A propósito da tomada de posse do novo bispo de Bragança-Miranda, tem-se falado na fusão de paróquias. E aqui começam as minhas preocupações: será por causa da redução da freguesia crente? Será por défice de padres? Ou terá sido por imposição de “troika”?
Já agora: a RTP (que todos nós pagamos e de que maneira!) gastou quase tanto tempo com a notícia da tomada de posse como com o buraco da Madeira. É obra!
Naquele dia, Simplício tinha decidido atalhar caminho; em vez de calcorrear a estrada alcatroada, caminhou pela linha de caminho-de-ferro. A certa altura um dos pés ficou preso num intervalo das travessas. Afadigou-se a tentar libertar o pé, mas sem qualquer resultado. Não saía, ponto final. Subitamente ouviu-se, ao longe, o silvo de uma locomotiva (era no tempo das locomotivas a vapor); Simplício começou a entrar em pânico:
– Meu Deus, ajuda-me a libertar-me! – mas o pé não se mexia. Simplício sabia que o comboio se aproximava, e o pânico aumentava:
– Meu Deus, se me libertares, prometo passar a ir à missa todos os domingos – mas o pé teimava em não sair.
– Meu Deus, liberta o meu pé, e prometo que não volto a bater na minha mulher, nem a embebedar-me! – mas o pé, aparentemente surdo, teimava em manter-se entre os dormentes. Ao fundo da recta, o comboio já era visível:
– Meu Deus, liberta-me, e eu prometo custear as obras da igreja – o pé não saía, o comboio aproximava-se, e Simplício entrou em franco desespero:
– Meu Deus, eu prometo doar todas as minhas terras aos pobres da freguesia, todo o meu dinheiro será dado a obras de caridade, prometo que ingressarei num convento franciscano e farei voto de pobreza, mas liberta o meu pé, suplico-te!
Quando o comboio já se encontrava a menos de dez metros, como que por milagre o pé soltou-se e Simplício escapou a uma morte que parecia mais que certa.
Respirou fundo, e dirigiu o olhar algures para o céu:
– Ó Deus, tem lá paciência mas esquece o que eu disse; como viste, safei-me sozinho.

«O entendimento popular da blasfémia resulta provavelmente do mandamento bíblico «não tomarás o nome do senhor teu deus em vão», muito embora nos últimos anos tal conceito se tenha estendido na consciência do público de forma a incluir imagens retratando o profeta islâmico Maomé.
Há seis anos atrás, no dia 30 de Setembro de 2005, o jornal dinamarquês “Jyllands-Posten” publicou uma série de cartoons retratando Maomé. O que
se seguiu foi uma batalha de culturas entre o valor ocidental da liberdade de expressão e as rigorosas leis do Islão contra a blasfémia.
A religião exerce uma incomensurável pressão sobre a liberdade de expressão, graças à sua universal condenação da blasfémia.
A palavra “blasfémia” deriva de duas palavras gregas, significando βλάπτω “euu mal”, e φήμη que significa “reputação”, e tem vindo a ser tomada como «falar contra Deus», ou como a difamação da religião e de doutrinas religiosas.
Entre as mais fervorosas e mais fundamentalistas seitas religiosas a blasfémia pode variar entre beber uma cerveja até à própria negação da existência de Deus (coisas que eu já fiz no dia de hoje).
Eis o que Bíblia tem a dizer sobre blasfemos:
No Levítico 24:16: “Aquele que blasfemar contra o nome do Senhor será condenado à morte; toda a congregação deverá apedrejar o blasfemo. Tanto os estrangeiros como os cidadãos, quando blasfemarem o Nome, deverão ser condenados à morte”.
É manifesto que as três grandes religiões ocidentais têm uma opinião extremamente negativa da blasfémia, uma vez que a consideram uma ofensa capital.
As leis contra a blasfémia só servem para promover o medo entre a população e a obediência às autoridades religiosas.
Na Europa renascentista a cosmologia oficial da Igreja Católica defendia a visão aristotélica de um cosmos totalmente controlado por Deus, e que sustentava que todos os objectos celestes giravam ao redor da Terra.
Quando Galileu virou o seu telescópio para os céus e desenhou as quatro luas em órbita de Júpiter, ele estava a blasfemar contra a Igreja.
E esta limitada cosmologia defendia também que não poderia haver tal coisa como o vácuo.
Por isso, quando cientistas como Torricelli e Pascal começaram a bulir com a criação de vácuos, também eles estavam a blasfemar contra a Igreja.
George Bernard Shaw disse uma vez que «todas as grandes verdades começam como blasfémias», o que só por si poderia resumir de forma muito sucinta a busca ocidental pela Ciência.
Para as religiões que promovem a ideia de que um Deus criou o universo somente para os seres humanos, a ciência será sempre uma blasfémia, porque a ciência abre brechas na já frágil cosmologia filosófica que as religiões ensinam como verdadeira.
O «Dia da Blasfémia» é um dia de reconhecimento da importância da blasfémia numa sociedade que valoriza o direito à liberdade de expressão.
Sem liberdade para blasfemar, para falar contra as ridículas doutrinas religiosas que mantêm a sociedade na escuridão e na ignorância, não temos realmente liberdade de expressão.
Blasfemar é defender a ideia de que não há nada tão sagrado que não possa ser criticado, ridicularizado, ou até mesmo falado em voz alta.
Como ateu, cada dia é para mim o «Dia da Blasfémia» porque me recuso a colaborar com os dogmas que a religião vende».
Texto (livremente) traduzido do «Skeptic Freethought»
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