A santidade custa os olhos da cara. Quem julga que só os vivos se dividem em classes e estas se sujeitam às inclemências do mercado, ignora o que custa a um defunto chegar à santidade.
São pesados os emolumentos para investigação de milagres, para transformar as graças recebidas, alegadas pelos crentes, em milagres certificados com a chancela do Vaticano. É inútil a dimensão do prodígio se a Sagrada Congregação para a Causa dos Santos não rubricar o milagre. Não se criam beatos e santos de graça, apesar das graças.
Quantos defuntos de países pobres, exímios a curarem achaques, a endireitar espinhelas caídas, a alinhar corcundas, a transformar coxos em maratonistas ou a sarar moléstias da pele, não ficaram no anonimato de crentes que lhes beijaram o retrato ou lhes dirigiram preces a troco de uma novena ou de uma simples ave-maria?
L’Osservatore Romano, Diário do Reino do Vaticano, informou na última quarta-feira, através do cardeal italiano Angelo Amato, que foi criada uma «lista de preços «como referência».
A medida, em vigor desde o princípio do ano, pretende – segundo o referido cardeal –, «inspirar-se num sentido de sobriedade e igualdade», a fim de evitar uma «desproporção de valor entre as várias causas».
A decisão, de acordo com o órgão oficial do Vaticano, resulta de uma colaboração entre a Congregação para a Causa dos Santos e as várias dioceses, que durante alguns meses apresentaram as suas despesas à Santa Sé.
O cardeal italiano não se tem esquecido de apelar à realização de donativos para ajudar ao financiamento de «causa pobres», isto é, de defuntos de elevado potencial milagreiro cuja simplicidade não atrai o mecenato de devotos ricos, injustiça que o Papa Francisco quer corrigir, tentando acabar com certos privilégios para um maior equilíbrio dentro da Igreja que conta com 1,2 mil milhões de batizados.
Os milagres não são exclusivos das dioceses ricas e da bondade dos crentes abastados.
Ao que parece, o Espírito Santo voltou a atacar, depois de ter estado, durante 2014 anos, mais ou menos, em abstinência sexual. Bem, isto não passa de uma hipótese, uma vez que o Espírito Santo pode ter estado sexualmente activo, mas não ter conseguido fecundar. Naturalmente, por culpa das mulheres, que isto da misoginia é para levar a sério. Bom, pelo menos e ao contrário do meio-irmão anterior, sabemos, de ciência certa, o peso e o local do nascimento. Sabe-se mais que se chamará Francisco.
Não é despicienda a questão do conhecimento prévio. Com efeito, a Maria (a.k.a. Micas) foi informada por um anjo da sua futura condição de barriga de aluguer; já a freira de El Salvador, nem sabia que estava grávida, falha grave e inamissível, só se compreendendo se o anjo mensageiro estiver ligado aos CTT e, eventualmente, a fazer greve. Também não é de pôr de parte a hipótese de o anjo não saber falar castelhano, questão não desprezável.
Bom, o que se espera é que o recém-nascido não venha, agora, armar-se em salvador do Mundo. Já basta o que basta.

Por
Carlos Ferreira
Difundir uma imagem que apela ao uso do preservativo através da sua conta pessoal do Twitter pode ser considerado blasfémia? Talvez nalgum país do tipo da Arábia Saudita, pensarão. Bem… não, mas a COPE, a cadeia de rádio da Conferência Episcopal Espanhola acha que sim e despediu o apresentador que o fez.
Intereconomia, um grupo mediático ultra-conservador que, entre outras pérolas, faz campanha contra o casamento de homossexuais, a defesa da civilização cristã e ocidental e a unidade de Espanha (programa que Franco ou Salazar subscreveriam), mas que não paga os salários aos seus trabalhadores há oito meses e se propõe despedir umas centenas deles, critica outra rádio, a Megastar (por acaso da COPE, mas considerada demasiado liberal e pouco conforme com o ideário católico) por ter colocado no seu site uma imagem em que dois rapazes adolescentes se beijam na face. Por cá, o Parlamento acaba de aprovar, por proposta dos jotinhas do PSD, um referendo à adopção por casais homossexuais depois de a lei que a permite ter sido aprovada pela Assembleia da República.
E depois digam que isso de intolerância e fanatismo é mais lá para a Arábia Saudita…

O liberalismo económico e a liberdade de viver sob um regime clerical/fascista
Do minuto 8 ao 22 deste documentário: a instalação do neoliberalismo no Chile e Friedman. No mesmo ano em que um dos muitos opositores de Pinochet era assassinado Friedman recebia o Nobel.
Processo de canonização da Irmã Lúcia poderá ser antecipado
O defunto bispo de Coimbra pediu a dispensa do período de espera de cinco anos após a morte da Vidente de Fátima. A santidade vem aí.
A Igreja Católica é uma hidra que resiste ao tempo e aos escândalos, aos crimes e às mentiras, aos abusos e ao delírio místico. Nem os padres e os bispos conseguem dar cabo dela. Nem os Papas.
A Irmã Lúcia, a mais antiga reclusa do mundo, começou em criança a ter visões. Como eram escassos os médicos e numerosos os padres, em vez de a tratarem, exploraram as visões que o confessor lhe insinuava na luta contra a República e o Comunismo.
A prisioneira, que recebeu a visita de Cristo, em Tuy, em cuja comitiva se integrou na visita ao Inferno, onde logo viu o Administrador de Ourém, que não ia à missa, tornou-se a promotora do terço e de pios embustes enquanto os primos curaram a D. Emília, de Leiria, no exercício ilegal da medicina reservado a mortos.
O bispo de Coimbra tem certamente na manga alguns milagres para a elevar aos altares. A fé dos crentes precisa de ser avivada com feitos extraordinários, encerrados que foram o Inferno, devido à escalada dos combustíveis, o Limbo, por dar prejuízo, e o Purgatório por ser demasiado difícil de manter sem fazer obras de manutenção.
Se um agnóstico montasse um negócio, como o de Fátima, e recebesse cordões de ouro e dinheiro a troco dos milagres seria preso por burla.
Um bispo pode dedicar-se ao negócio dos milagres sem que a polícia o incomode, a Ordem dos Médicos o processe, o fisco o persiga e as pessoas sensatas o levem a sério.
E a morta não se queixa e estava habituada a dizer ámen.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.