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Categoria: Não categorizado

24 de Agosto, 2011 Ludwig Krippahl

Cinco pontos para Gryffindor!

A Penitenciaria Apostólica, em resposta à «súplica de Sua Eminência Reverendíssima Antonio María Rouco Varela, Cardeal Arcebispo de Madrid […], foi dotada de faculdades especiais para conceder, mediante o presente Decreto, o dom da Indulgência, segundo a mente do próprio Pontífice, como segue: Concede-se a Indulgência plenária aos fiéis que devotamente participarem em qualquer função sacra ou exercício piedoso a realizar-se em Madrid durante a “XXVI Jornada Mundial da Juventude”»(1)

Na economia católica da culpa, o pecado, quando devidamente arrependido e confessado a um sacerdote credenciado, é perdoado. Fica o pecador, por este meio, livre do sofrimento eterno a que se sujeitaria por ter pensado em malandrices com a mulher do vizinho, ou coisa do género. No entanto, fica ainda obrigado ao pagamento de uma multa em dias no purgatório. Sabe-se lá porquê. É daqueles mistérios que, por mero acaso, se revelam muito convenientes para os religiosos profissionais que gerem estas coisas.

É aí que entram as indulgências, que podem ser obtidas de várias maneiras, como usando bijutaria abençoada, jejuando, recitando orações e outras ladaínhas ou pela «visita ao Santíssimo Sacramento durante pelo menos 30 minutos»(2). Antigamente também se podia comprar indulgências mas, agora, em ocasiões festivas, a Penitenciaria Apostólica, via dom concedido pelo Papa, dá-as de borla. A utilidade da indulgência é descontar ao tempo que a alma do pecador teria de ficar em espera no purgatório. Será algo como telefonar à pessoa amiga que trabalha na secretaria para dar o jeitinho de pôr o nosso processo à frente.

Duas coisas intrigantes nisto são, como sempre, o mecanismo e as evidências. Não é claro como isto funciona. Obviamente, ninguém pode levar o voucher para o purgatório ou redimir o código de oferta no site de São Pedro. Deve haver algum processo mágico tal que, assim que a Penitenciaria proclama “menos três dias para fulano de tal!” automaticamente o contador é actualizado no purgatório. Também é intrigante como é que a Penitenciaria sabe que isto funciona. Ao que parece, ninguém voltou de lá para lhes garantir que sim senhor, as indulgencias plenárias funcionam mesmo em pleno, e até as parciais dão um jeitão. A falta de confirmação cabal deixa em aberto a desagradável possibilidade de, depois deste trabalho todo, chegarem as pessoas ao purgatório e o encarregado dizer não senhor, ficam aqui os dias todos porque os pedidos de indulgência só são considerados se entregues no formulário A23, em triplicado, e dentro dos prazos vigentes.

Pode parecer exagero andar a implicar com estas coisas que, admito, são mais ridículas do que prejudiciais. Mas incomoda-me, de tão absurdo que é, que estes Bispos, homens já com idade para ter juízo, supostamente inteligentes e certamente cultos, se reúnam com o ar sério de quem trabalha para decretar descontos nos dias de purgatório aos jovens que foram a Madrid. Nem sei o que será pior, se a possibilidade de o fazerem por aldrabice ou se a possibilidade de acreditarem mesmo num disparate destes.

1- Vaticano, PENITENCIARIA APOSTÓLICA, MADRID, DECRETO. Obrigado ao Bruce pelo link e concomitante gargalhada.
2- Wikipedia, Indulgência. Vejam também aqui várias promoções e outros descontos de oportunidade.

Em simultâneo no Que Treta!

