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Categoria: Não categorizado

5 de Novembro, 2009 Fernandes

A Bíblia (I)

– Para aqueles que acham que o mundo devia ter a Bíblia como guia, que esse livro foi “revelado” por Deus e quem aspira à santidade deve adoptá-lo como código moral:

Há milhões de pessoas que acreditam ser a Bíblia a “Palavra de Deus”, ou por Ele inspirada. Milhões de pessoas acreditam que a Bíblia é um guia moral, um livro conselheiro e consolador que incentiva a paz e esperança no futuro.

Milhões de pessoas acreditam que a Bíblia é a fonte da lei, da justiça e da clemência, pela qual o mundo devia reger-se na base da liberdade nela expressa e na riqueza civilizacional dos seus sábios ensinamentos. Milhões de pessoas acreditam que a Bíblia é a revelação do amor de Deus ao homem. Mas também milhões de pessoas ignoram ou tentam omitir, a selvajaria, o ódio à liberdade, o incentivo à perseguição religiosa, à vingança e à dor eterna, expressa na Bíblia. Omitem que ela é inimiga da liberdade intelectual, e incentiva à superstição.

A Bíblia tem na sua origem umas famílias errantes, pobres e ignorantes, sem educação, sem qualquer forma de arte ou poder. Descendentes daqueles que foram escravizados, acabaram fugidos dos seus senhores, no deserto. O seu líder, Moisés, é descrito como um homem criado pela família do Faraó. Aprendeu a lei e a mitologia egípcia, falava assiduamente com Deus, chegando inclusivamente a encontrar-se “face a face” com Ele, recebeu das mãos deste, umas tábuas de pedra com dez mandamentos escritos. Deus informou Moisés sobre os sacrifícios que lhe agradavam ou não, e as leis que deviam governar esse povo.

Afirmaram que o Pentateuco era da autoria de Moisés. Hoje sabemos de fonte segura que não,  porque nele são mencionadas cidades que nem sequer existiam na época em que Moisés viveu, é mencionado dinheiro que só foi cunhado muitos séculos após a sua morte. Muitas leis que são mencionadas no livro, sobre agricultura, sacrifício, sobre tecelagem de roupas, sobre o cultivo da terra, sobre as colheitas, o debulho do grão, casas e templos, sobre cidades e sobre muitos outros assuntos; não têm relação possível com uns quantos viajantes famintos, errantes no deserto.

Todos os teólogos são unânimes em afirmar que o Pentateuco não foi escrito por Moisés, nem por uma só pessoa. Todos admitem que não é possível saber quem foram os autores daqueles livros. Todos são unânimes em reconhecer que esses textos estão repletos de erros e contradições, por exemplo:

– Jusué não escreveu o livro que tem o seu nome, porque nele existem referências a eventos que ocorreram muito tempos após a sua morte. Ninguém conhece o autor de Juízes; mas sabe-se que foi escrito séculos após os juízes terem deixado de existir. No 25º capítulo de I Samuel, é narrada a criação de Samuel pela feiticeira de Endora, mas ninguém conhece o autor do Primeiro ou do Segundo de Samuel; sabe-se apenas que Samuel não escreveu os livros que têm o seu nome. Ninguém sabe quem foi o autor de Rute ou o autor de I e II Reis ou de I e II Crónicas; tudo o que sabemos, é que tais livros não têm qualquer valor. Sabemos que os Salmos não foram escritos por David. Neles fala-se da escravidão, a qual só ocorreu cinco séculos após David ter “dormido” com os seus pais. Sabemos que Salomão não escreveu os Provérbios nem os Cânticos; que Isaías não foi o autor do livro que tem o seu nome; que ninguém conhece o autor de Jó, Eclesiastes, Éster ou qualquer outro livro do Novo Testamento, com excepção de Esdras. Sabemos que Deus não é citado no livro de Éster, mas basta lê-lo para constatar que o livro é cruel, absurdo e impossível.

