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13 de Julho, 2007 jvasco

Enviesamentos Cognitivos VII – O Enviesamento Confirmatório

Outro enviesamento cognitivo ainda não abordado é o enviesamento confirmatório: a tendência para valorizar as evidências que suportam a nossa posição, e ingnorar aquelas que lhe são contrárias. Vários estudos foram feitos no sentido de estudar o âmbito, a influência e as causas deste enviesamento.
A superstição, a religião e a ideologia são terreno fertil para que este enviesamento se manifeste.
O papel que este enviesamento desempenha na manutenção de uma série de crenças com tanta evidência da sua falsidade (o poder da oração, por exemplo) é muito significativo.

13 de Julho, 2007 jvasco

Ateísmo na Blogosfera

  1. «Aliás, seria um exercício jornalístico bem curioso saber o montante dos apoios públicos de que a igreja tem beneficiado nos últimos anos. Por exemplo, quanto dinheiro recebeu a U. Católica e comparar com o que não terão recebido as outras Universidades não públicas.
    Depois há a questão da Concordata – está assinada e ainda não regulamentada. Mas esse acordo nunca devia ter sido feito. Para mim, a Concordata está no sentido oposto da interpretação razoável do espírito do art. 41.º da CRP – julgo-a materialmente inconstitucional já que subalterniza as demais confissões religiosas relativamente à ICAR. Portugal deveria denunciá-la e aplicar integralmente a Lei da Liberdade Religiosa.
    Claro que isso não irá acontecer, todos o sabemos.
    .»(«Pois é, pois é… (III)», no Blasfémias)
  2. «Maomezinho, que não sabia ler, estava na sua caverna, quando ouviu uma voz que disse “Leia, em nome do deus que criou os homens.” À noite, um anjo apareceu para ele em sonho várias vezes, e outras vezes durante o dia, em carne e osso.

    Então, 11 anos depois, o anjo trouxe um cavalo alado, que levou Maomezinho até Jerusalém, e depois o levou para visitar o céu. Depois, o anjo trouxe Maomezinho de volta. O anjo continuou fazendo revelações a ele por 23 anos. Tudo o que o anjo disse ao Maomezinho foi registrado por escribas em um livro chamado Corão»Bolhas de Ilusão», no Godless Liberator)

  3. «Mas eis que o próprio Capelão do Senado se lembrou de convidar um padre hindu, de nome Rajan Zed para ser ele a fazer desta vez as habituais macaquices, louvaminhices e rezas de abertura da sessão do Senado de ontem, dia 12 de Julho.

    E lá foi ele dizer estas lindas baboseiras:
    “Nós meditamos na glória transcendental da Divindade Suprema, que está dentro do coração do mundo, dentro da vida do céu e dentro da alma do Paraíso. Que ela possa estimular e iluminar os nossos pensamentos. Paz, paz, que a paz esteja com todos vós”.

    Enfim: não quer dizer absolutamente nada, mas é bonito à mesma, não é?

    Pois é: mas o pior é que houve muita gente que não gostou!»(«O Monopólio da Imbecilidade», no Random Precision)

13 de Julho, 2007 Carlos Esperança

O Velório do Botas

Foi em Agosto de 1968 que uma cadeira, no Forte de S. Julião da Barra, aliviou os portugueses. O ditador tinha a censura a defender-lhe a privacidade e a PIDE/DGS a aprisionar os adversários, mas já se debatia com um bravo hematoma que viria a ser saudado como herói.

Que a cadeira, uma simples cadeira corroída pelo caruncho, ousasse, na coragem dos corpos inertes, antecipar o fim do déspota, foi um acto de afoiteza que lhe valeu um lugar na História e ao caruncho a aura de santidade, ainda que a verdade possa ter sido outra e ter a cadeira, graças à censura, fruído os louros devidos a um acidente cerebral.

Soube-se lentamente que Salazar era mortal, dúvida metódica que muitas décadas de medo se tinham encarregado de acentuar, receio que remetia para as confidências da Irmã Lúcia ao cardeal Cerejeira, que o frio ditador fora escolhido pela Providência para governar Portugal, maldade que ameaçou eternizar-se em divina afronta.

No Hospital da Cruz Vermelha reuniam-se conselhos de ministros a fingir para dar ao tirano a ilusão de que ainda dirigia o país, que rezava, a mando dos padres, a implorar a cura. O desejo dos suplicantes aturdia o País urbano que temia a cura que devolvesse o enfermo à governanta, às galinhas que ambos criavam e a S. Bento.

