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16 de Novembro, 2009 Luís Grave Rodrigues

A Tolerância Católica

Conta-nos o «Washington Post» que perante uma proposta de lei que será votada no próximo mês e que determinará a proibição da discriminação dos homossexuais e autorizará o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo no estado de Washington, a Arquidiocese da Igreja Católica daquele estado norte-americano anunciou que se tal proposta for avante terminará imediatamente todos os seus programas sociais como represália.

Nem vale a pena falar aqui do já famoso relativismo moral dos católicos.

Mas sabendo que a intolerância faz parte da doutrina católica, então uma coisa é certa:

– Esta é, de facto, uma atitude rigorosamente coerente.

15 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Tomás da Fonseca

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Ontem, dia 14 de Novembro de 2009, na FNAC, em Lisboa, foram lançados dois livros de Tomás da Fonseca, com a chancela da Editora Antígona:

– Na Cova dos Leões

– O Santo Condestável

A mesa, constituída pelo Editor Luís Oliveira, por João Macdonald e pelo presidente da Associação Ateísta Portuguesa (AAP)  procedeu à apresentação de dois relevantes livros de Tomás da Fonseca, à apreciação da grande figura histórica e anticlerical e à luta do escritor pela liberdade, durante a ditadura que quis transformar os portugueses num bando de beatos, tímidos e idiotas.

Tomás da Fonseca não foi apenas o algoz que ridicularizou os milagres e denunciou os negócios pios, foi um amante da liberdade, republicano impoluto e corajoso defensor da democracia. Foi impoluto na gramática e na ética na vasta obra literária que nos legou.

Luís Oliveira, ao editar-lhe os livros referidos, ganhou o reconhecimento dos que amam a liberdade e defendem o património histórico da luta contra o clericalismo.

Na assistência bisnetos e trinetos não escondiam a alegria pela exaltação do antepassado e a vaidade por verem reconhecido o exemplo cívico do ilustre republicano que honrou a República, a literatura e o livre-pensamento.

Ler Tomás da Fonseca é tomar a vacina contra a gripe do clericalismo que ameaça, de novo, tornar-se uma pandemia.

15 de Novembro, 2009 Fernandes

Terá futuro esta Igreja?

Segundo “Eugen Drewerman, 1999”, cometer-se-ia uma injustiça para com os eclesiásticos, se alguém quisesse dar deles uma imagem de marotos lúbricos, mentirosos e ávidos de poder. É certo que na história da Igreja Católica, não faltam épocas de autêntica hipocrisia e alegre “cinismo de taberna”, mas não é dos divertidos atrevimentos das freiras e padres do “Deccamerone de Boccaccio”, que falaremos, ou daquela farsa onde a madre abadessa, arranjando-se à pressa, no escuro, para ir apanhar em flagrante delito a freira cujos amores haviam sido denunciados, enfia na cabeça as calças do amante pensando ser a sua touca.

Falaremos das pessoas que pecam por fraqueza e não por força, dos eclesiásticos de hoje que embora se vejam obrigados a viver na duplicidade e na falta de sinceridade, torturados pelos seus escrúpulos de consciência, põem todo o seu empenho em sofrer, e em fazer sofrer os outros, quando deveriam antes espalhar a alegria e a felicidade.

Segundo uma noção simplista das coisas, as inibições sexuais vêm directamente de proibições no âmbito sexual, e são o resultado de uma moral repressiva e de uma contínua inversão do prazer dos sentidos, transformando este em pecado. Para um não crente, é difícil compreender como a Teologia Moral Católica se infiltrou nos crentes, de acordo com uma tradição secular, unânime e inalterada, a partir das directivas de um personagem chamado Espírito Santo.

Recentemente a Sagrada Congregação da Fé, declarou sem qualquer equívoco os seguintes conselhos contra o prazer sexual:

“Hoje também, e mais ainda que noutros tempos, os crentes devem recorrer aos meios recomendados pela Igreja para se levar uma vida de castidade: disciplina dos sentidos e do espírito, vigilância e prudência para evitar a ocasião do pecado, preservação do sentimento do pudor, moderação no gozo, distracções sãs, oração assídua, e recepção frequente dos sacramentos da penitência e da eucaristia. A juventude, sobre tudo, deverá venerar a Imaculada Conceição, e seguir o exemplo dos santos e de todos aqueles que se destacaram pela sua pureza. Que todos tenham em altíssima estima a virtude da castidade e o seu brilhante esplendor”.

