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Categoria: Não categorizado

27 de Setembro, 2012 Ludwig Krippahl

A incongruência faz mal.

O Alfredo Dinis escreveu vários posts intitulados «O desconhecimento faz mal»(1) com o intuito de refutar a ideia de que a religião é má. Para isso, apresenta «coisas boas que se fazem em nome da religião» e que, pelo título, deve presumir serem desconhecidas dos críticos da religião. São exemplos de trabalho voluntário como o do “Serviço Jesuíta aos Refugiados”, acompanhamento de crianças, apoio a toxicodependentes e assim por diante. São realmente coisas boas e são praticadas por alguns religiosos, mas parece-me que o esforço do Alfredo tem o efeito contrário ao pretendido.

A cardiologia é uma coisa boa. Se alguém me pedir para justificar porquê direi que é boa por ser bom compreender, prevenir e tratar problemas cardíacos. Ou seja, a cardiologia é boa porque é bom aquilo que é essencial na cardiologia. Mas se, em vez desta justificação, eu dissesse que a cardiologia é boa porque há cardiologistas que fazem voluntariado em programas de acção social, cuidam de crianças nas férias e dão apoio a refugiados seria justo perguntar como é que isso faz da cardiologia uma coisa boa. É que nem é preciso ser cardiologista para fazer isso nem é preciso fazer disso para ser cardiologista. São coisas independentes.

Os próprios apologistas da religião invocam esta independência sempre que os religiosos fazem algo reprovável. Por exemplo, a propósito da violência dos muçulmanos por causa do filme e das caricaturas, o Miguel Panão escreveu que isto não indica que a religião seja má porque «Não foi a religião que praticou o ato terrorista, nem sequer se tratou de ato religioso»(2). Apesar desta violência dos muçulmanos cumprir o critério do Alfredo Dinis, de coisas «que se fazem em nome da religião – institucionalmente, e não apenas com base nos sentimentos religiosos subjectivos», concordo com o Miguel Panão. Não é por isto que se pode concluir que a religião é má porque nem é preciso ser religioso para praticar estes actos violentos nem é preciso praticar destes actos violentos para ser religioso. Mesmo que a religião seja usada para levar pessoas a cometer actos violentos, esta violência é apenas um aspecto mau da forma como alguns usam a religião e não algo essencial na religião.

Mas o mesmo se aplica a todos os exemplos do Alfredo. Ajudar as crianças, os pobres, os enfermos e os refugiados são aspectos bons da forma como alguns usam a religião. Mas não são aspectos essenciais da religião. É possível ser-se religioso sem fazer nada disto e é possível fazer estas coisas sem se ser religioso. Na verdade, em sociedades como a nossa o principal agente deste tipo de acções é o Estado. Os serviços de saúde, as escolas públicas, os planos nacionais de pensões e os fundos de desenvolvimento regional fazem muito mais por muito mais gente do que as caridades religiosas. E sem ser preciso religião.

Para avaliar se a religião é uma coisa boa ou má temos de ver se são boas ou más as suas características intrínsecas. E essas o Alfredo evita sequer mencionar, razão pela qual me parece que os exemplos dele indicam o contrário do que ele gostaria que indicassem. Uma destas características é a crença firme em alegações factuais acerca de entidades sobrenaturais, alegações para as quais não há quaisquer evidências. A reencarnação, a origem divina do corão, a alma, a vida eterna e assim por diante. Outra característica das religiões é que estas crenças são justificadas pela autoridade de fontes que, em rigor, não sabem mais acerca disto do que qualquer outra pessoa. Os sacerdotes que interpretam os livros sagrados, os gurus infalíveis, os representantes dos deuses e essa malta toda sabem exactamente zero acerca das entidades sobrenaturais de que se dizem peritos. Finalmente, é parte essencial da religião associar este tipo de crença um forte valor moral. Não se crê em Deus apenas por julgar que ele existe, tal como se crê que a Lua tem uma parte que não vemos daqui da Terra. Crê-se em Deus, principalmente, porque é imoral duvidar da sua existência.