23 de Agosto, 2011 José Moreira

“E não separe o Homem…”

Fazendo “zapping” pela TV, deparei-me com o programa da manhã da TVI. Debatia-se o problema da violência doméstica e, a certa altura, o psicólogo Quintino Aires aponta, sem apelo nem agravo, o dedo à Igreja Católica, acusando-a de ser fortemente responsável por muitos dos casos de violência doméstica. Apontou um exemplo concreto de uma senhora: Tendo-se divorciado do marido, devido a frequentes maus-tratos, mas não perdendo de vista a sua formação católica, foi confessar tamanho “pecado”. Quando o padre confessor lhe fez a pergunta sacramental acerca do arrependimento, a confessanda declarou, naturalmente, que não estava arrependida. Facto que lhe valeu não não só não ter sido absolvida como, também, o afastamento da igreja.
Recordo-me de ter visto e ouvido, também na TV e há tempos, o testemunho de uma outra senhora que, sendo alvo das sucessivas agressões do companheiro, se foi aconselhar com o padre. Este, como sapiente conselho, recomendou-lhe “humildade” para com o companheiro. Provavelmente, não lhe chegou a língua para dizer “humilhação”. Ou não sabe a diferença (que é muita) entre as duas palavras.
O Dr. Quintino Aires foi, apesar de tudo, bastante meigo para com a Igreja Católica. Porque a chantagem começa logo no acto do casamento. Quando o padre os declara marido e mulher (nunca mulher e marido…) trata logo de acrescentar: “E não separe o Homem aquilo que Deus uniu”. Não se pode ser mais fraudulento! Para “unir”, é Deus; para “separar”, é o Homem. Deus manipulado à vontade e conveniência da Igreja. Aliás, o que se pode esperar de um deus inventado? E o que pergunto, é: o deus que “uniu” já não pode separar? Porquê? Não tem poder para isso? Ou não quer? Ou é a ICAR que não quer? O cônjuge violentado terá de sofrer “até que a morte os separe”? Porque é assim a vontade de Deus? Ou é assim a vontade da Igreja Católica?

Em simultâneo no À Moda do Porto

21 de Agosto, 2011 Ludwig Krippahl

Treta da semana: decida-se…

Segundo discursou Joseph Ratzinger recentemente em Espanha, «sabemos bem que fomos criados livres, à imagem de Deus, precisamente para ser protagonistas da busca da verdade e do bem, responsáveis pelas nossas ações e não meros executores cegos, colaboradores criativos com a tarefa de cultivar e embelezar a obra da criação. Deus quer um interlocutor responsável, alguém que possa dialogar com Ele e amá-Lo.»(1) Tirando o problema de, na verdade, não saberem isto – apenas acreditam, mas não há justificação objectiva para considerá-lo conhecimento – o conselho implícito parece-me bom. Temos de ser responsáveis, buscar a verdade e ter capacidade para dialogar. Infelizmente, Ratzinger trata também de contradizer estes conselhos.

Dialogar exige procurar razões em comum de onde se possa encetar um raciocínio partilhado. Se um afirma que a Terra é plana e o outro defende que é esférica, não pode ser esse o ponto de partida para uma conclusão. Terão de concordar primeiro acerca do que conta como evidências e se essas evidências existem de forma a suportar alguma das hipóteses. Fotografias tiradas de órbita ou a sombra que a Terra projecta na Lua durante um eclipse lunar, por exemplo. Só assim se pode ter um diálogo racional que ajude a resolver a divergência. No entanto, os católicos fazem como Ratzinger e presumem que «fomos criados livres, à imagem de Deus» é o ponto de partida. Recusam-se a apresentar evidências que possam suportar essa alegação e ainda afirmam que estas coisas são verdades impossíveis de testar, excluindo logo à partida a possibilidade de partilhar razões com quem não acredite nisto, o que impossibilita o diálogo. Se os católicos são bons a dialogar com o seu deus é apenas por se tratar de um monólogo.

