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8 de Setembro, 2011 Abraão Loureiro

6 de Setembro, 2011 José Moreira

Humor de Verão (III) – O Bem e o Mal

Filosofia da sanita.

Basicamente, o Bem e o Mal existem. Aliás, nem um poderia existir sem o outro. Com efeito o Mal só se compreende se houver o Bem para termo de comparação. E a inversa também é verdadeira.

De acordo com padres, pastores, rabinos, “ayatolahs”, “sheiks” e outros vendedores da banha da cobra, o Bem e todas as coisas boas foram criações de Deus, e o Mal e todas as coisas más são criações de Satanás. Por mero exemplo, apontam-se, tiradas da Bíblia, as seguintes coisas Boas, criações de Deus Nosso Senhor: as pragas do Egipto; as matanças dos primogénitos; o Dilúvio, etc. Já quanto a Satanás, parece não haver dúvidas de que foi o criador de tudo o que conduz ao pecado e ao Inferno: as mulheres boas como o milho, os bifes de picanha, as francesinhas, e por aí fora.

Pois é, mas não é assim. Na verdade, e contrariando todos os ensinamentos que nos têm sido fornecidos, o Mal foi inventado por Jeová. O primeiro acto mau de que fala a Bíblia foi decidido pelo dito “criador”, e nem sequer foi a morte de Abel, já que, nessa altura, ainda não tinha sido escrito o “Não matarás”. Logo, ainda não era proibido matar o irmão.

Repare-se: Adão e Eva estavam no Paraíso. Tudo era Bom, não Havia Mal. O jovem casal dispunha de tudo o que era necessário à sua sobrevivência e felicidade. Ou antes: de quase tudo. Porque: “Gen 2:17 – Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” Ou seja, só é proibido o que é Mau; e Mau era comer da árvore. E foi Deus que o determinou. Foi Deus que inventou o Mal, sem qualquer dúvida.

Resta-nos a consolação de saber que, apesar de tudo, e contrariando (mais uma vez) a decisão divina, Adão não morreu no dia em que comeu da árvore; ainda durou mais uns anitos… Quanto a Eva, parece que ainda é viva, já que a Bíblia não fala na sua morte…

5 de Setembro, 2011 Abraão Loureiro

A Religião contra o Estado

Copiado do Ateus do Brasil:

 

A fé é a mais autoritária das ideologias políticas já inventadas. Um instrumento político quase perfeito que permite ditar normas unilateralmente, governar sem a necessidade de armas e, ainda por cima, blindar-se de críticas em nome da tolerância religiosa.

O restante pode ser lido aqui

4 de Setembro, 2011 Ludwig Krippahl

Treta da semana: hepatoscopia.

A imagem abaixo mostra dois diagramas de fígado de carneiro. Os babilónios desenvolveram a prática de prever o futuro pelo fígado dos animais. Os etruscos chamaram haruspices a estes rituais, o que ficou auspices em Latim. Os babilónios catalogaram detalhadamente que pedacitos de fígado correspondiam a que divindades ou acontecimentos e ensinavam-no como parte da formação dos seus sacerdotes. Era uma tecnologia usada ao mais alto nível, até vedada ao povo comum, de tão poderosa que a julgavam ser.


Fígado

Diagramas de fígado de carneiro. À esquerda, da Babilónia, em barro (Archeolog) e à direita, uma variante etrusca, em bronze (Wikipedia).

No entanto, apesar do detalhe que nos chegou por diagramas como estes e relatos desta prática, ninguém se preocupou em explicar como é que descobriram isto. Nem babilónios, nem etruscos, nem romanos. O que é pena, porque o fundamental deste suposto conhecimento é precisamente a forma como os primeiros praticantes da arte teriam encontrado o pedaço de fígado correcto para cada deus. Como qualquer livro, história ou relato, estes diagramas só seriam conhecimento se houvesse uma relação evidente entre o seu conteúdo e os aspectos da realidade que pretendem descrever. Sem isto, não passam de uma curiosidade histórica.

Este problema não afecta apenas o fígado. Passa-se o mesmo com a astrologia, com o tarot, com as medicinas alternativas e toda a superstição em geral. Escreve-se resmas de papel descrevendo as energias positivas, os efeitos das constelações e o que cada carta prevê, mas ler isto é como ler o futuro no fígado do carneiro.

E é o que se passa com as religiões e as teologias. Alguns religiosos dirão que não, que a religião é acerca do sentido, do transcendente e coisas que não têm nada que ver com isto. Mas há dois problemas com este argumento.

