pela população. Alterações que têm um impacto pequeno demais simplesmente se acumulam ou desaparecem ao acaso (a evolução neutra proposta por Kimura e outros). E é verdade que a distribuição de genes pela população está em constante evolução. Não há nenhum processo natural que fixe para sempre o genoma de uma população. Mas é só o criacionismo que exige que o Homem seja o produto final duma criação perfeita. Para a teoria da evolução somos apenas um passo num deambular sem fim.

O que podemos esperar deste equilíbrio dinâmico é uma grande diversidade de características e indivíduos. Uns serão mais fortes, outros mais rápidos, outros mais atraentes, e assim por diante. Todos terão alguns defeitos, e alguns terão muitos defeitos. Exactamente o que observamos em qualquer população.

Nos próximos posts vou elaborar melhor alguns pontos que o Jónatas Machado sugeriu e que são discutidos neste livro. Mas como apreciação geral posso dizer que este livro sofre dos mesmos problemas que todos os argumentos criacionistas que conheço: uma má compreensão da teoria da evolução, e uma análise incompleta e tendenciosa dos factos.»

——————————–[Ludwig Krippahl]

6 de Janeiro, 2007 jvasco

Coitada da mosca…

«Na edição do jornal O Público de dia 8 [de Dezembro] há um artigo sobre Charles Brabec, que está a montar um museu criacionista em Mafra:

«Charles Brabec traz para a mesa uma série de fósseis. Dentro de uma caixinha transparente está um pedacinho de âmbar amarelo, com uma minúscula mosca-do-vinagre lá dentro. ‘É resina fossilizada, muito antiga; por que é que as moscas-do-vinagre continuam a existir? Não evoluíram!’»

Temos então uma mosca em resina ‘muito antiga’. Claro que não diz quão antiga é. Se disser que a mosca tem 4000 anos ninguém acha estranho que seja parecida com as que vivem hoje em dia. E se disser que tem milhões de anos vai ser difícil defender que o universo tem poucos milhares de anos. Mas uma é clara: ele sabe que a mosca não evoluiu.

Chamamos moscas aos insectos da ordem Diptera (duas asas). Conhecem-se 85 mil espécies nesta ordem e estima-se que haja um total de 200 mil. Do género Drosophila, a tal mosca-do-vinagre, há cerca de mil espécies descritas. O senhor criacionista olha para uma mosca que lhe parece ser duma destas espécies e diz logo que não evoluiu.

Não sei o que Brabec procurava numa mosca primitiva. Um machado de pedra e uma tanga de pele de leopardo? É que aos nossos olhos uma mosca é uma mosca. Primitivas ou não parecem-nos todas a mesma coisa, e é por isso que agrupamos 200 mil espécies no mesmo termo ‘mosca’. Talvez um entomólogo experiente saiba distinguir moscas primitivas de moscas modernas, mas a pergunta de Brabec sugere que ele não é perito na matéria. Além disso muitas características podem evoluir sem que se note nada olhando para a mosca adulta fossilizada. O tipo de alimento, os rituais de acasalamento, onde põem os ovos, o que comem as larvas, e assim por diante. Mas Brabec dá uma olhada e diz que não houve evolução. E porquê? Porque ainda existem moscas do vinagre. É claro, se não existissem ele também dizia que não tinha havido evolução porque se tinham extinguido. O criacionismo tem mesmo resposta para tudo… é pena é ser sempre a mesma resposta.

A fé dos criacionistas protege-se com uma grossa camada de ignorância. Ignoram a teoria que criticam, ignoram os factos, e ignoram até o propósito duma explicação. E é ignorância que nos querem vender, substituindo a compreensão que temos por um milagre incompreensível.»

——————————–[Ludwig Krippahl]

5 de Janeiro, 2007 jvasco

Visões Diferentes

«[…]

Vou tentar mostrar aqui por três hipóteses que a verdade não é revelada pela fé, mas pela dúvida. Começarei pelo contraste entre o modelo Cristão e o modelo Hindu da escola advaita vedanta, o meu preferido nestas coisas da fé.

Segundo o modelo Cristão o universo é uma criação deliberada de um deus inteligente. Há uma diferença clara entre o criador eterno e a criação temporal, que tem inicio e fim. Somos dotados de independência e autonomia, mas temos o dever de contribuir para um plano divino que é o propósito de toda a criação. O criador fez um universo com um propósito sério, recompensa quem contribui para esse fim, e castiga quem se opõe. O mal e o bem são absolutos, determinados pelo propósito do criador.

