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As dificuldades de César

O último artigo de João César das Neves (JCN), já referido pelo Carlos, merece reflexão.

Devemos deixar de lado as graçolas pueris típicas da argumentação católica, como por exemplo «recusar Deus é uma crença como as outras» (como se a careca fosse um penteado, ou a saúde fosse uma doença), ou ainda jogos de linguagem como «uma obra supõe um autor» e «uma lei implica um legislador». Um artigo de fundo pressupõe palavras ordenadas, mas, como se vê, não pressupõe rigor nem honestidade intelectual.

Confrontemos as três «dificuldades» do ateísmo alegadas pelo nosso inefável JCN.

A primeira «dificuldade» seria que «a resposta ateia tem de ser que o acaso de milhões de anos conduziu de uma explosão ao sorriso da minha filha». Acontece que, como já foi dito dezenas de vezes, «acaso» é um termo errado para a evolução do universo. Se eu largar uma pedra no ar, ela não cai «por acaso». Cai porque a massa atrai massa. E se eu soltar uma raposa num galinheiro, a extinção das galinhas não é um acaso. É a satisfação de um apetite. É por mera economia de expressão que chamamos «leis» às regularidades do universo que conseguimos compreender. Porque nenhum «legislador» previu o extermínio das galinhas, nem o sorriso da filha de JCN. Mas se as antepassadas desta não sorrissem, mais dificilmente teriam garantido o afecto paterno e, portanto, a sobrevivência do seu património genético. Mas adiante.

A segunda dificuldade seria que «meros átomos de carbono, aglomerados em aminoácidos e evoluindo pela selecção natural» não poderiam «gritar que salário digno é valor universal». O salto de lógica (uma das mais genuínas tradições teológicas) destina-se a baralhar os leitores. Os átomos de carbono aglomeraram-se há muito, e há muito que alguns desses aglomerados descobriram estratégias de sobrevivência e de defesa do seu bem-estar. Primeira: a reprodução sexuada. Segunda: a vida em sociedade. Terceira: coligações de interesses em cada sociedade (sindicatos, por exemplo). Não olhar para os passos intermédios só é útil para quem tudo quer confundir. A realidade é mais fascinante, complexa e rica do que a versão mesquinha e dogmática que os teólogos nos querem vender.

Mas JCN toca, a este propósito, num ponto importante: «todos os humanos sentem em si uma ânsia de justiça e verdade, um sentido de bem e mal». Eu creio que exagera: estou convencido de que existe, em qualquer população humana suficientemente grande, uma percentagem de psicopatas (quase todos do sexo masculino), que só observam as regras sociais (quando o fazem…) por puro cinismo. Todos os outros humanos terão algum equilíbrio entre o seu sentido ético inato e os instintos que os levam a transgredi-lo. Mas JCN engana-se se pensa que os «valores comuns» caíram do céu aos trambolhões. A «ética universal» pode ser em parte inata (não praticar vilolência gratuitamente), e em parte consequência necessária da dinâmica de grupo (expulsar do grupo quem pratica crimes, por exemplo).

Finalmente, a terceira dificuldade seria que «para o ateu este universo, sem origem nem orientação, também não tem propósito». Sinceramente, sempre me pareceu de uma enorme falta de verticalidade precisar de uma muleta divina para discernir o «bem» do «mal». Sim, o universo, em si, não tem propósito ético. E depois? Continuamos a poder decidir, à escala humana, qual é o propósito das nossas vidas. A indiferença do universo é apenas o cenário sobre o qual o fazemos.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

13 thoughts on “As dificuldades de César”
  • Cláudio Tereso

    A minha resposta ao artigo do JCN foi hoje publicada no DN.
    Podem lê-la aqui:
    http://claudiotereso.spaces.live.com/blog/cns!5363635879191176!1122.entry

  • Cláudio Tereso

    A minha resposta ao artigo do JCN foi hoje publicada no DN.
    Podem lê-la aqui:
    http://claudiotereso.spaces.live.com/blog/cns!5363635879191176!1122.entry

  • João Pedro Moura

    E QUEM CRIOU DEUS?

    1- Claro que essa é a pergunta fundamental para embaraçar os crédulos, que têm a petulância de afirmar deus e, acrescidamente, têm o desplante de afirmar que existe uma causa primeira para tudo e que essa causa “só pode ser deus”.
    Petulância intrinsecamente disparatada, pois que o mesmo raciocínio, que os leva a dizer que tem que haver uma causa primacial, não é aplicado, então, para a causa de deus.
    Silogismo:
    1ª premissa (maior) – Tudo o que existe tem uma causa.
    2ª premissa (menor) – Deus existe.
    Conclusão – Então, deus também teve uma causa.

