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30 de Julho, 2010 Fernandes

Monita Secreta

Os Jesuítas andam à solta! Era o que gritavam delirantemente absolutistas e liberais desde o Marquês de Pombal até à primeira República sempre que queriam identificar as causas do atraso nacional e as razões da dificuldade do país acertar o passo com o progresso.

Monita Secreta – Instruções Secretas, foi dos libelos mais significativos e mais publicitados no âmbito do larguíssimo conjunto de peças de polémica antijesuítica. Este catecismo secreto reforçou muito a aparelhagem argumentativa para o combate ao jesuitismo e a tudo o que ele representava. Quem poderia pensar , efectivamente, que um libelo redigido no início do século XVII por um obscuro pároco polaco, que se queria vingar da Companhia de Jesus, conheceria uma tal difusão até ao nosso século, e que seria traduzido em múltiplas línguas? Esse sucesso só pode ser comparado ao dos Protocolos de Sião, escritos no final do século XIX por um departamento da polícia czarista.

A “Allgemeine Deutsche Bibliothek”, revista principal da Aufklarung na Alemanha, costumava publicar recensões de obras contemporâneas relacionadas com toda a área do saber, para elucidar os seus leitores esclarecidos. Em 1738, esta revista dedica um pequeno artigo a um livro intitulado, Monita Secreta patrum Societatis Lesu nunc primum typis expressa ( Instruções secretas dos Padres de Jesus, impressas agora pela primeira vez) e a sua tradução alemã que tinha sido publicada em 1782. Este livro era extremamente raro, segundo dizia o jornalista, já que os Jesuítas compravam todos os exemplares disponíveis desta obra. Apesar da condenação episcopal e da proibição de Roma, os Monita Secreta espalham-se logo por toda a Europa. Com efeito, estas “Instruções Secretas” foram abundantemente divulgadas no período do liberalismo português.

Que diziam as instruções? 

– Para se tornarem agradáveis aos vizinhos do lugar, muito importa explicar-lhes o objectivo da Companhia prescrito na Regra, onde se diz que a companhia se dedica com empenho e dedicação à salvação do próximo.

– Ao princípio, devemos evitar a compra de propriedades; mas se comprarem algumas, bem situadas, façam-no por empréstimo em nome de amigos fiéis e secretos. E para que a nossa pobreza se veja melhor, o Provincial atribua a colégios afastados os bens que são vizinhos[…] para que os príncipes e magistrados nunca tenham conhecimento exacto dos rendimentos da Companhia.

– Devemos fazer os maiores esforços para captar a atenção e o ânimo dos príncipes e das pessoas importantes[…] a fim de que ninguém se levante contra nós.

– Para ganhar o espírito dos príncipes, será útil que os nossos, habilmente, e por terceiras pessoas, se insinuem para os representarem em embaixadas honoríficas e favoráveis nas cortes de outros príncipes ou reis […] pelo que não devem ser destinadas a essas funções senão pessoas muito zelosas e experientes do nosso Instituto.

– A experiência tem-nos mostrado quanta vantagem a Companhia tem tirado em negociar casamentos entre príncipes […] por isso sejam propostos […] amigos ou familiares dos parentes e dos amigos dos nossos.

– Devem-se tornar participantes de todos os méritos da Companhia […] todos aqueles que podem favorecer extraordinariamente a companhia, mostrando-lhes a importância desse privilégio.

– Visitem as viúvas e assim que elas mostrem alguma afeição à companhia […] que elas se ocupem em ornamentar alguma capela ou oratório […] deve-se-lhe apresentar as vantagens do estado de viuvez e os incómodos do casamento repetido […] Deverá encaminhar-se a viúva para a prática de obras meritórias.

