A idade da razão

A mitologia cristã vive, há dois mil anos, da liturgia e dos embustes. Nos produtos mais refinados da mitologia constam a virgindade de Maria e a Ressurreição do patrão.
Pio IX, um déspota cheio de ódio e de fé, digeriu mal a perda do poder temporal e criou dois dogmas, para compensar. Colocou um hímen na vagina da Virgem e atribuiu-se o dom da infalibilidade. A síntese do seu pensamento está na frase: «O catolicismo é incompatível com a democracia» – ideia que a história confirma e os sucessores honram.
De todos os déspotas que usaram a tiara, Pio IX foi, nos últimos duzentos anos, o mais violento e amoral. O rapto de uma criança judia, seguido de baptismo e de catequização, criou um padre católico perante o desespero dos pais que o perderam. Pio IX foi o Papa mais anti-semita dos últimos dois séculos, Pio XII incluído.
Agora que B16 chegou ao trono que a tradição atribui ao apóstolo Pedro, complica-se a vida para o último ditador europeu. A democracia é o inimigo que não pode afrontar por palavras. A laicidade é o calcanhar de Aquiles da vocação totalitária do Vaticano, mas o Papa não desiste de a combater e de aliciar outros dignitários das religiões concorrentes.
A possibilidade remota de ter sido encontrado o túmulo do improvável Jesus põe B16 em estado de choque. Não que ele estivesse convencido de que o patrão emigrasse em corpo para as paragens celestiais, mas era o truque que Maomé e Buda não fizeram.
B16 conseguiu que várias sucursais do Vaticano tivessem proibido o documentário produzido por James Cameron – «O Túmulo Perdido de Jesus» -, mas o mundo tem espaços de liberdade e o filme faz o seu percurso. O que irrita o celibatário do Vaticano é a possibilidade de o patrão ter tido filhos, uma heresia que podia pôr as beatas a pensar como seria doce afagar-lhe o corpo e mordiscar-lhe as orelhas.
Assim, o perigoso ditador procura minar as democracias e fazer regredir a humanidade. O perigo que representa o velho déspota é objecto de uma excelente análise neste artigo do jornal francês «Le Monde». Grande lucidez e terrível premonição.
O facto mais saliente que se pode deduzir dos dados apresentados é que o número de católicos praticantes diminuiu de mais de meio milhão entre 1977 e 2001 (passou de 2,44 milhões para 1,93 milhões). No mesmo período, a população portuguesa aumentou, e portanto a queda é mais impressionante em percentagem: enquanto, em 1977, a ICAR reclamava que 26% da população estava na igreja ao domingo, o número reclamado em 1991 corresponde a 23% da população, e em 2001 a 19%.O anti-semitismo é uma forma de racismo, intolerável como qualquer outra, mas mais execrável por juntar ao ódio étnico a perseguição religiosa.
A Europa que assistiu ao extermínio de 6 milhões de judeus não pode ser complacente para com os semeadores do ódio e da morte. Perante a profanação de cemitérios, é de mau gosto trazer à colação o problema do sionismo quando é exclusivamente o anti-semitismo que está em causa.
São velhas as raízes desse sentimento cobarde que se compreendem à luz do tempo e da história como fazendo parte do Novo Testamento e do Corão. Não se admitem, hoje, as manifestações de um ódio que manchou o cristianismo com as suas fogueiras e infecta o Islão com a obsessão de destruir o Estado de Israel.
Não falemos agora de sionismo – repito -, execremos o ódio que nasce no coração dos crentes de religiões concorrentes e se manifesta em actos sórdidos indignos do género humano.
É, aliás, tempo de deixar de ser frouxo na condenação do Estado Iraniano quando se é hostil na condenação de Israel. Entre um Estado confessional que respeita a democracia e um Estado teocrático que só respeita o Corão, na interpretação dos exegetas locais, é altura de ser intransigente para quem transporta o ódio até ao silêncio dos cemitérios.
DA/Ponte Europa
Enquanto, até 1974, apenas 7%-8% das crianças nasciam de pais que não estavam casados, a partir de 1979 essa percentagem começa a subir rapidamente, chegando aos 10% em 1982, ultrapassando os 20% em 1998, e atingindo os 31% em 2005. Nos anos mais recentes, o crescimento tem sido cada vez mais acentuado.
Deve acrescentar-se que a esmagadora maioria dos nascimentos fora do casamento resultam de pais que vivem juntos. Tomando como referência o ano de 2005, 71% dos nados-vivos nasceram de pais casados, 25% de pais juntos (mas não casados) e 6% de pais que não coabitavam. Pode portanto concluir-se que mais do que um em cada quatro dos jovens casais que têm filhos vivem em união de facto.
Ontem aconteceu um verdadeiro carnaval da fé no Vaticano. Bambolearam as sotainas, abanaram-se as mitras, arejaram-se os báculos e agitaram-se os hissopes que estavam de molho nas caldeirinhas da água benta. Apenas com 1 dia de atraso sobre o dia das mentiras.
Uma legião de calaceiros cantava hossanas e desforrava-se em latim das orações que JP2 precisava para ser beato. O cadáver, certamente indiferente, repousava no túmulo enquanto, à sua custa, uma freira exibia a cura da doença de Parkinson.
«Eu estava doente e agora estou curada» – dizia a freira em quem JP2 obrou o milagre que aprendeu em morto. Quem pode duvidar da santidade do rústico Papa polaco que acreditava em Deus e julgava que o 3.º segredo de Fátima lhe era destinado?
A ICAR dedica-se ao ramo dos milagres no campo da saúde quando a sua experiência é bem maior no domínio dos negócios, da política e da repressão. B16, um homem com experiência da vida, presidiu à missa – uma distracção obrigatória para os devotos – e refugiou-se nos aposentos com vergonha de tanta superstição e do histerismo de polacos que queriam levar já um certificado de canonização.
Os milagres são hoje o mais rendoso negócio da Igreja católica mas não tarda que venha pedir perdão pelas pessoas a quem enganou e pelo óbolo que extorquiu aos desgraçados crédulos que julgam que os milagres caem do céu e que uma freira é para levar a sério.
Todos os dias, milhões de pessoas dizem: «Eu estava doente e agora estou curada», sem necessidade de falcatruas, sem encenações obscenas, histerismos colectivos e cadáveres apodrecidos. Basta um antibiótico ou uma aspirina.
Se fosse verdadeiro o milagre, havia de perguntar-se por que razão os hospitais estão cheios e JP2 só se lembrou da freira. Já em vida, era mais conhecido pelos espectáculos que animava do que por razões de justiça. Os milagres deviam ser suspensos por uma providência cautelar para evitar que os simples fiquem mais tolos à espera do Céu.
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