SANTIDADE:
O Diário Ateísta vem expor e pedir a Vossa Santidade* o seguinte:
Sabendo que Vossa Santidade (V/S) ficou muito envergonhado com a revelação do 3.º segredo de Fátima que o seu supersticioso antecessor levou a sério e julgou ser para ele;
Sabendo que, por isso, V/S relativizou a importância dada por JP2, disfarçou a vergonha e considerou as aparições de Fátima como revelação privada;
Sabendo que no final de 2006 não aceitou o convite do bispo de Leiria, que foi seu aluno, para se deslocar ao Santuário e inaugurar a Igreja da Santíssima Trindade (um excelente e lucrativo estabelecimento comercial) e beatificar os outros dois videntes (que nada viram);
Sabendo que não foi uma questão de seriedade, virtude a que os Papas são alheios, mas o medo do ridículo e a vergonha de que o considerassem estúpido, sentimentos a que os homens são sensíveis;
Sabendo tudo isso, sabemos também que os negócios religiosos não se compadecem com essas idiossincrasias de um Papa inteligente e sem fé, autoritário e frio.
Em Fátima jazem já 55 quilos de milagres enviados por infelizes a quem se salvaram da moléstia as galinhas, o filho arribou do sarampo ou o marido perdeu uma única perna no acidente (teria perdido as duas se a Ir. Lúcia não pedisse à Senhora de Fátima que pediu ao filho para pedir ao pai, graças a duas novenas) e muitos outros prodígios de grande sabor rústico e elevado efeito supersticioso.
Assim, sendo as coisas o que são, sabe-se que Lúcia vai ser canonizada e render grossos cabedais ao Vaticano e à ICAR portuguesa.
Atrasar a canonização só prejudica a fé e os negócios.
Em face do exposto, o Diário Ateísta vem pedir-lhe que dispense a bem-aventurada, no dia do centenário do seu nascimento, do interstício de beata e a eleve logo a santa.
Ficam felizes os beatos, ganha a fé e, depois de dois milénios de grandes mentiras, esta é uma pequena nódoa no lodaçal da História da ICAR.
Sr. Bento 16, o Diário Ateísta, espécie de Osservatore Romano dos ateus portugueses, pede deferimento,
Aos 28 dias do mês de Março do Ano da Graça de 2007, centenário da Ir. Lúcia
a) Diário Ateísta
* Santidade = profissão e estado civil.
Já ultrapassaram as três arrobas e meia os milagres da mais antiga reclusa do mundo que hoje faria 100 anos.
Os milagres são como os cogumelos, que crescem numa noite e podem ser tóxicos. A Ir. Lúcia, enclausurada em vida, logo que morreu abriu a época dos milagres ao ritmo a que tinha visões. Os crentes esperam milagres melhores que os dos primos. Curaram a D. Emília dos Santos que ficou a andar mal e logo se finou, cheia de saúde, enquanto o processo médico desapareceu da Psiquiatria dos Hospitais da Universidade de Coimbra, onde esteve internada.
A Ir. Lúcia está para a Igreja Católica como a electricidade para a EDP. É uma fonte de negócio altamente lucrativa e com assinantes certos. Em vida, falava com a Senhora de Fátima acerca da política e da moral, recebeu a visita de Cristo na cela, em Tuy, e foi ao Inferno visitar o Administrador do Concelho de Ourém, que não ia à missa.
Na cela, coçava-se, sobretudo quando a sarna a atormentou, e rezava pela conversão da Rússia. Comercialmente divulgou o terço e os horrores de que Deus é capaz quando anda com a mosca que é outra forma de dizer que não está no juízo perfeito.
Como se habituou a pedir favores divinos, pagos em orações, levou o vício para a cova. Enquanto não é canonizada, peçam-lhe milagres que ganha ela e os devotos. Ela precisa de subir aos altares para alimentar o negócio da fé e os crentes para se curarem dalguma moléstia em que a bem-aventurada esteja calhada ou que a senhora de Fátima saiba.
Orem e roguem milagres. O trabalho é pouco católico e cada vez pior remunerado.
Fiéis da deusa do mar Iemanjá competem com os católicos do Brasil. Aprendi a gostar de Iemanjá com o grande escritor Jorge Amado. «Mar Morto» – um grande romance.