Estar convencido de coisas sem fundamento pela falsa autoridade de quem não sabe nada do assunto e, ainda por cima, julgar que é virtude ter tais crenças e imoral livrar-se delas é uma coisa má por si. É um erro, uma confusão entre factos e valores e uma oportunidade perdida para pensar nas coisas de forma adequada. É verdade que estes erros podem ter consequências graves para todos quando estas pessoas são levadas a fazer coisas como queimar embaixadas. No entanto, isso é um factor extrínseco à religião. Não é por isso que eu digo que a religião é uma coisa má. Também é verdade que se pode usar estas convicções para levar as pessoas a fazer coisas boas mas, tal como com as coisas más, isso também não é parte essencial da religião. Não é por isso que se pode dizer que a religião é uma coisa boa.

A cardiologia é boa pelo mérito das suas características essenciais. Continuaria a ser boa mesmo que alguns cardiologistas queimassem embaixadas e não seria melhor do que é só por alguns cardiologistas ajudarem a cuidar de crianças pobres durante as férias. Da mesma forma, a religião é má pelo demérito das suas características essenciais. Não é intrinsecamente pior só porque alguns religiosos matam em nome da sua religião, mas continua a ser má mesmo que alguns religiosos ajudem os pobrezinhos em nome da sua religião. Os exemplos do Alfredo Dinis não contribuem nada para determinar se a religião é intrinsecamente boa ou má. Esta incongruência mais parece uma admissão de que aquilo que faz uma religião ser religião não tem nada de bom.

1- Alfredo Dinis, o desconhecimento faz mal (5), o desconhecimento faz mal (4), , 3, 2 e 1.
2- Miguel Panão, Pessoas mal formadas, não que a religião seja má.

Em simultâneo no Que Treta!

22 de Setembro, 2012 Ludwig Krippahl

Treta da semana (passada): o filme.

“A inocência dos muçulmanos” é um filme horrível que, dizem, insulta Maomé (1). O filme foi produzido inicialmente com o título “Guerreiro do deserto” mas depois, sem conhecimento da maioria dos participantes, foi alterado para dizer mal de Maomé (2). A licença de filmagem foi obtida por uma organização fundamentalista cristã e o filme produzido foi por um cristão copta, aparentemente para chatear os muçulmanos (3,4). Depois de uns meses esquecido no YouTube, agora parece que suscita protestos violentos. Nos países mais civilizados, onde a religião tem menos poder, repudia-se a violência mas manifesta-se solidariedade com os muçulmanos ofendidos. No Brasil, até os participantes na Caminhada pela Liberdade Religiosa, ironicamente, condenaram o filme porque «desrespeita o profeta Muhammad»(5). Liberdade sim, mas respeitinho. Nos países e grupos onde o Islão tem mais influência o filme é desculpa para partir, incendiar e matar. Não é por ser uma religião mais violenta do que as outras, porque a violência de qualquer religião depende apenas do que lhe deixam fazer. Até o budismo, agora tão fofinho, foi bem tramado quando estava por cima (6). Também não é por a violência vir de quem não entende o verdadeiro Islão. Os que partem, incendeiam e matam são muçulmanos desde que nasceram. Têm tanta legitimidade como qualquer outro para dizer o que é verdadeiro na sua religião. O problema fundamental é a deturpação generalizada do tal “respeito”.

O respeito é a aversão a fazer mal ao outro. Portanto, não faz sentido respeitar crenças ou ideologias. Esse chavão comum, em qualquer discussão sobre crenças, de se dizer respeitador da opinião contrária é absurdo. Pode ser boa educação, como tirar o chapéu, mas não passa de um berloque retórico (7). E quando é levado a sério é uma chatice porque respeitar opiniões implica desrespeitar quem delas discorde. Eu não respeito o islamismo, nem o cristianismo nem o ateísmo, tal como não respeito a regra de três simples, nem a raiz quadrada de dois nem a Serra de Montejunto. Eu só respeito seres que sentem, como cães, golfinhos, macacos e humanos. Por isso não vou condenar ninguém por “insultar” o ateísmo, Darwin ou o Judo Clube de Odivelas e não vou “respeitar” crenças ou preconceitos em detrimento das pessoas.