Imagine-se a leitura deste texto solene numa escola profissional, perante um grupo de futuras técnicas de contabilidade ou futuros informáticos; é evidente até que ponto a Igreja Católica se tornou, hoje em dia, fanaticamente estranha à realidade, e mesmo sectária.

Esta é a forma de pensar e agir daqueles a quem foi proibido tomar conhecimento do amor, e que acabam por descobrir, já tarde, que lhes foram envenenadas as fontes da vida. Querem apaixonadamente não amar, não desejar. Tornam-se cinza fumegante, vítimas de um sistema que gera morte em nome da vida.

Se somos capazes de entender as objecções contra a comercialização da sexualidade, é completamente impossível continuar a levar a sério um conjunto de princípios, cuja finalidade é ensinar que a educação ao amor só pode ser feita evitando esse mesmo amor. Não se pode aceitar que seja possível “santificar” o corpo, a carne, ou o mundo, declarando-os fonte de pecado. Como se a vida fosse melhor por renunciar ao amor. A defesa de pontos de vista que durante séculos arrastaram tantas pessoas à doença e à loucura, só podem, hoje em dia, provocar três reacções da nossa parte: cólera, troça ou indiferença, pois são pontos de vista definitivamente ultrapassados.

Se alguém interrogar os eclesiásticos sobre a sua evolução no campo sexual, a maior parte deles negará que tenha recebido uma educação sexual “repressiva”. Mas observando-se mais de perto, reconhecer-se-á a velha angústia, sob uma forma muda e recalcada.

Quando alguém, sob pressão moral, se vê obrigado a classificar realidades absolutamente naturais como vícios pecaminosos, gera-se uma espiral de angústia, do sentimento de culpa, de impotência e de “queda no pecado”, um sentimento de inferioridade.

É verdadeiramente incrível a obstinada recusa da Igreja em reconhecer a sua enorme responsabilidade na infelicidade causada aos demais. Em vez de tirar as suas consequências, ela insiste no mesmo tipo de comportamento repressor. Chega ao ponto de justificar o sofrimento causado às suas próprias vítimas, como a confirmação da verdade divina dos seus ensinamentos, utilizando o sofrimento alheio para fins de propaganda. É precisamente a exploração de sentimentos homofóbicos, que torna bem claros os objectivos desta Igreja.

11 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Saramago, crenças e crispação

O tempo passa e a tensão aumenta entre os crentes que usam uma linguagem cada vez mais crispada e intolerante para com o escritor que deu a Portugal um Nobel e enorme prestígio à literatura portuguesa. Basta ver o correio dos leitores de vários jornais e as ameaças e insultos que lhe dirigem.

Os bispos, padres e outros avençados do divino usam uma linguagem mais sonsa e dissimulada mas é igual o ódio que os devora e o ressentimento que manifestam.

Seria interessante, se não fosse perigosa, esta excitação dos católicos com Saramago. Este tem o direito de dizer tudo o que disse e o mais que lhe aprouver e aqueles gozam de igual direito em relação a Saramago e ao ateísmo. Não assustando já as penas do Inferno, uma lucrativa invenção pia que rendeu grossos cabedais, ameaçam agora com a situação de Salman Rushdie, vítima da demência de um aiatola que o condenou à morte por ter criticado o Islão. O que está em causa é a intolerância que em certas latitudes foi contida pelas democracias e em outras ainda anda à solta.

A ICAR abomina o direito ao riso e à felicidade mas é uma fonte de um e de outra. Torna felizes os que acreditam e diverte quem não a leva a sério.

Entre as fogueiras índias e as novenas católicas não há dados que indiciem a supremacia de umas sobre as outras quanto à eficácia na pluviosidade. As penas do chefe índio e o camauro do papa só diferem na estética. Os vestidinhos de seda do pontífice  não se distinguem das vestes dos feiticeiros pelo ridículo, apenas pelo luxo e conforto.

A cigana que lê a sina não é menos eficaz a espantar os maus olhados do que o padre a esconjurar os espíritos malignos e a garantir o Paraíso. Às vezes a clientela é a mesma e procura na água benta o sinergismo das mezinhas e rezas ciganas.