Os boletins médicos descreviam o «homem providencial» como apirético e em risco de cura. Viveram-se momentos de pânico nos primeiros tempos em que Marcelo o revezou até sucumbir com o ar fresco de uma madrugada de Abril.

No Verão de 1970 fervilhavam boatos enquanto os jovens continuavam a morrer nas colónias e os portugueses aumentavam o ódio à ditadura e a coragem de afrontá-la, nas deserções da tropa ou enfrentando-a nas universidades, nas fábricas e nas ruas.

Em 27 de Julho desse ano a música fúnebre das emissões de rádio e de televisão soou aos ouvidos de muitos como um hino à liberdade. A notícia soube-se primeiro pelo ar feliz dos transeuntes – a informação ia passando de boca em boca – e pelos noticiários, depois. Morta a peçonha esboroar-se-ia o regime.

Na tertúlia do Café Nova York duvidou-se da veracidade da notícia. Ninguém tinha a confirmação de fontes estrangeiras e a credibilidade das portuguesas era igual à do regime.

O António Queirós e o Magalhães dispuseram-se a ir aos Jerónimos a confirmar o óbito. Ver para crer. Para o António era um acto de humor do antifascista de sempre. Para o Magalhães era a companhia do amigo e a decisão de quem sofria já de uma esquizofrenia que não mais deixou de apoquentá-lo. Só o testemunho deles faria fé para os amigos. Partiram, a pé, desde Entrecampos, tendo a peregrinação e o sacrifício um valor simbólico que valorizava o testemunho e o gesto picaresco.

Quando os dois entraram nos Jerónimos – confirmou o António -, havia mais polícias do que pessoas, apesar da multidão que exibia o último acto de servilismo, gratidão ou, sabe-se lá, de alívio. Integraram a fila, com o Magalhães, vestindo esmeradamente como sempre, e de preto, atrás do António. Foram avançando lentamente, ao compasso da fila, e logo reconheceram, junto à urna, Gabriel Monjane, o Gigante de Manjacaze, um amável negro moçambicano cuja desregulação hormonal o fizera crescer até aos 2,45 metros, com os horríveis padecimentos da acromegalia. Nessa altura ainda eles não podiam ver, nem adivinhavam, que junto do gigante se encontrava o anão de Arcozelo, seu companheiro num circo que os explorava como «o homem mais alto do mundo e o mais baixo». Nunca se soube quem foi o prócere do regime que abrilhantou o velório com o número de circo que sublinhava a tragicomédia da cerimónia fúnebre.

O António progredia na fila, calmamente, com semblante adequado à circunstância, mas evocando os camaradas mortos a seu lado, na Guiné, conhecidos que desertaram, compatriotas emigrados e amigos presos, tudo por causa do tirano que jazia a curta distância com honras de Estado e sem honra. Em contraste, o Magalhães impacientava-se. Perturbava-o a doença e não o acalmava a serenidade do António.

Lá chegaram, finalmente, junto do féretro. O gigante e o anão ali estavam integrando e acentuando o espectáculo pífio a que os destinaram. Cavalheiros de óculos escuros escrutinavam os passantes enquanto as fardas militares e as vestes talares coloriam a cerimónia. Umas carpideiras, por devoção ou encomenda, quem saberá dizê-lo, estacionadas junto ao cadáver, completavam o quadro mórbido.

Mal chegaram junto do caixão, o Magalhães, cansado da demora e à beira de um ataque de esquizofrenia, encara de frente os homens de óculos escuros, olha com tédio as carpideiras, baixa o queixo, sacode a cabeça com vigor e, acto contínuo, vários desses vigilantes precipitaram-se sobre as mulheres e afastaram-nas.

O António apanhou um susto enorme e pôs o ar compungido que a ocasião e o pânico lhe impuseram e só voltou a encarar o Magalhães depois de há muito terem deixado o mosteiro e os gorilas, cujos constrangimentos autoritários os levaram a obedecer prontamente ao primeiro gesto decidido de um doente psíquico, bem integrado, aliás, na esquizofrenia colectiva em que o regime mergulhara.

Jornal do Fundão/Ponte Europa – Publicado em 12-07-2007

12 de Julho, 2007 Carlos Esperança

Deus estará internado?