O primeiro é que, historicamente, estas artes divinatórias eram religião. Eram os sacerdotes que praticavam astrologia, que previam o futuro nas entranhas dos animais e que sacrificavam animais e prisioneiros para apaziguar os deuses. A praticamente tudo o que chamamos superstição já houve quem chamasse religião. Em muitos casos, ainda há. E não há forma objectiva de distinguir entre as práticas que se reconhece religiosas e as que consideramos superstição. Como ouvi uma vez um antropólogo dizer a superstição é a religião dos outros.

Mas o segundo problema é o mais fundamental. Todas as religiões têm o equivalente aos diagramas dos fígados. Os livros sagrados, os dogmas, as alegações acerca do que é que cada deus quer, de quem era virgem, quem ressuscitou, quem recebeu ordens de um anjo, e assim por diante. E têm o equivalente aos videntes que interpretavam os fígados. Os sacerdotes, os teólogos, os peritos naquilo que, no fundo, não pode ser conhecimento por ser apenas alegações às quais falta evidências de corresponderem ao que pretendem representar.

É por isso que é tão importante perguntar como é que sabem o que dizem saber. Se perguntarem a um físico como sabe a idade das estrelas, ou a um bioquímico como sabe a estrutura do ADN, eles explicam com o detalhe que quiserem. Mais detalhe do que quiserem, provavelmente. O conhecimento é essa ligação entre as descrições e aquilo que estas descrevem, um encadeado de dados e inferências que se pode apreender e compreender. Sem mistérios insondáveis, sem saltos de fé, sem fontes autoritárias, poderes especiais ou revelações divinas.

Para conhecimento não basta apenas uma lista de alegações acerca da realidade. Para se saber é preciso também conseguir fundamentar essas alegações. Não pela fé mas, tal como a realidade, com algo que resista à dúvida. O resto é inventar deuses no fígado do carneiro.

Em simultâneo no Que Treta!

4 de Setembro, 2011 Carlos Esperança

O Vaticano não mente…

… apenas deturpa a verdade.

A Santa Sé afirmou neste sábado que “não impediu de nenhum modo nem tentou interferir nas investigações” sobre os casos de abusos sexuais cometidos por sacerdotes católicos na diocese irlandesa de Cloyne entre 1996 e 2009.

O Vaticano respondeu assim as críticas lançadas pelo primeiro-ministro irlandês Enda Kenny, que em julho acusou a sede da igreja católica de tentar “frustrar uma investigação em uma república soberana e democrata” e de encorajar os bispos de seu país a não denunciar os casos de padres pedófilos.

 

2 de Setembro, 2011 João Vasco Gama

Vida após a morte e fraude

A crença na vida após a morte é terreno fértil para a fraude.

Alguns charlatães aproveitam-se dessa crença para facturar. Este programa da BBC apanhou em flagrante três «mediums» que contactaram um fantasma inventado. Vale a pena ver:

1 de Setembro, 2011 Carlos Esperança

Demografia, sobrevivência e fé

Segundo as previsões, o planeta terá 7 mil milhões de habitantes dentro de dois meses e a população não deixará de aumentar nas próximas décadas. A Terra, cada vez mais degradada pela poluição e pelo esgotamento de recursos, encaminha-se para disputas violentas pela posse da água e de alimentos, bens já escassos para a população actual.

O centro de gravidade político e económico está a deslocar-se para os países asiáticos com o declínio do império americano e a progressiva irrelevância da Europa, dilacerada por nacionalismos que se exacerbam em períodos de crise.

As religiões, com a sua vocação totalitária, ávidas de converterem a humanidade ao seu deus, fomentam a propagação da espécie humana e encaram o planeamento familiar e a contracepção como abominações, agravando a tragédia planetária e antecipando conflitos bélicos provocados pela fome e pelas rivalidades religiosas.

A ausência de uma autoridade mundial com força e moral para impor maior igualdade na distribuição dos recursos mundiais e a melhoria acelerada dos cuidados de saúde e de educação, deixa largo campo de manobra às religiões para se apropriarem das consciências a troco da caridade com que são hábeis a substituir a justiça social. É por isso que consideram pecado qualquer tentativa de redução das taxas de fecundidade além de saberem que a fome e a ignorância são o húmus onde medra a fé.

A energia a preços acessíveis está condenada e os cereais, essenciais para a alimentação, correm o risco de acompanharem a escalada dos preços do petróleo para se converterem em combustíveis.

O futuro do planeta não é risonho e o proselitismo religioso torna-se um acelerador das tragédias que se avizinham com os Estados a abdicarem da laicidade e a consentirem que as multinacionais da fé fomentem a rivalidade e o ódio.

A demografia e a fé são armas de destruição maciça.

27 de Agosto, 2011 Ludwig Krippahl

Treta da semana: com isso não se brinca!

