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24 de Novembro, 2007 Ricardo Alves

Angelina Vidal: «Conclusão Scientifica»

Se consulto os fenómenos geológicos,
Se contemplo no céu as nebulosas,
Se interrogo os segredos histológicos,
E os restos das esferas luminosas;

Vejo sempre matéria em traços lógicos,
No espaço, nas entranhas tenebrosas,
Com átomos subtis, embriológicos,
Tecendo maravilhas assombrosas

Transformação constante – a causa eterna
Eis a lei que preside e que governa,
O facto que destrói a escura fé.

É debalde que os crentes se consomem,
Se Deus veio primeiro do que o homem,
Deve ser, quando muito, um chimpanzé.

Este soneto claramente ateísta foi publicado, em 5/6/1910, no Jornal de Abrantes, pela republicana, feminista e socialista Angelina Vidal. Repare-se no deslumbramento perante um universo cujos mistérios só se resolvem pela ciência, e na coragem da blasfémia final.

24 de Novembro, 2007 Carlos Esperança

ICAR com 23 novos cardeais

O aviário do Freixial cria frangos, o Vaticano cria cardeais. Cada indústria cria os seus produtos a fim de satisfazer os gostos da clientela. Na Covilhã fabricam-se tecidos, em Gondomar artefactos de ouro e móveis em Paços de Ferreira, mas cardeais só o Papa os pode criar.

Já os santos são mais fáceis de fabricar. Das Caldas da Rainha ao Vaticano há muitas oficinas onde se esculpem com mais rigor e honestidade do que no bairro das sotainas. Dos santos das Caldas até eu gosto, pela saudável irreverência dos artesãos e pela boa disposição que os canonizados de barro transmitem aos fregueses das olarias.

Amanhã, todavia, é de cardeais a criação a que se dedica B16. O consistório deste fim-de-semana é destinado à criação de 23 cardeais. Podia criar mais um, pois sempre ouvi dizer que à dúzia é mais barato. Os bispos perdem facilmente a cabeça pelo barrete cardinalício e o Papa aproveita para escolher os apaniguados que perpetuem a forma de enganar o mundo.

Não se pense que é com a coluna vertebral direita que os novos purpurados recebem das mãos do Papa o respectivo barrete. É de joelhos, como soe acontecer com quem troca a honra pela crença. Aliás, nas Igrejas, é de joelhos ou de rastos que os homens perdem a dignidade e ganham as honrarias. Os próximos cardeais, que hoje recebem o barrete, têm amanhã, domingo, direito ao anel cardinalício.

23 de Novembro, 2007 Ricardo Silvestre

«crackpots»

Uma introdução ao que vão ver.

Mitt Romney, candidato pelos Republicanos ao lugar mais poderoso do mundo, é um membro sénior da religião dos Mormons. Aparentemente o senhor não quer que o seu culto seja questionado como sendo parte integrante das suas crenças, das suas motivações e do seu carácter. Christopher Hitchens explica porquê é que deve ser questionado.

Momentos deliciosos por parte de Hitchens:

«[Mitt Romney] tem de deixar de dizer que não estamos autorizados a fazer perguntas sobre a sua religião e que fazer essas perguntas e não-Americano.»

«ele [Mitt Romney], diz que o paraíso fica em Missouri e que voltará a ser depois de Jesus voltar, eu acho que é uma crença imbecil»

«sim, eu penso que todas as religiões são igualmente absurdas»

Precisamos de mais Christopher Hitchens no mundo.

22 de Novembro, 2007 Carlos Esperança

Crentes e descrentes

Nunca pensei que a bondade ou a maldade resultassem da religião de cada um, mas não tenho dúvidas da violência que a fanatização produz. Os ateus, que eu saiba, não são prosélitos nem andam de casa em casa a divulgar o seu pensamento e jamais pensariam em utilizar um recém-nascido para o iniciar nas virtudes do ateísmo.

Os ateus, perante as evidências, mudam de opinião; os crentes mudam os factos. Nunca um ateu ameaçaria alguém dos sofrimentos a que a morte o condenaria se não fosse ateu e, muito menos, lhe ocorreria ditar a pena de morte por heresia a quem, por fraqueza, virasse crente.

