O céu está cinzento, a anunciar borrasca, numa primavera sem coragem para romper o longo inverno a que o Governo, com o PR dentro, condenou Portugal.
A comunicação social, tão dada a evocar mortes, parece ter esquecido o nascimento do abutre de Santa Comba Dão, daquele pérfido seminarista que, segundo a Irmã Lúcia foi enviado pela Providência Divina, o organismo da Segurança Social Celeste que escolhe políticos sem recurso ao incómodo do sufrágio popular.
Faz hoje 125 anos que nasceu o sinistro ditador que acreditava na bondade de Cerejeira e na eficácia de uns pontapés dados a tempo como profilaxia dessas ideias nefastas, que a Inglaterra exportava, de um exótico regime conhecido por democracia.
Não há notícia de missas de sufrágio, novenas de ação de graças ou orações por alma do ditador. Vergonha ou amnésia, os próprios herdeiros espirituais renunciaram à herança e envergonham-se de dar testemunho público da saudade pelo torcionário que tinha sobre a mesa de trabalho a fotografia de Mussolini.
E vejam lá, leitores, a ironia do calendário! Benito Mussolini, que assinou os acordos de Latrão, que também foi enviado pela Providência divina, segundo o Papa de turno com quem se obrigou a tornar obrigatório o ensino da religião católica nas escolas públicas italianas e a quem entregou um avantajado óbolo do tesouro italiano, Benito Mussolini – dizia –, foi executado no dia de hoje, há 69 anos, no Lago Como, quando tentava a fuga para a Suíça. Os guerrilheiros italianos travaram-lhe o passo.
A tarde continua cinzenta neste dia de pesadas efemérides, um nascimento e um óbito, de dois crápulas que jamais deviam ter nascido.
João César das Neves, JCN, na habitual homilia do DN, «Festa dos cinco papas», regala hoje os crentes com pérolas pias com que consegue superar-se, semana após semana.
No exórdio da homilia JCN declara especial o dia de ontem, devido à declaração de dois papas vivos que confirmaram que “dois papas mortos estavam na vida plena”, o que não poderia ser declarado pelos mortos que, apenas, aceitaram, em silêncio, a glorificação.
Após garantir que a dupla canonização “é o assunto (…) que mais preocupa o mundo” acrescenta em êxtase que “Podemos dizer que é o único que verdadeiramente preocupa o mundo”.
JCN refere os canonizadores e canonizados como “Quatro homens simples e frágeis, mas cheios de vida e felicidade, que irradiaram por todo o mundo”. E repete a asserção sem explicar onde observou vida e felicidade nos defuntos que, aliás, como é hábitual, faltaram à cerimónia, mantendo-se em contida defunção.
JCN, que vê num papa o que os islamitas veem em Maomé, descobriu que os 4 papas felizes eram 5, aritmética que talvez omita na Madraça de Palma de Cima.
Afinal, JCN viu que “Estava lá um quinto papa. Olhando com atenção via-se, do lado esquerdo da praça, a estátua de um homem barbudo com duas chaves na mão. A importância dos quatro homens é que eles são sucessores dele. Aquele Pedro, que amava Jesus mais que os outros, e ouviu: “sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16, 18).
O que JCN descobre! “A razão é óbvia: mais ninguém tem uma felicidade assim”.
O Talmude e a Tora, A Bíblia e o Novo Testamento, O Corão e a Sunnah (séc. IX) têm em comum o carácter misógino mas diferem em relação ao álcool, à carne de porco e na defesa do véu e da burka. No islão as proibições atingem o esplendor esquizofrénico, onde até urinar com o jacto virado para Meca é proibido.
Paulo de Tarso moldou o cristianismo. Perseguir era a sua obsessão esquizofrénica sem cuidar do objecto da perseguição. Ouviu vozes na estrada de Damasco e passou a perseguir o que deixara em nome do que abraçou. Juntou a essa tara a vocação pirómana e apelou à queima dos manuscritos perigosos.
Paulo de Tarso odiava o prazer e injuriava as mulheres. Advogou o castigo do corpo e glorificou o celibato, a castidade e a abstinência. É um expoente da patologia teológica, do masoquismo místico e da demência beata – um inspirador do Opus Dei.
O cristianismo herdou a misoginia judaica. O Génesis condena radical e definitivamente a mulher como primeira pecadora e causa de todo o mal no mundo.
As três religiões monoteístas defendem a fé e a submissão, a castidade e a obediência, a necrofilia (pulsão da morte, não a parafilia), a castidade, a virgindade e outras santas aberrações que conduzem à idiotia e ao complexo de culpa do instinto reprodutor.
A história de Adão e Eva é comum à Tora, Antigo Testamento e Corão. Em todos, Deus proíbe a aproximação da árvore da sabedoria mas o demónio incita-os à desobediência.
Aliás, o pecado é definido como a desobediência a Deus, ou seja, à vontade dos padres.
As páginas do Corão apelam constantemente à destruição dos infiéis, da sua cultura e civilização, bem como dos judeus e cristãos (por esta ordem) em nome do mesmo Deus misericordioso que alimenta a imensa legião de clérigos e hordas de terroristas.