A idade e o reumático, a caquexia e o mau humor, fizeram ensandecer Deus. São más as companhias que escolhe para esbater o tédio e pôr-se á conversa. Bush e Bin Laden são as pessoas com quem costuma falar – dito por eles – e são as menos recomendáveis. Mal por mal, antes o Papa católico que, por enquanto, é menos perigoso.

Quanto à Alexandra Solnado são devaneios de velho que ainda vê nela uma jovem e lhe avalia a sanidade mental pela sua.

Deus, nas suas infinitas solicitações, acabou por se desinteressar da religião verdadeira – a única -, a católica apostólica romana; esqueceu-se do Rätzinger ou tem vergonha dele; não se abeira do bando de bispos e padres que ainda se arrastam com o missal numa das mãos e o breviário na outra; e, finalmente, já não tem vagas no Paraíso sobrelotado com os mártires das Cruzadas desde finais do século XIII.

A Irmã Lúcia, por falta de espaço, dorme com os primos nuns aposentos abandonados no Purgatório, depois de ter sido íntima da Senhora de Fátima, ter visitado o Inferno onde ardia o Administrador do concelho de Ourém, que não ia à missa, e de ter visto um anjo que andava à solta na Cova da Iria.

O Papa Rätzinger nunca falou com Deus nem com ninguém da família, apenas com os jovens soldados nazis e, depois, com o exército das sotainas. Nas relações com o divino está em desvantagem com a Alexandra Solnado e com o antecessor que era danado para visões e milagres e estava convencido da existência de Deus.

B16 é o guardião da fé verdadeira, sem que Deus, um parente, a Senhora de Fátima ou o Santo Escrivá lhe anunciem que dirige uma empresa, com vastíssimos bens, cujo dono morreu e de que ele, Papa católico, é o único herdeiro.

12 de Julho, 2007 Hacked By ./Localc0de-07

O fundamentalismo católico (2)

Em seguimento do artigo apresentado pelo Carlos sobre a posição da ICAR relativamente às Igrejas, não existem, apenas a ICAR é Igreja, restantes são “despromovidas” a “comunidades eclesiais”, segue um excerto do documento elaborado pelo Santo Oficio (agora conhecido pelo pomposo nome de Congregação para a doutrina da fé) “Respostas a questões relativas a alguns aspectos da doutrina sobre a Igreja“.

Segundo a doutrina católica, tais comunidades não têm a sucessão apostólica no sacramento da Ordem e, por isso, estão privadas de um elemento essencial constitutivo da Igreja. Ditas comunidades eclesiais que, sobretudo pela falta do sacerdócio sacramental, não conservam a genuína e íntegra substância do Mistério eucarístico, não podem, segundo a doutrina católica, ser chamadas “Igrejas” em sentido próprio.

Obviamente que as Igrejas “despromovidas”, melhor falar em ex-Igrejas senão caio em heresias, não gostaram e com razão, a irracionalidade da fé não se mede aos palmos, totalitarismo da ICAR vai criando sectarismos de sim ou sopas, trincheiras de cristãos não-católicos apinham, diálogo com o totalitarismo católico é fantasia, revolução de bíblias e luta pela liberdade de usufruírem do termo “Igreja” mais se acentua.

O pastor Domenico Maselli, presidente da Federação de Igrejas Evangélicas na Itália, resume bastante bem estes contextos, “para a Santa Sé, o único modo de conseguir a unidade dos cristãos seria entrar na Igreja Católica Romana“. Interessante que quando religiões sentem a liberdade a ser atacada os prosélitos desaparecem, fica apenas o sumo.

Paolo Ricca, da Igreja Valdese afirma que a ICAR “tem uma ideia monopolista do cristianismo que irrita e é difícil de digerir.” e que o documento “é um duro ataque à identidade dos outros“. Realmente é interessante concluir que como a maioria do cristianismo não é católico, este ataque à identidade dos outros cristãos tem proporções enormes, desprezando neste caso o resto do Mundo. Uma tentativa contínua de cisão de cerca de 17% da população mundial (a católica), com o resto do Mundo.