Podemos constatar que Deus não é mencionado no Cântico dos Cânticos, – o melhor livro do Velho Testamento. Mas sabemos que Eclesiastes foi escrito por um incrédulo, e que até ao século II da N.E. (nossa era), os judeus não haviam decidido que livros seriam considerados como “inspirados”. Sabemos também que a ideia da “inspiração” se foi difundindo lentamente, e que essa pretensa inspiração foi determinada por “indivíduos” que tinham objectivos muito bem definidos.

O problema começa quando estes ”indivíduos” alegam que essa lei foi “revelada” e estabelecida para ser aplicada a toda a humanidade.

1 de Novembro, 2009 Fernandes

A dissolução da família

A propósito da polémica que se adivinha sobre a lei da união de facto, e para a qual a Igreja Católica já afia navalhas:

Na Roma antiga os deuses não intervinham para oficiar casamentos, não se fazia distinção entre casar e coabitar. O casamento não passava de um acordo privado entre famílias, selado com um banquete, regado com bom palhete. A prática daquilo a que hoje chamamos, amor adúltero, foi socialmente aceite durante vários séculos. O casamento era pois, um acto de carácter prático, um acordo de conveniência. A Igreja Católica Apostólica Romana, cujos ministros não se contentam em “levar as almas todas para o céu principalmente aquelas que mais precisarem”, (assim me obrigam em miúdo, a rezar no terço) …  à medida que reforçava o seu poder económico e político, empenhava-se no controlo e regulamentação do casamento, impondo inclusivamente, restrições em matéria sexual.

O concílio de Worms (1077) proibiu a poligamia, censurou os prazeres do corpo e até proibiu os banhos! Os respeitáveis funcionários de deus, bafejados pelo Espírito Santo, chegaram à conclusão de que o sexo estava relacionado com doenças como a lepra (tal era a sua obsessão pelo pecado da carne). O concílio de Latrão (1215) estabeleceu como condição para o reconhecimento da união, um dote para a noiva, e a boda tinha que ser celebrada numa Igreja, sendo que, só eles podiam oficializar o acto. A Igreja estabeleu ainda, a possível causa para a anulação do casamento, a impotência, esta era verificada por um grupo de mulheres “idóneas”, que deveriam vigiar o casal durante o acto sexual e comprovar se o membro viril estava ou não capaz, na função para o qual deus o engendrou.

Mas a terra gira, e mesmo contra a vontade dos digníssimos representantes de deus, as coisas começaram a mudar quando no século XVI, Henrique VIII de Inglaterra, resolveu mandar o Papa às urtigas e se divorciou das suas esposas, contribuindo sem o saber, para a grande “revolução” na vida conjugal da Europa. No século XX, e com a emancipação económica da mulher, o casamento baseado no marido que sustentava a família e na esposa dona-de-casa que o esperava enquanto mudava as fraldas aos rebentos e vigiava as panelas ao lume, deixou de ser o único modelo possível. Nos E.U. enquanto Frances Willard escrevia sobre o prazer de andar em bicicleta, alguns crentes alertavam para o perigo de tal prática, afirmando que esse era o primeiro passo para a degeneração sexual da mulher. Também o antropólogo J. Allen, alertava para o perigo que seria, conceder o direito de voto às mulheres casadas, afirmava que tal facto iria conduzir inevitavelmente à “dissolução da família”. Em Portugal, até ao 25 de Abril de 74, o marido podia pedir o divórcio em caso de adultério da mulher, já o contrário não era possível.  A boa esposa porém, era obrigada a pedir autorização ao marido para abrir uma simples conta no banco.

É notório o vazio e inutilidade da quase patética cerimónia religiosa a que os curas insistem em submeter os nubentes. As Igrejas estão cada vez mais vazias, é um facto indesmentível que os padres reconhecem com desespero ao verem diminuir drasticamente as receitas. O que está em jogo é o que o Clero mais teme: a perda do protagonismo na organização social do país. Antigamente o casamento era uma forma de transmitir a propriedade e ampliar os laços sociais; hoje, baseia-se no amor, premissa que o Clero desconhece.  A Saramago não lhe é reconhecido o direito a opinar sobre a bíblia. Que sabem do amor conjugal uns celibatários que jamais experimentaram o afago e o beijo de uma esposa e recusam o ensejo da paternidade? Deviam coibir-se de se pronunciar sobre o amor que outros sentem, partilham ou decidem levar à prática.