O feiticeiro que prescreve a poção com corno de rinoceronte moído só é mais criticável do que o padre que celebra uma missa de acção de graças e ministra a comunhão porque põe em perigo a extinção da espécie animal, mas a eficácia sobre a convalescença dos doentes ilustres não é diferente, embora faltem estudos comparativos.

O baptismo com água benta é mais inócuo do que a circuncisão, que deixa marcas, ou a excisão que põe em risco a vida e destrói de forma irreversível a felicidade sexual mas todos são rituais iniciáticos.

Não há motivo para não nos rirmos dos rituais religiosos. Poucas encenações são tão hilariantes.

8 de Novembro, 2009 Fernandes

Os suíços têm medo dos minaretes.

Os suíços têm medo dos minaretes e não são os únicos na Europa.

A Suíça vai referendar a construção de minaretes, as torres altas das mesquitas que simbolizam a presença muçulmana. Construir mesquitas ou erguer minaretes nos países europeus nem sempre tem sido fácil. A invasão já começou, a intolerância também, por isso é que notícias como esta, em que uma imigrante é agredida por não usar véu, em Espanha, começam a ser frequentes, onde fantasmas do franquismo permanecem e onde a Igreja  teve imensa responsabilidade na Guerra Civil, e persiste a influência da Igreja Católica na Europa, particularmente em Itália, por isso Berlusconi recusa tirar crucifixos das escolas. Haja pelo menos esperança na procura do fim da “cultura da impunidade” no Médio Oriente.

8 de Novembro, 2009 Ludwig Krippahl

Relacionamentos e margens de erro

Quando era miúdo tive uma professora de português de quem não gostava nada. A princípio. Mas, num momento de inspiração, ocorreu-me que aquilo de que eu não gostava era apenas uma ideia. Todo esse meu desagrado tinha por objecto a opinião que eu formara acerca de alguém que mal conhecia. A epifania serviu de imediato para tornar aquelas aulas muito mais suportáveis. E, a longo prazo, além de ainda me lembrar o que é o pretérito imperfeito do conjuntivo, tem me ajudado muito recordar que, salvo raras excepções, a ideia que formo das pessoas tem uma grande margem de erro. Há muito pouca gente na nossa vida que conheçamos suficientemente bem para ignorar lacunas na informação e estimativas erradas.

No relacionamento com os outros podemos assumir que os juízos que fazemos são fiáveis e evitar desilusões julgando os outros de forma mais pessimista. Ou podemos assumir o melhor das outras pessoas, dar-lhes o benefício da dúvida dentro da margem de erro e precavermo-nos contra dissabores tendo consciência que esse juízo é muito incerto. A experiência com a professora de português levou-me a optar pela segunda alternativa. É mais agradável, e mais justo, desconfiar da minha capacidade de julgar os outros em vez de ser pessimista acerca das pessoas.

Por isso concordo, em parte, com o que me descrevem os crentes quando dizem confiar no seu deus. Dão-lhe o benefício da dúvida. Se não conhecemos alguém, podemos assumir que é boa gente. Mas só concordo em parte porque é preciso considerar que podemos formar um juízo errado. Se um estranho me toca à porta eu assumo que é boa pessoa e incapaz de maltratar crianças. Mas como posso estar enganado acerca disto não vou deixar que leve os meus filhos a passear sem mais informação que reduza a tal margem de erro. Para isso já tem de ser alguém que eu conheça o suficiente para que, além da confiar que é boa pessoa, também confie nesse juízo que fiz dele.

E é nisto que os crentes se espalham. A religião, dizem-me, é uma relação com Deus. Ou com um deus, pelo menos. É confiar nesse deus. Mas o que quer que sintam por esse deus será sempre função da ideia que formaram dele. Ou dela. E o problema é não terem qualquer informação onde basear essa ideia. Eu, ao menos, tinha aulas com a professora de português. Não era suficiente para saber se era boa ou má pessoa, mas sempre sabia alguma coisa acerca dela. E neste universo não se vê vestígio de qualquer divindade. Tudo o que se pensava indicar intervenção divina tem vindo a desaparecer, como a magia do ilusionismo quando se explica o truque. Acerca do deus, da deusa ou dos deuses, nenhum religioso tem informação. Só especulação.

