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Categoria: Educação

15 de Setembro, 2020 João Monteiro

Sobre a importância do ensino da cidadania

O início deste mês ficou marcado pela notícia de um manifesto intitulado “Em defesa das liberdades de educação”, subscrito por cerca de 100 personalidades do mundo político, económico e religioso, que apelava, após um conjunto de considerandos jurídicos, a que a disciplina de Educação para a Cidadania e Desenvolvimento respeitasse “o direito dos progenitores a escolherem o género de educação a dar aos filhos”, assim como “o direito de objeção de consciência quanto à frequência da referida disciplina”. Por outras palavras, pedia-se que a disciplina passasse de carácter obrigatório a facultativo, por motivos de objeção de consciência.

Na origem deste manifesto está o facto de um casal de Vila Nova de Famalicão – Artur Mesquita Guimarães e a sua mulher – ter recusado que dois dos seus filhos participassem na referida disciplina obrigatória, por considerarem que o programa era ideológico e doutrinário.

Acontece que ao olhar para o programa da referida disciplina não vemos nenhum tema que seja polémico. Entre alguns dos temas possíveis de abordar, a título ilustrativo, encontra-se a igualdade de género, a sexualidade, o ambiente, a segurança rodoviária, a literacia financeira ou os Direitos Humanos. Será o problema a igualdade de género, em que se abordam os direitos iguais entre homens e mulheres? Ou será a sexualidade, que já é abordada na disciplina de ciências naturais, a propósito do sistema reprodutor?

Os considerandos jurídicos apresentados no início do Manifesto funcionam apenas como argumento de aparente autoridade legal, pois são inconsequentes, uma vez que o que os artigos mencionados referem, e bem, é o direito da família a educar os descendentes, acontece que esse direito não está aqui em causa, nem a ser alvo de ataque. A família continua a poder educar os filhos em casa ou a procurar um estabelecimento de ensino privado de acordo com a sua orientação filosófica ou religiosa, o que não podem é escolher que partes do currículo escolar são lecionadas.

Mesmo que os pais não gostem dos temas, não há qualquer tentativa de doutrinação, uma vez que o que a disciplina propõe é que os alunos reflitam sobre o conteúdo e apresentem os seus próprios argumentos. O objetivo será preparar o aluno para a vida em sociedade levando-os a refletir sobre conceitos como igualdade, tolerância, respeito pela diferença e fornecer ferramentas para que os alunos compreendam o mundo do trabalho assim como as instituições e a participação na vida democrática, de modo a que possam ser cidadãos em pleno e terem um papel ativo e racional enquanto adultos.

Parece que por detrás desta movimentação está uma questão ideológica e doutrinária de Artur Mesquita Guimarães e da sua mulher – aquilo que acusam a escola e o Ministério da Educação de promover. Artur Mesquita Guimarães, em entrevistas anteriores, assume-se como conservador e é membro da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas. Estas lutas ideológicas de Artur não são de agora, uma vez que no passado já se mobilizara contra o ensino de educação sexual nas escolas, foi contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e contra a despenalização da morte assistida. O advogado que o apoiou juridicamente é o João Pacheco Amorim do Partido Pela Vida (PPV), partido que se pretende aliar ao Chega. Assim se compreende que o que está em causa é mais uma movimentação política do que um real interesse pela educação das crianças. Aliás, ao contrário do que fora veiculado, o Ministério da Educação está empenhado em resolver a situação sem prejuízo nem penalização para os alunos, como já explicou João Costa, Secretário de Estado Adjunto e da Educação.

Vivemos tempos conturbados de intolerância e de desrespeito para com os outros, de atropelos aos direitos humanos, de inação relativamente aos problemas ambientais e de sucessivas crises económicas e financeiras que aumentam as desigualdades sociais. Neste quadro, a disciplina de Educação para a Cidadania e Desenvolvimento, que visa a preparação dos jovens para uma intervenção informada na sociedade, através da reflexão, debate e exposição de ideias, revela-se da maior importância para a construção de uma realidade mais igualitária, justa, tolerante, ecológica, participativa e humanista. Assim, esta disciplina deve continuar obrigatória e a ser defendida por todos nós.

31 de Maio, 2016 Carlos Esperança

Pensando em meu pensamento

Os que no último domingo, apoiados pelos bispos, foram vociferar contra os cortes nos contratos com os colégios, junto à AR, são os mesmos que se manifestariam a favor dos cortes no Colégio Alemão, Colégio Valsassina, Liceu Francês ou Colégio Moderno, da família Soares, se porventura, qualquer deles, gozasse de tão obsceno privilégio.