26 de Outubro, 2009 Raul Pereira

Manutenção

Durante as próximas horas vamos proceder à manutenção do blog. Prometemos ser rápidos. Obrigado pela compreensão.

Actualização: tudo novo!

26 de Outubro, 2009 Carlos Esperança

“O Ódio de Vasco Pulido Valente…

Por

Daniel Nicola

Não se conhece a Vasco Pulido Valente uma palavra simpática sobre seja o que for. Preso no século XIX de onde nunca conseguiu sair, esta múmia a quem ficámos a conhecer (para além da prosa execrável) a voz estridente e irritante naquela parelha única da TV que a censura fez o triste favor de tirar do ar, dedica hoje* a sua crónica de ódio a José Saramago. Não pelo seu livro, não pelas suas declarações. Apenas porque Saramago não foi parido pela elite burguesa e decadente que ao país só trouxe atraso e miséria.

Para VPV as ideias de Saramago são “de trolha ou tipógrafo semi-analfabeto”, produto da senilidade dos seus “80 e tal anos”. O Nobel foi atribuído como a “vários camaradas que não valiam nada” e é lido por milhões de pessoas “acéfalas que nem distinguem a mão esquerda da mão direita.” VPV não reconhece “a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a bíblia ou sobre qualquer outro assunto”. Essa suposta autoridade só lhe deve ser concedida porventura a ele próprio que opina acerca de tudo dizendo pouco mais do que nada, mantendo porém sempre o indelével traço da arrogância e altivez. Depois vem a velha lenga-lenga do PREC e do DN há muito desmentida, quer por Saramago, quer por quem o acusava, mas parece que tal não teve eco nas masmorras do séc. XIX onde VPV está agrilhoado.

Mas a sobranceria e desdém não acabam aqui: “Saramago está mesmo entre as pessoas que nenhum indivíduo inteligente em princípio ouve” e a pérola final diz tudo sobre o carácter do seu autor: “D. Manuel Clemente conhece com certeza a dificuldade de explicar a mediocridade a um medíocre e a impossibilidade prática de suprir, sobre o tarde, certos dotes de nascença e de educação.” Ou seja, resume tudo à falta de berço, argumento tão querido à nata da sociedade que passados quase 100 anos sobre a fundação da República ainda não entendeu (apesar de todas as obras e teses por ele publicadas) nem o seu significado, nem sequer a premissa de que somos Homens iguais a quem se devem dar iguais direitos e iguais oportunidades. E é por isso que destila diariamente o ódio a tudo e a todos que vêm de baixo, aos que sobem a pulso, aos que não se deixam vencer pela sua condição social, aos que indo da “província” para Lisboa não se intimidam pelas elites que ainda se julgam aristocráticas por viverem das rendas que os negócios do estado proporcionam, bem mais lesivas para o país do que os supostos milhões perdidos para os pobres preguiçosos do RSI a quem todos culpam.

A verborreia de VPV é bafienta e rancorosa. Nada mais. Um produto de quem pouco vivendo prefere o ataque à vida dos outros. VPV coloca-se num pedestal tão alto que acaba por pouco ou nada ver, e quando vê, vê desfocado pela névoa do preconceito.

E conclui: “O que espanta neste ridículo (…) é a extraordinária importância que lhe deram criaturas com bom senso e escolaridade obrigatória”. Deve estar a pensar nele próprio, pois acabou por lhe dedicar toda a sua crónica no Público, e logo na irrelevante última página do jornal… Quem se espanta sou eu perante espantalhos destes!

* Texto enviado em 23 ct.

25 de Outubro, 2009 Ludwig Krippahl

Treta da semana: Leitura simbólica.

A propósito das declarações de Saramago, que a Bíblia é um «manual de maus costumes», teólogos e sacerdotes têm apontado que ler a Bíblia é uma coisa muito complicada. Como disse Carreira das Neves em debate com Saramago, a Bíblia tem infinitas leituras (1). Mas isso quase tudo tem e, retorquiu Saramago, por muitas interpretações que se dê a um texto não se pode esquecer o que lá está escrito.