Infelizmente, religiões e ideologias dessa índole têm de o fazer. Respeitar as pessoas implica, pelo menos, reconhecer-lhes liberdade de consciência e de expressão. Mas se uma religião não subjuga este respeito a um “respeito” ainda maior pelos dogmas que a identificam acaba por se desfazer ou por se transformar noutra que o faça. A violência à conta deste filme é apenas um de muitos exemplos do que acontece quando se respeita mais as ideologias do que as pessoas.

Pode-se dizer que este desrespeito não é a categorias religiosas abstractas sim às pessoas que se ofendem com o filme. Mas dá no mesmo porque o que ofende estas pessoas é o ataque ás suas crenças. A propósito do filme, a presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro disse que «são condenáveis quaisquer ataques a personalidades e símbolos religiosos», explicando que «Não gosto que façam com os meus, não farei com os outros»(5), mas é óbvio que esta não pode ser a justificação completa. Nem a ofensa é só questão de gosto nem o gosto justifica a condenação. A premissa implícita é de que esta categoria arbitrária das «personalidades e símbolos religiosos» merece mais respeito do que as pessoas a quem nega o direito de a “atacar”. E isto é verdade para a ofensa em geral. Sentir-se ofendido com a expressão de uma ideia não é um acto meramente passivo de desagrado. Exige decidir que essa expressão desrespeita alguma categoria que é ilegítimo desrespeitar, seja a profissão da mãe, a honestidade do clube ou a sacralidade do profeta. Ou seja, decidir que essa categoria merece mais respeito do que as pessoas.

As reacções ao filme, e as reacções às reacções, ilustram este problema fundamental na religião. Não acho o filme uma boa ideia, tal como não me agrada, por exemplo, alguns posts do Luís Grave Rodrigues (8). Por respeito pelas pessoas evito provocar só para chatear. No entanto, se alguém foi enganado e lhe posso explicar o embuste, maior desrespeito seria ficar calado e ajudar o vígaro com o meu silêncio. Por isso, chamo a treta pelo nome e quem se ofender que se ofenda. Seja como for, se respeitamos as pessoas temos de aceitar que se exprimam como entenderem, gostemos ou não. Até o tipo que fez este filme merece respeito e tem o direito de dizer o que pensa. Reprimir qualquer expressão por não se conformar a uma ideia do que é aceitável, próprio ou sagrado é “respeitar” a categoria desrespeitando a pessoa, um erro absurdo que é evidente em muitas facetas da religião. Na retórica vácua do respeito pelas opiniões quando o politicamente correcto o recomenda. Nas queixinhas de intolerância e ofensa quando faltam os argumentos para defender uma crença mais querida. Na importância auto proclamada das autoridades religiosas e na condenação de «quaisquer ataques a personalidades e símbolos religiosos». E, finalmente, na violência contra pessoas em nome de seres míticos e conceitos abstrusos. O traço comum nesta gama do inconsequente ao intolerável é sempre o de respeitarem mais os dogmas do que as pessoas. O caso à volta deste filme mostra-o claramente, felizmente sem sequer ser preciso ver o filme.

1- YouTube, Innocence of Muslims
2- Huffington Post, Anna Gurji & ‘Innocence Of Muslims’: Horrified Actress Writes Letter Explaining Her Role
3- Huffington Post, ‘Innocence Of Muslims’ Shot On Hollywood Set, Film Permit Connected To Christian Charity
4- Huffington Post, Christian charity, ex-con linked to film on Islam
5- ECB, Caminhada da Liberdade Religiosa condena filme com ataque a Maomé
6- Wikipedia, Human Rights in Tibet, the teocratic system
7- Por exemplo, estes posts do JFD, Ateísmo, Ateísmo, uma re-resposta., Ateísmo, finalizando, têm sempre a ressalva do respeito pelo ateísmo e outros ismos em geral. O que não é claro é que diferença isso faz.
8- Como estes Conversas com Deus, Pai. Não é o meu estilo. Mas, ao contrário da presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro, não defendo que se proíba só por isso.