Segundo o modelo Hindu a consciência de cada um de nós (atman) é idêntica ao ser absoluto para além do tudo e do nada (brahman). O universo não é uma criação, nem tem um propósito. Todos nós e tudo o que vivemos é esta totalidade consciente a brincar e a representar papeis, a fingir que é um médico, uma professora, um morcego, uma pedra, e a perder-se num jogo de faz-de-conta sem inicio nem fim. Não há um propósito. É como uma música ou uma dança; o objectivo não é levar o bailarino deste lado do palco àquele, mas sim dançar. É um fim em si mesmo, e não há mais nada que isto. Não há mal nem bem, culpa nem castigo, mas sim karma, a relação entre acto e consequência que dá drama a esta peça.

Estes são apenas dois exemplos de milhares de modelos contraditórios que a fé criou. Mas se a fé traz discórdia, a dúvida traz consenso. O terceiro modelo, dado pela ciência moderna, inverte a posição da consciência no processo. Sendo humanos vemos tudo com consciência, e por isso assumimos que a consciência está na origem das coisas. Mas combatendo esta tendência compreendemos a consciência como o produto de processos inconscientes. Como a chuva, o diamante, ou a divisão celular. Assim vemos um universo que é. Não é para. Não é porque. É. Neste modelo o mal e o bem, explicações, razões, causas, tudo isso são conceitos nossos que podemos aplicar apenas onde aplicável. A realidade transcendente é a realidade que, a qualquer momento, nos transcende, mas que se torna acessível quando desenvolvemos ferramentas materiais e conceptuais para a compreender. O electromagnetismo, a gravidade, o DNA, a vida. A origem do universo. A consciência em si, eventualmente.

Mas falei inicialmente de três hipóteses, e não de modelos. Estas hipóteses são que cada um destes modelos corresponde à realidade. Separar a hipótese do modelo pode parecer um preciosismo desnecessário, mas é importante. Se virmos o modelo como verdadeiro ou falso vamos avalia-lo de dentro do modelo e cair em argumentos circulares. A consistência interna […], ou o acreditar para compreender e compreender para acreditar, como dizia Ricoeur. Mas a hipótese de o modelo corresponder à realidade é exterior ao modelo, e por isso a única forma de validar o modelo é compará-lo com a realidade externa ao modelo. Qualquer que seja o modelo.

A fé é a nossa relação íntima com o modelo. A dúvida questiona a hipótese de o modelo corresponder à realidade e abre o modelo ao confronto com o que observamos à nossa volta. É a dúvida que usa os modelos para revelar o que a realidade nos esconde.

Concordo […] que o ‘revelatum’ é para todos. A realidade revela-se a todos. Mas pela dúvida, não pela fé. É por tentar encaixar modelos com a realidade que a ciência se torna uma e igual para todos, e este confronto constante entre modelos e realidade amplia gradualmente o nosso conhecimento. A fé é o apego sentimental a um modelo qualquer, e gera um conjunto disjunto de crenças contraditórias que são mais reveladoras das limitações humanas que da realidade que nos transcende.»

——————————–[Ludwig Krippahl]

4 de Janeiro, 2007 Ricardo Alves

O direito a não pertencer

O arcebispado de Valência (Espanha) da ICAR recusa-se a actualizar os registos de baptismo de cidadãos que já pediram expressamente para ser retirados do registo eclesial.

A apostasia é um acto através do qual os cidadãos anunciam à igreja onde foram baptizados que já não se consideram crentes, e que portanto, em coerência, gostariam que o seu nome fosse suprimido do registo de uma igreja a que já não pertencem. A Lei de Protecção de Dados espanhola (como a portuguesa) dá acolhimento legal a esta pretensão.

Infelizmente, o arcebispado valenciano insiste em recorrer aos tribunais, tentando negar o direito dos cidadãos a abandonarem uma igreja a que não querem pertencer, e onde não entraram por vontade própria. Cerca de 1 500 cidadãos já reclamaram junto da Agência Espanhola de Protecção de Dados. Também foram reportados problemas com os processos de desbaptização em Madrid.

A maior parte dos pedidos de apostasia ocorreram por ocasião da visita do Papa a Espanha.