Os intolerantes não podem ser tolerados, e os defensores de dar a outra bochecha para outra estalada, seguida das bochechas das nádegas para mais estaladas, defendem o conceito quando oprimidos. Tão bem lhes fazia ler a Declaração Universal dos Direitos Humanos

Também publicado em LiVerdades

12 de Julho, 2007 jvasco

Ateísmo na Blogosfera

  1. «Nada pode garantir isso. Durante mais de mil e quinhentos anos julgava-se que sim. A autoridade determinava a verdade. A Bíblia, Aristóteles, o Papa, os doutores da Igreja. Para saber alguma coisa consultava-se a autoridade. Uma vez que a autoridade desse a verdade última podia-se deduzir consequências com a lógica aristotélica, mas observações eram só a título de exemplo e de pouca importância. Aristóteles disse que as mulheres eram seres inferiores e tinham menos dentes. Se ele disse, era verdade. Ir contar só baralhava e era perda de tempo.[…]

    A maior descoberta foi que o mundo que nos rodeia tem muito mais informação que o umbigo. Mesmo que seja o umbigo de um santo ou de um filósofo. Mas alguns ainda insistem nesta treta da verdade última e na teologia como forma complementar de compreender. Não é. Usar a vassoura ao contrário não é uma forma complementar de varrer. É asneira. O cabo não varre nada e as cerdas só espalham pó. Derivar o conhecimento da autoridade é fazer as coisas ao contrário. É o conhecimento que obtemos por observação que nos dá autoridade para dizer o que é e o que não é.

    Mas têm razão numa coisa. A ciência nunca dará a sensação de termos a verdade última. Essa sensação só vem da ignorância.»(«Ao contrário.», no Que Treta!)

  2. «Na Ciência incentiva-se que os erros sejam criticados e corrigidos, ao invés de colocar a poeira debaixo do tapete. Na Ciência não existem livros sagrados nem sacerdotes do conhecimento que definem leis inquestionáveis.
    A imaginação tem possibilidades ilimitadas. O método científico é aberto a essas possibilidades, mas selecciona as mais aptas que sobrevivem com o tempo pela poda da dúvida. Podem chamar fé a isso, mas se a vossa fé não é assim, então não é a mesma. Usar a mesma palavra para duas coisas diferentes não as torna iguais.
    É verdade que a Ciência é limitada. É por isso mesmo que é útil. Não tem respostas para tudo, mas reconhecemos os méritos pelos resultados. Para as crenças merecerem o mesmo respeito, devia-se exigir o mesmo. Quanto a isso, há uma constante decepção na ilimitada estupidez dos dogmas, também chamados de Verdade
    Ciência e dogma», no Crer para Ver)
  3. «Só que as semelhanças com a reacções às caricaturas de Maomé não se ficam por aqui: como as religiões são mesmo todas iguais, também os jovens membros do «Muthiko Alaiak» tiveram de tomar medidas não só para proteger o cartaz até à hora do desfile, mas tiveram inclusivamente de contratar seguranças pessoais, ante a persistência das ameaças de que têm sido alvo por parte de muitos fervorosos e piedosos católicos que têm formas mais peculiares de manifestar a sua indignação e de amar o próximo como a si mesmos.»(«O Falangista», no Random Precision)
12 de Julho, 2007 jvasco

Enviesamentos Cognitivos VI – A percepção selectiva

Um jogo Benfica-Sporting. Os Benfiquistas acham que o árbitro favoreceu escandalosamente o Sporting. Os Sportinguistas acham que o árbitro estava comprado pelo Benfica. Quem não conhece a situação?
O curioso é que muitos dos indignados de ambos os lados estão-no honestamente. Pelo menos foi isto que várias experiências mostraram.

É o efeito de «percepção selectiva», outro enviesamento cognitivo natural no ser humano. As espectativas alteram as percepções, Desde as pessoas que acreditam estar bêbadas e não estão, até às várias que acreditam ter visto o Sol a dançar, a verdade é que o ser humano tende a interpretar aquilo que vê à luz daquilo que espera ver, e muitas vezes ignora dados, ou vê coisas que nunca aconteceram. Não são só os loucos, ou os mais alucinados: é o ser humano normal.

Assim sendo, quando se reza e se espera uma resposta, é possível interpretar o que acontece em seguida como sendo extraordinário, mesmo que não o seja. É possível ignorar tantas coincidências quantas se queiram, e dar apenas atenção àquelas que parecem ser resultado nas nossas orações.

A percepção selectiva não conduz à religião por si. Conduz à manutenção das expectativas, sejam elas quais forem. Dificulta a mudança de paradigma, a aprendizagem. Para quem foi ensinado que Deus existe, este enviesamento cognitivo tornar-lhe-á mais difícil abandonar esta crença, mesmo se surgirem dados que indiciem o contrário.
A influência cultural do clero, da religião e das igrejas não tende a acentuar este enviesamento cognitivo, nem a esbatê-lo. A forma de sermos cada vez menos afectados por ele é mesmo a aprendizagem de ideias diferentes, a discussão livre de ideias, a ginástica mental, a convivência com quem interprete a realidade de forma diferente.