21 de Setembro, 2012 Carlos Esperança

Saudades da Inquisição

 

O Vaticano considera a publicação de caricaturas do profeta Maomé em uma revista satírica francesa “uma provocação“.

“Publicar imagens extremamente polêmicas é como jogar gasolina no fogo, após o assassinato do embaixador dos EUA na Líbia, a morte de várias pessoas durante manifestações violentas e ameaças terroristas da Al-Qaeda,” – escreve o diário oficial do Estado do Vaticano, L’Osservatore Romano.

18 de Setembro, 2012 José Moreira

Jesus era casado?

De acordo com um documento que, recentemente, foi traduzido, Jesus era casado – o que aliás, nem é de espantar, dada a tradição judaica.

Segundo a pessoa que traduziu o pedaço de papiro, este refere que Jesus terá dito “A minha mulher…”, para além de outras frases que apontam Maria Madalena como sua esposa.

Haverá polémica, ou o assunto vai ser arquivado juntamente com as ossadas há tempos encontradas?

17 de Setembro, 2012 José Moreira

Humor de Verão – O Sequestro

O comboio seguia, suavemente, a sua marcha. Lentamente, se considerarmos que é lenta uma velocidade de setenta quilómetros à hora para um Alfa Pendular (…) A calma, uma calma densa, espessa, quase palpável, tinha-se instalado, silenciosamente, no interior das carruagens. Uns entretinham-se a ler, outros a mandar mensagens pelo telemóvel, aquele ali atreveu-se a ler o “Memorial do Convento”, e dava gosto vê-lo a avançar e a recuar as páginas, numa atitude de quem não tinha percebido nada do que tinha acabado de ler (…) Alguns passageiros chegavam ao ponto de criar empatia com os assaltantes, com quem dialogavam. Casos curiosos se passaram, curiosos e dignos de registo, como aquela senhora, de saia cinzenta até abaixo do joelho que, mesmo junto ao “Padre Inácio”, desfiava furiosamente um rosário, já ia a meio do segundo terço, os lábios movendo-se freneticamente, talvez porque tivesse concluído que tempo é dinheiro também nas orações, neste caso não se trataria de dinheiro mas sim de graça, sim, porque era graça aquilo que a passageira invocava, a rapidez dos movimentos labiais indicava, sem margem para dúvidas, a velocidade a que as “ave-marias” eram despachadas em direcção ao Altíssimo, as contas de prata passando pelos dedos nus, o crucifixo balançando com patética angústia na extremidade do pio objecto. “Padre Inácio” observava, curioso, o rápido movimento labial que realçava o elegante e bem aparado buço, e lembrava-se dos tempos em que, numa atitude sem precedentes nem subsequentes, o padre Celestino o incumbira de rezar as novenas do mês de Maio, frete a que Adeodato Inácio se entregou a contragosto, e do escândalo que rebentou quando os fiéis começaram a notar que o “Padre Inácio” rezava oito “ave-marias” em vez das dez estabelecidas, grande sacana, estar a gamar duas “ave-marias” entre um “pai-nosso” e uma “glória”, no fim do terço acabavam por ser dez, sim, senhores, DEZ “ave-marias” em falta, “Padre Inácio” estava-se borrifando para o que os fiéis, mais exactamente as fiéis, pudessem pensar, queria era acabar com aquele suplício o mais depressa possível, mas a passageira a que aludo rezava as contas todas, uma por uma, portanto sem qualquer arremedo de batota, movimentava os beiços à velocidade que considerava adequada, indiferente às dúvidas filosóficas do ex-sacerdote, e repetia, incansável, o terço, presumivelmente na esperançosa expectativa, passe a redundância, de que a Senhora se dignasse ouvi-la, costuma-se dizer que água mole em pedra dura tanto dá até que fura, neste caso até mereceria uma atitude positiva por parte da destinatária das orações, nem que fosse uma resposta a despachar, do tipo a ver se a gaja se cala de uma vez, até que foi interrompida por “Padre Inácio”:

— A senhora desculpe, mas não posso deixar de notar o fervor com que reza…

A passageira endereçou-lhe um olhar furibundo:

— Tem que ser! Estou a rezar para que Nossa Senhora nos proteja.