Um problema que este episódio revela é a noção que alguns iluminados católicos sabem, com o saber de quem sabe, qual a interpretação certa para cada passagem. Por exemplo, o Filipe Noronha, no Companhia dos Filósofos, escreve acerca de Saramago que «mesmo para quem se diz ateu, a sua interpretação do texto e a mensagem que nos quer fazer chegar é […] um sinal claro de que devemos insistir na luta contra este tipo específico de ignorância.»(2) Mas dizer que a interpretação de Saramago é ignorante implica haver conhecimento. E, acerca disto, não há. Podemos ler tudo o que os cristãos escreveram acerca da Bíblia, de Aquinas a Ricoeur passando por Kiergegaard e C. S. Lewis, e o que vamos encontrar – nos duzentos mil livros que Carreira das Neves mencionou – é só opiniões. Para ser conhecimento precisavam assentar a opinião em algum processo fiável, testável e independente de opções subjectivas. Julgam que interpretam bem, cada um com a sua interpretação. Mas não sabem.

E isto de exigir «uma compreensão da Bíblia enquanto texto literário para verdadeiramente chegar ao seu sentido»(3) é moda recente. Só a partir do século XIX é que a exegese católica começou a considerar a Bíblia literatura. Antes disso defendiam uma interpretação literal. Daí que, quando afirmam que não se deve ler a Bíblia à letra, de uma forma a que chamam “banal”, contradizem dezoito séculos de tradição católica e outras variantes contemporâneas de cristianismo.

E a letra continua lá. Podemos interpretar o livro de Jó como uma crítica à justiça retributiva, mas é ainda verdade que Jahve e Satan submeteram o desgraçado a uma injustiça intolerável. Podemos ler o sacrifício de Abraão como um salto de fé, a solução para um dilema impossível, algo com um significado existencial tão profundo que não serve para nada. Mas não podemos negar que o texto exalta um personagem disposto a matar o filho em nome da religião. E isso é um mau costume. Qualquer pessoa civilizada reconhece que a liberdade religiosa acaba muito antes do infanticídio. Mesmo sendo legítimo aos católicos darem outras interpretações a estes textos, essas não anulam o que lá está escrito.

E há episódios que nenhuma (re)interpretação pode safar. Moisés desce da montanha e manda chacinar uma data de gente por ter um deus diferente. Deus manda matar cidades inteiras, destrói Sodoma e Gomorra por causa de preferências sexuais, transforma uma mulher em sal só porque olhou para trás, mata os primogénitos no Egipto só porque o Faraó era teimoso e assim por diante. Se os lermos como obra humana, estes relatos explicam-se pelo contexto cultural. Eram pessoas menos esclarecidas, intolerantes, sem respeito pela liberdade religiosa, privacidade e outros direitos fundamentais. Mas se é um livro inspirado por um deus então esse deus é horrível. Esse deus permitiu – e permite – que se façam coisas terríveis em seu nome. Se apedrejar uma rapariga até à morte por ter relações sexuais antes de casar não é um mau costume, não sei o que possa ser.

Finalmente, muitas interpretações pouco ajudam. O Novo Testamento relata como Jesus cresceu, liderou um grupo de crentes e foi morto na cruz. Os cristãos interpretam isto como um sacrifício do seu deus que, tornando-se homem, morreu e ressuscitou para nos redimir e mostrar que a morte pode ser vencida. O que é uma afronta ao sofrimento humano. Ser torturado e morrer é terrível, mas é terrível para quem é mortal, quem perdendo a vida perde tudo, quem não se pode defender do mal que lhe causam e deixa filhos órfãos e família desamparada. Um deus eterno, omnisciente e omnipotente, que com um pensamento podia ter transformado os soldados romanos em bolacha Maria, nunca esteve em perigo nem fez sacrifício nenhum. Fez teatro. E de mau gosto. É como ir à Etiópia, passar lá uma tarde sem lanchar e, de volta a casa, mandar àquela gente que morre à fome um postal da jantarada para terem esperança de vencer o seu jejum.