Acontece que a heresia e a apostasia são, para as religiões, dos mais graves pecados que um crente pode cometer, sendo a morte a justa punição. No primeiro caso trata-se de mera diferença de opinião e, no segundo, de mudança de posição. Só a intolerância da fé é capaz de aplicar a pena ou, à míngua do braço secular, ameaçar com o Inferno.

Os livros sagrados são catálogos de mentiras vertidas em livros de terror. Plagiam-se uns aos outros, alteram os feriados e semeiam o ódio entre os que foram fanatizados por um livro ou pelo plágio. Há gente boa capaz das maiores atrocidades para agradar ao seu Deus e gente culta capaz de acreditar que Deus fez o mundo em seis dias e repousou ao sétimo.

Os cientistas da costela de Adão e os que vêem o Sol a girar à volta da Terra ainda hão-de explicar como é que Galileu, depois de tantos anos de Inferno, uma vez reabilitado, conseguiu transporte para o Céu, sem rede viária que os ligue. E quem o indemniza por perdas e danos do tempo em que esteve excomungado no Inferno por ter razão antes da Igreja, como é habitual?

22 de Novembro, 2007 Helder Sanches

Houston Church of Freethought

E hoje tenho um rebuçado para os crentes que visitam este blog; pois é, vou criticar alguns… ateus!

Não vou procurar grandes justificações, uma vez que o alvo da minha critica soa-me tão absolutamente ridículo que nem me quero dar ao trabalho de perder muito tempo com o assunto. Basicamente, a questão é esta: não chegavam já as religiões, igrejas, cultos e seitas existentes com crenças fantásticas em histórias da carochinha? Era mesmo necessário criar uma igreja de “livre pensadores”? Pelos vistos, a resposta a esta última pergunta é afirmativa.

No Texas, Estados Unidos (where else?), existe a Houston Church of Freethought (Igreja de Livre Pensamento de Houston), local que, aparentemente, serve para os encontros mensais de ateus, agnósticos, cépticos, etc. Com alguns serviços de índole social à mistura, salta à vista a isenção fiscal como uma vantagem em relação a outros formatos associativos que serviriam perfeitamente os mesmos interesses.

Como diria um personagem conhecido: não havia necessidade!

Enfim, americanices…

(Publicação simultânea: Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)

22 de Novembro, 2007 Carlos Esperança

Espanha – 32.º aniversário desta monarquia

Há tradições do Tribunal do Santo Ofício que servem ainda de catarse popular aos ódios e ressentimentos. Acabaram as cremações de corpos exumados por ódio e raiva pia, mas permanecem, à semelhança da queima em efígie, as labaredas de fotos de quem se detesta.

As bruxas, livres da Inquisição, dedicam-se ainda a espetar alfinetes em figuras de cera odiadas pelos clientes, habitualmente por amores interrompidos ou não correspondidos. Já nem as autoridades as perseguem por burla, quanto mais queimá-las por malefícios. Os clientes trazem os conselhos e deixam as poupanças com a foto do/a amante infiel ou a peça de roupa de quem lhes fez mal.

No mundo urbano as práticas são mais sofisticadas e limitam-se à queima de bandeiras e de fotos dos líderes que se detestam. A bandeira dos EUA é o alvo preferido e o mais consensual, da Europa à Ásia, com especial entusiasmo no Médio Oriente. Quanto aos líderes mundiais, Bush destaca-se e esforça-se por merecê-lo. Mas não é costume haver multas para este tipo de catarse.

Em Espanha, porém, as multas que um juiz aplicou aos responsáveis pela publicação de uma caricatura dos Príncipes das Astúrias foram o início de uma perniciosa perseguição judicial que culminou com elevadas multas aos pirómanos de fotos reais e trouxe para a discussão pública o regime.

Juan Carlos, que hoje comemora o 32.º aniversário de reinado, é um democrata com provas dadas. Poucos têm tão honrados pergaminhos em prol da democracia, mas os acontecimentos dos últimos dias são de molde a que a discussão sobre a legitimidade monárquica suba de tom.

A escolha pelo mais sinistro ditador peninsular, o restabelecimento de uma monarquia caída nas urnas e a excessiva exposição mediática do rei, debilitaram a monarquia. A Espanha começa a esquecer o papel decisivo de Juan Carlos na transição pacífica de uma das mais atrozes ditaduras da Europa para uma das mais prósperas democracias.