Ratzinger critica também os «muitos que, julgando-se deuses, pensam que não têm necessidade de outras raízes nem de outros alicerces para além de si mesmo. Desejariam decidir, por si sós, o que é verdade ou não». Suspeito que a crítica se dirija a ateus como eu, o que é irónico visto não sermos nós quem se arroga infalível, em certas matérias, por alegada orientação divina. E isto contradiz directamente a sua exortação à procura da verdade. Só quem deseja decidir por si se algo é verdade ou não é que pode procurar a verdade. Quem, pelo contrário, delegar essa tarefa a terceiros, limitar-se-á a enfiar barretes.

Quer também Ratzinger que os jovens, e todos nós, sejamos «responsáveis pelas nossas ações e não meros executores cegos», o que é de louvar. Mas depois aponta o dedo a quem quer «decidir, por si […] o que é bom ou mau, justo ou injusto», e que, ao contrário das palavras que «instruem, sob alguns aspectos, a mente; as palavras de Jesus, ao invés, têm de chegar ao coração, radicar-se nele e modelar a vida inteira». Considerando que as alegadas palavras de Jesus chegam por via de “testemunhado” e “interpretação” da parte de profissionais como o Ratzinger, o que ele está a recomendar é que sejamos eticamente responsáveis mas sem decidirmos o que é justo ou injusto e aceitando o que ele nos diz sem pensar muito no assunto. Isto é claramente contraditório.

Um artigo recente na Spiegel relata uma correlação significativa entre o secularismo e a ética, com os descrentes sendo mais tolerantes e tendo mais tendência a opor a discriminação, a guerra e a pena de morte do que os crentes no mesmo nível de educação e estrato social. O título do artigo pergunta se o secularismo torna as pessoas mais éticas (2), mas penso que, em grande parte, será o contrário. O que o Ratzinger propõe é uma contradição porque ninguém pode ser responsável nas suas decisões se delega a terceiros algo tão fundamental como distinguir o justo do injusto e o bom do mau. Bombistas suicidas e outros fanáticos fazem-no, convictos de cumprir a vontade do seu deus, mas quem se sente constrangido por considerações éticas não aceita facilmente a conversa dos alegados representantes divinos. E uma vez assumida a responsabilidade por estas decisões, a religião perde o seu papel fundamental, restando apenas o hábito e o medo de desiludir pais e avós. Para muitos isso não é suficiente para continuar adepto.

Segundo o Papa, e muitos bispos, o problema principal da Igreja é o ateísmo. Mas nas críticas ao ateísmo acaba por deixar a descoberto o verdadeiro problema do catolicismo. Dizem buscar a verdade mas abdicam da capacidade de determinar o que é verdadeiro e o que é falso. Dizem assumir responsabilidade ética mas delegam a responsabilidade de decidir o que é bom e o que é mau. E dizem querer dialogar mas não reconhecem a necessidade de justificar as suas premissas de forma que os outros as possam aceitar. O maior inimigo da Igreja católica não é o secularismo. É o catolicismo.

1- Canção Nova, Discurso do Papa na Festa de Acolhida dos jovens na JMJ 2011. Obrigado ao Ilídio Barros pelo link.
2- Spiegel Online, Does Secularism Make People More Ethical?. Já não me lembro onde vi isto primeiro, mas recentemente foi via o João Vasco no DA.

Em simultâneo no Que Treta!

19 de Agosto, 2011 José Moreira

O Papa e a Ciência

Que o Papa não gosta de Ciência, já todos sabíamos. Quanto mais não seja porque, como alguém já disse, a cada passo da Ciência corresponde, inevitavelmente, um recuo da religião – seja ela qual for. Acontece, porém que, ao contrário do que acontecia em tempos que não voltarão, a religião já não consegue travar a Ciência. Pelos vistos, porém, Joseph Ratzinger ainda não se apercebeu disso. Provavelmente anda distraído, de contrário não faria apelos tão retrógrados como este.

Limites para a Ciência, senhor Ratzinger? Quais limites, se faz favor? Está com medo de quê? De que o seu moribundo “deus” faleça de vez?

Em simultâneo no À Moda do Porto.

17 de Agosto, 2011 Ludwig Krippahl

Criacionismos.