– Para obter a disposição dos rendimentos, que uma viúva possui, em benefício da Companhia, ser-lhe-á encarecida a perfeição do estado dos santos homens, que tendo renunciado ao mundo,[…] se puseram ao serviço de Deus com grande resignação e alegria de espírito. […] mostre-se repetidas vezes àquelas que são ligadas às esmolas e a ornamentação das igrejas, que a soberana perfeição consiste em despojarem-se do amor das coisas terrenas, fazendo seus possuidores o próprio Cristo […] deve-se-lhe aconselhar e louvar o uso dos sacramentos, em especial o da Penitência […] logo que se tenha a certeza de que está decidida a ficar viúva, deve-se recomendar-lhe a vida espiritual, como foi a de Paula e Eustáquio.

– As mães, quando as filhas já forem mulherzinhas […] devem mostrar-lhes insistentemente as dificuldades que são comuns a todas no casamento […] convém que procedam sempre de modo que sobretudo as filhas […] pensem ser religiosas.

– Os nossos devem conversar amavelmente com os filhos e, se estes se mostrarem aptos para a Companhia, devem-nos introduzir oportunamente no colégio

– Não será pequena a vantagem, alimentarem-se, secretamente e com prudência, divisões entre os grandes e os príncipes.

– Deve-se, por todos os modos, persuadir o povo e os grandes, que a Companhia foi estabelecida por uma particular providência divina, de acordo com as professias do Abade Joaquim para exaltar a igreja humilhada pelos hereges.

    *Eduardo Franco, José. Vogel, Christine. – Monita Secreta. Instruções Secretas dos Jesuítas – História de um Manual Conspiracionista. – Roma Editora.
29 de Julho, 2010 Eduardo Costa Dias

“Erro técnico” não, costume bárbaro sim!

Segundo o Expresso online, “após ser submerso três vezes na pia baptismal, um bebé de acabou por morrer com problemas respiratórios. O padre responsável pelo ritual de baptismo, que teve lugar na Moldávia, está a ser investigado pela polícia (…) Relatos de quem estava na igreja, em Chisinau, contam que minutos depois do ritual o bebé começou a espumar da boca e a deitar sangue do nariz, acabando por falecer a caminho do hospital (…) A equipa médica que assistiu a criança encontrou água nos pulmões, diagnosticando morte por afogamento (…) O religioso nega as acusações e alega ter obedecido aos cânones religiosos das cerimónias de baptismo(…)”

29 de Julho, 2010 Fernandes

Jesus Lava Mais Branco

– A Igreja teve lições de marketing?

– “Estamos a brincar? Quanto a lições, a Igreja só pode dá-las. As empresas mortificam os homens medindo a sua produção, enquanto nós sabemos valorizá-los. O marketing? Foi Jesus que o começou há dois mil anos”.

Monsenhor Ernesto Vecchi, – 2 de Outubro de 1997.

É extraordinário como a humanidade consegue não aprender nada com a história. Não me refiro, claro está, aos fariseus em cujo comportamento aplicam velhas regras e, mesmo que sejam inventadas outras novas, adoptam-nas fingindo hipocritamente uma fé que não possuem, mas às pessoas de boa fé, vítimas destes. Quando uma religião assenta o seu discurso no irresistível fascínio da promessa de vida para além da morte: o marketing aparece, e até o templo dos vendedores acaba por ser vendido pelos mercadores do templo.

O primeiro passo é criar uma mercadoria que esteja à disposição de todos, aliada a uma aquisição epontânea na base das próprias necessidades que se fazem emergir artificialmente. Basta fazer crer ao público alvo que tem necessidade do produto para que o ciclo de consumo, inicie o seu caminho. Se isto não é um milagre da fé, é certamente um milagre económico.

O marketing, segundo os seus autores, é uma guerra, e para alcançar sucesso é preciso criar a perturbação psicológica no público alvo. Para isso, nada melhor que o “sentido de obrigação” e o “sentido de culpa” a ele associado. A Igreja não poderia descuidar um instrumento de persuasão de tal amplitude.

