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Perdido na tradução.

O Alfredo Dinis traduziu assim uma afirmação de Dawkins, num debate com Dennett:

«Não é apenas a nossa improbabilidade que nos torna agradecidos por [estarmos] aqui, porque de facto somos muito improváveis. Somos também privilegiados não apenas por estarmos aqui mas também por pertencermos à espécie humana, porque a espécie humana é realmente única: entre todos os animais somos os únicos a saber que vamos morrer. Mas somos também únicos por sabermos que vale a pena existirmos. É claro que é difícil lidar com o sofrimento e a perda, mas há alguma consolação em sabermos o quão privilegiados nós somos por estarmos aqui.»

Em seguida, critica-a «porque afirma que nos devemos sentir agradecidos, mas não diz a quem.»(1) É um erro, mas é um erro proveitoso porque revela uma diferença importante entre a atitude de crentes como o Alfredo e descrentes como Dawkins.

A palavra original é thankful, que o Alfredo traduz por agradecido. Noutro contexto, a tradução estaria correcta. Por exemplo, estar thankful to é estar grato a alguém. Mas thankful for pode ter um significado diferente. Se alguém diz estar thankful for the rain, por exemplo, o mais correcto seria traduzir como estando satisfeito, ou contente, por ter chovido. Precisamente porque, neste uso, thankful não implica estar grato a alguém.

A etimologia destas palavras ajuda a perceber a distinção. Enquanto “grato” e “agradecido” vêm de “graça”, o que alguém dá sem cobrar, e referem não só o contentamento de quem se sente grato mas também a relação de gratidão que tem com o outro, “thank” vem da mesma raiz de “think” e “thought”, e refere o sentir-se afortunado por algo que aconteceu sem implicar forçosamente uma relação de gratidão para com alguém.

Um factor que pode ter contribuído para este erro é a crença religiosa do Alfredo. Em geral, uma religião de sucesso precisa de convencer os seguidores de que estão em dívida para com aquele deus e, vicariantemente, para com os seus alegados representantes. Que estamos aqui pela graça de Jahvé, Allah, Odin, Enki ou que raio seja (2). Partindo deste princípio, dificilmente ocorreria ao Alfredo que se pudesse estar thankful for qualquer coisa sem estar também grato a alguém que o tenha feito. No entanto, para um ateu isto não faz confusão nenhuma. O que deixa os ateus perplexos é o raciocínio pelo qual os crentes concluem que quem gosta de saber como a realidade é se transforma numa máquina sem sentimentos, como o Alfredo descreve em seguida:

«Mesmo o sentimento de maravilha do cientista perante a beleza do universo se baseia no sabermos cientificamente porque estamos aqui. Há uma desdramatização total da vida humana. Fico sem saber se ao encontrar uma pessoa em grande sofrimento por ter [perdido] um ente querido, por exemplo, a deverei aconselhar a procurar consolação junto de um biólogo, o qual lhe explicará a razão científica da existência, do sofrimento e da morte.»

É perfeitamente possível ter valores e sentimentos e, ao mesmo tempo, admitir que o universo surgiu por processos naturais desprovidos de propósito. Podemos sentirmo-nos afortunados pela nossa existência e encontrar consolo no que somos e com quem vivemos sem assumir que tudo acontece pela vontade de um homem invisível no céu. Não é preciso iludirmo-nos com histórias de milagres e de vida eterna para enfrentar o que a vida tem de mau e gozar o que tem de bom. Isto parece-me tão evidente que, até ver este erro de tradução do Alfredo, nunca tinha percebido porque é que os crentes julgam que dar valor ao que a natureza objectivamente nos diz – que não há deuses – empobrece a nossa vida.

Agora percebo. O foco central dos valores do crente é a gratidão para com aquele que julgam ter criado isto tudo. As coisas não valem pelo que são nem pelo bem que fazem. Valem porque são uma graça do criador. Para quem vê o mundo desta maneira, concluir que não há deuses não só exige que torça o que pensa dos factos mas também que faça tábua rasa dos seus valores. É por isso que lhes custa perceber como quem não crê num deus possa ter valores. E é por isso que não lhes ocorre como alguém possa estar thankful for sem estar também thankful to.

