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Categoria: Não categorizado

14 de Novembro, 2011 José Moreira

Diálogos improváveis (ou talvez não…)

Ambrósio olhava para mim, sem conseguir esconder um misto de repulsa e surpresa:

– Tu queres dizer que és ateu?

– Exactamente – confirmei.

– Ou seja – insistiu – não acreditas em Deus Nosso Senhor.

– Bem, não é uma questão de acreditar ou não. Deuses não existem, assunto resolvido.

Ambrósio, bom católico, de missa sem gazeta e hóstia na ponta da língua, que nas mãos considerava uma badalhoquice, retorquiu, sem se dar por vencido:

– Claro que deuses não existem. Mas este, existe, não tenhas dúvida.

E, sem me dar tempo a recalcitrar:

– Ou então, diz-me quem fez isto tudo – concluiu com um gesto largo e abrangente.

Tudo, o quê? – quis saber.

– Tudo, porra! o céu, a terra, as estrelas, todos os astros, a água…

Aproveitei as reticências:

– Sabes, sem querer estás-me a explicar como é que o teu deus foi inventado.

Ambrósio engelhou a testa:

– Não percebo…

– Nem eu esperava que percebesses – retorqui sem esconder a ironia. – Vamos por partes: é indubitável que acreditas em Deus…

– Mas nem duvides! elucidou, colocando um visível ponto de exclamação no fim da frase, para que não restassem dúvidas.

– Óptimo – acedi. Quer dizer que confias em Deus.

– Naturalmente – desta vez foi Ambrósio quem mostrou um ar divertido. – Devemos confiar em Deus.

– Quer dizer que rezas a Deus…

– Sem dúvida. Rezo todos os dias. Não me deito sem fazer as minhas orações.

– Assim é que deve ser – acedi eu. – E pedes-lhe o quê? Dinheiro?

Ambrósio mostrou-se agastado e não perdeu a oportunidade de mostrar a tolerância religiosa:

– Dinheiro?! Vocês, ateus, é que são materialistas! Eu não peço dinheiro a Deus, que Deus não quer nada com o dinheiro, que é coisa do Diabo. Agradeço-lhe o ter-me deixado viver mais um dia, e peço-lhe vida e saúde.

– Pois, era aí que eu queria chegar. Estás a dizer-me que nunca foste a um médico.

– Ora, claro que fui! Ainda ontem fui a uma consulta. Mas o que tem a ver…?

– Não, espera aí: tu acreditas em Deus, confias em Deus, pedes vida e saúde a Deus, e vais ao médico? Achas que isso é confiar?

Ambrósio arregalou os olhos, primeiro. Depois, deixou que a face se tornasse rubra de raiva:

– Porra, pá! Já me tinham dito que era inútil falar com ateus. Afinal, sempre é verdade.

12 de Novembro, 2011 Abraão Loureiro

11 de Novembro, 2011 Luís Grave Rodrigues

Revelação

9 de Novembro, 2011 José Moreira

Feriados… (II)

Lê-se e não se acredita. Quero dizer, eu não acredito. A Igreja aceita mudar dois feriados religiosos se o Governo mudar dois civis… Mas espera aí: estes fregueses já impõem condições ao Governo? “Aceita se…??? Estão loucos, ou estão a falar mesmo a sério? E se o Governo não aceitar (eu sei que vai aceitar, ou não fosse, este governo, formado por devotos beatos)? Fazem greve?

8 de Novembro, 2011 Luís Grave Rodrigues

Holocausto

6 de Novembro, 2011 Ludwig Krippahl

Treta da semana: a Cultura Racional.

«A Cultura Racional é a cultura do desenvolvimento do raciocínio. A cultura natural da Natureza . É o conhecimento da origem do ser humano. De onde ele veio, como veio, porque veio e o retorno a sua origem, mostrando como o homem voltará ao seu estado natural de ser Racional puro, limpo e perfeito. Tudo isto através das mensagens do RACIONAL SUPERIOR, um ser extraterreno, publicadas nos Livros “UNIVERSO EM DESENCANTO”.»(1) No site, a imagem com os pingos de água e a explicação em maiúsculas dão também uma boa ideia do que trata a Cultura Racional.

Há vários aspectos interessantes nisto, além do efeito soporífero das palestras do fundador do movimento, Manuel Jacinto Coelho, ideais para quem sofra de insónias.

Manuel Jacinto Coelho nasceu em 1903 e faleceu em 1991(2). No entanto, segundo testemunham os seus seguidores, quem alcança a Imunização Racional «continua a viver normalmente neste mundo físico, porém deixa de estar subordinado a ele e às vicissitudes da vida orgânica.»(3) Ou seja, pela Cultura Racional, seguindo os ensinamentos daquele que nos foi enviado pelo Racional Superior, podemos ter a esperança de vencer a morte tal como ele a venceu. Não a morte física, deste plano material, mas a morte num sentido metafísico e transcendente.

A Cultura Racional tem também um vasto corpo de conhecimento. A série Universo em Desencanto tem 1000 volumes, «3 livros do Obra Inicial […] 21 livros da Obra Básica […] 21 livros da Réplica […] 21 livros da Tréplica [e] 934 livros do Histórico ou Fascículos»(4). E todo este conhecimento foi revelado ao Manuel pelo Racional Superior, que habita no Mundo Racional, por meio da Energia Racional. Não se trata de teorias falíveis criadas por seres humanos limitados ao mundo empírico.

Finalmente, a ciência natural não pode provar que isto seja falso. Não há, nem pode haver, qualquer descoberta científica que refute as alegações do Manuel Jacinto Coelho ou o testemunho dos seus seguidores.

No entanto, apesar do testemunho de esperança de que podemos vencer a morte, do vasto corpo de conhecimento que alega ter, da sua fonte alegadamente infalível e transcendente, da impossibilidade de se refutar a doutrina da Cultura Racional e de estar até na Wikipedia, parece-me que a maioria das pessoas que ler este post vai concluir que isto é uma treta. E com razão. Nem é preciso acreditar, ler os 1000 livros que o Manuel escreveu, estudar aprofundadamente esta doutrina ou procurar provas materiais que a refutem.

O cepticismo justifica-se porque inventar tretas acerca do transcendente, do significado profundo, do destino último de tudo e do que acontece depois da morte não só é trivial como sempre foi um passatempo popular. Da história antiga à Internet, nunca faltaram tretas. Por isso, o mais sensato não é dar crédito a uma tese só porque parece atraente, ou sequer dar-lhe o benefício do agnosticismo só porque não se pode provar o contrário. Cada alegação é apenas mais uma num mar imenso de disparates, pelo que só se justifica considerar como minimamente plausíveis aquelas, poucas, que se destacam das restantes por algum fundamento objectivo. Não quando um diz que sim, outro acredita ou vem num livro, mas apenas se as forçam até o cepticismo a admitir que essa hipótese possa ser menos treta do que as outras. É esse crivo que leva a maioria a rejeitar doutrinas como a da Cultura Racional. É um bom primeiro passo. Falta agora dar o passo seguinte e perceber que o crivo não serve apenas para as crenças dos outros.

1- www.mundoracional.com.br. Obrigado pelo email com esta revelação.
2- Wikipedia, Manuel Jacinto Coelho
3- Wikipedia, Imunização Racional
4- Wikipedia, Universo em Desencanto

Em simultâneo no Que Treta!

6 de Novembro, 2011 Luís Grave Rodrigues

Alegoria