Já ouvi dizer muitas vezes que há coisas das quais não se pode troçar, supostamente por serem sérias. A nação, a religião, o clube de futebol, a verruga no nariz, o que calhar. No seu post desta semana, o João César das Neves critica o Jon Stewart, o anfitrião do excelente Daily Show, precisamente pelo «perigo da atitude» de brincar com coisas sérias. Esclarece que «Podem tratar-se coisas sérias fingindo brincar», mas são se for para rir com gosto, porque «é tão perigoso brincar com coisas sérias.» (1). Parece-me que o João tem alguma dificuldade com o humor.

Dois amigos andam à caça quando um, subitamente, desfalece. O outro telefona para o 112.
– Está? É o meu amigo… agarrou-se ao peito, caiu no chão e não está a respirar. Acho que está morto!
– Tenha calma. Primeiro, temos de ter a certeza…
Ouve-se um tiro.
– Pronto. E agora, o que faço?*

Para apreciar o humor é preciso ter capacidade para mudar de perspectiva, percebendo as coisas de uma forma contrária à pré-concebida e, igualmente importante, ter prazer em fazê-lo. A maior parte das pessoas consegue, em teoria, imaginar o que seria ver as coisas de outra forma. Mas, para muita gente, há situações em que fazê-lo é quase doloroso. São essas pessoas que dizem que não se brinca com coisas sérias, as tais em que lhes custa contemplar uma mudança de ideias.

É por isso que o João César das Neves diz que podemos criticar fingindo brincar mas, com “coisas sérias”, o gozo tem de ser fingido. Nesses casos, dói tentar pensar de outra forma, mudar de perspectiva ou largar os preconceitos, pelo que só se pode dar um esgar sofrido e não um sorriso com gosto. Daí a dificuldade que pessoas como o João César das Neves têm em aceitar o humor nessas situações. E, suspeito, é também por isto que há tão poucos cómicos de sucesso que são crentes religiosos. A religião é, por excelência, uma “coisa séria”, onde se treina desde criança a temer a possibilidade de mudar de ideias.

O defeito desta relutância é que a capacidade de ver as coisas de outra perspectiva é uma ferramenta fundamental para resolver problemas, porque permite procurar alternativas, corrigir erros, tomar boas decisões e avaliar correctamente as situações. Principalmente quando o problema é sério. Quem se mantém disposto a rir mesmo com coisas sérias não só demonstra esta capacidade como também a disposição para se servir dela. E isto é bom, dá-nos jeito a todos e devemos praticá-lo com frequência para nunca perder o hábito. Não é por acaso que os xenófobos, nacionalistas, hooligans e fanáticos têm, geralmente, um sentido de humor bastante pobre.

Por exemplo:

Eu sou fã do Dawkins, acho que os problemas que ele aborda são sérios e, para mim, o cepticismo é uma coisa importante. Também não me parece que a motivação dele para escrever seja esta que o sketch dá a entender. Mas não só me dá gozo ver, por uns momentos, as coisas desta perspectiva – mesmo sabendo que não é verdade – como acho útil ser capaz de considerar esta possibilidade. Não se aplica aqui, mas talvez se aplique noutros casos.

O humor é brincadeira, mas é também um teste importante da nossa capacidade de nos colocarmos fora dos nossos preconceitos, hábitos e tabus. Se gozar com uma coisa nos custa, se não conseguimos rir por nos parecer “coisa séria”, então não estamos preparados para lidar com o assunto de forma objectiva e imparcial. Só para concluir, deixo mais este. Tentem adivinhar o tipo de pessoa que não achará graça a isto.

* Segundo os inquéritos do Richard Wiseman, esta é a piada mais engraçada do mundo, originalmente do Goon Show. Infelizmente, não encontrei uma expressão em português tão ambígua como o “let´s make sure he’s dead” original.

1- DN, O poder de Jon Stewart

Em simultâneo no Que Treta!

26 de Agosto, 2011 Ludwig Krippahl

E o método, pá?

Hoje em dia é desconfortável uma religião admitir conflitos com a ciência. Por isso, muitos religiosos se esforçam para disfarçar a incompatibilidade entre as duas abordagens. O Miguel Panão, por exemplo, citando John Haught, aponta que o problema é «a crença num âmbito explanatório ilimitado da ciência»(1), enquanto o Alfredo Dinis alega não haver conflito porque «a ciência não consegue demonstrar que Deus não existe, a fé também não consegue provar o contrário»(2). Nada disto é relevante. O que o Alfredo aponta é trivialmente verdadeiro para uma infinidade de coisas, como os mafaguinhos, o Pai Natal e um bule em órbita entre a Terra e Marte. E se bem que não se saiba se é possível explicar tudo, sabe-se que, para explicarmos alguma coisa, precisamos de um argumento sólido de onde a possamos inferir. Precisamos de premissas que possamos confirmar independentemente e de um raciocínio válido que nos conduza ao que queremos explicar. E isso a fé não dá.