De facto ainda hoje no agressivo mercado dos detergentes, tanto se usa a informação sobre as características do produto como simultaneamente se instala naqueles que ainda não o escolheram, doses maciças de “social embarrassement”, ou o sentido de culpa pela possibilidade de parecerem os mais sujos e mal cheirosos na vida social. Não se limitam a transmitir a “boa nova”, mas também difundir um sentimento de culpa para conseguir recrutar os inseguros e ignorantes.

Jesus estendeu a graça, quer a quem pecou, quer a quem ainda não pecou (nunca se sabe). Deste modo os “consumidores” dirigir-se-ão à “Marca”, seguros de poderem utilizar o crédito e de o poderem renovar através da confissão. Quem se pode queixar de um serviço assim? A “consumer satisfaction” está garantida. Milhões de pecadores só esperam ser perdoados para poderem continuar a pecar.

Para atrair clientes e fundamentar a sua “fidelização”, exigem as mais elementares regras do marketing que se adopte um símbolo.

A cruz foi o escolhido. Na época da adopção deste sinal, o mesmo “product manager” que inventou a marca estava perfeitamente consciente que aquele símbolo “era escândalo para os Judeus e loucura para os pagãos” (1 Cor 1, 23). Mas o instrumento de morte é agora reproduzido como “tradmark” transformado em jóia unissexo que se aloja entre os seios das senhoras ou pendura nos muros dos asilos e escolas. A pergunta fica: que “gadget” traríamos hoje connosco, se Jesus tivesse sido enforcado ou decapitado?

O processo de criação de uma marca, permite atribuir ao produto qualidades que não lhe pertencem. Para que estas qualidades se possam “instalar”, devem ser constante e regularmente repetidas. Garantidas por testemunhas que darão reputação e funcionam como “crédito de confiança”. Habituar a clientela a frequentar regularmente o ponto de venda, criando uma ligação emocional entre os lugar e os próprios utentes, é o sonho de qualquer estratega de marketing que a Igreja conseguiu realizar.

Com a “sagrada escritura” nascia um poderoso instrumento monodireccional e absolutista, como para nós é hoje a televisão. Adquiriram um carácter sagrado todas as palavras derivadas dela, as suas interpretações e até os seus intérpretes. “Benditos sejam aqueles que crêem mesmo não tendo visto” (Gv 20, 29). Uma estratégia infalível.

Podemos engarrafar água desta nascente escrevendo no rótulo que é natural, mas não devemos esquecer que era natural mesmo antes de ser engarrafada e distribuída segundo as estratégias de marketing. Podemos confundir os nossos semelhantes escrevendo que esta água é a água por antonomásia, ou que “sacia mais do que a água”, mas continuará a ser sempre pura e simplesmente água, duas partes de hidrogénio e uma de oxigénio, vulgarmente conhecida na natureza. Antes que a humanidade compreenda este facto tão simples, muita água deverá passar por baixo das pontes.

Fonte: Ballardini, Bruno. – Jesus Lava Mais Branco.

25 de Julho, 2010 Ludwig Krippahl

Treta da semana: vinte porcento.

Tenho lido algumas críticas à sugestão do Carlos Azevedo, o bispo auxiliar de Lisboa, para que os políticos cristãos contribuam 20% do seu ordenado para um fundo social. Há quem o acuse de demagogia, populismo ou até de hipocrisia. Não digam isso, coitado do homem. A ideia dele é boa. Contribuir uma parte do ordenado para um fundo comum de onde se financia aquilo de que todos precisam é uma excelente prática.

É verdade que não é novidade nenhuma para a maioria de nós, e quem ganhar mais que 600€ por mês já paga 23,5% só de IRS, sem contar com o resto. Os 20% do Carlos Azevedo são uma estimativa modesta. Mas penso que não se deve criticar tanto o bispo auxiliar porque ele é um dos poucos adultos portugueses que é inocente em matéria de impostos. Falta-lhe a nossa prática nisto. Há duas coisas que quase todos reconhecemos como inevitáveis; o fisco e a morte. De uma dessas os padres só dão promessas vagas de salvação, mas da outra estão bem protegidos.