Uma sociedade menos afectada pela percepção selectiva terá maior facilidade em abandonar ideias sem sustentação empírica e racional que as justifiquem. E isto pode ser prejudicial para a religião.

12 de Julho, 2007 jvasco

Enviesamentos Cognitivos V – O efeito de rebanho

As eleições devem ser disputadas simultaneamente em todo o território, e não é por acaso. Existem uma série de factores que influenciam os eleitores que votarem depois de alguns resultados serem conhecidos, alterando o seu sentido de voto. Um deles é o efeito de rebanho.
Nos EUA fizeram-se uma série de experiências. Numa delas eram dados a dois grupos de pessoas diferentes uma série de cenários hipotéticos, com informações imaginárias sobre cada candidato, pedindo a cada pessoa para simular um voto. Mas enquanto num dos grupos dizia-se que um certo candidato era o vencedor mais provável, no outro dizia-se que era outro. As votações diferiram muito, principalmente entre os indivíduos que não eram próximas do partido republicano ou democrata – nestes casos a probabilidade de votar num candidato, sabendo que era o provável vencedor duplicava! E mesmo entre os eleitores mais próximos de um dos partidos, a probabilidade de votar no candidato apoiado pelo partido adversário aumentava sabendo que se tratava do provável vencedor.

Muitos indivíduos procuram estar no lado que lhes parece mais «forte», confundindo a força dos apoiantes de uma posição com a justiça dessa posição. Não é por acaso que nas campanhas políticas são afixados tantos cartazes quase sem conteúdo: cada partido tenta mostrar a sua força, pois sabe que muitos eleitores são influenciados por este efeito.
Assim, a propaganda sobrepõe-se à discussão racional das ideias, e ficamos todos a perder. O pior é que nenhum indivíduo reconhece estar a ser vítima deste efeito, e assim é mais difícil contrabalançá-lo e proteger-se dos seus efeitos perniciosos.

A religião maioritária numa sociedade também é altamente favorecida por este efeito. Isto explica muito da história do cristianismo: a conquista dos corações através de demonstrações de força e de poder, que foram acontecendo através dos tempos. O islamismo teve, e tem, uma história parecida a este respeito.

Este enviesamento cognitivo não só favorece a crença nas religiões dominantes, promovendo as demonstrações de força e de poder, e dificultando a livre discussão de ideias, a extinção dos preconceitos injustificados e a prevalência da razão e do conhecimento, como também é favorecido por estas religiões e pelo impacto cultural que têm.

Importa evitar ser vítimas deste envisamento cognitivo, mas isso também significará que as religiões maioritárias vão consequentemente perder força e influência.

11 de Julho, 2007 Carlos Esperança

O pesadelo da Mesquita Vermelha

Enquanto a al-Qaeda ameaça Salman Rushdie e a Grã-Bretanha e um ataque talibã mata 12 crianças no Afeganistão, termina de forma cruenta a resistência de radicais islamitas na Mesquita Vermelha de Islamabad.

Só na última noite foram mortos mais de cinquenta crentes cujo fanatismo os levou a procurar o martírio: uns por medo de Deus, outros por temor ainda maior dos clérigos.

O líder rebelde, Rashid Ghazi morreu em combate como lhe exigia a fé e o desvario. Ele apenas tirou bilhete de ida para o Paraíso onde 70 virgens o aguardavam nas margens de um rio de mel à sombra de árvores frondosas. Mas também perderam a vida dezenas de vítimas fanatizadas e pessoas aterradas pela crueldade de Deus e a violência do clero.

Acontece nas sociedades tribais e nas religiões um eterno desejo de retorno às origens. É difícil erradicar a violência sectária sem estabilizar Estados laicos e fazer a pedagogia dos Direitos do Homem.

A que a população islâmica mais aprecia no Ocidente, contrariamente ao que se julga, é a liberdade religiosa, embora não saiba quanto custou a liberdade do jugo clerical e do seu poder totalitário. A democracia não foi um milagre da Providência, tem uma longa história de mártires que não ascenderam aos altares nem à perpétua glória do Paraíso.

Sem a separação da Igreja e do Estado não há liberdade, não existe democracia, não se defendem os Direitos do Homem nem a mulher deixará de ser um objecto vítimas de quem detém o poder e domina a sociedade. E a teocracia é a antítese da democracia.