Uma conversa recente com o Mats e o Miguel Panão ilustrou algumas semelhanças entre o criacionismo dos cristãos evangélicos e o dos católicos. Como é norma em tretologia, ambos se defendem como se, para justificar uma crença, bastasse não haver provas em contrário. O Mats diz que precisamos de «encontrar a força natural, não-inteligente, aleatória, que tenha a capacidade de criar um sistema como o da lingua do pica-pau»(1) ou, caso contrário, devemos crer que foi tudo criado pelo deus dele em seis dias, há cerca de dez mil anos. Encontrar esse deus, no entanto, parece ser desnecessário. O Miguel Panão vai mais longe, mas na mesma linha. «Criar em Deus consiste em conferir ser ao não-ser, não consiste neste ou naquele processo»(2). Como não se pode aferir se um deus “conferiu ser” a algo que não era, o Miguel não só dispensa evidências positivas a favor da sua hipótese como exclui até a possibilidade teórica de alguma coisa o contradizer. Mesmo que se descubra todas as reacções químicas que originaram a vida e as espécies modernas, o Miguel dirá sempre que foi o deus dele a “conferir ser”. O que quer que isso seja.

Esta forma de adoptar crenças obriga a inconsistências. Durante muito tempo, conveio a esta religião reivindicar desgraças como provindo do seu deus mas, hoje, à parte de alguns tele-evangelistas, preferem a apresentar os desastres como naturais e deixar ao deus só as coisas boas. No entanto, é tão difícil “encontrar a força” que faz tremer a Terra como a que faz as populações evoluírem. Em ambos os casos, só se pode inferir o processo como explicação para o que se observa. Se o Mats sujeitasse a hipótese da origem natural dos terremotos ao mesmo crivo com que rejeita a evolução das espécies, não conseguiria safar o seu deus de responsabilidade por estas coisas. O mesmo para o Miguel Panão. Se o deus deste “confere ser” ao que não é, independentemente do processo por que surge, então também terá “conferido ser” ao tsunami que matou duzentas mil pessoas em 2004, ou ao parasita da malária que mata um milhão por ano.

Além de ambos avaliarem a hipótese da criação divina de forma inconsistente com o que fazem na maioria dos casos, também erram na confiança que nela depositam e na importância que lhe dão. «Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.» Os crentes por vezes apontam que os ateus e cépticos também têm crenças. Claro que têm. Crer é aceitar proposições como verdadeiras, pelo que não crer em nada implica ou ignorar tudo ou ser inconsistente. Mas a crença dos cépticos é proporcional às evidências que suportam as hipóteses e, por isso, vem sempre depois da evidência e é sempre provisória. Ou seja, está integrada numa rede consistente e dinâmica de crenças onde todas são tratadas da mesma forma. A crença da fé é a crença da excepção, exigindo que um conjunto de hipóteses seja aceite em definitivo e antes de qualquer evidência. O que também leva à ignorância, porque o conhecimento exige justificação e capacidade de corrigir erros, e à inconsistência na forma de avaliar hipóteses.

Outro ponto comum é que ambos os criacionismos são inúteis, e até contraproducentes, para a nossa compreensão do universo. Não duvido que ajudem a manter a importância social das igrejas e dos profissionais da religião, mas o propósito cognitivo de um relato sobre a origem da vida ou do universo é esclarecer como surgiram. Para isso, não adianta a hipótese de ter sido tudo criado pelo milagre misterioso de alguém invisível.