Por isso não me convencem quando dizem que se tem de interpretar o Antigo Testamento de uma maneira especial por esse deus não ser como os hebreus julgavam. Concordo que o Antigo Testamento relata o relacionamento dos hebreus com o seu deus, e que o relacionamento dos católicos com o deus católico é diferente daquele que os hebreus tinham com o seu. O dos católicos é chatinho mas é menos ameaçador, se descontarmos a tortura eterna com que castiga quem discorde dele. Mas ninguém, nem católicos, nem hebreus, nem seja quem for, faz ideia de como Deus é. Não se sabe sequer se existe tal coisa, quanto mais saber o que quer, o que manda, de que gosta ou desgosta ou como se deve interpretar o que se escreve acerca dele.

Em suma, até compreendo que queiram confiar num deus. Quando não tenho informação em contrário acerca de alguém também prefiro pensar que é boa pessoa. Mas neste caso é um exagero. A ideia que fazem do respectivo deus – e, no fundo, é sempre com a ideia que nos relacionamos – é fruto unicamente da imaginação dos crentes. Nem sequer é alguém que encontrem de vez em quando, nas aulas de português ou assim, porque na missa só está lá o padre e o cenário. Se estivesse lá um deus notava-se bem.

E este exagero nem é o pior. Na verdade, se é exagero ou não é um juízo subjectivo, e admito podermos discordar disto por divergências de valor. É legítimo alguém querer confiar tanto num ser que até confia, sem evidências, que esse ser existe. É estranho, mas está no seu direito. O que é objectivamente incorrecto é ignorar a margem de erro. Que é enorme. Infinita. Todas as religiões que há, que houve e que algum dia inventem cabem nessa margem de erro, porque não há quaisquer dados que a reduzam.

Daí que as minhas críticas não sejam por crerem, ou quererem confiar, naquilo que nem sabem se existe. O que critico é dizerem que sabem. Que sabem que deus é assim e assado, que aquele trecho deve ser interpretado daquela maneira, que condena o preservativo, transubstancia a hóstia, engravidou Maria e milhentos outros pontos tirados ao acaso do grande chapéu das margens de erro. O que critico é venderem erro como se fosse conhecimento.

Em simultâneo no Que Treta!

8 de Novembro, 2009 Fernandes

A Bíblia (III)

Os Dez Mandamentos:

(cf. Êxodo 20:3-17)

Os cristãos dizem que os Dez Mandamentos são o fundamento da lei.

Nada poderia ser mais absurdo. Muito antes de esses mandamentos aparecerem, havia códigos legislativos na Índia e no Egipto – leis contra o assassínio, o perjúrio, o furto, o adultério e a fraude. Tais leis, são tão antigas quanto a sociedade humana; tão antigas quanto o amor à vida; tão antigas quanto a noção de prosperidade e o amor humano.

Nos Dez Mandamentos todas as ideias boas são antigas; todas as novas são tolas. Se Jeová fosse civilizado, teria dispensado o mandamento sobre guardar os sábados para o santificar, e no seu lugar diria: “Não escravizarás o teu próximo”.

Teria deixado de lado aquele sobre imagens esculpidas, e diria: “Não provocarás guerras de extermínio”.

Se Jeová fosse civilizado, os Dez Mandamentos seriam melhores.

Tudo o que chamamos de progresso, emancipação do homem, a substituição da pena de morte pela prisão e da prisão pela fiança, a liberdade de expressão, os direitos de consciência; em suma, tudo que favoreceu o desenvolvimento da civilização humana; todos os frutos da investigação, da observação, da experimentação e do livre-pensamento; tudo que o homem conquistou em benefício do próprio homem desde o fim da Idade das Trevas – de tudo isso prescindiu o Velho Testamento.

Permitam-me ilustrar a moral, a misericórdia, a filosofia, a poesia e a bondade do Velho Testamento:

A história de Acã:

(cf. Josué 7)

Josué tomou a cidade de Jericó. Antes da queda da cidade ele declarou que todos os despojos deveriam ser entregues ao Senhor. Apesar dessa ordem, Acã escondeu numa capa um pouco de prata e ouro. Posteriormente, Josué tentou tomar a cidade de Ai. Fracassou e muitos soldados foram mortos. Josué procurou a causa da derrota e descobriu que Acã havia escondido numa capa, duzentos siclos de prata e uma cunha de ouro.