1- Alfredo Dinis, Dawkins sobre o sentido da vida
2- Tangencialmente a propósito, Sumerians Look On In Confusion As God Creates World

Em simultâneo no Que Treta!

8 thoughts on “Perdido na tradução.”
  • Huna

    Também é fato que tanto ateus quanto crentes não se apercebem que uma frase como: — O ESPAÇO tende à ordem — não implica querer dizer que um ordenamento derivando de condições, princípios, etc, lógico-espaciais tenha que ter um “propósito”. Nem mesmo nossa vida tem de ter um propósito; se bem que nós podemos independentemente de crença alguma colorí-la com um por simples romance ao agrado de cada um. O meu é que podemos convencer as igrejas a recuarem de suas pretensões de nos submeter  e t e r n a m e n t e  como escravos-submissos-pedintes e se desfaçam sem precisarmos dissolvê-las com competência devida (e inadiável).

  • antoniofernando

     “… nunca tinha percebido porque é que os crentes julgam que dar valor ao
    que a natureza objectivamente nos diz – que não há deuses – empobrece a
    nossa vida”

    Ludwig Krippahl

    A título excepcional, apeteceu-me comentar este texto de Ludwig Krippahl. Circunscrevo-me, porém, à frase acima citada para, esquematicamente, lhe dizer o seguinte:

    1º- Sou crente em Deus;
    2º- A natureza não nos diz objectivamente nada. Cada um de nós é que extrairá, científica ou filosoficamente,as lições que considerar lógica ou sentimentalmente aceitáveis, incluindo analisando ou contemplando a natureza.
    3º- O Ludwig é livre de entender que a natureza lhe diz seja o que for, mas não queira universalizar a todos os demais indivíduos as suas próprias conclusões
    4º- Faço a justiça de reconhecer que o ateu Ludwig tem um pensamento bem estruturado e espero que o Ludwig, para fazer jus à sua própria inteligência, seja capaz de entender que, quer no mundo dos ateus,como no mundividência dos crentes, cada indivíduo é uma pessoa singular e autónoma.
    5º- Não penso que descrer em Deus empobreça a vida de quem não acredita. Cada um sabe de si. Se Ludwig Krippahl convive bem com o facto de o Universo evoluir sem propósito, que essa visão lhe faça muito bom proveito.

  • JorgeCL

    O estrangeiro que escreve este tópico  é maluco ou cómico?

    Bom de saúde não é de certeza,
    Ele só pode estar a brincar com as afirmações infantis que faz. A mistura entre etimologista latina e a das línguas germânicas, comparando uma língua novilatina com expressões anglófonas, não passaria pela cabeça de nenhum cónico analfabeto, se fosse para falar a sério. 
    “Gratia” significa em latim “favor” ou “mercê”, “boa-vontade”, “estima”, “crédito”. 
    Satisfeito, sente sentido (porque também pode ser no sentido de “realizado”, “cumprido”, “terminado com sucesso”) radica no latim em  contentus; “con” (“juntos”) tensus – “contido em “originado por”. Quer no primeiro (graça) quer no segundo caso (satisfeito) a acção exige um sujeito determinante, causa ou origem do facto.. 

    A menos que satisfeito fosse no sentido “hilarus” (divertir) ou de “gaudium” (gozar). Mas, não aplica aqui, pois neste caso pressuponha-se a intervenção directa do sujeito no acção; o prazer, a sensação de…

    É claro que o sr. estrangeiro confunde agradecimento (gratias habere) com gratuita (gratuitas, do Latim Medieval).

    No caso do Inglês ainda fica pior.
     Por mais voltas que dê à questão, o radical “thank” tem sempre na sua génese etimológica a “gratidão”, o “reconhecimento”, a “agnição de um benefício ou graça”.