No dia 2 de Abril vai ser Explicado o milagre atribuído a João Paulo II
No calendário do Vaticano, há 1 dia de atraso!
O Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Sagrada Congregação para a Fé (ex-Santo Ofício) num ensaio consagrado à liturgia, em 11 de Fevereiro de 2001, criticou severamente a música rock e pop e manifestou reservas em relação à ópera que acusa de ter “corroído o sagrado” de tal modo que – cita – o papa Pio X «tentou afastar a música de ópera da liturgia», donde se deduz que ela é claramente desajustada à salvação da alma.
Eu já tinha desconfiado que certa música é a «expressão de paixões elementares» e que «o ritmo perturba os espíritos», estimula os sentidos e conduz à luxúria. Salvou-me de pecar a dureza de ouvido que tinha por defeito e, afinal, era bênção.
Mas nunca uma tão relevante autoridade eclesiástica tinha sido tão clara quanto aos malefícios da música, descontada a que se destina à glorificação do Senhor, à encomendação das almas ou a cerimónias litúrgicas, outrora com o piedoso sacrifício dos sopranistas.
Espero que o gregoriano, sobretudo se destinado à missa cantada, bem como o Requiem, apesar do valor melódico, possam ressarcir-nos a alma dos danos causados pelo frenesim da valsa, a volúpia do tango ou a euforia de certos concertos profanos.
Só agora, mercê das avisadas palavras de Sua Eminência, me interrogo sobre a acção deletéria do Rigoleto ou da Traviata, dos pensamentos pecaminosos que Aida ou Otelo poderão ter desencadeado em donzelas – para só falar de Verdi – ou dos instintos acordados pela Flauta Encantada, de Mozart, ou pelo Fidélio, de Beethoven! E não me venham com a desculpa de que há diferenças entre a ópera dramática e a cómica, ou entre esta e a ópera bufa.
A música, geralmente personificada na figura de uma mulher coroada de loiros, com uma lira ou outro qualquer instrumento musical na mão, já nos devia alertar para o pecado oculto na harmonia dos sons.
Sua Eminência fez bem na denúncia. Espera-se agora que, à semelhança das listas que publicou com os pecados veniais e mortais e respectivas informações complementares para os distinguir, meta ombros à tarefa ciclópica de catalogar as várias músicas e os numerosos instrumentos em função do seu potencial pecaminoso.
Penso que a música sacra é sempre de louvar (desde que dispensados os eunucos), enquanto a música de câmara, a ser executada em reuniões íntimas, é de pôr no índex. Na música instrumental, embora o adjectivo seja suspeito, talvez não haja grande mal, mas quanto à música cifrada não tenho dúvidas de que transporta uma potencial subversão.
Nos instrumentos há-os virtuosos, como o sino, o xilofone, as castanholas e quase todos os de percussão, deixando-me algumas dúvidas, mais por causa do nome, o berimbau.
Nos de corda, excepção para o contrabaixo e, eventualmente, o piano (excluídas perigosas execuções a quatro mãos) quase todos têm riscos a evitar. A lira, o banjo, a cítara, o bandolim e o violino produzem sons que conduzem à exacerbação dos sentidos.
Mas perigosos mesmo – a meu ver – são os instrumentos de sopro. Abro uma excepção para os órgãos de tubos que nas catedrais se destinam a glorificar o Altíssimo. Todos os outros me parecem pecaminosos. A flauta, o clarim, o fagote, o pífaro e a ocarina estimulam directamente os lábios e, desde o contacto eventualmente afrodisíaco aos sons facilmente lascivos, tudo se conjuga para amolecer a vigilância e deixar-nos escravizar pelos sentidos. Nem o acordeão, a corneta de pistões ou a gaita-de-foles me merecem confiança.
Apreciemos o toque das trindades dos sinos dos campanários e glorifiquemos o Senhor no doce chilrear dos passarinhos. Cuidado com a música e, sobretudo, com os efeitos luminosos associados. Estejamos atentos às palavras sábias do Cardeal Ratzinger.
Nota: Este texto já foi publicado no Diário Ateísta mas justifica-se a repetição com a recente proibição de música profana, nas igrejas da ICAR, por B16. Nisso, os talibãs estão mais avançados – proibiram qualquer tipo de música.