Fonte: Traité d’athéologie, Michel Onfray – Ed. Grasset & Fasquelle, 2005
João Paulo II, Papa pela graça do Opus Dei e sobre o cadáver precoce de João Paulo I, disse de Augusto Pinochet e Esposa: «São um casal católico modelo».
Perguntas:
– JP2 foi infalível?
– Os católicos confiam em JP2?
– Deus levou-o a sério?
– O milagre na área oncológica obrado numa freira francesa na véspera do centenário da lei da separação da Igreja e do Estado será verdadeiro?
– A ICAR é uma entidade de bem?
Diário de uns Ateus – Os papas defuntos são mais infalíveis do que os vivos.
De vez em quando, os comentários neste portal acabam por derivar para a verdade ou mentira do chamado “santo sudário”. Assim, enquanto a Igreja berra que o pano cobriu Jesus dito Cristo, a Ciência vai afirmando que tudo aquilo não passa de fraude. Pela parte que me diz respeito, estou mais inclinado a acreditar na versão “icariana”, e isto por uma razão muito simples: é consabido que tem sido a ICAR a presentear-nos com as mais famosas verdades absolutas quais sejam, por exemplo, uma mulher que engravida de uma pomba e que, mesmo assim, consegue o famoso cromossoma Y, só existente nos homens, para além de continuar virgem mesmo depois de uma catrefada de filhos, pega em três pessoas distintas e transforma-as numa só, transverte as células da farinha em células humanas, e muitas, muitas outras maravilhas de que só uma religião é capaz. Uma religião decente, entenda-se.
Por isso, tenho mesmo de partir do princípio de que o tal sudário é verdadeiro e que, contrariamente ao que alguns ramos da Ciência vão garantindo, aquilo tem, mesmo, 2019 anos de existência. Só uma dúvida me fica: quem, e como, garante que o pano cobriu Jesus dito Cristo? Fizeram pesquisas de ADN, ou baseiam-se, apenas, nos incontestáveis e uniformes Evangelhos?
Pela primeira vez na História do Vaticano, reúnem-se dois papas para canonizarem dois antecessores, em adiantado estado de defunção.
Dois mil anos de papas deram muitos defuntos para se dedicarem ao ramo dos milagres e poderem reincidir na santidade, já que o título é apanágio da função e do estado civil.
A presença de Durão Barroso, muito chegado a papas e bolos, sobretudo aos últimos, a avaliar pelo volume, lá vai à cerimónia a representar a excelência da escola salazarista. Não lhe falta experiência em genuflexões e vocação para andar de rastos.
Irá representar a União Europeia, como se a legitimidade, nesta Europa do Iluminismo, fosse conferida a quem não se submeteu a votos nem ao exame de consciência sobre a invasão do Iraque.
Com papas e bolos poder-se-ia pensar que Durão Barroso ia ao engano mas somos nós quem eles querem que acreditemos em milagres e passemos por tolos.
R: Fui católico, como toda a gente, na aldeia onde nasci. A professora que não batizasse o filho seria considerada herege e teria o lugar em perigo. De resto, a minha mãe não foi constrangida, nem ela, moderadamente crente, nem o meu pai, agnóstico. Era o hábito. O constrangimento social e a força da Igreja católica não permitiam opção diferente.
Dos 10 aos 14 anos (aluno do liceu da Guarda) ia, uma vez por ano, à missa, na Páscoa católica. A devoção diluía-se ao ritmo da fé. Foi nessa idade que deixei de acreditar no ser hipotético a quem se atribuía a criação do Mundo e comecei a fazer as perguntas ininterruptamente absurdas, quem criou deus, quem criou o seu criador e, assim, sucessivamente.
R: Se por ateísmo se entender não acreditar em Deus (escrevo com letra maiúscula para designar o deus abraâmico), tornei-me ateu aos 14 anos, mas a negação de um ser superior surgiu aos 18 anos, altura em que a rutura com a Igreja católica foi total e sem preocupações metafísicas.
R: O ateísmo, como qualquer conceção filosófica é sempre um processo dialético. Há um momento em que a “quantidade” de descrença transforma o cidadão e lhe confere a qualidade de ateu, adjetivo que facilmente assumo mas sem a necessidade de o afirmar.
Há duas razões que me levaram ao ateísmo: uma de natureza intelectual e outra moral. A primeira impede-me de aceitar como verdadeira uma afirmação para a qual não existe qualquer prova. De facto, não há a mais leve suspeita ou o menor indício de que algum deus exista, nem algum fez prova de vida.
A razão moral deriva do facto de o deus abraâmico, aquele que domina a maior fatia do mercado da fé no nosso país, ter sido criado por homens da Idade do bronze, muito mais violentos do que os de hoje, tendo criado um deus à sua imagem e semelhança: cruel, vingativo, violento, xenófobo, homofóbico e misógino, refletindo ainda o carácter tribal e patriarcal dos seus criadores. Basta ler o Antigo Testamento, a que Saramago chamou benevolentemente «manual de maus costumes» quando está mais próximo de um manual terrorista.