    Não! Dizem os crédulos, porque não pode haver uma causa de deus, causa primacial.
    Então, se não pode haver uma causa de deus, o que os leva a afirmar que teve que haver uma causa primacial da matéria???!!! Aplicando o mesmo raciocínio divino, então, poderá também concluir-se que a matéria inicial não teve causa, é eterna.
    E esta até é a conclusão mais lógica, pois a matéria sabemos que existe; enquanto deus não é algo de minimamente evidente…

    2- Mais: os crédulos vêm sempre com a treta da “extraordinária obra do Universo” e de que a vida e o Universo, em geral, parece um “mecanismo de relojoaria” e que, como tal, não poderia haver um “relojoeiro cego”…
    Esquecem-se que à escala universal, a “relojoaria” faz-se e desfaz-se, ciclicamente, e que um determinado “equilíbrio” de sistema, por exemplo o nosso sistema solar, não irá durar eternamente…
    Aliás, essa suposta causa divina da não menos suposta perfeição universal só se vira contra os crédulos, pois o mesmo problema da “relojoaria” também se aplica ao tal deus: como é que um ser se criou ou se manifestou como omnipotente, omnipresente e omnisciente, cúmulo dos cúmulos da “relojoaria” universal, infinitamente superior a qualquer forma de vida ou de interacção material universal???!!!
    Eu achava melhor os crédulos deixarem de pensar em deus e nas religiões ridículas e grotescas e aterem-se à vida e aos seus problemas, matérias bem mais interessantes, necessárias e… palpáveis…

  • João Pedro Moura

    E QUEM CRIOU DEUS?

    1- Claro que essa é a pergunta fundamental para embaraçar os crédulos, que têm a petulância de afirmar deus e, acrescidamente, têm o desplante de afirmar que existe uma causa primeira para tudo e que essa causa “só pode ser deus”.
    Petulância intrinsecamente disparatada, pois que o mesmo raciocínio, que os leva a dizer que tem que haver uma causa primacial, não é aplicado, então, para a causa de deus.
    Silogismo:
    1ª premissa (maior) – Tudo o que existe tem uma causa.
    2ª premissa (menor) – Deus existe.
    Conclusão – Então, deus também teve uma causa.

    Não! Dizem os crédulos, porque não pode haver uma causa de deus, causa primacial.
    Então, se não pode haver uma causa de deus, o que os leva a afirmar que teve que haver uma causa primacial da matéria???!!! Aplicando o mesmo raciocínio divino, então, poderá também concluir-se que a matéria inicial não teve causa, é eterna.
    E esta até é a conclusão mais lógica, pois a matéria sabemos que existe; enquanto deus não é algo de minimamente evidente…

    2- Mais: os crédulos vêm sempre com a treta da “extraordinária obra do Universo” e de que a vida e o Universo, em geral, parece um “mecanismo de relojoaria” e que, como tal, não poderia haver um “relojoeiro cego”…
    Esquecem-se que à escala universal, a “relojoaria” faz-se e desfaz-se, ciclicamente, e que um determinado “equilíbrio” de sistema, por exemplo o nosso sistema solar, não irá durar eternamente…
    Aliás, essa suposta causa divina da não menos suposta perfeição universal só se vira contra os crédulos, pois o mesmo problema da “relojoaria” também se aplica ao tal deus: como é que um ser se criou ou se manifestou como omnipotente, omnipresente e omnisciente, cúmulo dos cúmulos da “relojoaria” universal, infinitamente superior a qualquer forma de vida ou de interacção material universal???!!!
    Eu achava melhor os crédulos deixarem de pensar em deus e nas religiões ridículas e grotescas e aterem-se à vida e aos seus problemas, matérias bem mais interessantes, necessárias e… palpáveis…

  • Bodepreto

    Vitória da razão e da justiça sobre a religião, parabéns Brasil!

    http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u406855.shtml

  • Bodepreto

    Vitória da razão e da justiça sobre a religião, parabéns Brasil!

    http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u406855.shtml

  • Ateu comunista bolivariano

    JCN dando tiro no pé

  • Ateu comunista bolivariano

    JCN dando tiro no pé

  • João Pedro Moura

    Aliás, se o abominável César das Neves afirma que «recusar Deus é uma crença como as outras», é caso para lhe perguntar, então, o que é que ele critica na “crença” ateísmo, que não critica na crença “catolicismo”?!

  • João Pedro Moura

    Aliás, se o abominável César das Neves afirma que «recusar Deus é uma crença como as outras», é caso para lhe perguntar, então, o que é que ele critica na “crença” ateísmo, que não critica na crença “catolicismo”?!

  • Ateu comunista bolivariano
  • Ateu comunista bolivariano

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