Carlos Azevedo pede este dinheiro aos políticos católicos «para um fundo que vai ser criado junto da Caritas para atender às situações mais criticas e que serão veiculadas através das paróquias»(1). Ou seja, para os católicos darem dinheiro à Igreja Católica para ajudar outros católicos. Mais uma vez, é uma boa ideia. Mas, talvez pela falta de prática com isto dos impostos e por ter passado uma vida a julgar que justiça social é dar esmola aos pobrezinhos, falta ao bispo auxiliar uma visão mais abrangente do problema.

A crise não é por os políticos católicos não darem dinheiro à igreja do bispo (auxiliar). A crise é, em boa parte, por não conseguirmos pagar a educação, infraestrutura, saúde, segurança, administração e outros serviços dos quais o país precisa. Não cada um de nós, individualmente, mas todos em conjunto. E com isso vamos afundando o país em dívidas. A sopa dos pobres, no meio disto, é uma fatia mais pequena do que as tolerâncias de ponto há uns meses atrás.

Por isso aqui vai a minha contra-proposta para o bispo auxiliar. A ver o que ele acha. Em vez desse tal «testemunho de modo voluntário» que pede aos políticos católicos, de mais uma esmola para a Igreja distribuir pelos pobres que julgue merecer, proponho que todos façamos a nossa parte. Todos. E não é só 20%. Eu, contando com IRS, CGA e o resto, já vou nos 35%. Não peço mais ao senhor bispo auxiliar nem à sua Igreja, mesmo que não tenham filhos para criar. 35% dos vossos ordenados e do negócio da fé já era uma ajuda para o país.

E mesmo os padres que já dêem parte do seu salário à Igreja Católica deviam pensar neste problema de forma mais abrangente. Não é para os fundos desta ou daquela organização que devemos contribuir, que os fundos sociais não devem ser de uma religião, clube ou empresa. Devemos contribuir, por justiça e não por pena ou caridade, para o fundo que é de todos.

Já agora, um conselho. A Igreja Católica tem tido algumas dificuldades em preservar a sua imagem, metendo o pé na boca em quase todas as oportunidades. Para contrariar essa tendência sugiro que, em tempo de crise, foquem mais em tentar contribuir e menos em pedir dinheiro.

1- RTP, Igreja pede parte dos vencimentos aos políticos católicos, via este post do Carlos Esperança.

Em simultâneo no Que Treta!

23 de Julho, 2010 Ludwig Krippahl

Previsões

No sentido comum do termo, uma previsão é acerca do futuro. Não se prevê o passado nem o presente. Mas em ciência esta palavra tem um sentido diferente que gera alguma confusão. A previsão científica é aquilo um modelo diz acerca do que se pode observar, quer venha ainda a ocorrer quer tenha ocorrido no passado. Por exemplo, podemos dizer que um modelo cosmológico prevê uma certa frequência de supernovas mesmo apesar das supernovas que observarmos já terem explodido há centenas ou milhares de milhões de anos.

Esta ideia de inferir de modelos aquilo que se vai observar foi um passo importante no conhecimento. Antigamente o saber era listas de factos, que já é alguma coisa mas tem uma utilidade limitada. Os egípcios aprenderam a construir pirâmides depois de vários fracassos, até acertarem nas proporções. Depois fizeram daquela maneira. Só nos últimos séculos é que se criou modelos que permitem prever se uma estrutura se aguentam antes de a construir. Unificar os dados num modelo capaz de explicar e dizer mais alguma coisa é muito melhor do que saber apenas o que já foi testado.

Isto é importante não só para poder usar os modelos como para detectar e corrigir erros. Se o modelo que concebemos é que os seres vivos foram criados por milagre, ou que o Diabo anda por aí a fazer maldades às escondidas, além de não nos dizer nada de útil podemos estar redondamente enganados e nunca o descobrir. É como passar a vida julgando-se perseguido por anões invisíveis.