Diante disso, Acã confessou.

Imediatamente Josué tomou Acã, seus filhos, filhas, esposa, bois e ovelhas, apedrejou-os até a morte e queimou os seus corpos.

Nada indica que seus filhos e filhas haviam cometido qualquer crime. Certamente, os bois e ovelhas não deveriam ser apedrejados até à morte pelo crime do seu proprietário. Essa foi a justiça, a clemência de Jeová!

Após Josué ter cometido esse crime, com a ajuda de Jeová, capturou a cidade de Ai.

É esta uma história bonita para ensinar a uma criança?

A história de Eliseu:

(cf. II Reis 2:23-24)

“Então subiu dali a Betel; e, subindo ele pelo caminho, uns meninos saíram da cidade, e zombavam dele, dizendo: Sobe, calvo; sobe, calvo!” “E, virando-se ele para trás, os viu, e os amaldiçoou em nome do Senhor. Então duas ursas saíram do bosque, e despedaçaram quarenta e dois daqueles meninos.”

Essa foi a obra do bom Deus – do misericordioso Jeová! Esta é a tal poesia de que tanto ouvimos falar aos “especialistas bíblicos”.

Linda história para educar as nossas crianças!

6 de Novembro, 2009 Luís Grave Rodrigues

O Manual de Maus Costumes

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Manuel Clemente, acha que José Saramago utilizou um discurso de «tipo ideológico, não histórico nem científico» e que revela uma «ingenuidade confrangedora quando faz incursões bíblicas».

Negar que a Bíblia é «um manual de maus costumes» ou «um catálogo de crueldade» é, de facto de uma hipocrisia tão confrangedora, que normalmente só é acessível a pessoas de muita fé.

A Bíblia não é mais do que um catálogo das malfeitorias de um Deus cruel e sanguinário e o repositório de critérios sociais e de moralidade de pastores primitivos da Idade do Bronze.
O pior, é que foram precisamente os ensinamentos bíblicos que determinaram a mortífera vida das sociedades ocidentais nos últimos 1700 anos.

E negar este simples facto, é de uma impudica desonestidade intelectual, bem típica das pessoas de muita fé.

Tal como o é a afirmação de que a Bíblia «não pode ser interpretada literalmente» porque deve antes ser lida de acordo com uma integração histórica, como uma parábola e os seus ensinamentos e determinações como «simbólicos».
Contudo, nunca consegui que alguém me explicasse: simbólicos de quê?…

Como também nunca consegui que me explicassem como é que um Deus omnisciente deixa a sua Palavra escrita de uma forma tão defeituosa que precisa de uma interpretação humana para a integrar num contexto, qualquer que ele seja. É como se de repente coubesse aos Homens a tarefa de corrigir aquilo que Deus deixou mal explicado.
Para um crente isso deve ser de facto muito gratificante…

Ora, como é por demais óbvio, sei bem que o Antigo Testamento começou a ser escrito há qualquer coisa como quatro mil anos. E sei bem que a Igreja Católica do século XXI já não defende – como o fazia antigamente – o assassínio de judeus, apóstatas, ateus, homossexuais, adúlteros ou de quem simplesmente apanha lenha aos sábados.

Mas não é por isso que a Bíblia deixa de ter escrito aquilo que lá está escrito.
E não é por isso que dizer que a Bíblia é «um manual de maus costumes» ou «um catálogo de crueldade» passa a ser mentira.
Como não é por isso que uma interpretação histórica e dentro do contexto actual apaga o cristalino facto de que a História da Igreja Católica não é mais do que um gigantesco banho de sangue e do que um indizível sofrimento da Humanidade durante séculos e séculos.

Mas a maior de todas a hipocrisias dos bons e fiéis católicos é, sem dúvida, andarem a fazer de conta que a sua religião está completamente afastada – em TODOS os aspectos – da doutrina formulada na Bíblia, designadamente no Antigo Testamento.