Muito pouco na Bíblia é compatível com os valores da civilização moderna. Quem preza a liberdade e a justiça não pode concordar nem com o antigo testamento, com um deus tirano que castiga e tortura só porque lhe apetece, nem com o novo testamento, em que o mesmo deus se faz inocente e se finge matar para nos dar esperança ou mostrar que morrer na cruz é amor. É claro que podemos reinterpretar a Bíblia à luz dos nossos valores. É sempre possível inventar que tudo o que parece mal é metáfora para outra coisa que vá escapando. Mas é incorrecto vender esta reinterpretação, muito forçada, como conhecimento. É mera opinião. E seria mais prático e honesto admitir, de uma vez por todas, que a Bíblia é um conjunto de obras literárias escritas por humanos. De grande valor histórico e cultural, com passagens bonitas, e com as falhas e caducidade de qualquer obra humana. O texto faz parte da nossa cultura mas a mensagem, felizmente, deixou de ser relevante.

Em simultâneo no Que Treta!

1- SIC, 23-10-09, Frente-a-frente, José Saramago e Joaquim Carreira das Neves
2- Filipe Noronha, 23-10-09, Todos temos razão.
3- Agência Ecclesia, Saramago faz releitura banal da Bíblia. Via (2).
4- Catholic Encyclopedia, Biblical Exegesis

25 de Outubro, 2009 Fernandes

O Deus do Clero

Este Deus é totalmente autónomo. Absoluto. Encerra tudo em si mesmo. É completamente diferente de tudo o que existe, pelo menos assim é descrito em todos os catecismos, e assim configurado, é como melhor serve e menos prejudica os interesses do Clero.

O Deus do Antigo e do Novo Testamento em nada difere do Zeus grego, do Júpiter romano ou Wotan germano. Todos são deuses despóticos, violentos e cheios de ciúme. Muitos duvidam da teologia que se encarrega da concepção de Deus, da fundamentação e das consequências que daí advêm para a vida dos homens. Não vai longe o tempo em que os Padres (a quem Deus investiu como donos-da-Verdade), ensinavam na catequese os muitos detalhes da natureza e vontade do “Deus-Verdadeiro”. Explicavam: «só o que a Igreja Católica ensina, é que foi revelado por Deus». Significa isso que nenhuma Igreja a não ser a Católica, está bem informada? Deus só se revela às suas ovelhas de forma indirecta? Os crentes só obtêm verdades em segunda mão? O Catecismo Católico continua a ensinar: «Deus permite o sofrimento, para que façamos penitência pelos nossos pecados para podermos obter a recompensa eterna». Assim sendo, milhares de sofredores, de assassinados (especialmente os assassinados pelo Clero), só padecem a dor para poderem obter a recompensa celestial? O catecismo, como código moral que é, continua: «os condenados ao Inferno sofrem mais do que qualquer homem pode imaginar. Padecem os tormentos dos fogo…e habitam na companhia do Diabo». Nos anos sessenta, estes absurdos, eram “Matéria de Fé” . O Clero, agora, não opina de maneira igual sobre este assunto. Ter-se-á então equivocado? Não é válido, hoje, aquilo em que éramos obrigados a acreditar firmemente, há trinta anos apenas?

– O Pecado é uma ofensa ao amor paterno, o perdão só Ele o pode conceder -. As interacções deste tipo, persistente e regularmente repetidas, são os factores constituites de qualquer religião. Às pessoas expostas a semelhante manipulação mental, estes mecanismos convertem-se em estruturas psíquicas solidificadas. As interacções entre Deus-Pai e Deus-Filho são petrificadas e convertidas em esquemas organizacionais abstractos (patterns) de modo que, os actos de demonstração amorosa como, a oração, o arrependimento e a obediência, provocam de maneira automática, as contrapartidas correspondentes, – o amor paternal de Deus! – Um deus que ama os seus, na condição de que estes acreditem que ele existe e Lhe obedeçam segundo a Sua vontade. Um Deus que ameaça com sofrimento eterno quem se atreve a questionar o seu amor ou a sua existência.