E o que não se diria – e com razão –, do Colégio Moderno, fundado pelo grande pedagogo, Dr. João Soares!

30 de Maio, 2016 Carlos Esperança

Os bispos e a febre amarela

Não lhes bastava que a escola pública pagasse a propagação da fé católica a professores nomeados discricionariamente pelos bispos e pagos obrigatoriamente pelo Estado, ainda querem que as escolas confessionais sejam mantidas pelo Orçamento.

Os bispos perderam a cabeça e a compostura e deixaram cair a mitra. Na peregrinação das esmolas, em que marchavam amigos do peito e da hóstia, os bispos recolheram-se ao Paço, pousaram o báculo e mandaram arear o anelão e engomar a mitra, enquanto as crianças empunhavam cartazes.

Em frente à Assembleia da República, no dia seguinte ao 28 de maio, um pároco erguia um cartaz, «A escola do meu filho escolho eu», enquanto esperava quem lho segurasse. Uma criança exibia, ufana, outro cartaz, «Deixem o meu filho continuar a estudar na melhor Escola», sobrando-lhe em entusiasmo os anos que lhe faltavam para a paternidade.

Quem visse aquela chinfrineira pia, sem a imagem peregrina da Senhora de Fátima, sem andores, apenas com pendões amarelos, empunhados por mordomos com opas da mesma cor, havia de pensar que o ensino privado tinha sido proibido, os padre-nossos interditos e as Ave-Marias postas no índex.

Aquilo não foi uma manifestação de fé, foi uma epidemia de febre amarela, com erro de itinerário que levou os enfermos ao parlamento e os afastou do Instituto de Medicina Tropical.

Não se discute o direito à manifestação, está em causa uma doença infetocontagiosa.

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15 de Abril, 2016 Administrador

Reacção de Carlos Esperança na rádio Paivense FM

Carlos Esperança, Presidente da Direcção da AAP – Associação Ateísta Portuguesa, reage, na “Paivense FM”, ao atropelo à laicidade cometido numa escola pública de Castelo de Paiva. A AAP já questionou o Ministro da Educação sobre mais um episódio que põe em causa valores fundamentais da Constituição da República Portuguesa.

Clique para ouvir:

15 de Abril, 2016 Administrador

Carta ao Ministro da Educação.

Assunto: Atropelo à laicidade em escola de Castelo de Paiva.
 
Tiago Brandão Rodrigues
Ministro da Educação
Senhor Ministro,
A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) tomou conhecimento da passagem, por Castelo de Paiva, da «Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima» [sic] e da iniciativa da diretora do Agrupamento de Escolas de Castelo de Paiva (AECP), Maria Beatriz Moreira Rodrigues e Silva, que, a “convite do Reverendo Padre F. Sérgio”, solicitou aos encarregados de educação autorização para que os alunos se pudessem deslocar, ao largo do conde, entre as 10 e as 11 horas do dia 13 de abril, acompanhados de professores e funcionários, para participarem na receção à referida imagem, se possível, trazendo uma “camisola/t-shirt / casaco branco.” (Ver anexo)
 A AAP, considerando o atropelo grosseiro à laicidade e um desafio à separação Estado / Igrejas, constitucionalmente consagrado, na defesa da laicidade da escola pública, pede a V. Ex.ª se digne mandar esclarecer o seguinte:
a)      Se há alguma legitimidade ou utilidade na suspensão das aulas para participação de alunos do segundo e terceiro ciclos na cerimónia religiosa;
b)      Se aos alunos que eventualmente se recusaram a participar na referida cerimónia (difícil perante a militância pia da diretora) foram asseguradas aulas;
c)      Se as aulas sacrificadas pela devoção do órgão diretivo tiveram compensação;
d)      Se os alunos, professores e funcionários foram abrangidos por qualquer seguro e lhes foi facilitado transporte do Agrupamento até à Igreja Matriz e regresso, ou foram obrigados a deslocar-se a pé.
e)      Finalmente, se a laicidade da República Portuguesa, no caso da Escola Pública, é acautelada pelo Ministério da Educação e que providências serão tomadas para que outras escolas públicas não reincidam em semelhante prevaricação.
Aguardando a resposta que V. Ex.ª tiver por conveniente,
Apresentamos-lhe os nossos melhores cumprimentos,
Carlos Esperança,
Presidente da Direção.