(Notícia descoberta via Renas e Veados.)
4 de Janeiro, 2007 Palmira Silva

O Irracional e o aborto

Transcrevo no Diário Ateísta o texto de uma amiga, com quem há uns tempos iniciei outra aventura blogoesférica, por falta de tempo completamente negligenciada. As reflexões da Teresa sobre o tema aborto constituem uma abordagem diferente das que temos apresentado nestas páginas, pelo que considerei relevante a sua transcrição no Diário Ateísta.

Há muito tempo enviei uma carta a um amigo reflectindo sobre os argumentos de João Pereira Coutinho num artigo sobre «Vida moderna», publicado no Independente a 28 Nov. 2003. Dizia mais ou menos assim.

Penso que é intelectualmente saudável tentar compreender os argumentos dos que estão situados do outro lado da nossa fronteira ideológica. A questão do aborto e do direito à vida serve exemplarmente para testar os métodos de raciocínio de ambos os lados, da esquerda e da direita. João Pereira Coutinho polemiza com base nos seus ideais da direita liberal e afirma que «o direito à vida – o direito a que uma promessa de vida cumpra o seu destino- deve ter prevalência sobre a expressão da nossa autonomia».

A questão essencial é a de saber qual o fundamento ético, científico, legal ou político – universal – que está na base da aprovação ou da criminalização de actos individuais. Racionalmente posso um dia vir a admitir que a minha opinião, contrária àquela, possa estar errada. Mas o autor não consegue convencer-me com o seu raciocínio.

Para mim é incompreensível pretender provar que a vida, ou o direito à vida, é anterior e superior à expressão da nossa autonomia. Porque não consigo discernir a existência de um ser, definido como humano, destituído de vontade. Admito que a prosa é bonita e de uma sensibilidade tocante, «o direito a que uma promessa de vida cumpra o seu destino», mas o raciocínio em que se fundamenta não está correcto.

Também não consigo entender que a única resposta a dar à questão metafísica da vida tenha de ser «radicalmente política», isto é, oriunda «do Estado constituído numa sociedade civilizada». Isto só seria correcto se admitissemos que os actos políticos são oriundos da ética, ou seja, que a ética e a política são uma e a mesma coisa. [Não necessitamos de ir muito atrás na História contemporânea ou na História das civilizações para compreendermos que os valores políticos não são imutáveis.]

Não se podem invocar razões secundárias baseadas nos «equilíbrios frágeis» de uma comunidade como suporte de leis que se pretendem universais. O direito à vida a inscrever como lei fundamental de um Estado é de aplicação restrita, aplicável apenas às mulheres desse Estado. Por outras palavras, a comunidade, o Estado, faz inscrever uma vontade em letra de lei a qual é superior a outra vontade, a das mulheres, penalizando-as por um acto autónomo da sua vontade.
Isto só é possível se os sujeitos da acção a criminalizar forem destituídos de vontade e de descernimento, isto é, politicamente não autónomos. Como diz o George Steiner, se um raciocínio é redutor, exemplificando aquilo que não consegue generalizar, é porque os argumentos não são universais.

Um exemplo deste tipo de raciocínio chegou-nos recentemente do Parlamento francês. Este legislou sobre as sancções a aplicar aos automobilistas que, involuntariamente, provocassem a morte de mulheres grávidas. De imediato se pretedeu que este raciocínio fosse extensivo a todas as grávidas. Pois se um acto involuntário do desgraçado de um automobilista era tão severamente penalizado então, por maioria de razão, seria penalizado o acto voluntário de uma futura mãe que abortasse. Este raciocínio abortou naturalmente.

O aborto é praticado desde a noite dos tempos, em todas as civilizações, sem regras e de forma aleatória. A Natureza às vezes apresenta-se-nos sem regras. O que deveria ser intelectualmente inadmissível é fazermos de conta que no decurso civilizacional, os únicos seres capazes de gerar ou interromper a vida tenham sempre pertencido à humanidade – essa humanidade de seres dotados de vontade autónoma e com direitos universais.

Só uma mãe pode decidir como, quando e com quem gerar ou não vida. É em nome desse dado de natura que as suas detentoras foram subjugadas. Foi o meio escolhido há séculos por uma civilização, «por forma a acautelar a satisfação dos seus interesses futuros».