Deus não existe, o Clero sim. Este servir-se-á sempre da religião como do pão para a boca. Intitulam-se intérpretes de Deus, numa indisfarçável soberba e ganância pelo poder. Para eles a religião é o “emprego”. No dia em que o cristianismo se mostrar irremediavelmente inútil aos seus interesses, substituirão esta, por outra cosmovisão mais rentável.

Quem se atreverá a exigir de Deus, gestos de amor que possam, eventualmente, divergir dos interesses do Clero?

 

20 de Outubro, 2009 Fernandes

Saramago e a Bíblia

A origem e a função da escrita, supunha-se, que como todas as artes, fosse um invento dos deuses. O povo analfabeto, na sua maioria, sentia uma espécie de veneração por tudo o que fosse “escrito”, por isso não era difícil fazer crer que os “livros sagrados” pelo simples facto de estarem escritos, eram ditados e inspirados pelos deuses.

Os “livros sagrados inspirados por Deus” são numerosos, toda a religião que se preze, os tem. Podemos citar: os Veda da Índia, os Ching da religião imperial chinesa, os Sidhanta do jainismo, o Tipitakam do budismo tibetano, o Tao-Tê-King dos taoistas, o Avesta do zoroastriano persa, o Corão do islamismo, o Granth dos sijs, o Ginza do mazdeísmo, o Livro dos Mortos do antigo Egípto, a Bíblia dos judeus e cristãos e os Evangelhos dos cristãos.

Existem várias bíblias: a hebraica, a grega, a católica, e muitas cristãs, que na realidade se reduzem a duas: a bíblia rabínica, que inclui a Torah oral, e a bíblia cristã, que inclui o Novo Testamento. Os exegetas afirmam que a bíblia está muito acima de qualquer outro livro sagrado, não se sabe porque razão, a não ser pela auto-complacência e intolerância judeo-cristã. Claro que a mesma opinião, têm do seu livro todas as outras religiões.

O chamado Antigo Testamento é uma selecção aleatória e fragmentada das tradições transmitidas oralmente, como canções, provérbios, oráculos, lendas, etc., escritas em hebraico, aramaico e grego. Uma boa parte do que na bíblia se anuncia como inspirado por Deus, já havia aparecido anteriormente no “Código de Hammurabi” da Babilónia, escrito aproximadamente dezoito séculos antes da Nossa Era.

A bíblia é uma colecção de diversos géneros literários, o seu pluralismo corresponde ao pluralismo da sociedade judaica da época. O término grego “biblos” fazia referência a qualquer tipo de documento escrito. Entre os judeus e os primeiros cristãos, o término – livro sagrado -, designava exclusivamente o Antigo Testamento. Os cristãos, mais tarde, utilizaram o mesmo término no plural, – bíblia -, para designar as escrituras, tanto do Antigo como do Novo Testamento.

A religião do antigo Israel, como a de todos os povos semitas da época, não era monoteísta, como se pretende fazer crer, – era politeísta. As religiões sumérias, babilónicas, egípcias e gregas, contribuíram com muitas ideias, como, o monoteísmo, a figura do profeta ou do reformador, a esperança no que “há-de vir”, a ideia da imortalidade, a ordenação da vida religiosa através de uma lei e a conseguinte conversão da religião em lei ou Torah.

O judaísmo é a lei da dupla Torah: A escrita, constituída pelo Tanak – término formado com as iniciais da Torah (Peutateuco), Nebi`im (Profetas) e Ketubim (Escritos). A oral, formada pela Misnah (legislação judia) e os Talmud (comentários à Misnah) de Jerusalém e Babilónia.

O crítico moderno, separa o Antigo Testamento, da “tradição” posterior. Considera-o um legado de uma religião do Antigo Oriente. Os textos bíblicos foram escritos separadamente, o seu conteúdo era jurídico, profético, histórico, narrativo, mítico ou sapiente, mas não eram nem se consideravam sagrados, e muito menos revelados por Deus.

Não percebo pois, o porquê de tanta polémica acerca do último livro de Saramago.