E a previsão, neste sentido, separa radicalmente as religiões da filosofia e ciência. No sentido coloquial as religiões têm previsões. Aos molhos. O livro do Apocalipse, por exemplo, prevê uma data de coisas estranhas. Mas não são previsões no sentido científico, de inferências que partam de modelos testáveis. Essas as religiões evitam porque perceber não lhes serve; o que faz perdurar uma tradição religiosa é a memorização, a aceitação do “saber” autoritário e o mistério. Em 1950, Pio XII declarou que Maria tinha ascendido ao Céu de corpo e alma. Não porque este modelo do suposto acontecimento unifique dados e preveja correctamente o que se venha a observar, mas pela «autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo»(1) e do Papa.

E muita gente acreditou.

Mas já uns séculos antes do filho do carpinteiro ter inspirado a moda uns gregos acharam que a sabedoria devia ser mais do que ir na cantiga dos sacerdotes. E começaram a formar ideias que lhes pudessem dizer alguma coisa testável acerca da realidade. O sucesso foi limitado, é verdade, e hoje em dia muitos consideram que a filosofia é mera especulação de sofá. Muita, infelizmente, até é. Mas, em parte, a classificação é injusta. No tempo de Demócrito ou Aristóteles não se conseguia perceber de que é feita a matéria ou porque as coisas caem. Faltava aprender muita coisa até que lá chegar. Mas eles tentaram. Tentaram dissecar o problema, compreender o que faltava saber e perceber como se pode discutir essas questões sem inventar autoridades ou ficar atolado em especulações vazias. E, séculos mais tarde, isso deu resultado.

O que prejudica a imagem da filosofia é que quando finalmente consegue criar modelos úteis passa a chamar-se ciência. Com o passar dos séculos, a filosofia mirrou do estudo de tudo ao estudo de umas poucas coisas problemáticas como a consciência, que ainda não sabemos onde encaixar na realidade, ou a ética, em que a realidade pouco ajuda*. Foi um enorme sucesso mas parece um fracasso.

As religiões ficaram de fora. De propósito. Ou fincam o pé em “factos” claramente contrários ao que se observa, como a Terra ter só uns milhares de anos e os fósseis terem sido depositados num dilúvio tão mágico que separou os grãos de pólen em estratos de acordo com a espécie de cada um. Ou se dedicam a especular sobre o que nunca se pode saber, como um outro mundo onde vive o Diabo, uma carrada de santos e a virgem Maria. Que ainda deve ser virgem, coitada, sendo única pessoa com corpo no meio de almas insubstanciais**. E ficam de fora porque as únicas previsões que fazem é que o mundo está quase a acabar – outra vez – e até isso inventam na altura.

* E uma carrada de tretas. Mas isso é inevitável quando não se tem forma de testar os modelos.
** A menos que lá apareça um bombista suicida. Estas coisas são um bocado confusas…

1- Vaticano, Definição do dogma da assunção de Nossa Senhora em corpo e alma ao Céu.

Em simultâneo no Que Treta!

15 de Julho, 2010 Luís Grave Rodrigues

Gente de Fé

 

 Primeiro,  uma multidão enfurecida opôs-se à construção de uma nova mesquita na Nigéria.

De seguida, um grupo de muçulmanos retaliou atacando uma igreja.

Depois, grupos de cristãos e muçulmanos envolveram-se em violentos confrontos, deixando 8 pessoas mortas e 40 feridas, e seis mesquitas e uma igreja incendiadas.

A polícia enviou já reforços para o local, mas temem-se novos confrontos.

Enfim: gente de fé!…

11 de Julho, 2010 Carlos Esperança

ASTROLÓGOS, HOJE

Por

C. S. F*

Os métodos científicos aplicados à avaliação da eficácia da astrologia conduzem sempre à conclusão que, na realidade, os horóscopos não prevêem o futuro.

Toda a argumentação astrológica não resiste ao actual estado do conhecimento.

O Zodíaco foi elaborado antes de descobertas decisivas da astronomia. Por isso baseia-se em premissas falsas ou sem utilidade.