Há uma classificação, e não só de género, explícita ou codificada, dos seres inteligíveis que cabem na humanidade e que podem ser nomeados. Não existem seres humanos sem crenças porque não existem seres humanos sem cultura. O direito à vida é uma crença, com base moral, que não se fundamenta em nenhum raciocínio empírico.

Naturalmente que se pode e deve discutir as crenças de cada um. Deve admitir-se que existem princípios morais fundadores, não sujeitos a transacções políticas, que constituem o espírito da nossa pertença à humanidade e que estão muito para além do nosso corpo, da nossa mente construída ou da nossa alma criativa.

Teresa Sá e Melo, Lisboa 20 de Abril de 2006

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4 de Janeiro, 2007 Carlos Esperança

A ICAR e a IVG

Na caverna de Deus ulula o Papa, convencido de que a tiara lhe aumenta a raciocínio e os paramentos lhe conferem santidade. Julga que o incenso, a água benta e o sinal da cruz são poderosos demonífugos que convertem incréus e levam de volta os apóstatas.

Nada disso. Apenas alinham em devota subserviência os ventríloquos do costume: os patriarcas, cardeais, arcebispos, bispos, cónegos, monsenhores, arciprestes, vigários, reitores, abades, padres e arquipadres, presbíteros e arquipresbíteros, diáconos e toda a variedade de Reverências, Excelências Reverendíssimas, Eminências e outros primatas paramentados que obedecem cegamente à Santidade vitalícia domiciliada no Vaticano.

Todo este coro de avençados da ICAR repete as mesmas inanidades que o Papa debita, sem prejuízo de dizerem o contrário quando a crença, os tempos e o prazo de validade da mentira anterior se esgotarem.

Confundir um embrião com uma criatura humana não é uma questão de ciência, é uma alucinação que o sindicato da hóstia vulgariza. É a mesma perturbação sensorial que vê milagres em coincidências ou imposturas, que vê um corpo apodrecido há dois milénios e o respectivo sangue numa rodela de pão ázimo, que engendra um hímen intacto numa fêmea parida.

Pessoas assim, a quem a fé ou o embuste causam alterações sensoriais, são dadas ao exagero e à mitomania. Numa pessoa simples tal comportamento chama-se mentira ou destrambelhamento mental, num dignitário eclesiástico atribui-se ao milagre da fé.

Não admira, pois, que o Papa e os seus sequazes vejam no orgasmo um genocídio capaz de esbanjar almas e provocar a cólera de Deus.

Mas se a ICAR vê no embrião uma pessoa, por que motivo não o baptiza?

3 de Janeiro, 2007 Carlos Esperança

B16 e os Direitos Humanos

Bento XVI assinala o início de 2007 com um forte apelo em favor da defesa da vida e da paz em todo o planeta.

***
O ditador vitalício do bairro das sotainas, B16, julga-se defensor dos direitos humanos só porque vê num embrião um daqueles impostores de que fez santos, após a morte; um daqueles meninos obrigados a dormir com as mãos fora da roupa, nos Invernos dos seminários, para produzir um padre; ou uma daquelas freiras que se encontram com residência fixa e em reclusão num convento das carmelitas.

Ao apelar à paz, esquece que foi o último titular da Sagrada Congregação da Fé, (ex-Santo Ofício) que é o chefe vitalício de uma Igreja que evangelizou os Índios pelo terror e pela varíola, que expulsou os islamistas da Península Ibérica em guerras sangrentas, que perseguiu e queimou judeus, que condenou livres-pensadores e a democracia, que esteve sempre do lado do obscurantismo, dos ditadores (desde que fossem católicos) e dos regimes autoritários.

Quem é o Papa que se diz mandatário de Cristo, sem procuração com assinatura reconhecida, prova testemunhal ou sequer a certeza da existência do representado.

Quem leva a sério o indivíduo que confirma curas miraculosas sem nunca ter mostrado provas fotográficas de um maneta a quem tenha nascido a mão ou de um cego cujo olho de vidro tenha passado a captar imagens?

A aldrabice da religião é o húmus onde floresce a intolerância e se cultiva o ódio. O Papa é um ayatollah vestido por costureiros ocidentais, com cores garridas e paramentos de fino corte. Que diferença existe entre um Conselho de Ulemás e uma Conferência Episcopal? São faces da mesma moeda, impostores do divino, embusteiros místicos, que vivem do medo que inspiram e do terror com que assustam os supersticiosos.