Naturalmente que o homem urbano, de hoje, seria incapaz de praticar as barbáries que o Antigo Testamento recomenda ou de aceitar as práticas violentas da sociedade tribal e patriarcal que lhe deu origem.
R: A anulação do batismo é a forma de evitar que a Igreja católica use quem a abandona como crentes cujo número exibe para obter privilégios indignos de um Estado laico. Os crentes são cada vez menos mas a Igreja diz que Portugal é um país católico e confisca uma parcela significativa da saúde e da educação com vergonhosas isenções fiscais. As IPSS pertencentes à Igreja católica, Igreja cada vez menos provida de crentes e padres, dão-lhe imenso poder económico, financeiro e político com que garante a continuidade.
R: O ateísmo é uma opção filosófica assumida por quem se sente responsável pelos seus atos e forma de viver, de quem preza a vida – a sua e a dos outros –, cultiva a razão e confia no método científico para construir modelos da realidade; e de quem não remete as questões do bem e do mal para seres incertos nem para a esperança de uma existência após a morte.
R: Surgiu de uma necessidade sentida por ateus, céticos, agnósticos e racionalistas, ideia cujos objetivos estão vertidos no site da Associação Ateísta Portuguesa (AAP):
R: Temos excelentes relações com várias congéneres, nomeadamente com as do Brasil e França.
R: A resposta a esta pergunta encontra-se nos documentos publicados no nosso site, mas posso referir, em síntese, a defesa da laicidade do Estado, a negação de um ser supremo, a luta contra o obscurantismo e a superstição, bem como a denúncia das religiões como detonadoras de ódios, guerras e injustiças sociais.
As conferências em que a AAP tem participado e as entrevistas à comunicação social refletem a identificação com a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o respeito pela Constituição da República Portuguesa, com especial ênfase na defesa da igualdade de género a que o espírito misógino das religiões se opõe.
R: Os membros da AAP estão dispersos por todo o país. Há apenas um jantar anual e as Assembleias Gerais onde a presença física se verifica. É na Internet, no Diário de uns Ateus e num site de discussão que trocamos opiniões e discutimos a forma de encarar o ateísmo, muito diversa entre as centenas de elementos da Associação.
R: A relação do Estado português é promíscua com a Igreja católica e tolerável com as outras religiões, mas quer a Concordata, um tratado iníquo com o Vaticano, quer a lei da liberdade religiosa, são dispensáveis num país cuja separação é exigida pela CRP e está longe de ser respeitada. Há privilégios indecorosos, como as aulas de Moral e Religião, as capelanias militares, prisionais e hospitalares, pagas com dinheiro dos contribuintes e sob tutela absoluta da Igreja católica. A isenção de impostos e os subsídios municipais e estatais para benefício religioso, são anomalias que urge erradicar.
R: Com exceção da prática litúrgica não vejo diferenças assinaláveis, tal como não vejo diferença no comportamento quotidiano de um budista e de um luterano ou de um engenheiro e de um professor. O ateísmo não é prosélito e ninguém repara que os ateus, ao contrário dos cristãos e muçulmanos, são incapazes de abordar alguém para lhes anunciar a não existência de Deus.
R: A AAP publica mensagens e comunicados, escreve cartas e reclamações a entidades oficiais que violam grosseiramente a laicidade do Estado, a Câmaras Municipais que, em épocas eleitorais, pagam viagens e almoços aos idosos dos lares e quando os abusos se tornam obscenos. Para além disso, participa em colóquios, faz conferências e dá entrevistas.
Qualquer pessoa, maior de 18 anos, se pode inscrever. Basta ir ao site, preencher o formulário e tomar conhecimento da AAP.
O Diário de uns Ateus, sendo propriedade da AAP, não reflete necessariamente as suas posições, habitualmente tomadas por consenso da sua direção. É um blogue anterior à AAP e que reflete as ideias dos sócios que aí colaboram. Nasceu da ideia de um ateu e do entusiasmos de um grupo que trocava impressões sobre o ateísmo.
R: As ideias dos colaboradores, que jamais defenderão os dogmas e mentiras religiosas, não são objeto de qualquer censura ou agenda e as caixas de comentários estão abertas, como se pode ver pela intolerância e grosseria dos crentes que as frequentam.
O insuspeito “Jornal de Notícias” publica, na sua última página de hoje, um evento, segundo o qual um jovem foi mortalmente atingido pela queda de uma cruz de Cristo. A cena ocorreu em Brescia, Itália, e a provavelmente pesada cruz havia sido erguida em 1998, para comemorar a visita do papa João Paulo II.
Sabe-se que João Paulo II vai ser canonizado por ter efectuado duas curas da doença de Parkinson, da qual também padecia: primeiro, curou-se a ele, já que não consta que, actualmente, sofra da dita doença; depois, curou uma mulher, isto quando já se encontrava em estado de defuncionário. Faltava, ao que parece, um terceiro “milagre”, mas este não se fez esperar, embora custando a vida de um jovem, o que se lamenta.
São ínvios, os caminhos do senhor…
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.