Por exemplo, as previsões retiradas da observação das manchas solares não correspondem às retiradas das constelações, etc.

O grande problema é que numerosas pessoas no mundo ganham dinheiro nesta actividade, a explorar a ingenuidade de multidões.

O seu número suplanta largamente profissões úteis como a dos dentistas.

Só o número de jornalistas ocupados a produzir os horóscopos é impressionante.

Trata-se de uma actividade cómoda e fácil. Conheci um jornalista free-lancer que fazia num computador e em sua casa os horóscopos, de forma cómoda e rápida…

Não vale a pena empenhar muito esforço para mostrar a inutilidade desta actividade.

Já na antiguidade filósofos lúcidos o conseguiram demonstrar.

Aprecio especialmente o argumento simples e directo de Pitágoras: ele convidava as pessoas a compararem o horóscopo de dois gémeos. São habitualmente diferentes…

Acho que entidade internacionais culturais e científicas como a ONU e a UNESCO deveriam divulgar a verdadeira natureza e inutilidade da astrologia e os governos dos diferentes países deveriam empenhar-se em proteger as pessoas ingénuas da exploração económica de que são vítimas e promover políticas que levem à extinção desta profissão inútil e à inclusão dos astrólogos em actividades produtivas.

* Leitor do Diário Ateísta

9 de Julho, 2010 Ludwig Krippahl

Treta da semana: o Diabo da crença.

Segundo o Bernardo Motta, «um cristão, mesmo sendo sacerdote ou Bispo, que perdeu a fé nas verdades acerca dos anjos e dos demónios, e na verdade da acção do Príncipe das Trevas sobre o Mundo e sobre a Humanidade, está fora da fé cristã.»(1) O fiscal de linha levanta a bandeira, o árbitro apita e pronto, é um fora de fé. E sabemos que a opinião do Bernardo acerca dos anjos, dos demónios e do filho do rei das trevas corresponde inteiramente à realidade. Não porque o Bernardo tenha alguma evidência destas coisas, mas porque ele próprio diz que são verdades. Esta é a chamada “verdade da fé”, também conhecida como “sim porque sim, ora”.

Muitos alegam que eu confundo religião com superstição e que critico caricaturas da religião em vez da Religião Verdadeira®. São tantos os que me apontam isto que já me teriam convencido se não fosse cada um dizer que religião é a sua e superstições caricatas as dos restantes. Assim apenas confirmam a minha suspeita que a distinção que querem que eu faça é simplesmente entre “nosso” e “deles”.

Porque o método da religião é o mesmo da superstição. A Enciclopédia Católica (2) explica que a Bíblia não dá uma descrição coerente do Diabo, pelo que o que se “sabe” dele tem de ser interpretado de vários fragmentos «à luz da tradição patrística e teológica». Ou seja, por especulação inspirada na especulação dos outros. Que é o mesmo método que levou à conclusão que ferraduras dão sorte, gatos pretos dão azar e quem entorna sal deve atirar uma pitada por cima do ombro. Tudo isto é tão verdadeiro como a cauda pontiaguda do Mafarrico.

Como os crentes esclarecidos não se deixam levar por mera especulação, no quarto concílio Laterano isto deixou de ser especulação e passou a ser dogma. É assim que os católicos resolvem estes problemas. Nada desses disparates de testar hipóteses e reunir evidências. O caminho para a verdade está nas proclamações de homens de saia. «O diabo e outros demónios foram realmente criados por Deus bons por natureza mas tornaram-se maus por eles próprios; o homem, no entanto, pecou pela sugestão do diabo.»(3) Verdade da Fé.

Um exorcista que anda por cá é José Fortea, o padre espanhol que escreveu o «Tratado de Demonologia e Manual de Exorcistas» (4). Segundo a, à falta de melhor termo, jornalista Rosa Ramos «José Fortea fala do Diabo com uma familiaridade e seriedade de espantar». E vê-se bem que é um homem profundamente espiritual. «Durante os primeiros cinco minutos de entrevista, José Fortea falou sempre de olhos fechados». Se eu não estivesse habituado a ver os meus alunos fazer o mesmo nas minhas aulas, ficava impressionado. Tenho pena é que seja mais difícil exorcisar a treta do jornalismo que o Diabo do corpo.