O criacionismo evangélico e o criacionismo católico são diferentes nos detalhes, mas semelhantes no fundamento. Os criacionistas evangélicos tentam deturpar as descobertas cientificas e enganar o publico acerca dos factos. A idade da Terra, o Dilúvio, a treta da informação codificada e afins. Os católicos dizem que aceitam a ciência, mas acabam por deturpá-la também, enquanto método, ao defender que é igualmente legítimo saber coisas por magia. Chamam-lhe teologia, mas dá no mesmo. E se bem que em países como os EUA o criacionismo evangélico seja o mais prejudicial, por cá, onde muita gente sabe que os Flintsones não existiram de verdade, o criacionismo católico pode ser o mais nefasto. Não só pela falsa autoridade que confere aos “peritos” da teologia, como também pela forma insidiosa com que mina a ciência ao propagar a ideia de que investigar as coisas com rigor e atenção aos erros é muito bonito mas, para saber a Verdade, é acreditar no padre que o espírito santo depois logo inspira. Isto dá jeito à Igreja mas, para o resto da sociedade, é prejudicial.

1- Comentários em Treta da semana: “nephesh hayyah”
2- Comentários em Jornada fé e ciência (2008)

Em simultâneo no Que Treta!

15 de Agosto, 2011 Luís Grave Rodrigues

Oração

14 de Agosto, 2011 José Moreira

Humor de Verão (II) – Teoria da Religião

A minha avó dizia que “de génio e de louco, todos temos um pouco”. O que quer dizer, pela parte que me diz respeito, quer também tenho um pouco de génio. Ora, génio que se preze tem de deixar, para a posteridade, uma teoria. Assim sucedeu com Einstein, mais a sua “teoria da relatividade”, com Charles Darwin mai-la sua “teoria da evolução”, etc. Pela parte que me diz respeito, fico-me pela “teoria da religião” e desde já asseguro que se trata de uma teoria inovadora. Se alguém, antes de mim, desenvolveu esta teoria, é plágio vergonhoso; porque há muitos anos que trago esta teoria na cabeça, mas só agora posso dá-la a conhecer “urbi et orbi”. Falta de tempo, pois claro; mas a ideia, essa, já cá está há mais de muitos anos.
Adiante.
Desde sempre o Homem (leia-se a Humanidade; escrevo Homem para poupar espaço, não tem a ver com machismos exacerbados. “Homem tem menos letras que “humanidade” ou “mulher”) se perguntou e perguntou aos outros Homens: “Afinal, o que apareceu primeiro: a religião, ou o sacerdote?”, a fazer lembrar, vagamente, aquela pindérica adivinha da galinha e do ovo, que ainda hoje não se sabe quem apareceu primeiro.
Adiante.
Voltando trás, que é o que interessa, ainda hoje não se sabe, ao certo, se foi o sacerdote que inventou a religião, ou se foi a religião que criou a necessidade de um sacerdote. Isto é: NÃO SE SABIA, porque, graças a mim, esse mistério tem os dias contados.
Recuemos uns anos. Muitos. Muitos milhares. Milhões, talvez.
O Homem, ainda na fase de Australopiteco, ia olhando à sua volta e, ao mesmo tempo, ia tomando consciência do que o rodeava. Uma árvore não era uma pedra, um mamífero não era uma ave, e por aí fora. Um dia, viu o Fogo. E imediatamente esse fenómeno ígneo exerceu, sobre o Homem, um fascínio incontrolável. Que ainda hoje exerce, diga-se de passagem, basta ver os pirómanos que todos os anos por aí proliferam. É que dos quatro elementos da Vida – Terra, Ar, Água e Fogo – o Fogo é, certamente, o mais fascinante. Por exemplo: a água pode-se transportar de um lado para o outro, basta ser o recipiente adequado; a terra, então, é facílima, às pazadas ela vai para onde a gente quer; o ar, nem se fala. A gente pega numa garrafa de vinho, enfia-o pela goela abaixo, e imediatamente a garrafa fica cheia de ar. Milagre divino, sem dúvida! Sei de famílias que se deslocam, de propósito, à Serra da Estrela, carregados de garrafas de vinho, que esvaziam metodicamente para trazerem para casa as mesmas garrafas, mas cheias de puro ar da montanha – que respiram sofregamente sempre que os índices de poluição aumentam um pouco. Pois é. Mas transportar o fogo é algo mais complicado, porque requer um certo número de cuidados, quanto mais não seja porque não é muito prudente manuseá-lo directamente, por exemplo. Além disso, “aquilo” era um autêntico dois-em-um: aquecia e iluminava.  Tal como o sol, só que aquilo estava ali ao alcance da mão, passe a figura de estilo.