Basta dar um salto ao «Catecismo da Igreja Católica» para afastar essa gigantesca mentira.
E bastam algumas citações, respigadas ao acaso:
«§81 – A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus enquanto redigida sob a moção do Espírito Santo».
«§106 – Deus inspirou os autores humanos dos livros sagrados. Na redacção dos livros sagrados, Deus escolheu homens, dos quais se serviu fazendo-os usar as suas próprias faculdades e capacidades, a fim de que, agindo ele próprio neles e por meio deles, escrevessem, como verdadeiros autores, tudo e só aquilo que ele próprio queria».
«§121 – O Antigo Testamento é uma parte indispensável das Sagradas Escrituras. Os seus livros são divinamente inspirados e conservam um valor permanente, pois a Antiga Aliança nunca foi revogada».
«§123 – Os cristãos veneram o Antigo Testamento como a verdadeira Palavra de Deus. A Igreja sempre rechaçou vigorosamente a ideia de rejeitar o Antigo Testamento sob o pretexto de que o Novo Testamento o teria feito caducar

Mas talvez nada melhor do que um exemplo concreto para ilustrar e deixar bem demonstrada a profunda hipocrisia católica no que a este assunto respeita.
E o melhor exemplo é o dogma de Onan:

Um dia Deus resolver matar Er. O motivo não podia ser mais justo para o bom Deus o matar: Er era iníquo.
Pois bem: de acordo com a lei da altura, por morte de um homem o seu irmão deveria tomar a viúva como esposa, e assegurar-lhe uma descendência.

E aqui entra, de facto, a necessidade de uma interpretação histórica:

Obviamente sem segurança social, uma mulher sem marido e sem filhos estaria certamente condenada a morrer de fome. Entende-se por isso a razão de ser da obrigatoriedade do irmão do morto casar com a cunhada. Tratava-se certamente da própria sobrevivência desta.
Ora, o irmão do morto era Onan, que por qualquer motivo não queria casar com a viúva do seu irmão e muito menos fazer-lhe filhos.
Vai daí, sempre que «se deitava» com a cunhada, o bom do Onan derramava «a sua semente» para a terra, para evitar que ela engravidasse.

Está bom de ver qual o resultado de tudo isto: o bom Deus matou o Onan porque, já sabemos, a semente do homem é sagrada e não se pode desperdiçar, sob pena de morte.

É deste dogma bíblico que resulta a expressão «onanismo» e, como toda a gente sabe, o horror que a Igreja Católica tem à masturbação, ao ponto de… poder causar cegueira (e no mínimo borbulhas) aos adolescentes católicos mais incautos e insistentes.

Mas é também a este dogma que se deve o horror da Igreja Católica ao preservativo!

E é aqui que entra a suprema hipocrisia e a mais profunda imbecilidade dos católicos que acham que a Bíblia é um poço de virtudes quando sujeita a uma interpretação mais actualista.

Interpretação actualista uma ova!!!
Porque a Igreja Católica valoriza bem mais esta porcaria deste dogma que a própria vida humana e que o efeito que a proibição do preservativo tem na infernal disseminação da SIDA.
Nem o Papa, nem os cardeais, nem os bispos nem todo aquele exército de ociosos facínoras vestidos de saias se condoem com o autêntico drama que é a infernal percentagem de infecções com SIDA na África ao sul do Saara, especialmente nos países de maior influência católica.

Se virmos bem, a Igreja Católica continua a preconizar a morte – desta vez por SIDA – de quem derrama a semente para a terra, e não há «interpretação actualista» que lhe valha.

E não me venham com a velha história da castidade.
Porque se a Igreja sabe bem autorizar como anticoncepcional o método da contagem dos dias, não é por isso que permite o uso do preservativo mesmo entre pessoas casadas que estejam a ter relações sexuais nos dias inférteis da mulher.
Nem sequer nesses dias a Igreja Católica permite o preservativo.

Porque, afinal, que Diabo: um dogma é um dogma!!!


6 de Novembro, 2009 Fernandes

A Bíblia (II)

Muitas vezes dou comigo a pensar até que ponto o Antigo Testamento pode ser considerado um livro “inspirado” por Deus. Se assim for, esse será um livro que ninguém jamais conseguirá igualar pois deverá conter a perfeição filosófica e moral, estar totalmente de acordo com cada facto ocorrido na natureza e dar-nos a conhecer o mais ínfimo pormenor da vida e do universo. As suas normas de conduta deverão ser justas, sábias e perfeitas. Jamais ambíguas. Deverá estar repleto de inteligência, justiça e principalmente de liberdade.

Deverá opor-se à guerra, à escravatura, à cobiça, ignorância e superstição. Numa palavra: deverá ser Verdadeiro.