Mas o mais famoso dos exorcistas, e o mais castiço, é o padre Gabriele Amorth. Segundo este perito em diabruras de toda a espécie, o Diabo é culpado de quase tudo o que se passa no Vaticano, da maluca que atacou o Papa aos tarados que violam crianças. Diz também que o filme “O Exorcista” dá uma ideia «substancialmente exacta»(5) do que é ser possuído por um demónio e que este novo Papa «acredita de todo o coração na prática do exorcismo. Ele tem encorajado e louvado o nosso trabalho». Olha que bom.

Para quem quiser encetar carreira nesta velha profissão, ou simplesmente rir um pouco, aqui fica um pequeno tutorial de exorcismo (6), à laia de novas oportunidades. Mas notem que apesar do feitiço ser simples a bruxaria só funciona se o praticante estiver devidamente licenciado pelo bispo (católico, claro). É que se qualquer um pudesse exorcisar, benzer, transubstanciar e coisas que tais lá tinha esta gente de trabalhar para ganhar o seu. Para que diabo servia a religião se fosse assim tão simples?

O que mais me espanta nisto nem são os disparates em que esta gente acredita. O mais incrível é estranharem quando gozam com eles…

1- Bernardo Motta, A existência do Diabo
2- Catholic Encyclopedia, Devil
3- Fordham, Medieval Sourcebook, Canons of the Fourth Lateran Council,
4- i, Exorcista. “Os padres estão pouco preparados para lidar com demónios”
5- Telegraph, Chief exorcist says Devil is in Vatican
6- Via o blog do Bernardo, Espectadores

Obrigado pelos vários emails com estas notícias. Este foi posto em simultâneo no Que Treta!

7 de Julho, 2010 Carlos Esperança

Vaticano e Máfia

O Vaticano autorizou a Justiça italiana a vasculhar o túmulo de um ex-líder da máfia, para tentar encontrar provas de envolvimento com o sequestro de uma jovem em 1983, noticia a BBC.

Enrico de Pedis, o último líder da chamada Banda de Magliana, uma organização mafiosa que actuava em Roma na década de 80, foi assassinado no centro de Roma, em 1990.

O corpo foi sepultado na basílica de Santo Apolinário, na capital italiana, ao lado de Papas e nobres, pois o líder da máfia era um benfeitor da Igreja.

3 de Julho, 2010 Ludwig Krippahl

Fé.

“Fé” é um termo que não se consegue definir bem por palavras porque, como “amor”, refere mais do que aquilo que as palavras podem descrever. Quem já sentiu sabe o que a palavra refere mas a quem nunca sentiu o dicionário dará sempre uma ideia incompleta. E este problema é muito apontado como prova do Mistério que estas coisas são; o Amor, a Fé, Deus, etc. Mas este é um problema comum a quase todas as definições fora de sistemas formais como a matemática e a lógica. Passa-se exactamente o mesmo com “salgado”, “verde” ou “cheiro a couves”. Quem já sentiu sabe o que significa e quem nunca sentiu não vai perceber o significado todo. Ainda assim, há aspectos destas coisas que podemos compreender por palavras mesmo que, sem as sentir, fique alguma coisa de fora.

A propósito de um texto do Domingos Faria sobre o ateísmo ser o primeiro passo para a fé (1), perguntei-lhe o que é a fé e para que serve. Não contava com uma definição completa da fé, mas bastava algo que desse uma ideia do seu papel. E a propósito da resposta do Domingos decidi escrever estas minhas impressões acerca da fé e daquilo para que pode servir.