— Desculpe… Nos proteja, de quê?

— De quê?! Ora essa! Nos proteja de bandidos como você!

“Padre Inácio” sentiu como que um sopapo no estômago. Nunca ninguém lhe tinha chamado “bandido”, pelo menos assim em voz alta. Sentiu-se triste, mas decidiu que, dadas as circunstâncias, e até porque tinha vestido a respectiva pele, refiro-me à pele de lobo, era melhor engolir o insulto, mas mantendo a esperança de que não lhe desse qualquer indigestão, odinofagia, dispepsia que fosse. Ensaiou um sorriso meio idiota, e tentou ir às boas com a beata passageira:

— Mas nós já dissemos que não queríamos fazer mal a ninguém…

— Sinal de que as minhas preces foram atendidas. Nossa Senhora nunca me faltou com as suas bênçãos.

“Padre Inácio” decidiu remeter-se ao silêncio, por agora, limitando-se a observar os movimentos labiais da piedosa senhora, e indagando-se acerca da razão por que, rezando em silêncio, as pessoas movimentam os lábios. Que os movimentassem quando rezavam com o sistema de “alta-voz” ligado, compreendia-se, havia necessidade de se criar um uníssono, para que as palavras chegassem ao céu de forma apurada, num coro perfeito, não fazia sentido uma dizer “ave-maria” e outra já ir no “o Senhor é convosco”, dá para imaginar o raio da confusão, lá em cima não daria para perceber fosse o que fosse, Nossa Senhora nem conseguiria saber o que é que estavam a rezar. Mas no caso sub júdice, que é como quem diz, no caso em apreço, não se justificava, uma vez que a senhora rezava sozinha, e podia perfeitamente marcar o seu próprio ritmo, não dependia de nenhum maestro, o compasso seria o que ela decidisse, nada há como a liberdade de escolha, mas a verdade é que a senhora continuava a movimentar os lábios, cada vez mais rapidamente, como se da rapidez dependesse a execução do pedido, fosse ele qual fosse mas não se trata, certamente, de protecção já que, quanto a este tema, o esclarecimento de “Padre Inácio” tinha sido mais do que eloquente.

(…)

 

Postado de frente para o sentido da marcha, na carruagem-bar, que separava a carruagem “Conforto” das carruagens da classe turística, “Padre Inácio” observava a beata que, incansável, continuava a desfiar o terço.

— Se calhar já pode parar – sugeriu Adeodato Inácio docemente, numa tentativa de quebrar o gelo. – Como viu, não vamos fazer mal a ninguém, já não precisa de rezar mais.

— Preciso, preciso – retorquiu a pia mulher. – Preciso rezar para que Nossa Senhora mande um raio que os fulmine a todos, seus grandessíssimos bandoleiros! – prosseguiu a pia e bondosa senhora, esquecendo-se, lamentavelmente, daquela cena do “assim como nós perdoamos aos nossos inimigos”.

Já a desistir de fazer as pazes com a fanática dama, “Padre Inácio” não conseguiu conter o sarcasmo:

— E olhe uma coisa, tiazinha: tem a certeza de que essas coisas das rezas dão algum resultado? Olhe que eu tenho alguma experiência no ramo, e nunca dei fé de que isso servisse fosse para o que fosse…

Adeodato Inácio sentiu algo de estranho; atrás de si, a porta automática abria-se. Instintivamente, voltou-se, mesmo a tempo de ver uma loira bonita e um punho fechado avançando velozmente, num irrepreensível e implacável “yatsuki” . Sentiu uma pancada seca na ponta do queixo, e mergulhou na escuridão. Tão rapidamente, que nem teve tempo de ouvir a beata matrona declarar:

— Como vês, resulta, homem de pouca fé!

 

José Carlos Moreira in “O Alfa das 10 e 10”, Papiro Editora, Abril 2011