Quando comparo a religião cristã às religiões do passado, algumas pessoas sentem que a comparação é patética. «É absurdo comparar o cristianismo a mitologias», é uma objecção com que me vou deparando com frequência.
Se eu responder com uma pergunta, estou certo que não me será respondida. A pergunta resume-se a uma palavra: «Porquê?».
A verdade é que os crentes das religiões antigas (os gregos com o seu Zeus, Poseidon, Afrodite e por aí; os romanos com Júpiter, Neptuno, Vénus; os egípcios com Isis, Hórus, Seth, Amon-Rá; os escandinavos com Odin, Thor, etc…) não eram atrasados mentais. Não eram inferiores. Não eram limitados.
Não.
Eles simplesmente acreditavam.
Acreditavam nos seus pais. Acreditavam nos seus sacerdotes. Acreditavam nos textos antigos que tinham ao seu dispor, relatando as aparições e proezas dos seus Deuses. Acreditavam por vezes naqueles que diziam ter testemunhado milagres, ou falado com os Deuses.
E alguns sentiam. Sentiam vividamente a presença destes Deuses.
Era isto que os levava a acreditar em Amon-Rá, ou em Zeus, ou Júpiter, ou Odin, ou tantos outros.
Foi isto que levou tantos povos da terra a acreditar em tantos Deuses diferentes.
Se tais crenças são assim tão absurdas, teremos de concluír que estas são razões insuficientes para se estar certo que Deus existe. Insuficientes para se estar certo que é exactamente aquele que os nossos pais adoram, aquele a quem os sacerdotes que nos rodeiam prestam culto.
Mas o cristianismo não apresenta nenhuma razão adicional.
Vejo-o assim indistinguível de qualquer outra religião. Se estas crenças são absurdas, terei de ser claro: o cristianismo (ou islamismo, ou judaísmo, ou hinduísmo, ou tantas outras) não é menos.
Diário Ateísta/Pitecos – ZédalmeidaBento XVI acusa União Europeia de renegar origens cristãs
Bento XVI aguardou o 50.º aniversário do Tratado de Roma para surpreender a Europa com um discurso agressivo e imiscuir-se nos assuntos internos da União Europeia.
A acusação de que a Europa renega as origens cristãs, corrobora o ressentimento que se agravou com a progressiva tendência dos Estados laicos de descriminalizarem o aborto, legalizarem as uniões homossexuais, aceitarem a eutanásia e facilitarem o divórcio, ao mesmo tempo que a Igreja católica vê a sociedade secularizar-se.
As uniões de facto aumentam e os casais prescindem cada vez mais da festa religiosa e da bênção eclesiástica para os seus projectos comuns. A sexualidade emancipou-se da reprodução e o clero romano envelhece e reduz-se.
O rancor e a vocação teocrática de um Papa que quer regressar ao latim e ao cantochão, que deseja integrar a Fraternidade Sacerdotal S. Pio X, do falecido e excomungado bispo Lefebvre, e que odeia a modernidade, estão na origem do insólito discurso e na obsessão de impor os critérios morais da Igreja não apenas aos católicos mas a todos os europeus e, se as condições se tornarem favoráveis, ao mundo.
Voltaríamos à evangelização e às cruzadas, ao cristianismo tridentino, à contra-reforma, às monarquias absolutas e confessionais e à submissão do poder temporal ao espiritual, com a Europa transformada em protectorado do Vaticano e a esquecer o Renascimento, o Iluminismo, a Revolução Francesa e a Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Não há anticlericalismo sem clericalismo. Esta recidiva teocrática de Bento XVI põe em perigo a tolerância e o pluralismo que as democracias consagraram. No seu proselitismo Bento XVI vem perturbar a paz e abrir feridas numa Europa que sacrificou milhões de vidas às lutas religiosas.
Se não houver firmeza na defesa da liberdade religiosa – o direito de cada cidadão ter a religião que entender, não ter religião, ser anti-religioso ou apóstata -, criar-se-ão as condições para o regresso às guerras religiosas que dilaceraram a Europa e se limitaram a produzir santos, mártires e bem-aventurados.
Diário Ateísta/Ponte Europa
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.