O Domingos respondeu, como responde muita gente, que ter fé é acreditar. Mas não pode ser, por várias razões. A fé é apresentada como razão para crer, e se justificam acreditar porque têm fé a fé tem de ser algo que precede a crença e os leva a acreditar. Além disso, a crença admite facilmente a possibilidade de erro. Muitas vezes até acompanhamos a expressão de uma crença com um “se não me engano”, indicando precisamente que podemos estar enganados naquilo em que acreditamos. Acredito que vai chover ou que a faca do pão está na gaveta, mas se calhar não é verdade. A fé não é assim. É contraditório dizer que se tem fé em algo e ao mesmo tempo admitir que se pode estar enganado, porque tal admissão revelaria falta de fé.

A fé também implica a expressão insistente, e persistente, da crença. Perseverança e fidelidade. Eu acredito que isso dos deuses é treta mas, não tendo fé, se me ameaçarem com a fogueira digo logo que acredito nos deuses que quiserem, como hóstias e invento pecados no confessionário se for preciso. Um grande contraste com a fé dos mártires que optam pela tortura e morte só para persistir na afirmação das suas crenças.

Outra diferença entre acreditar e ter fé é que acreditar faz parte de compreender mas a compreensão exclui a fé. Eu compreendo porque é que o interruptor faz acender a luz, e para compreender isso tenho de acreditar em várias proposições acerca desse circuito eléctrico. Mas uma vez que compreendo não há espaço para ter fé. Se acende sei porquê, e se não acende é um disjuntor desligado ou uma lâmpada fundida. Não é uma crise de fé.

Finalmente, a fé é proposta como uma virtude. Ter fé é ser fiel a uma crença. É moralmente bom, digno e virtuoso. E rejeitar essa crença é mau. É uma falha, uma traição, uma imoralidade. Coisa de quem não é de fiar. O que não se passa com as crenças em geral. Sem a fé, acreditar ou deixar de acreditar são actos moralmente neutros. Não é virtude acreditar que o autocarro vem à hora indicada no horário nem é defeito de carácter deixar de acreditar quando a hora passa e o autocarro não veio.

E não só é virtude ter fé como é defeito de carácter criticar o que acreditam pela fé. Todos reconhecemos que, em geral, as crenças estão sujeitas a críticas e discussão. Mas às crenças motivadas pela fé é dá-se um estatuto especial, com pressões sociais contra a dissensão aberta e muitas vezes até leis que punem quem as criticar demasiado.

Há mais coisas que se poderia dizer acerca da fé e mais coisas que não se consegue pôr em palavras, que só quem tem fé é que pode sentir. Mas estas características da fé já dão uma ideia da sua função. Daquilo para que serve a fé. Serve para manipular as pessoas.

Os requisitos de um mecanismo psicológico para fazer as pessoas acreditar no que quisermos são exactamente estas características da fé. Algo que dê a sensação de justificar a crença em coisas que não se compreende. Que faça sentir essa crença como uma virtude, a descrença como um defeito e a crítica como uma ofensa. Que torne desconfortável admitir a possibilidade de erro. E que motive o crente a defender e propagar a crença mesmo com grande sacrifício pessoal.

Por isso a fé é um excelente vector de clonagem de crenças*. Basta inserir a crença que se quer propagar, infectar alguns hospedeiros e a fé trata de a espalhar pela população. E dá para muitas crenças. Que certas pessoas têm um canal especial de comunicação com um deus, são lideradas por um chefe infalível e não fazem mal às crianças. Que este livro é sagrado. Ou aquele, ou o outro. E não é só com deuses. Dá para produzir católicos e criacionistas, mas também cientólogos, raelianos e sistemas de governo liderados por um morto.

E, ao contrário do que escreveu o Domingos, o ateísmo não é o primeiro passo para a fé. É uma das manifestações da vacina contra esse agente infeccioso.

* É uma analogia um pouco técnica, mas pareceu-me boa demais para deixar passar. De qualquer forma, com a Wikipedia qualquer um pode saber biologia molecular: Cloning vector.

1-Domingos Faria, Ateísmo – um primeiro passo para a Fé.