Pois bem: fascinado pelo Fogo, o Australopiteco perguntou a outro Australopiteco: “Porra, que porcaria é esta???” ao que o outro Australopiteco respondeu, dizendo a primeira coisa que lhe veio à cabeça: “É o fogo, pá!” O Australopiteco ignorante, como não tivesse argumentos para contradizer o respondente, aceitou sem discussão: “Se tu o dizes, é porque é verdade.
Fenómeno dos fenómenos, acabamos de assistir ao nascimento de duas espécies que ainda hoje existem e que não se extinguirão facilmente: o Crente e o “Chico-esperto”, também conhecido por Chiquesperto.
Pois bem, o Crente ficou estupefacto com a resposta do Chiquesperto e passou a olhá-lo com um certo respeito. Mas a sua estupefacção não ficou por ali. Vamos ver as cenas dos próximos episódios:
Crente: – Mas, como é que tu sabes essas coisas?
Chiquesperto: – Não só sei, como tenho poder sobre o fogo.
Crente: – …poder???
Chiquesperto: – Sim, Crente. Poder. Eu posso, se quiser, fazer desaparecer este fogo. (Abro parêntesis para esclarecer que se tratava de uma fogueira minúscula, posso dizer “ridícula”).
Crente: – Calma aí, pá. Isso não é assim tão fácil. Se a gente se chegar muito para perto, isso queima. Eu não sabia o que era, pus a mão e levei com uma queimadura de segundo grau. Não estou a ver tu a destruíres isso, desculpa lá.
Sem mais uma palavra, o Chiquesperto aproximou-se da escanifrada fogueira, desapertou a braguilha ou o que fazia as vezes disso e, de costas voltadas para o crente, como se estivesse numa missa das antigas, aliviou a bexiga, apagando o mirrado lume.
Chiquesperto: – “Voilá”. Como vês, homem de pouca fé, eu sou o maior! Não sei por que duvidas (milhões de anos mais tarde, esta história viria a ser plagiada por um tal S. Tomé). E vou dizer-te mais: se quiseres ter fogo na tua caverna, para assares batatas ou estrelar ovos, tens de pagar o dízimo. E quando deixares de o pagar irei a tua casa e apagarei o fogo.
Claro que a notícia se espalhou rapidamente. Havia um Australopiteco capaz de dominar o fogo. Os Australopitecos imediatamente se reuniram e decidiram que o Chiquesperto os guiaria na senda da vida. Tudo o que ele mandasse fazer, teria de ser cumprido à letra. Incluindo o pagamento do dízimo.
Estava encontrado o primeiro Sacerdote – e os primeiros crentes.

13 de Agosto, 2011 Ludwig Krippahl

Treta da semana: “nephesh hayyah”

Segundo o Mats, «A língua do pica-pau pode-se esticar entre 3 a 4 vezes o seu tamanho normal como forma de capturar insectos dentro das árvores. […] Esta maravilha da criação está repleta de designs especiais que negam a possibilidade de serem o resultado de forças não-inteligentes (evolução). A língua do pica-pau está “plantada” na sua narina direita. Saindo na parte de trás da narina, a língua divide-se em duas, enrolando-se à volta da sua cabeça entre o crânio e a pele, passando pelo outro lado dos ossos do pescoço, e saindo de debaixo do seu maxilar inferior ou bico. Até parece que Quem fez o pica-pau sabia o que fazia.»(1)

Pela descrição, não parece que sabia o que fazia, porque plantar a língua na narina é pouco inteligente. Mas o que acontece é que, nos pássaros, o osso hioide faz parte da estrutura e suporte da língua e os dois cornos deste osso estendem-se até à parte posterior do crânio. O pica-pau apenas tem esta estrutura mais comprida, que chega até à narina mas nem entre aspas está plantada nela. Mas a língua do pica-pau fica para um post sobre coisas menos ridículas. Este é sobre a resposta do Mats à pergunta acerca do que o pica-pau comia e outras premissas de fé.