A teoria da evolução é uma boa explicação. As premissas são fáceis de confirmar: os organismos herdam características dos seus antepassados, reproduzem-se e o sucesso reprodutivo depende, em parte, das características herdadas. E disto podemos inferir os mecanismos que vão moldando a distribuição de características nas populações ao longo das gerações. Para casos mais concretos podemos detalhar as premissas por observação e chegar a conclusões muito específicas. Em contraste, a hipótese de que Deus criou tudo não explica nada. Fica pendurada, sem fundamento, e dela nada se pode concluir. Não explica porque é que as mitocôndrias têm ADN, porque é que a retina dos vertebrados está ao contrário da dos invertebrados ou porque é que as bactérias adquirem resistência aos antibióticos. Não explica nada, nem se justifica crer que é verdade. No entanto, é nisso que os religiosos crêem.

E o fundamental na ciência nem sequer é o conjunto de explicações que se adopta num dado instante. É o método para as avaliar, sempre a título provisório, pelos dados disponíveis. Nisto, o conflito com a religião é óbvio. Segundo o Anselmo Borges, «Deus não é objecto de ciência […] Deus é objecto de fé e há razões para acreditar como há razões para não acreditar.»(3) Isto assume implicitamente que Deus existe, que não é mera fantasia ou termo sem sentido, e considera apenas a fé e a crença. Mas se as pessoas acreditam ou não é lá com elas, e a fé é o que cada um quiser. A questão objectiva é se a hipótese de Deus existir é factualmente correcta e, para chegar a uma conclusão fundamentada acerca disto, é preciso seguir o tal método: formular a hipótese de forma a poder ser testada, confrontá-la com alternativas e com os dados e, com base nas evidências disponíveis, aceitá-la como verdadeira, provisoriamente, apenas se o seu desempenho for nitidamente superior ao das restantes. Concluir que um deus existe porque se tem fé é atirar a ciência pela janela.

O Bernardo Mota vai dar um curso sobre “Ciência e Fé”(4), que aproveito para divulgar, para pedir que ele depois disponibilize a gravação das aulas e para sugerir que aborde o problema como ele é. O Bernardo também defende que não há conflito entre ciência e religião e gosta de apresentar o exemplo de Galileu na tentativa de ilustrar isto. Galileu disse que nem tudo orbitava a Terra, pela observação das luas de Júpiter. Se isto se podia considerar evidência conclusiva é discutível, e é aceitável, cientificamente, que houvesse alguma relutância em aceitar de imediato o heliocentrismo só por causa disto. Mas o que fizeram foi prender Galileu e ameaçá-lo para o obrigar a negar o que as evidências lhe diziam. Cientificamente, mesmo que Galileu fosse parvo e não tivesse razão nenhuma, mesmo assim isto não se faz. Se os doutores da Igreja lhe tivessem feito perguntas tramadas, publicado refutações ou até feito comentários sarcásticos, eu concordava com o Bernardo. Mas não vejo maior conflito com o método da ciência do que mandar prender quem defende hipóteses com as quais se discorda.

O que os apologistas do está tudo bem sistematicamente esquecem é que a ciência não é um pacote de hipóteses que possam isolar das suas fés alegando não haver lá nada acerca do seu deus preferido. A ciência é o melhor método que conhecemos para encontrar a verdade, porque exige hipóteses explícitas com consequências claras, exige o confronto de hipóteses alternativas e corrige os erros quando dados novos o permitem. Afirmar que um deus existe porque se tem fé e porque é impossível provar que não existe é contrário e este método, porque está bem estabelecido, cientificamente, que a fé não é um indicador fiável da verdade de hipóteses factuais e que ser impossível de refutar, quaisquer que sejam os dados, apenas mostra que a hipótese foi mal formulada.

Gostava que o Bernardo, no seu curso, e os apologistas do tal “diálogo”, encarassem o problema verdadeiro em vez de inventar espantalhos. Gostava que explicassem como é que o seu método de concluir coisas pela fé e pelo “não se prova o contrário” pode ser compatível com o método a que chamamos ciência. É claro que também gostava de ganhar o Euromilhões, benesse com a qual não conto e que, mesmo sem jogar, ainda me parece a mais provável das duas.

1- Miguel Panão, Método científico contradiz Cristianismo?, mas ver comentários acerca da tradução da expressão original.
2- I Online, Ciência e religião. Afinal o diálogo é possível
3- DN (2009), Darwin e a religião
4- Bernardo Motta, Curso “Ciência e Fé”

Em simultâneo no Que Treta!