Haverá no Antigo Testamento, na história que lá se descreve, na teoria, na lei, na moral e na ciência, algo de transcendente ou sobrenatural que não corresponda aos costumes, preconceitos, crenças e ideias dos povos daquela época?

Os antigos hebreus acreditavam que a Terra era o centro do Universo, que o sol, a lua e as estrelas eram manchas no céu. A Bíblia assim o afirma. Os antigos hebreus pensavam que a Terra era plana, com quatro cantos; que o céu, o firmamento, era sólido, sendo essa a morada de Deus. A Bíblia ensina precisamente o mesmo.

Também imaginavam que o sol viajava ao redor da Terra e que, parando-se o sol, o dia poderia ser prolongado. A Bíblia também o diz. Acreditavam que Adão e Eva foram os primeiros seres humanos; que haviam sido criados poucos anos antes deles – os hebreus –, e que eles próprios eram os seus directos descendentes. Também a Bíblia ensina isso.

Ora, admitindo que Deus é o autor da bíblia, esta não deveria conter erros tão flagrantes em astronomia, geologia ou quaisquer outros assuntos.

Lendo a bíblia ficamos a saber que os seus autores estavam enganados acerca da criação do homem, da Astronomia, da Geologia, sobre as causas dos fenómenos, a origem do mal e as causas da morte. Ficamos a saber que Deus não domina as ciências e erra com demasiada frequência para um Deus Omnisciente.

É óbvio que a bíblia foi escrita por seres ignorantes e equivocados. No entanto durante séculos, a Igreja insistiu que a bíblia era verdadeira, e não podia conter erros porque ela era a Palavra de Deus, que os relatos nela descritos sobre a astronomia e geologia estavam rigorosamente certos, que a história da criação era verdadeira, e que os que dela discordavam eram infiéis e Ateus, sendo por isso condenados às penas do Inferno e à fogueira.

Hoje as coisas são diferentes. Foram necessários muitos séculos para forçar os teólogos a admitirem as mentiras bíblicas.

Com relutância, cheios de malícia e ódio, os padres tomaram outra posição. Admitem que os autores da bíblia não estariam assim tão “inspirados” para as coisas das ciências. Que Deus não tinha como objectivo instruir o mundo sobre astronomia ou geologia. Que os homens que escreveram a bíblia desconheciam qualquer ciência, e que escreveram sobre a Terra as estrelas, o sol, a lua e o universo de acordo com a ignorância da época. Que Jeová queria que os seus filhos tomassem apenas conhecimento do seu amor infinito e da sua vontade. Que Jeová quis apenas corrigir o seu povo depravado, ignorante e corrompido, tornando-o espiritualmente sábio, moralmente justo e compassivo.

5 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Casamentos homossexuais e religião

Os bispos entraram em febre referendária que alastra de forma epidémica aos padres e seus assalariados que descobriram agora as delícias da participação popular.

Não vou acusar os actuais bispos da cumplicidade com a ditadura salazarista, um delito dos antecessores,  mas é bom lembrar-lhes que o divórcio, por exemplo, é hoje um direito dos cidadãos que foi conquistado contra a vontade do clero e a exigência de uma Concordata que o Vaticano negociou com Portugal e vários outros Estados fascistas.

Em matéria de direitos individuais talvez valha a pena dizer que a liberdade religiosa só foi reconhecida pelo Concílio Vaticano II e que vem incomodando o actual pontífice.

Voltemos à febre referendária que agita as mitras e faz tremer os báculos: os direitos individuais não se referendam. Entendem os senhores bispos que deve ser submetida a referendo a possibilidade de ser budista, adventista do 7.º dia ou Testemunha de Jeová?

Além de o referendo ter demonstrado que não interessa ao eleitorado, há o direito de pôr em causa a legitimidade representativa da Assembleia da República, legitimidade que os bispos da ditadura não contestaram em mais de quatro décadas de partido único?

Acresce que os partidos disseram durante a campanha eleitoral qual era a posição sobre os casamentos homossexuais e até houve partidos que se comprometeram a viabilizá-los. Foram esses programas que os portugueses sufragaram e cujo cumprimento cabe aos partidos honrar.

O casamento gay é um direito de uma minoria discriminada injustamente, não é uma decisão a que alguém se sinta obrigado.