    Daqui advém que o Sr. Alfredo tem a razão do seu lado. O Sr. estrangeiro, para além do cómico discorrimento, tem, um certo jeito para jogar com as palavras e com isso enrolar os leitores. 
    Quantos não acharão  que ele tem razão e sabe o que diz?
    Esse é o mal de Portugal e de uma boa parte do mundo. 

  • Ludwig

    JorgeCL

    http://www.merriam-webster.com/dictionary/thankful

    «Definition of THANKFUL1: conscious of benefit received  2: expressive of thanks  3: well pleased : glad »

    http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=agradecido

    «agradecido adj.1. Grato, reconhecido.2. Expressão de agradecimento. = OBRIGADO»

  • Ludwig

    Fernando,

    « A natureza não nos diz objectivamente nada.»

    Não é verdade. Mais do que isso, nem sequer é algo que tu acredites ser verdade. Por exemplo, imagina que uma pessoa acredita que o Pai Natal existe enquanto outra acredita que o Pai Natal é um personagem fictício. Consideras que essa dissensão é meramente subjectiva, como um gostar de chocolate e outro de baunilha, ou parece-te que há algum fundamento objectivo para dizer que um tem razão e outro não?

    Se honestamente julgas que a natureza não diz nada de objectivo então nem sequer faz sentido estares aqui a expressar que discordas de mim, ou a tentar explicar porquê. Porque, se fosse assim, seria como ir a um fórum de apreciadores de chocolate tentar explicar porque é que baunilha é melhor. Não me parece que perdesses tempo com isso.

    A tese de que a natureza não nos diz nada objectivamente não só é obviamente falsa como a sua defesa acaba por ser, inevitavelmente, hipócrita…

  • José Gonçalves

    Eu,um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velhote(88anos),digo que não entendo nada de inglês e de latim também não,embora saiba que o Português é de origem latina,ainda que tenha centenas de palavras de origem árabe.Quanto à existência de Deus,pois direi que admito em meu pensamento que haja quem creia nela,mas o que não posso admitir em meu pensamento é que haja alguém que se atreva a definir Deus e pior um pouco,a dizer que falou com êle(Moisés) e dêle recebeu as Tábuas da Lei que são os Dez Mandamentos dos biblico-judaico-cristãos.Pois se a Igreja ensina que Deus é um Ser invisível e que tem todos os seus predicados num grau infinito,não pode sentir necessidade seja do que fôr.Então porque criou o Mundo e depois,mesmo sem ter mãos,
    porque é um Espírito,dum bocado de barro,fez Adão e duma costela dêste fez Eva?!  
    Depois de os colocar no Paraíso Terreal,proibíu-os de comer o fruto da árvore da ciência do Bem e do Mal,sabendo antecipadamente que Eva e Aão tentados pelo Diabo,não
    cumpririam a sua ordem e que os expulsaria do Paraíso Terreal.E se Deus é o único Criador,como ensina a Igreja,também foi êle que criou o Diabo e o Inferno,o que afinal é a negação da sua infinita perfeição.Passado séculos ou milénios,êste Deus biblico-judaico-cristão,ainda irado pelo pecado original,exigiu que seu «filho»viesse ao Mundo para sofrer e morrer para remir êsse pecado a apaziguar a ira divina de seu «pai».Então eu pergunto:
    _Que Deus é êsse assim tão mau/tão cruel,tirano e sanguinário/que se porta pior que um marau/e mata o «filho» no Calvário??!! Para terminar,direi que um Deus dêste calibre,só pode ter sido criado pelo Homem à sua imagem e semelhança e a respectiva Religião segundo os seus interêsses.

  • Hunagbor

    O “deus” está difícil de aceitar o “adeus”. Nenhum deus é eterno, tanto é que se não der a ele sua oração ele fica entregue às traças; e defina sem ter como dar correntes aos seus “seguranças” (que zanzam à custa da vagabundice fácil das crenças) para nos aprisionarem e nos parasitar.

  • A.Porto

    Ateus criticando a tradução de um simples palestrante?
    Justo vocês, que são feras na tradução da bíblia.

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