O Mats defende que Deus criou o pica-pau no paraíso, onde não havia morte nem insectos a parasitar árvores, e onde seria pouco inteligente ter uma língua especializada em comer insectos. A resposta do Mats foi que «O que tens que demonstrar é que o conceito de “vida” que tu usas é o mesmo que […] a Bíblia qualifica de “nephesh hayyah” (alma vivente). […] Em relação aos insectos, se eles têm “nephesh hayyah” então o pica-pau não os comia antes da Queda. Se ele comia insectos antes da Queda, então os insectos não tem “nephesh hayyah”.»(1) Este truque de fingir que a questão factual é um problema do conceito não é só dos criacionistas. O Miguel Panão, por exemplo, escreve que «ao aferir uma hipótese de existência de um determinado Deus, não chega procurar evidências, importa conhecer bem cada conceito de Deus sobre o qual se pronuncia a hipótese»(2). O problema é que se passa o tempo todo a remoer o conceito e nada de evidências. O “nephesh hayyah”, o “Deus-Trindade” e a “lei dos semelhantes” podem motivar discussões sisudas entre criacionistas, teólogos e homeopatas, mas o que queremos saber é em que medida correspondem à realidade.

Os conceitos são importantes, porque são potenciais peças do puzzle, mas o conhecimento só vem no entrelaçado consistente de hipóteses testáveis acerca da correspondência entre os conceitos e aquilo que eles referem. Por sua vez, testar hipóteses exige interpretar dados, o que exige outros conceitos, outras hipóteses e novos testes. Muitos assustam-se por não haver fim para isto e procuram um fundamento irrefutável e axiomático para o conhecimento. Mas não há. Sobram sempre questões em aberto e a confiança que se justifica ter nas descrições que vamos construindo da realidade depende da interligação consistente de dados, modelos, hipóteses e teorias. Esta confiança pode ser grande, se temos muita coisa bem encaixada e que cubra muitos dados, mas nunca se justifica certezas absolutas. Perceber esta limitação cognitiva é uma parte fundamental do cepticismo.

E negá-la é essencial para a fé. O Mats resolve o problema do pica-pau assim: «Se alguém conseguir mostrar como a Bíblia confere o estatuto de “alma vivente” aos insectos, então fico a saber que o pica-pau não comia insectos antes da Queda» porque o Mats acredita que a Bíblia é «a Palavra do Criador dos insectos e dos humanos»(1). O Miguel Panão diz que «O Deus Trindade em quem acredito criou o universo»(2). Os católicos assumem que o Papa é infalível, os muçulmanos assumem que Allah ditou o Corão, os astrólogos assumem que os astros afectam a nossa vida amorosa e todos agem como se tivessem magicamente adquirido o dom da infalibilidade e, por isso, já não precisarem de testar essas suas hipóteses.

Eu não acredito que o “nephesh hayyah” tenha qualquer coisa que ver com o que o pica-pau comia há dez mil anos, nem que o “Deus Trindade” tenha criado o universo, nem que Maomé tenha falado pessoalmente com o anjo Gabriel. Não rejeito estas hipóteses por fé nalgum dogma contrário mas pela mesma razão porque também rejeito que o Elvis esteja vivo ou que andem por aí ETs a raptar vacas. Estas hipóteses não encaixam naquela rede consistente que constitui o nosso conhecimento, e julgar que são verdade só porque sim é disparate.

1- Mats, O Pica-Pau, e comentários.
2- Comentários em Jornada Fé e Ciência (de 2008).

Em simultâneo no Que Treta!